chá chá chá

viajamos da bulgária para a turquia sabendo que, pela frente, tínhamos uma longa e chata estrada que nos levaria até istambul, durante mais de 250km. saberíamos também que em todo este percurso, não teríamos nenhum sitio onde dormir e por isso teríamos de encontra-lo, perguntando em qualquer lugar por uma cama quentinha ou, na mais possível das hipóteses, montar a tenda em qualquer lado!

assim foi, saímos de hermanli naquele que julgávamos ser o dia 5 de outubro e somente uns 10 dias a seguir, tomamos consciência de que entramos na turquia não nesse dia, mas no dia 7...coisas de quando se anda a viajar! os últimos quilómetros na bulgária foram uma autêntica seca, assim como os imensos na turquia. nos postos fronteiriços entre os dois países, tudo estava a correr bem e mandavam-nos pedalar, sempre sem parar e dizia a tanya: "isto está a correr bem de mais..." - até chegar à zona em que nos disseram: "agora vão à cabine 92 para tirar os vistos" - não sabíamos que precisávamos de vistos, mas sim, tínhamos que pagar, disseram-nos, 30 euritos pelos 2. nenhum problema, não fosse o facto de já não lidarmos com euros há já alguns países e por essa mesma razão, não os termos! - "e que fazemos agora? não temos euros e estamos entre a turquia e a bulgária...como fazemos?" - a resposta nao se fez esperar: "pois, não sabemos. talvez tenham de voltar à bulgária e tentar arranjar algures. há uma cidade a pouco mais de 5km..." - como se 5km de carro fosse o mesmo que de bicicleta e entrar na bulgária, ir para trás, arranjar euros...mas onde? e lá fomos nós para trás outra vez e tentar persuadir uma loja na fronteira a deixar-nos fazer um pagamento e a darem-nos o dinheiro necessário! tarefa conseguida! voltamos à turquia, não sem antes os policias búlgaros, sempre simpáticos, nos perguntarem se estavamos doidos, por já ali termos passado antes, sempre com uma gargalhada pronta a sair!

pagamento feito: "welcome to turkey!" uma enorme mesquita recebia-nos como que nos dizendo que a religião ali, era outra, mesmo sabendo que a turquia é um país laico. a seguir a isto e até à primeira cidade, muitos foram os acenos feitos, os sorrisos trocados, as palavras de incentivo, mostrando mais uma vez que este país, à semelhança da maior parte com maioria islâmica, é um país simpático e hospitaleiro! edirne acolheu-nos com duas grandes mesquitas na paisagem, com os seus altos e imponentes minaretes e ruas muito bonitas, com brilhantes bazares e muitas lojas. as pessoas continuavam simpáticas e a chamar-nos para as normais perguntas da praxe! de onde vínhamos, para onde íamos, há quanto tempo, se éramos malucos e não sabíamos o que era um avião...entre outras! passeamo-nos por esta cidade e à medida que as suas ruas se desfaziam debaixo dos nossos pés, crescia uma vontade imensa de ficar, tentativa feita um pouco mais tarde, porém sem qualquer sucesso. os preços nos hotéis eram praticáveis, mas decidimos para connosco mesmos, chegar a istambul gastando o mínimo possível, por isso estavam fora de questão. conhecemos ainda uma senhora inglesa com 59 anos que havia decidido deixar a sua cidade e ir...dar uma volta ao mundo, sozinha! mais à frente e depois de termos perguntado a umas quantas pessoas se não tinham um espaço em casa para nós, acabamos por acampar nas traseiras de um hotel que estava fechado, mesmo ao lado dumas bombas de gasolina! claro que o café foi oferecido e no dia seguinte até uma mesa numa parte privada das bombas e pão! á saída, duas águas de colónia, uma para cada!



