pra montanha....

vamos sair finalmente de trikala! após 8 dias parados nesta cidade, em muito boa companhia - qual hotel de 5 estrelas! - vamos a ver se ainda sabemos andar de bicicleta!
actualizações? chegarão em breve! agora? pra montanha...


...até trikala

o que foi diferente no caminho que nos levou até véria? nada. apenas ao fundo, as grandes montanhas de vérmio, aquelas que não tínhamos qualquer desejo em atravessar - pela dificuldade que representariam - mas por outro lado, aquelas que sabíamos também, nos sentiríamos sós, em silêncio e sem quase nenhum carro a incomodar-nos, pois a auto-estrada correria lá em baixo e a "eles", só lhes interessa chegar rápido a qualquer lado.


lembro-me de termos comentado logo ao início que ainda naquele dia iniciaríamos a nossa rota ascendente pela montanha e depois de uns 80km sem qualquer assunto, vimos o início da subida ao fundo. a estrada levou-nos pouco mais de 150 metros acima do nível do mar e na praça central, encontramo-nos com o patrick que chegou de bicicleta e nos levou para sua casa. em poucas palavras, percebemos que a nossa estadia se prolongaria por mais uma noite - porque queríamos, só - e depois ainda outra - por questões climatéricas. passeamo-nos pela cidade e esta pareceu-nos agradável. ao longo do pequeno rio que a atravessa, o antigo bairro judeu com as suas casas recuperadas e coloridas e do lado oposto, o miradouro que olhava a grande planície por onde havíamos pedalado durante uma semana. atrás de nós, os picos nevados. véria, ali entre os dois, não sabemos se no fim da planície se no princípio da montanha. comemos doces regionais, falamos sobre a nossa viagem com uns amigos do patrick, passamos muito tempo a passar músicas do mundo, a falar sobre documentários e a duvidar sobre questões actuais. foi interessante ter a companhia deste professor de música durante 3 dias e saímos de sua casa com alento para a primeira grande jornada!

logo nos primeiros metros e já depois de termos ido a uma oficina trocar um dos pedais da bicicleta da tanya que tinha partido e parado numa casa de desporto para comprar umas calças minimamente quentes, apareceu-nos a primeira etapa de montanha. a mudança mais baixa metida e "aí vai aço..." durante 30 metros. desistimos. trata de levar as meninas à mão e tentar mais acima. um par de quilómetros depois, parávamos para descansar a primeira vez! logo à frente, a segunda e depois a terceira e assim sucessivamente, durante os próximos 25km, até chegar ao topo, a 1300 metros de altitude! a vista que tínhamos era brutal! a toda a volta, picos nevados e pelo meio, aldeias pintando de colorido o grande cenário! um lago ou outro, davam um tom de azul à paisagem e o céu mostrava algumas nuvens que nos faziam gelar, quando passavam frente ao sol. ao todo, na estrada, durante estas mais de 4 horas que nos durou a subida, não devem ter passado mais de 20 automóveis. a estrada era só nossa e pelo meio daquele esforço todo, os sorrisos iam saindo e tudo nos parecia divinal!

a descida estava ali! tudo em cima! luvas (que detestamos), casacos, polares, isto e aquilo e toca a descer! as curvas e contra-curvas deliciavam-nos, embora os dedos doessem de tanto frio e da quantidade de vezes que tínhamos de colocar as mãos nos travões, ou em vez de bicicleta, voaríamos! a neve ficou lá em cima, nas margens da estrada e lá em baixo uma qualquer cidade esperava-nos para o almoço, numa bomba de gasolina! as fotos e os vídeos iam sendo tirados à medida que a estrada nos possibilitava. tudo era bonito e apesar do buraco no estômago, não nos apetecia sair dali! já na bomba, pedimos para nos sentarmos numa antiga loja de música pimba mesmo ao lado e, depois do jantar do dia anterior aquecido, comemos até nos sentirmos cheios! bebemos um cafezinho -que preparamos ocasionalmente no nosso fogão de topo - e seguimos viagem por mais uns 10km, outra vez numa enorme planície. perto de kozani, pedimos a um senhor que nos deixasse montar a tenda no jardim de sua casa e este, depois de uns telefonemas, levou-nos até ao jardim em frente à capela local e disse que poderíamos acampar onde quisessemos! o coreto foi o local escolhido! bebemos algo quente e comemos umas bolachas e enquanto faziamos um sudoku à espera que a fome voltasse, o mesmo senhor regressou e disse para o acompanharmos. o material, não havia problema, "pode ficar tudo aí!" entramos num restaurante e uns minutos depois, duas coca-colas e uma pizza vegetariana eram colacadas à nossa frente! por conta do santo senhor! que delicioso que estava! que quente que estava dentro daquele restaurante! que aconchegante! que frio, quando voltamos à tenda! que gelo! que rapa! às 5h, acordávamos e aquecíamos água para colocar dentro de garrafas plásticas para nos aquecermos dentro do saco-cama. estava mesmo muito frio. mesmo muito.

