é difícil sair da polónia...

viajamos pela 2ª vez de comboio desde que estamos em viagem, mas não como da primeira, em que levamos as bicicletas dentro. desta vez deixamo-las em casa do radek e da monika em wroclaw, onde voltaríamos uns dias depois para seguir para a república checa. como cracóvia ficava completamente fora da rota que pensamos para estes países, mas era uma cidade que adorávamos visitar, decidimos apanhar uma seca de quase 5 horas e chegar à cidade por outro meio. a paisagem até lá é monótona e os bancos do comboio muito incómodos.

a estação fica a poucos metros do centro histórico e a casa onde ficaríamos, mesmo ali ao lado! o kuba aceitou o nosso pedido de alojamento, assim como o de mais 9 pessoas! a contar com os 5 que já lá viviam, éramos 16 na casa, a dormir em 3 compartimentos! surreal! como a romy – uma australiana que lá caiu – disse: é uma espécie de hostel, mas sem a empregada de li
mpeza! a casa era um bordel, tudo estava virado do avesso, a cozinha uma desarrumação, o quarto uma confusão! Fora isso, as pessoas que lá estavam era espectaculares: quatro espanholas, um alemão, um belga, uma australiana, dois canadianos, cinco polacos e, claro está, dois portugueses! a cidade em si é imponente, o seu centro histórico guarda pérolas que, felizmente, sobreviveram à 2ª guerra mundial, assim como toda a cidade, ao contrário de varsóvia e wroclaw, que foram destruídas em mais de 80%. não admira então que a cidade tenha sido classificada como património mundial pela unesco. no entanto, não foi isso que nos fez gostar mais de lá estar. as companhia das pessoas com quem estávamos, tornou-se mais interessante. rodeados de tanta nacionalidade, o ambiente só podia ser de festa, com conversas paralelas, com algum álcool – não para o nosso lado! – histórias mirabolantes e contactos trocados! percorremos as ruas repletas de turistas, visitámos o castelo e a catedral, o mercado central, o bairro judeu, comemos zapiekankas (hum…), gelados atrás de gelados e divertimo-nos o mais que podemos! duas noites em cracóvia foram suficientes e o saldo foi positivo! no dia seguinte, seguiríamos no autocarro para os antigos campos de concentração de auschwitz-birkenau. estávamos ansiosos e sabíamos que iria ser duro, mas tínhamos que ir.

à entrada em auschwitz, a frase em ferro forjado diz arbeit macht frei – o trabalho traz liberdade. o que vemos depois, não nos choca muito, pois o antigo campo agora é um museu e tudo está cuidado. edifícios alinham-se atrás de edifícios, relva a toda a volta e só a visão repentina do arame farpado e das torres de vigia, nos faz lembrar o que aquilo foi. no entanto, é quando se entra nestes edifícios e se lê, vê e sente a história passada que a raiva, a mágoa e as questões começam a surgir. é impressionante. caminhar até birkenau, naquela que era chamada a marcha da morte, custa. são 3km ao sol e vamos vendo aparecer aos poucos, ao longe, as torres de vigia e os carris que outrora levavam as pessoas para dentro do campo. dum lado, as mulheres e crianças, do outro os homens. quem fosse apto para trabalhar, sobrevivia mais uns dias, quem não fosse, seguia imediatamente para as câmaras de gás e posteriormente para os crematórios. as barracas onde viviam, fossem elas de madeira ou tijolo, metiam dó. o campo é gigante e conseguimos perceber o que era quando tudo ainda não havia sido destruído, arrepia. das barracas de madeira, só uma fila resta com as camas de madeira e as latrinas. depois, o que se vê, são chaminés ao alto, às centenas, quais sobreviventes duma morte anunciada. engolimos em seco. as palavras saem-nos a custo. é duro de ver e por muito que tentemos, nunca conseguiremos imaginar o que foi. nunca.




o lucasz, um polaco que já esteve em nossa casa, veio buscar-nos de carro e levou-nos até sua casa, onde ficaríamos nessa noite e onde a esposa tinha preparado uma refeição óptima que incluía flores comestíveis! foi uma experiência engraçada, comer as pétalas amarelas! depois de uma caminhada pela montanha para ver a cidade lá de cima – que não chegámos a avistar! – deitamo-nos e dormimos que nem anjinhos, tamanho era o cansaço!
o sol levantou-se cedo, mas deixamo-nos ficar mais um pouco! sabia bem estar no meio de todo aquele silêncio! depois de um pequeno-almoço delicioso, a cacha levou-nos de carro até à cidade mais próxima onde apanharíamos o comboio para wroclaw, onde dormiríamos mais uma noite e de onde partiríamos para a república checa!