era dia não para nós. não nos apetecia pedalar e parávamos ora aqui, ora ali, nas centenas de bombas de gasolina que existem pelas estradas turcas fora. sempre que possível, tentávamos sempre ter o chazinho gratuito, o que não era complicado, visto que na maioria das vezes, quando nos viam, eram eles mesmos que saiam das lojas e nos vinham oferecer o chá! cinquenta e poucos quilómetros depois, ainda não eram 4 da tarde e já nós montávamos a tenda num parque perto da estrada, distante da vista dos carros. ali estivemos ao sol, a descansar do cansaço que nem chegamos a ter e mais tarde a preparar uma massinha para jantarmos. entramos na tenda cedinho e tivemos umas duas horas a jogar a um jogo estúpido, mas que serviu para passar o tempo e adormecer como anjinhos, não fosse um rato - pensamos - passar toda a noite a caminhar em redor da tenda, atacando-nos o saco do lixo sempre que podia! manhã seguinte, pequeno-almoço tomado e seguimos por aquela estrada sem fim, feita de sobe e desces cansativos e secantes, até ao mar!

sabíamos que nessa noite, com um pouco mais de quilómetros feitos, facilmente veríamos e dormiríamos bem pertinho de água! o tempo estava bom e acampar na areia seria bom! os camiões passavam a grande velocidade em direcção a istambul e nós, muitas vezes, éramos arremessados pelo vento que faziam. o problema com as bicicletas, é que não existe mais nenhuma estrada para chegar à grande metrópole, só a auto-estrada e esta onde seguíamos e onde os condutores seguem a velocidades alocinantes e sem quaisquer regras. neste dia, depois de termos parado para petiscar qualquer coisa num dos muitos restaurantes onde, mesmo dizendo ser vegetarianos, é difícil conseguir convencê-los de que galinha é carne e que peixe também não comemos, chegamos já tarde e com o sol quase a pôr-se a uma pequena povoação perto de silivri onde, depois de analisado o terreno, fomos descobrir um terraço ao lado do único café aberto da zona, onde pedimos para acampar! resultado? além de termos ficado muito bem instalados e de termos cozinhado e comido muito bem, ainda tivemos direito a ser convidados por um dos senhores, já à noite, para um chazinho - claro está! - e umas quantas pevides que por cá se devoram como os tremoços em portugal! conversa puxa desconversa e estivemos ali mais de duas horas a tentar decifrar o que o tal senhor queria dizer, pois não entendíamos nada, o que não impediu que ao fim trocássemos de números de telefone que, já sabíamos, nunca serviriam para nada. no dia seguinte, bem de manhã, partimos de silivri em direcção a istambul, onde teríamos de procurar um hostel, pois não tínhamos sítio para dormir e estávamos mesmo a precisar de um bom banho quente...ou banho, pelo menos!



20km depois de termos saído, aperecebe-nos da dimensão de istambul, uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes...ela começava mesmo ali e não nos conseguíamos aperceber do seu fim. se a princípio estávamos a achar piada ao facto de estarmos a chegar, após umas quantas centenas de metros, apercebemo-nos que estávamos a entrar na maior cidade até agora da viagem e que seria complicadíssimo chegar ao seu centro além de que percorrer aquela via rápida onde cada condutor nos deveria estar a achar completamente marados por a estarmos a percorrer, seria impossível, face à velocidade a que se deslocavam e à imensa falta de civismo dos seus utilizadores. numa das saídas da mesma, a tanya quase tinha um acidente com um carro que não parou para a deixar passar, atravessando-se à sua frente e, mesmo depois desta quase ter sido arremessada contra os rails, este não parou, tendo por essa mesma razão ter levado com todos os nomes feios possíveis e imaginários além de duas pilinhas que a tanya mostrou saber fazer habilmente com os seus dedos. os risos vieram mais tarde, seguidos da plena consciência de que não poderíamos continuar ali...tinha de existir outra estrada. depois de muitos policias e taxistas questionados, a direcção que nos indicavam era sempre a mesma, pois diziam-nos que aquela era o único caminho. acreditando neles ou não, o facto é que logo parou uma carrinha à nossa frente e de lá saíram dois anjos que depois de uma breve explicação, nos levaram à velocidade de uma bicicleta, com os 4 piscas ligados, para perto do mar onde, aí sim, corria uma pista pelo meio de um parque onde famílias turcas se deliciavam com tomates, pimentos e carne grelhada e um cheiro intenso pairava no ar. nós, éramos estranhos extraterrestres a quem, mesmo assim, não deixavam de cumprimentar, acenando!