dali até à próxima paragem - que julgámos ser trikala, até nos apercebermos que estávamos ainda muito, muito longe - voltámos a apanhar outra grande subida, não tão grande como a primeira, ok, mas ainda assim nos fez suar um bom bocado. não queríamos parar antes de chegar à parte onde vísssemos a descida, momento que estava sempre a ser adiado pois dizíamos para nós que a seguir àquela curva, não havia nada a não ser olhar do topo mas, quando lá chegávamos, o topo ficava ainda mais acima. pedala, pedala, pedala. encontramos uns banquinhos bem lá em cima e paramos para almoçar. apareceu-nos um cão esfoemeado, o 2º do dia e, claro está, fizemos a nossa 2ª boa acção do dia: dar-lhe um pouco de comida! é nosso costume andar sempre com alimentação para os cães na bagagem, prontos a serví-los se assim virmos necessidade. aquele sim, tinha necessidade. a seguir à sua comida, ainda nos levou metade de um grande pão que tínhamos comprado. mais teríamos dado se tivessemos mas, temos a certeza, naquele dia a barriguita já estava cheia! a descida começou e só parou em elassona, a próxima "grande" cidade. depois de abastecidos, procuramos um lugar para acampar. a dúvida era se seria ao lado do rio ou pediríamos aos bombeiros guarida para uma noite. optámos pela segunda opção e ficámos a saber que não são tão receptivos quanto os bombeiros portugueses. mesmo ao lado, um pedaço de relva! é aqui! do lado esquerdo havia uma estrada em obras; em frente, umas casas-de-banho fechadas; por cima, uma luz fortíssima que nunca apagava; ao lado direito, uma espécie de disco-pimba-casa-de-alterne-foleiró-rosinha que debitou decibeis de música toda a noite cá para fora! perfeito! jantamos e dormimos que nem anjinhos e mesmo ali, quase no meio da cidade, ninguém nos incomodou!

saímos bem cedo! teríamos 70km pela frente. nada de especial, tudo seria em terreno plano, por isso não haveria qualquer dificuldade. por estradas secundárias, passávamos por pequenos povoados, onde apenas idosos sobreviveram. a paisagem era de cortar a respiração! o caminho corria ali no meio, entre colinas e o rio, que nos acompanhava! as nuvens passavam de quando em quando. as vinhas eram às centenas e podíamos apanhar fruta na estrada outra vez! que alegria! encontrávamos água em todo o lado! pessoas simpáticas! cafés onde, um ou outro grupo de idosos se encontrava para passar o dia frente a um frappé! entrávamos e tentávamos absorver ao máximo todo aquele tempo que nos dispensavam! no fim, sempre as perguntas normais: de onde vínhamos, para onde íamos, se gostávamos da grécia e as normais indicações até trikala - o nosso destino - mesmo que no fim do dia, em vez dos planeados 70km, tivessemos feito 90! tudo bem, adoramos a jornada!

trikala apareceu ao longe, com os seus mais de 50.000 habitantes. um amigo de ovar - o diogo batata - a fazer erasmus aqui e a viver com mais 2 colegas da universidade - o diogo martinez e o luís castro - iria receber-nos no seu apartamento durante os próximos dias! uma casa! um lar! falar português! cama! tecto! aquecedores! internet! uau!

