...até trikala

o que foi diferente no caminho que nos levou até véria? nada. apenas ao fundo, as grandes montanhas de vérmio, aquelas que não tínhamos qualquer desejo em atravessar - pela dificuldade que representariam - mas por outro lado, aquelas que sabíamos também, nos sentiríamos sós, em silêncio e sem quase nenhum carro a incomodar-nos, pois a auto-estrada correria lá em baixo e a "eles", só lhes interessa chegar rápido a qualquer lado.


lembro-me de termos comentado logo ao início que ainda naquele dia iniciaríamos a nossa rota ascendente pela montanha e depois de uns 80km sem qualquer assunto, vimos o início da subida ao fundo. a estrada levou-nos pouco mais de 150 metros acima do nível do mar e na praça central, encontramo-nos com o patrick que chegou de bicicleta e nos levou para sua casa. em poucas palavras, percebemos que a nossa estadia se prolongaria por mais uma noite - porque queríamos, só - e depois ainda outra - por questões climatéricas. passeamo-nos pela cidade e esta pareceu-nos agradável. ao longo do pequeno rio que a atravessa, o antigo bairro judeu com as suas casas recuperadas e coloridas e do lado oposto, o miradouro que olhava a grande planície por onde havíamos pedalado durante uma semana. atrás de nós, os picos nevados. véria, ali entre os dois, não sabemos se no fim da planície se no princípio da montanha. comemos doces regionais, falamos sobre a nossa viagem com uns amigos do patrick, passamos muito tempo a passar músicas do mundo, a falar sobre documentários e a duvidar sobre questões actuais. foi interessante ter a companhia deste professor de música durante 3 dias e saímos de sua casa com alento para a primeira grande jornada!

logo nos primeiros metros e já depois de termos ido a uma oficina trocar um dos pedais da bicicleta da tanya que tinha partido e parado numa casa de desporto para comprar umas calças minimamente quentes, apareceu-nos a primeira etapa de montanha. a mudança mais baixa metida e "aí vai aço..." durante 30 metros. desistimos. trata de levar as meninas à mão e tentar mais acima. um par de quilómetros depois, parávamos para descansar a primeira vez! logo à frente, a segunda e depois a terceira e assim sucessivamente, durante os próximos 25km, até chegar ao topo, a 1300 metros de altitude! a vista que tínhamos era brutal! a toda a volta, picos nevados e pelo meio, aldeias pintando de colorido o grande cenário! um lago ou outro, davam um tom de azul à paisagem e o céu mostrava algumas nuvens que nos faziam gelar, quando passavam frente ao sol. ao todo, na estrada, durante estas mais de 4 horas que nos durou a subida, não devem ter passado mais de 20 automóveis. a estrada era só nossa e pelo meio daquele esforço todo, os sorrisos iam saindo e tudo nos parecia divinal!

a descida estava ali! tudo em cima! luvas (que detestamos), casacos, polares, isto e aquilo e toca a descer! as curvas e contra-curvas deliciavam-nos, embora os dedos doessem de tanto frio e da quantidade de vezes que tínhamos de colocar as mãos nos travões, ou em vez de bicicleta, voaríamos! a neve ficou lá em cima, nas margens da estrada e lá em baixo uma qualquer cidade esperava-nos para o almoço, numa bomba de gasolina! as fotos e os vídeos iam sendo tirados à medida que a estrada nos possibilitava. tudo era bonito e apesar do buraco no estômago, não nos apetecia sair dali! já na bomba, pedimos para nos sentarmos numa antiga loja de música pimba mesmo ao lado e, depois do jantar do dia anterior aquecido, comemos até nos sentirmos cheios! bebemos um cafezinho -que preparamos ocasionalmente no nosso fogão de topo - e seguimos viagem por mais uns 10km, outra vez numa enorme planície. perto de kozani, pedimos a um senhor que nos deixasse montar a tenda no jardim de sua casa e este, depois de uns telefonemas, levou-nos até ao jardim em frente à capela local e disse que poderíamos acampar onde quisessemos! o coreto foi o local escolhido! bebemos algo quente e comemos umas bolachas e enquanto faziamos um sudoku à espera que a fome voltasse, o mesmo senhor regressou e disse para o acompanharmos. o material, não havia problema, "pode ficar tudo aí!" entramos num restaurante e uns minutos depois, duas coca-colas e uma pizza vegetariana eram colacadas à nossa frente! por conta do santo senhor! que delicioso que estava! que quente que estava dentro daquele restaurante! que aconchegante! que frio, quando voltamos à tenda! que gelo! que rapa! às 5h, acordávamos e aquecíamos água para colocar dentro de garrafas plásticas para nos aquecermos dentro do saco-cama. estava mesmo muito frio. mesmo muito.