o resto do dia e princípio da noite foram passados na companhia do radek e da monika, claro está, e de alguns amigos seus, bebendo e rindo num dos muitos bares espalhados por esta cidade. voltar a casa e saber que seria a última noite, foi complicado. eles são fantásticos e têm uma cadela, a mella, da qual foi complicado dizer ad
eus no dia seguinte, quando se deitava à entrada de casa e nos olhava de lado, com aquele focinho triste. custou. fez-nos lembrar muito os nossos cães e por essa mesma razão, a despedida foi demorada. pedalamos até ao centro da cidade onde o casal maravilha nos esperava e recebia com pierogis doces, que saboreámos até estarmos saciados! depois, pedalaram connosco os últimos quilómetros e levaram-nos à saída da cidade. a partir dali seria sempre em frente, nada que enganar. últimas fotos, últimos abraços, últimos agradecimentos e viramos costas. há despedidas que são complicadas e esta foi uma delas, sem qualquer dúvida. queremos vê-los rapidamente em portugal, no entanto a monika tem de deixar crescer o cabelo (private joke!) e ainda vai demorar…

o próximo destino, contacto deles, claro, era uma pequena aldeia com 60 habit
antes, perdida no meio dos montes, chamada nowina. sabíamos que o que nos esperava era algo diferente do que até aí tínhamos apanhado e por isso estávamos ansiosos de chegar! depois de perguntarmos a várias pessoas o caminho e no fim não termos percebido nenhuma palavra, chegamos finalmente ao pequeno paraíso! quando dizemos paraíso, queremos dizer que esta casa, habitada por uma espécie de quarentão-hippie-agricultor-ecologista-grande-anfitrião-peace-and-love-guy, era fantástica! cavalos, cabras, cães, ratos, gatos, cozinha ao ar livre, frigorífico para quê, teias de aranha, panquecas, amigos que chegam para conversar e ficam a dormir, pequeno-almoço com sabor selvagem, sauna artesanal, fogueira montada e um autocarro dos anos 60 que servirá, num futuro muito próximo, para pequenos concertos, camas por todo o lado, para albergar quem chegue e, seja bem vindo quem vier por bem – é o lema! o jurek, o dono da casa não estava, mas um bilhete esperava-nos à porta e dizia: olá amigos de portugal, eu não estou, mas a casa está aberta! lá de dentro, saía uma voz e decidimos bater. um rapaz espreita e diz-nos num português-abrasileirado quase perfeito: vão por aquele lado. eu falo um pouco o português! o kuba tem pouco mais de 20 anos e não tem nenhum ar de polaco. aprendeu português porque praticava capoeira e por isso passamos dois dias a falar com ele na nossa língua! ajudava o jurek na casa, com tudo o que tinha de ser tratado, além de trabalhar na empresa dos pais deste, uma espécie de horto. os momentos passados ali foram fantásticos! a beber leite tirado na hora das vacas ou das cabaras, a ver o cavalos, a conversar e a dormir no nosso quarto, numa cama onde não existia nenhum colchão, mas sim palha e uma manta por cima! perfeito! outro sítio ao qual temos obrigatoriamente que voltar! "ou vocês, ou amigos vossos” – disse-nos na despedida o jurek! fotografias para um lado, brindes com panquecas para o outro e mais um sítio complicado de sair. na polónia torna-se difícil dizer adeus…

a última terra, antes da fronteira, era boboszow, um contacto do jurek – amigos aconselham amigos! à chegada ao sítio onde a filha morava com o namorado e os pais e irmãos do namorado, encontramos uma quinta a perder de vista, cavalos, porcos pretos, patos, cães e tudo, mas tudo muito desarruma
do! era um festival! pessoas que chegavam, outras que partiam, roupas todas atiradas, a cozinha num estado caótico…enfim, o paraíso, mas desarrumado! montamos a tenda, tomamos um banhito e jantamos. ninguém falava connosco, pois ninguém falava inglês e isso foi estranho. as poucas palavras trocadas, serviram para pedirmos para tomar banho, dizer no dia seguinte que sim, que tínhamos vindo desde portugal de bicicleta e obrigado e adeus. nada mais. porém, a sensação de acordarmos no dia seguinte com um cavalo a comer ao nosso lado, abrirmos a tenda e vermos três que se passeavam mesmo ali e fazermos festas a uma porca preta logo a seguir, que se comportava como um cão, foi espectacular! depois do pequeno-almoço tomado, há que pegar nas bicicletas e desaparecer no meio de todas aquelas montanhas repletas de natureza brutalmente verde! a república checa estava ali, a 3 quilómetros apenas!

3 comentários:

MagikPoiZion disse...

ohhhh adorei a porca preta!!

Carina Silva disse...

Vou-vos mitrar todos esses locais fantásticos para o ano ;)hehe
Tenho muitas saudades vossas maluquitos, mas ler o vossos posts e sobretudo ver os vossos sorrisos faz-me sentir que não poderiam estar melhor do que aí.

Aguardo um abraço vosso com ansiedade...

Alex disse...

Hajo Mayor, sobrevivente de Auschwitz: “Identifico-me sem dificuldade com a juventude palestiniana”
http://primeiralinha.org/home/?p=3668


E já pensaram passar por lá pela Palestina? Aí sim podiam ver campos de concentração e guetos ainda em actividade...

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