10 lugares

num dos muitos blogs que tentamos seguir com mais atenção - travelling two - eis que desta vez nos deixaram a sugestão de 10 lugares no mundo pelos quais devemos pedalar antes de morrer. para aqueles que acham que só nos outros países é que existem grandes paisagens e grandes caminhos a ser percorridos, eis que na lista... (link)

...continuação

deixámos xanthi mas, na esperança a cada passo de recebermos uma mensagem do yorgos e da irini a dizerem-nos: "voltem para trás e fiquem. vamos tentar arranjar uma casa onde poderão ficar por uns tempos e partir quando o vosso "trabalho" estiver terminado!" - mas só muito mais à frente, estávamos nós quase em kavala, o telemóvel apitou, avisando-nos que algo havia chegado. "corremos" para ele e lemos a mensagem em castelhano - a língua com que falávamos com o yorgos - a desculpar-se de só naquele momento ter respondido e que sim, a casa era fácil arranjar, mas que trabalho era mais complicado e que uma cidade se torna chata ao fim de algum tempo (como nós sabemos isso). que quando quisermos, somos bem-vindos, mas o mais certo é encontrarmo-nos primeiro lá no oeste, em portugal!

até kavala, a planície continuava, toda ela sem assunto de relevância, só o mar ao lado esquerdo e as montanhas no lado direito. as povoações vazias de turismo, voltavam aos seus dias comuns. a vida sem algo de especial. mas nós, gozávamos o momento, com canções, fotografias de caminhos sem fim e vento na cara...às vezes, do forte! à nossa espera em kavala, estava a karaline, que se encontrava na cidade a estudar e que tinha o sonho de continuar os seus estudos de produção de espectáculos, em londres. depois de chegados, reparamos que a cidade era composta por uma série de colinas mesmo em frente ao mar e tínhamos a indicação de seguir até um grande supermercado (não referimos o nome porque não nos pagaram para isso) que ela lá estaria, em toda a sua grandiosidade, à nossa espera. depois de termos perguntado a umas quantas pessoas onde se encontrava este tal supermercado e depois de umas tantas nos terem feito pedalar colina acima e colina abaixo, ora para um lado, ora para o outro - enganando-nos, portanto - chegamos finalmente a tão desejado ponto de encontro! ela lá estava, adoentada. seguimos para casa e por lá ficamos até ao dia seguinte, comendo e conversando, escrevendo e snifando o cheiro a tabaco que se fazia sentir em todo aquele apartamento. acabamos a transportar o colchão para o chão, onde teríamos uma noite descansada, fugindo assim às muitas molas de qualidade duvidosa existentes naquele sofá. quando acordamos, reparamos que era tarde, muito tarde e, não contentes, ainda nos demoramos mais no pequeno-almoço. felizes!

dali até salónica, a cidade onde "acamparíamos" 3 noites, tentaríamos fazer o máximo de quilómetros possíveis para que no dia seguinte a viagem fosse mais pacífica. mas saímos tarde, muito tarde - vale a pena repetir - e, como se não bastasse, uns 10km depois, estavamos sentados numa esplanada com um motard que nos convidou para um café e hora e tal de conversa! não tínhamos qualquer pressa e estava a saber-nos pela vida! após a despedida, uns quase 60km depois, virávamos à esquerda, para a beira mar, e tentámos encontrar, além de sítio para dormir, um qualquer espaço comercial onde comprar também, alguma coisa para comer, pois estávamos sem nada. leite, uns 2 tomates quase congelados, cereais (não nos lembramos, mas achamos que sim), fruta sem ser da época e duas latas de feijão gigante que, de alterações genéticas, não devem ter nada...nadinha! mais à frente, olhamos para uma palmeira que se despia à medida que o inverno chegava e achámos que aquele relvado pelado, num antigo espaço de um bar de verão, a 2 metros da areia - ideal para se fazer um xixi se a vontade chegasse - com o mediterrâneo em frente - que luxo! - e o sol a pôr-se a passos largos ao nosso lado direito, nos servia perfeitamente! ufa! terreno limpo, tenda montada, jantar para fora e o fogão a trabalhar. não jantamos tarde quando acampamos, pois sabemos que os colchões furados que temos, nos receberão também cedo e os poucos raios de luz que chegarem pela manhã, nos farão levantar e enfrentar mais um dia. a hora que nos deitamos, achamos por bem não a referir, pois poderá arruinar a nossa carreira, mas foi cedinho! dormimos que nem bebezinhos, mas sentimos o frio a tentar atacar uma série de vezes. repetindo uma frase que nos é muito comum agora: "tá fresquinho, tá"

