isto da grécia...

"isto para mim é grego" - foi o cliché usado por nós mal tentamos ler a primeira placa com as direcções na estrada. vimos também, logo à entrada, que os preços seriam bem mais altos que na turquia. no entanto, ao contrário do país anterior, tínhamos aqui contactos para dormirmos em casas, o que nos ajudava no orçamento diário!

a primeira cidade digna desse nome por onde passamos, foi
alexandropolis, uma cidade fundada no século XIX por alguns pescadores e que mais tarde, foi pensada a servir militarmente o exército da união soviética aquando da guerra com a turquia. a cidade é percorrida por várias ruas que correm paralelamente à costa e não tem qualquer interesse histórico. depois dos russos, foi a vez do império otomano, depois os búlgaros - aliados da alemanha nazi, que ocuparam esta cidade entre 1941 e 44 até que, decorria o ano 1949, e já depois da guerra civil, a cidade pode por fim crescer e ver a sua população aumentar visivelmente. nós, tínhamos um contacto para ficar em alexandropolis por uma noite, até ao momento em que soubemos que o casal que nos receberia, não se encontrava na cidade. azar. teríamos obrigatoriamente de acampar outra vez e estar mais 1 dia sem tomar banho, o 2º...nada de mais! uns quilómetros depois da cidade, olhámos para o lado direito e um olival pareceu-nos servir perfeitamente! eram às centenas, as oliveiras e por trás de várias delas, montamos a tenda e aguardamos a noite, cozinhando, conversando e colocando a conversa do dia...em dia, visto que quando pedalamos, raramente falamos, pois isto não é a holanda e temos que pedalar um à frente do outro.

a manhã nasceu e a tenda estava seca, sem qualquer orvalho, o que é coisa rara nesta viagem! desmontar a tenda e guarda-la seca é uma felicidade. (acreditamos que no fim desta viagem teremos apetitosos cogumelos a nascer algures, nas entranhas deste nosso lar!) fugimos daquele olival como clandestinos e mais à frente, tomávamos a estrada secundária que, ao contrário daquela qu
e levava os automóveis, trepava montanha acima. tudo era feito muito lentamente e depois de uma paragem no cimo da mesma, a tanya acelerou enquanto o rafael fazia um xixi e só se voltaram a ver 10km mais tarde, quando avistaram um café e decidiram parar para se agasalharem com um nescafé bem quentinho! "kalimera" para aqui, "kalimera" para ali (quer dizer bom dia) pegaram nas bicicletas e partiram com destino aos 9000km que só se aperceberam de terem passado 4km depois da marca certa. foto da praxe! cliq! cliq! e a viagem continuou!

komotini
seria o destino desse dia e o ginn esperava-nos em casa da sua família. depois de nos encontrarmos com ele no centro, este levou-nos a conhecer o sítio onde passaríamos os 2 dias seguintes. não era um hotel, mas estava perto disso! "não precisam levar nada" - disse-nos - "guardem a comida e esqueçam toalhas e sacos-cama. temos tudo o que precisam" e as notícias alegravam-nos! um quarto para nós (que viemos a saber mais tarde, era o dos pais, que para isso dormiram separados, um na sala e outro com a irmã), um duche quentinho e comidinha à maneira...vegetariana! só no dia seguinte cozinhamos uma bolonhesa de soja e tudo o resto, foi à conta da casa! o nosso anfitrião era generoso, simpático, mas longe de ser o nosso estilo de anfitrião ideal, visto que os gostos eram diferentes. nós interessamo-nos pelas pessoas, pelas culturas, pela etnias, pelas diferenças. ele, pelos copos, pelos bares e pela noite. conclusão: tivemos um fim de dia diferente, muito diferente do normal, bebendo uns quantos copos num bar da moda. o melhor, foi que não nos deixou pagar nada e a seguir ainda fomos comer. apesar de termos tentado chegar-nos à frente com a nota, ele disse para a guardarmos, pois precisaríamos desses euros para continuar a viagem. obrigado!

xanthi
, seria seguia-se. sabíamos que era uma cidade com alguma história, ligada toda ela à produção do tabaco, o que fez com que a cidade possua hoje dentro do seu centro histórico, autênticas mansões, belíssimas, todas elas demonstrando a extrema riqueza que aqui se viveu até meados do século XX. sabíamos também que seríamos recebidos por um casal que a princípio pensávamos tratar-se de um espanhol e de uma grega. a certeza que tínhamos também, era que ficaríamos por duas noites. o que desconhecíamos completamente, era que pedalávamos para aquela que seria a melhor experiência da viagem até agora. o que desconhecíamos também, era que afinal era um casal grego, mas ele dominava completamente o espanhol. não sabíamos também, era que as duas noites se transformariam em 4. por fim, nunca imaginaríamos que esta seria a primeira cidade onde nos apeteceu verdadeiramente ficar por um mês, pelo menos e que chegámos a colocar isso em cima da mesa e que, apesar de já um pouco longe, ainda não está posto de parte! o que tem então xanthi de tão bom para nos seduzir tanto?

