foz côa - 109 - palaçoulo

o dia apresentava-se bom. estava sol, embora fresco, e os – supostamente – 70km até palaçoulo, seriam feitos num ápice! estávamos cheios de força, embora um pouco preocupados – ainda – com o meu joelho. no entanto, à saída de foz côa, notei que ia ser uma luta pacífica, pois havia encontrado maneira de enganar o devido e por isso não lhe ia dar muitas hipóteses de me fazer “ganir” nem mais uma vez! depois do supermercado para as compras do dia inteiro, a primeira paragem longa aconteceu logo 100 metros à frente, quando decidimos tomar o pequeno almoço ao lado duma pequena capela, com uma vista incrível sobre o vale do côa. 15 minutos depois, estávamos nós a descer a alta velocidade estrada abaixo, nuns quase 10km perfeitos, com uma vista extraordinária e, para acabar em bem, 4km de recta com o douro mesmo ao lado! a primeira subida surpreendeu-nos à direita e a placa dizia torre de moncorvo. o sol queimava e numa subida, o sol é o pior inimigo. pedalávamos devagar, para não nos estourarmos logo ao início e lá em cima víamos os carros que ainda há pouco haviam passado por nós. olhando um para o outro, era fácil ler o pensamento: é ali que vamos passar… - e logo todas as asneiras que sabíamos passavam em rodapé na nossa mente. entre pedalar e levar as bicicletas à mão, a coisa demorou-nos um bom bocado. estávamos cansados do dia anterior e a promessa feita um ao outro de que não andaríamos a “papar” quilómetros, não estava a ser cumprida. era aos 60 e 70 de cada vez. as costas davam sinal de cansaço, os pulsos, as pernas. a tanya, com toda a especialidade que tem em adquirir nódoas negras atrás de nódoas negras, distribuídas ao pormenor pelas pernas, já acumulava uma série delas na zona dos gémeos, sem que eu nunca percebesse como é que conseguia fazer aquilo. como o pão que tínhamos para o almoço tinha ido todo de manhã aquando na paragem na capela, andámos à procura de mais pelas aldeias onde íamos passando. a seguir a torre de moncorvo, vimos à beira da estrada uma grande placa que dizia: padaria miguel. era mesmo isto! além de entrar e não terem pão, não me encheram as garrafas com água e quando a tanya perguntou se podia usar a casa-de-banho, negaram-lhe o pedido. mesmo muito má onda. além disto, à saída e a julgar pela quantidade de cães de raças ditas perigosas que tinham num canil e a julgar pelos apetrechos pendurados no mesmo, que me pareceram para treino dos bichos, fiquei desconfiado que um dos meninos da padaria miguel ande metido na luta de cães (quem de direito que por favor investigue).