quando acordamos, temos a certeza que tivemos frio, pois até os polares vestimos. café tomado, cereais comidos com a nossa única colher e pão com chocolate, claro está, que as calorias gastam-se às centenas. pela frente tínhamos mais de 100km, se é que queríamos, nessa mesma noite, dormir no aconchego do lar da maria e da erifyli. mas que seca de dia. a bateria dos mp3 acabou, ainda para alegrar mais a situação. a paisagem era uma seca. a estrada uma seca era. tudo fechado. queríamos pedalar, mas alguém tinha colocado uma "pedra" enorme nas malas das bicicletas e elas mal se arrastavam. que seca. parávamos e tínhamos fome. calorias! calorias! calorias! salónica apareceu ao longe e fomos direitinhos ao supermercado equipar-nos o melhor possível para os dias que se seguiam. isto e isto e mais aquilo! tudo! comunicamos com as nossas couchsurfers e soubemos que só estariam disponíveis em 2 horas e por isso pedalamos já noite fora pelo centro da cidade até ao seu centro, não sem antes sermos incomodados por um polícia - no mínimo estúpido - que nos perguntou pelas luzes das bicicletas. a tanya diz: "ele quer saber das nossas luzes..." - o rafael ri-se e avança, pensando: "deve ser burro ou está a gozar connosco" - pois a vontade que nos deu foi de perguntar: "então e estas dezenas de bicicletas que estão a passar aqui agora sem luz? e aquelas dezenas de condutores sem cinto de segurança e a falar ao telemóvel? e aqueles gajos ali, a andar com as motas por cima dos passeios?" - mas nós éramos estrangeiros e por isso o sr. agente tinha de falar! esperamos quase duas horas, sim. estava...fresquinho! mastigamos qualquer coisa e, à hora marcada, lá estavam elas, a saltar e aos gritos na nossa direcção, cheias de energia! depois de uma introdução, disseram-nos: "agora vamos apanhar o autocarro e vocês seguem atrás dele...ok?!" - "desculpa? devem pensar que guiamos motas! é melhor encontrarmo-nos onde?" - "neste sítio assim assim blá blá" - "ok" - concordamos e avançamos noite fora, para o apartamento num 3º andar dum prédio a 20 minutos a pé do centro. cama feita, banho tomado, comida cozinhada, internet pesquisada, música escutada e blá blá blá até nos cansarmos!

nos 3 dias que passámos em salónica, vimos muito pouco e achamos sinceramente, que estávamos mesmo muito preguiçosos e que poderíamos ter visto muito mais. aquela coisa de que as grandes cidades nos são estranhas e indiferentes, de que não gostamos, de que...são grandes, cria-nos uma certa resistência às mesmas, mesmo que tenham milhares de coisas interessantes para ver e, acreditamos, esta era uma delas. no entanto, está cheia de trânsito, de barulho, de pessoas que correm sem razão aparente, de lojas iguais, todas elas iguais, da construção do metro que demora há anos e que, dizem, inaugura finalmente para o ano! existem as igrejas bizantinas que sobreviveram aos imensos terramotos, ataques e incêndios e que são, verdadeiramente, um dos grandes pontos de atracção da cidade. existe também cultura, muita coisa a acontecer, eventos vários que, desde 1997 - ano em que foi capital europeia da cultura - não deixaram a cidade vazia. mas existe ainda a parte antiga da cidade, muralhada, a parte das escavações e que descobrem antigos mercados, casas, ruas, poços (que vimos em parte) que não descobrimos toda, perdendo assim a parte mais bonita. e existe a parte da noite, dos bares, das discos, parte esta da qual não somos muito adeptos, mas que aproveitamos pelo menos uma noite, experimentando coisas que nunca havíamos experimentado! as nossas anfitriãs eram simpáticas, prestáveis e divertidas...uma delas muito divertida mesmo! no 3º dia na cidade, acordámos tarde, comemos tarde e, quando saímos, começou a chover torrencialmente. subimos de novo as escadas e quando a maria chegou, matamo-nos em crepes doces, de banana e salgados, até cairmos para o lado! à hora de dormir, estávamos tão cheios que até doía.

