sankhodi

não fazendo parte desta viagem, lembrei-me no entanto dum texto que escrevi quando estava na índia, aquando da minha estadia na primeira escola onde fiz voluntariado. retrata bem o que se sente, quando a intenção não é só chegar e partir, mas entranhar o que se vê e ficar.

depois de muito se caminhar por estradas que não levam a lado algum,
chegamos a sankhodi, vila rodeada por montanhas e por buracos onde outrora existiram elevadores para levar homens ao fundo da terra. pelos caminhos encontram-se pessoas que têm vida de cães e cães que vivem como pessoas e a certa altura nem sabemos quem vemos pois é tanta a miséria. tudo é escuro e triste e sentimos que nos espreitam por janelas sem vidros, por entre barras de ferro que os separam do mundo, sentados sobre si próprios com as mãos cobrindo os cabelos que caem oleosos pelas costas abaixo, rostos apagados que não sabem sequer se existem. rios de lixo misturam-se com lagos barrentos onde vemos lavar búfalos negros e crianças ranhosas, na mesma água onde a espuma da roupa e dos cabelos acabados de lavar boiá à espera que outras roupas e outros cabelos a usem. não sabem ler nem escrever, mas também de nada serviria, na terra nada se lê e do vazio dos dias nada se escreve. olhamos em volta e sabemos que depois disto outra sankhodi se repete e que nem a chuva nem o vento dará nada a esta terra que nada tem para dar. ficamos por um dia e outro ainda e quando notamos, vinte dias se passaram e ainda ali estamos, repetindo-nos a cada momento e a cada instante, e acabamos por notar que os gestos, as palavras, os olhares, os movimentos, a forma como se respira e como se lamenta os dias de tédio, também eles se repetem. então sabemos que queremos sair dali e no mesmo segundo sabemos que iremos lá voltar, pois até nos pensamentos nos repetimos. então no meio da solidão, vemos os olhos mais bonitos que alguma vez vimos, focados em lugar algum, esperando por mais um dia que virá, por mais uma dia que virá, por mais um dia que virá, por mais um dia que virá...


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