mais à frente, em carviçais, descobrimos uma padaria metida debaixo duma casa que, depois de batermos à porta, fomos atendidos por uma velhinha tão velhinha, mas tão simpática que, depois de nos ter dado o pão que estava mesmo a sair do forno, ainda levou a tanya à casa-de-banho! após 3h30 sentados no selim, decidimos parar no meio dum misto entre pasto e pinhal e tirar cá para fora o pão que trazíamos, o queijo e, pequeno luxo, as salsichas vegetarianas que tínhamos comprado! o almoço soube a cachorro-quente vegetariano – claro – sem as batatas fritas, os molhos e as coisas aquecidas! quase igual! tínhamos feito pouco mais de 40km. desde o início que combinámos fazer a maior parte da etapa de manhã para, depois de almoçar, a coisa se tornar mais calma, já que também íamos com a barriga mais cheia. quando arrancámos, fomos logo surpreendidos por uma placa que dizia: miranda do douro – 98km. como? 98km? não pode ser, ainda no dia anterior tinha estado a ver na internet à pala que apanhava nas camaratas dos bombeiros e hoje, depois de já termos feito 40, apareceu aquela placa? não, deveria estar errada. a aldeia de palaçoulo, conhecida pelas suas navalhas, ficava mais ou menos 20km antes. pelas contas que rapidamente fazia na minha cabeça, não queria acreditar. só queria que tudo estivesse errado. ou a placa, ou o sítio da aldeia ou então tudo mesmo. mais à frente, uma outra dizia: mogadouro – 31km. estava mesmo certa, para infelicidade nossa. isto queria dizer que…não, nem vale a pena pensar. daí para a frente, quebrámos a promessa de que não iríamos “papar” quilómetros. foi sempre a andar. a chuva chegou aos poucos, as montanhas íngremes iam dando lugar a outras menos elevadas. a estrada fazia-se melhor, mas as dores em todo o lado faziam-nos desesperar. após muitas paragens, tivemos a nossa primeira pequeníssima discussão. eu tenho, não sei como e não sei justificar o porquê, muito mais resistência que a tanya. mesmo quando já estou a dar as últimas, consigo arranjar forças lá dentro para continuar. a tanya tem que parar muito mais vezes, é mais lenta, bebe muito mais água. se calhar, ela é que está certa, não sei nem me vou pôr para aqui a divagar sobre isso, o que é verdade, é que com o cansaço, a vontade de acabar e ainda por cima o facto do tempo estar a ficar mau e cada vez mais escuro, faz com que por vezes percamos a cabeça e digamos coisas sem sentido e que, um minuto depois, nos estejamos a desculpar. esta é, mais do que tudo, uma viagem para nos conhecermos melhor também, uma viagem de adaptação, uma viagem em que colocamos, sem querer, os nossos corpos ao limite e, logicamente, a relação. é uma aprendizagem e como aprendizagem que é, erra-se. temos dito. muito mais è frente, fiz sinal a um carro para parar e perguntei em que direcção ficava sendim, de onde fiquei de telefonar à pessoa que nos iria hospedar nessa noite. a resposta não poderia ser mais desmotivadora: 25km…ainda? a tanya, lá atrás perguntava-me quanto faltava e eu não lhe queria dizer mas, de tanto insistir, acabei por atirar o número ao ar. não sei onde foi buscar tantas forças, talvez do desespero, o que é facto é que nunca mais parou até chegar a sendim! eu até me ria! 1h30 depois, a placa de sendim dava-nos as boas vindas. telefonamos ao sr. alonso e este deu-nos as últimas indicações, que estava em miranda do douro mas que arrancava já para lá, que fossemos pedalando. entrámos pelo meio de uns campos de cultivo a perder de vista, o vento estava gelado e desejávamos batatas fritas. desconfiei até que estivéssemos ambos grávidos, tal era o desejo! entrámos num café numa pequeníssima aldeia e deliciámo-nos com um pacote de lays! que bom! a chuva começou de novo a cair e não arrancámos sem antes trocarmos umas palavras com uma senhora que tinha tanto de velho como de engraçada e que queria saber se íamos para alguma festa com aquilo tudo às costas, despedindo-se a dizer: assim é que é, exercício – e a rir-se às gargalhadas! no caminho para palaçoulo, encontrámos então o sr. alonso, com a andrea e o ivo, os filhos que conhecemos bem. já em casa, a dona maria da luz, a mãe recebia-nos com um grande sorriso. tínhamos feito 109km. estávamos, com certeza, senis. antes do banho, tivemos ainda tempo para uma sopa de legumes a escaldar que nos aqueceu por dentro e, depois dele, um jantar que nos soube maravilhosamente bem! saímos para tomar um cafezito e, regressados a casa, enquanto a tanya actualizava o blog dela, nós, na cozinha, em frente à lareira, púnhamos a conversa em dia! deitámo-nos numa cama super confortável, já passava da 1h e não me lembro de termos adormecido!


1 comentário:

Troca Letras disse...

Eu normalmente viajo sozinho, um dos grandes motivos é que cada pessoa tem o seu ritmo, outro é porque adoro fotografia e muitas vezes paro para montar o tripé para fotografar o que não é bom para os meus companheiros de viagem.

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