por fim, a bonança

depois de termos saído de véria, a cidade onde estivemos 3 noites - por chuva, cansaço ou pura preguiça - atravessamos uma estrada a 1300 metros de altura, vimos neve, apanhamos frio e agora chegamos a casa do diogo batata, em trikala, onde ficaremos...como se em casa estivessemos! mais novidades em breve!

isto da grécia...

"isto para mim é grego" - foi o cliché usado por nós mal tentamos ler a primeira placa com as direcções na estrada. vimos também, logo à entrada, que os preços seriam bem mais altos que na turquia. no entanto, ao contrário do país anterior, tínhamos aqui contactos para dormirmos em casas, o que nos ajudava no orçamento diário!

a primeira cidade digna desse nome por onde passamos, foi
alexandropolis, uma cidade fundada no século XIX por alguns pescadores e que mais tarde, foi pensada a servir militarmente o exército da união soviética aquando da guerra com a turquia. a cidade é percorrida por várias ruas que correm paralelamente à costa e não tem qualquer interesse histórico. depois dos russos, foi a vez do império otomano, depois os búlgaros - aliados da alemanha nazi, que ocuparam esta cidade entre 1941 e 44 até que, decorria o ano 1949, e já depois da guerra civil, a cidade pode por fim crescer e ver a sua população aumentar visivelmente. nós, tínhamos um contacto para ficar em alexandropolis por uma noite, até ao momento em que soubemos que o casal que nos receberia, não se encontrava na cidade. azar. teríamos obrigatoriamente de acampar outra vez e estar mais 1 dia sem tomar banho, o 2º...nada de mais! uns quilómetros depois da cidade, olhámos para o lado direito e um olival pareceu-nos servir perfeitamente! eram às centenas, as oliveiras e por trás de várias delas, montamos a tenda e aguardamos a noite, cozinhando, conversando e colocando a conversa do dia...em dia, visto que quando pedalamos, raramente falamos, pois isto não é a holanda e temos que pedalar um à frente do outro.

a manhã nasceu e a tenda estava seca, sem qualquer orvalho, o que é coisa rara nesta viagem! desmontar a tenda e guarda-la seca é uma felicidade. (acreditamos que no fim desta viagem teremos apetitosos cogumelos a nascer algures, nas entranhas deste nosso lar!) fugimos daquele olival como clandestinos e mais à frente, tomávamos a estrada secundária que, ao contrário daquela qu
e levava os automóveis, trepava montanha acima. tudo era feito muito lentamente e depois de uma paragem no cimo da mesma, a tanya acelerou enquanto o rafael fazia um xixi e só se voltaram a ver 10km mais tarde, quando avistaram um café e decidiram parar para se agasalharem com um nescafé bem quentinho! "kalimera" para aqui, "kalimera" para ali (quer dizer bom dia) pegaram nas bicicletas e partiram com destino aos 9000km que só se aperceberam de terem passado 4km depois da marca certa. foto da praxe! cliq! cliq! e a viagem continuou!