procurar um sítio para ficar só mesmo no centro da cidade, na zona de sultanahmed, onde a maior parte dos monumentos se encontram e os hostels baratos pululam a cada esquina. depois de umas quantas indicações mal dadas e desinformadas, chegamos ao sinbad hostel, onde "acampamos" por 7 euros cada, com direito a internet e pequeno-almoço...coisa pouca e central! perfeito! nessa mesma noite e depois do banho merecido, demos uma volta pelas ruas em redor e pudemos ter já uma ideia de como iam ser os próximos dias. trocamos umas quantas palavras com outras viajantes e dormimos muito bem, depois de termos comido uma batata cozida recheada com umas quantas coisas coloridas!

ficamos duas noites no hostel, mudando-nos depois para casa de um rapaz que encontramos através da internet. falar de istambul, é nunca mais parar de escrever ou então matar logo a conversa ao princípio e não falar muito, tentando só descrevê-la em meia dúzia de palavras. uma cidade habitada há mais de 3000 anos, conheceu impérios, conquistadores, povos nómadas, diferentes religiões. alvo de disputa de muitos pela sua localização, pois é a única cidade do mundo disposta em continentes: ásia e europa. mudou de nome de byzantium para constantinopla e mais tarde para istambul. foi conquistada no século XV pelo império otomano, situação que se manteve ate ao século XIX. em 1923 a turquia foi tornada uma república, pondo fim a 600 anos de domínio do império otomano, um dos maiores do mundo. a cidade é feita de história e percorrê-la, é percorrer um museu - o maior talvez - ao ar livre. em cada esquina,um monumento, em cada rua, informação que nos interessa. a cada olhar para cima, os minaretes de uma mesquita, elas que são às centenas. já poucas são as igrejas ortodoxas, como é o caso de hagia sofia qe foi uma igreja ortodoxa construída no seculo VI, tornada mesquita no século XV e agora transformada em museu. a beleza da sua arquitectura é incrível. as cores, as formas, os temas, as letras, tudo nos fascina nesta cidade. na segunda parte da nossa estadia, atravessamos a tão famosa ponte galata para nos ficarmos por 3 dias na parte mais moderna - ainda do lado europeu - de istambul. já deste lado, a cidade é completamente diferente, e em tudo semelhante a uma qualquer capital europeia. as lojas da moda, muitos estrangeiros a trabalhar, uma vida muito activa, hotéis topo de gama, restaurantes com cozinha de todo o mundo, pessoas modernas e a religião, um pouco mais imperceptível. tal como em portugal neste momento, as pessoas são islâmicas, porque sim, não pensando muito no seu porquê. a ásia espreitava-nos do outro lado, mas nunca arriscamos uma ida ao outro continente...fica para depois!