dali até à próxima paragem - que julgámos ser trikala, até nos apercebermos que estávamos ainda muito, muito longe - voltámos a apanhar outra grande subida, não tão grande como a primeira, ok, mas ainda assim nos fez suar um bom bocado. não queríamos parar antes de chegar à parte onde vísssemos a descida, momento que estava sempre a ser adiado pois dizíamos para nós que a seguir àquela curva, não havia nada a não ser olhar do topo mas, quando lá chegávamos, o topo ficava ainda mais acima. pedala, pedala, pedala. encontramos uns banquinhos bem lá em cima e paramos para almoçar. apareceu-nos um cão esfoemeado, o 2º do dia e, claro está, fizemos a nossa 2ª boa acção do dia: dar-lhe um pouco de comida! é nosso costume andar sempre com alimentação para os cães na bagagem, prontos a serví-los se assim virmos necessidade. aquele sim, tinha necessidade. a seguir à sua comida, ainda nos levou metade de um grande pão que tínhamos comprado. mais teríamos dado se tivessemos mas, temos a certeza, naquele dia a barriguita já estava cheia! a descida começou e só parou em elassona, a próxima "grande" cidade. depois de abastecidos, procuramos um lugar para acampar. a dúvida era se seria ao lado do rio ou pediríamos aos bombeiros guarida para uma noite. optámos pela segunda opção e ficámos a saber que não são tão receptivos quanto os bombeiros portugueses. mesmo ao lado, um pedaço de relva! é aqui! do lado esquerdo havia uma estrada em obras; em frente, umas casas-de-banho fechadas; por cima, uma luz fortíssima que nunca apagava; ao lado direito, uma espécie de disco-pimba-casa-de-alterne-foleiró-rosinha que debitou decibeis de música toda a noite cá para fora! perfeito! jantamos e dormimos que nem anjinhos e mesmo ali, quase no meio da cidade, ninguém nos incomodou!

saímos bem cedo! teríamos 70km pela frente. nada de especial, tudo seria em terreno plano, por isso não haveria qualquer dificuldade. por estradas secundárias, passávamos por pequenos povoados, onde apenas idosos sobreviveram. a paisagem era de cortar a respiração! o caminho corria ali no meio, entre colinas e o rio, que nos acompanhava! as nuvens passavam de quando em quando. as vinhas eram às centenas e podíamos apanhar fruta na estrada outra vez! que alegria! encontrávamos água em todo o lado! pessoas simpáticas! cafés onde, um ou outro grupo de idosos se encontrava para passar o dia frente a um frappé! entrávamos e tentávamos absorver ao máximo todo aquele tempo que nos dispensavam! no fim, sempre as perguntas normais: de onde vínhamos, para onde íamos, se gostávamos da grécia e as normais indicações até trikala - o nosso destino - mesmo que no fim do dia, em vez dos planeados 70km, tivessemos feito 90! tudo bem, adoramos a jornada!

trikala apareceu ao longe, com os seus mais de 50.000 habitantes. um amigo de ovar - o diogo batata - a fazer erasmus aqui e a viver com mais 2 colegas da universidade - o diogo martinez e o luís castro - iria receber-nos no seu apartamento durante os próximos dias! uma casa! um lar! falar português! cama! tecto! aquecedores! internet! uau!

3 comentários:

Paula Vidigal disse...

REalmente vocês são uns felizardos, a liberdade, (conceito vago mas que pela minha inveja de estar presa a tarefas e a monotonia) assenta-vos que nem uma luva. Continuem a dar notícais e a explorar cantos ao mundo!

MagikPoiZion disse...

adorei a alegria deste post!!

xistacio disse...

boltem pra casa mazé!
xulos

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