komotini
seria o destino desse dia e o ginn esperava-nos em casa da sua família. depois de nos encontrarmos com ele no centro, este levou-nos a conhecer o sítio onde passaríamos os 2 dias seguintes. não era um hotel, mas estava perto disso! "não precisam levar nada" - disse-nos - "guardem a comida e esqueçam toalhas e sacos-cama. temos tudo o que precisam" e as notícias alegravam-nos! um quarto para nós (que viemos a saber mais tarde, era o dos pais, que para isso dormiram separados, um na sala e outro com a irmã), um duche quentinho e comidinha à maneira...vegetariana! só no dia seguinte cozinhamos uma bolonhesa de soja e tudo o resto, foi à conta da casa! o nosso anfitrião era generoso, simpático, mas longe de ser o nosso estilo de anfitrião ideal, visto que os gostos eram diferentes. nós interessamo-nos pelas pessoas, pelas culturas, pela etnias, pelas diferenças. ele, pelos copos, pelos bares e pela noite. conclusão: tivemos um fim de dia diferente, muito diferente do normal, bebendo uns quantos copos num bar da moda. o melhor, foi que não nos deixou pagar nada e a seguir ainda fomos comer. apesar de termos tentado chegar-nos à frente com a nota, ele disse para a guardarmos, pois precisaríamos desses euros para continuar a viagem. obrigado!

xanthi
, seria seguia-se. sabíamos que era uma cidade com alguma história, ligada toda ela à produção do tabaco, o que fez com que a cidade possua hoje dentro do seu centro histórico, autênticas mansões, belíssimas, todas elas demonstrando a extrema riqueza que aqui se viveu até meados do século XX. sabíamos também que seríamos recebidos por um casal que a princípio pensávamos tratar-se de um espanhol e de uma grega. a certeza que tínhamos também, era que ficaríamos por duas noites. o que desconhecíamos completamente, era que pedalávamos para aquela que seria a melhor experiência da viagem até agora. o que desconhecíamos também, era que afinal era um casal grego, mas ele dominava completamente o espanhol. não sabíamos também, era que as duas noites se transformariam em 4. por fim, nunca imaginaríamos que esta seria a primeira cidade onde nos apeteceu verdadeiramente ficar por um mês, pelo menos e que chegámos a colocar isso em cima da mesa e que, apesar de já um pouco longe, ainda não está posto de parte! o que tem então xanthi de tão bom para nos seduzir tanto?

um casal de professores: o yorgos e a irini, ambos a leccionar nas montanhas que dividem a grécia com a bulgária. estas montanhas, bem longe da normal sociedade grega, são lar de uma minoria étnica conhecida como os pomacos, que são muçulmanos de origem búlgara. o estabelecimento onde o yorgos ensina, é o único existente para um total de 50 pequenas aldeias espalhadas aqui e ali, algumas delas a dezenas de quilómetros da escola. estes dias, passados com eles e com mais alguns professores amigos, serviram para percebermos um pouco mais da realidade destas comunidades. os pomacos, como já dissemos, são muçulmanos de origem búlgara. no entanto, aquando das guerras existentes entre os 2 países e mais recentemente a 2ª guerra mundial, a grécia - país capitalista - e a bulgária - país comunista - encerraram as fronteiras, impedindo as pessoas de as cruzarem. o que aconteceu, foi que as famílias perderam as raízes com o país de origem e muitos deles, até o afastamento com os familiares. por incrível que pareça, ainda hoje e apesar de ambos os países pertencerem à união europeia, a estrada que liga os 2 países nesta zona, é quase inexistente. assim sendo, os pomacos ligaram-se mais, pela razão religiosa, aos turcos. o problema que acontece então, é que em casa falam o dialecto pomaco e na escola aprendem o grego e o turco. conclusão? é raro aquele que domina qualquer uma das línguas em condições, o que faz com que a sua integração na sociedade seja dificultada. o yorgos, a irini e os outros professores, tentam a todo o custo minorar este afastamento, promovendo encontros vários, idas a festas tradicionais, entre outras coisas. e foi aqui que nós caímos, no meio de todo este encontro de culturas...e adoramos!!! serpentear montanha acima, chegar a aldeias que são o fim do caminho, ver festas enormes com as mulheres com as roupas tradicionais, homens que comem dum lado, mulheres que comem do outro, comida que é distribuída numa espécie de embalagens take-away, tirar os sapatos e sentarmo-nos no chão, no meio de toda aquela confusão, com todos aqueles olhos curiosos virados na nossa direcção, contarmos um pouco da nossa história, tentar saber ao máximo a deles e a delas (que aqui, ao contrário da maior parte das comunidades muçulmanas, são livres de usar e agir como querem, de estudar, de trabalhar, de guiar motas e carros!), ser convidados para cafés em casas de família, passar horas a conversar, adivinhar o futuro em chávenas de café e ver que aquilo que dizemos, mesmo que muito inventado, faz com que acreditem num futuro melhor, porque só poderíamos dar boas notícias, despedirmo-nos de todos eles, calçar os sapatos, caminhar para o carro, apanhar oregãos da berma da estrada, ver vacas a pastar em locais onde só cabras malabaristas, pensámos nós, poderiam chegar e olhar mais uma vez para trás e, dentro de nós, sentir que só aqueles 2 dias ali, com eles, valeram já a nossa estadia na grécia!