6 dias depois de termos chegado à grande metrópole, depois de muitas comidas experimentadas, cafés tomados e chás bebidos, abandonamos a cidade e só 45km depois nos sentimos um pouco fora dela. o dia estava a correr bem e voltar ao mesmo sítio onde tínhamos acampado antes, estava nos nossos planos. o que não estava nos nossos planos, era fazermos a viagem debaixo de chuva constante durante 5 horas. o que também não estava nos planos, era o rafael ter enterrado a bicicleta na lama e se com duas rodas já é difícil sair, então com 3 rodas e mais de 1 quilo de lama em cada pé, ainda mais. o resultado, foi a noite ter caído e nós, além de estarmos ainda longe do local, termos de voltar para trás para lavar durante mais de uma hora toda a lama que tínhamos no corpo e nas bicicletas, numa torneira encontrada numas bombas. dissemos umas quantas asneiras, mas acho que compreensíveis. com a escuridão imensa, com um frio de rachar e molhados, levamos as bicicletas à mão em sentido contrário na via rápida e uns quilómetros depois, metemo-nos por uma rua que nos levou ao centro de uma povoação. pedalamos até descobrirmos um sítio coberto onde montar a tenda, mesmo ali, ao lado do mar! cozinhamos umas massas instantâneas horríveis que mal conseguimos comer e que mais tarde, nem os cães da rua conseguiam, fazendo a tanya quase vomitar tal era o seu cheiro! o jantar ficou-se então pelo pão com chocolate e umas quantas frutas e beringela cozinhada no dia anterior. com todo este dia perfeito, a noite acabou com um senhor que nos apareceu do nada e, percebendo que a conversa não ia a lado algum, pois nenhum compreendia a língua de nenhum, nos falou por mímica! lindo! o que não contávamos era que, depois de um telefonema que fez, sermos convidados a desmontar a tenda e a acompanha-lo até casa de um amigo que vivia em inglaterra - foi o que percebemos - e lá tomarmos um bom banho quente e dormirmos numa caminha quentinha! o dia tinha que acabar bem, após tantos....obstáculos! ainda tivemos direito a um chá, dois dedos de mímica e "ressonamos" que nem bebés! acordamos com alguém que não conhecíamos a bater-nos à porta e a dizer-nos que tínhamos de ir...não percebemos mas, o que é facto, é que já era de manhã e nunca saímos de casa tão rapidamente como naquele dia! um longo caminho se seguia ate tekirdag!

em tekirdag esperava-nos a emel, uma professora de inglês que, depois de nos mostrar um pouco a cidade e depois de uns quantos chás bebidos, nos fez pedalar até sua casa, em barbaros, a povoação seguinte, debaixo de uma chuva irritante. no caminho, o joelho esquerdo do rafael pifou e as bicicletas foram levadas à mão...depois de instalados e do banho tomado, passamos o resto do dia e o que se seguiu sem fazer nada, descansando apenas, conhecendo-nos um pouco mais e apanhando uma grande seca, pois foram dois dias enfastiantes. há dias em que devemos abandonar as casas para não se tornarem chatos, mas conversa puxa conversa e a hora de sair vai-se arrastando até que acabamos por ficar...mais um dia. saídos de lá, tínhamos mais de 120km até à fronteira e a ideia era ir indo até nos cansarmos.

a tanya estava adoentada, o rafael com o joelho pifado e nada nos fazia crer que só pararíamos 100km depois. pelo caminho, fomo-nos despedindo aos poucos deste país a que queremos voltar quanto antes. pelo caminho, imaginávamos sambem uma despedida diferente, o que veio a acontecer, quando do outro lado da estrada um senhor de uma certa idade, esbracejava e nos chamava com toda a força! sem hesitar, viramos as bicicletas e fomos ter com ele! não tínhamos onde chegar nessa noite, por isso não havia qualquer pressa! sentados na esplanada dum café cheio de idosos, contamos a nossa história, a nossa viagem, a nossa vida! o senhor tentou fazer o mesmo! bebemos muito chá, comemos rebuçados e tiramos fotografias! estes momentos fazem-nos querer ficar mais tempo, pois são verdadeiramente os que nos marcam, os que são diferentes, os que nos fazem sentir em viagem e a viagem! explicações dadas e sem pagarmos nada, ou seria uma grande ofensa, partimos em direcção à grécia, ali ao lado.

nessa noite, ainda acamparíamos ao lado de um pequeno lago onde mosquitos nos tentaram devorar sem sucesso, ou o spray repelente não fosse tão milagroso! cozinhamos e comemos muito e adormecemos com uns quantos sapos a cantarem para nós! a noite estava muito fria e dentro da tenda a humidade sentia-se. por trás de nós, uns quantos pastores iam passando e acenando-nos uns breves adeus e um...ate já!

turquia...

2 comentários:

guida disse...

Estou admirada como ainda conseguem ter tanta força e coragem . Boa... beijinhos

Ula disse...

Hi guys!
That's amazing how you're with your trip:))).
I'm in San Francisco and I'm doing well.
Best wishes and good luck!:)
Ula

Posts mais populares