mas no dia seguinte...


...no dia seguinte, depois de termos pastado o dia inteiro em casa, a comer e a preparar aquilo que seria o nosso grande jantar, o yorgos chega e diz-nos: "hoje tenho que ir dar uma aula, como voluntário, numa comunidade de ciganos aqui mesmo ao lado. querem vir?" - não era preciso perguntar, claro que queríamos. às 4h, já estávamos à porta à espera de sair! atravessámos a linha de comboio, fronteira entre a cidade a comunidade cigana e pareceu-nos estar a entrar noutro mundo, muito mais pobre, com caras totalmente diferentes, costumes diferentes mas com uma vida na rua como ainda não tínhamos visto em nenhum local na grécia. "dizem que este sítio é perigoso, mas não vão ver em toda a grécia tantas crianças na rua como aqui!" - disse-nos o yorgos. depois de termos estacionado o carro, entramos numa espécie de associação cultural e vimos mulheres a preparar uma receita tradicional que, notamos, era vegetariana! após um frappé bebido à pressa, saímos para a rua com a ideia de nos perdermos por entre aquela povoação. "voltem por volta das 6h, que é quando acabo a aula" e saímos! logo nos primeiros metros, reparamos que aquilo que nos tinha dito era verdade, havia dezenas de crianças na rua. o que nos disse também, era que ninguém lá ia a não ser as pessoas que lá viviam e era verdade, éramos os únicos extra-comunidade. mas uns metros caminhados, as primeiras pessoas começavam a questionar-nos sobre o que fazíamos ali, de onde vínhamos, o que queríamos. tentávamos explicar o melhor possível, em inglês e nas poucas palavras gregas que sabíamos e, claro, com gestos, muitos! algumas crianças correram para nós e depois do comum "como te chamas?" as mãos ligaram-se e não mais se separaram até que saímos da comunidade, umas horas depois! fotos e mais fotos, perguntas e mais perguntas e muitos risos e sorrisos! estávamos rodeados de gente, dos mais pequenos, aos maiores e ao longe ouvia-mos música. encaminharam-nos para lá. um casamento, dois...três! música alta, muito alta e distorcida, mulheres que dançavam nos seus vestidos brilhantes, homens que bebiam e riam, pessoas a toda a volta a comerem arroz com carne que saía de uma grande panela, tiros para o ar, muitos tiros. muita festa! mais tarde, o yorgos juntou-se a nós e a festa continuou até voltarmos para casa e a festa continuar em casa, desta vez na companhia da irini e dum amigo deles.

preparámos o jantar, comemos até cairmos para o lado e a noite reservava-nos ainda uma sessão de danças tradicionais e muita música grega! foi dançar, rir e comer...fim de estadia perfeito! adormecemos com a certeza que no dia seguinte partiríamos mas querendo ficar. muito mesmo! pela manhã, o yorgos e a irini tentaram escapar-se sem nos acordarem. vimo-los pela porta entreaberta e quisemos saber onde iam, sem se despedirem. "durmam, durmam..." - repetiam, na tentativa de que ficássemos mais um dia, só mais um...mas não, abraçamo-nos e pouco depois de sairem, tomávamos um banho quente e pegávamos nas bicicletas que já não viam estrada há 4 dias! tirámos uma última foto com a sombra, a cadela deles e xanthi, ficou para trás, com todas a boas recordações. único!

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