um casal de professores: o yorgos e a irini, ambos a leccionar nas montanhas que dividem a grécia com a bulgária. estas montanhas, bem longe da normal sociedade grega, são lar de uma minoria étnica conhecida como os pomacos, que são muçulmanos de origem búlgara. o estabelecimento onde o yorgos ensina, é o único existente para um total de 50 pequenas aldeias espalhadas aqui e ali, algumas delas a dezenas de quilómetros da escola. estes dias, passados com eles e com mais alguns professores amigos, serviram para percebermos um pouco mais da realidade destas comunidades. os pomacos, como já dissemos, são muçulmanos de origem búlgara. no entanto, aquando das guerras existentes entre os 2 países e mais recentemente a 2ª guerra mundial, a grécia - país capitalista - e a bulgária - país comunista - encerraram as fronteiras, impedindo as pessoas de as cruzarem. o que aconteceu, foi que as famílias perderam as raízes com o país de origem e muitos deles, até o afastamento com os familiares. por incrível que pareça, ainda hoje e apesar de ambos os países pertencerem à união europeia, a estrada que liga os 2 países nesta zona, é quase inexistente. assim sendo, os pomacos ligaram-se mais, pela razão religiosa, aos turcos. o problema que acontece então, é que em casa falam o dialecto pomaco e na escola aprendem o grego e o turco. conclusão? é raro aquele que domina qualquer uma das línguas em condições, o que faz com que a sua integração na sociedade seja dificultada. o yorgos, a irini e os outros professores, tentam a todo o custo minorar este afastamento, promovendo encontros vários, idas a festas tradicionais, entre outras coisas. e foi aqui que nós caímos, no meio de todo este encontro de culturas...e adoramos!!! serpentear montanha acima, chegar a aldeias que são o fim do caminho, ver festas enormes com as mulheres com as roupas tradicionais, homens que comem dum lado, mulheres que comem do outro, comida que é distribuída numa espécie de embalagens take-away, tirar os sapatos e sentarmo-nos no chão, no meio de toda aquela confusão, com todos aqueles olhos curiosos virados na nossa direcção, contarmos um pouco da nossa história, tentar saber ao máximo a deles e a delas (que aqui, ao contrário da maior parte das comunidades muçulmanas, são livres de usar e agir como querem, de estudar, de trabalhar, de guiar motas e carros!), ser convidados para cafés em casas de família, passar horas a conversar, adivinhar o futuro em chávenas de café e ver que aquilo que dizemos, mesmo que muito inventado, faz com que acreditem num futuro melhor, porque só poderíamos dar boas notícias, despedirmo-nos de todos eles, calçar os sapatos, caminhar para o carro, apanhar oregãos da berma da estrada, ver vacas a pastar em locais onde só cabras malabaristas, pensámos nós, poderiam chegar e olhar mais uma vez para trás e, dentro de nós, sentir que só aqueles 2 dias ali, com eles, valeram já a nossa estadia na grécia!



mas no dia seguinte...


...no dia seguinte, depois de termos pastado o dia inteiro em casa, a comer e a preparar aquilo que seria o nosso grande jantar, o yorgos chega e diz-nos: "hoje tenho que ir dar uma aula, como voluntário, numa comunidade de ciganos aqui mesmo ao lado. querem vir?" - não era preciso perguntar, claro que queríamos. às 4h, já estávamos à porta à espera de sair! atravessámos a linha de comboio, fronteira entre a cidade a comunidade cigana e pareceu-nos estar a entrar noutro mundo, muito mais pobre, com caras totalmente diferentes, costumes diferentes mas com uma vida na rua como ainda não tínhamos visto em nenhum local na grécia. "dizem que este sítio é perigoso, mas não vão ver em toda a grécia tantas crianças na rua como aqui!" - disse-nos o yorgos. depois de termos estacionado o carro, entramos numa espécie de associação cultural e vimos mulheres a preparar uma receita tradicional que, notamos, era vegetariana! após um frappé bebido à pressa, saímos para a rua com a ideia de nos perdermos por entre aquela povoação. "voltem por volta das 6h, que é quando acabo a aula" e saímos! logo nos primeiros metros, reparamos que aquilo que nos tinha dito era verdade, havia dezenas de crianças na rua. o que nos disse também, era que ninguém lá ia a não ser as pessoas que lá viviam e era verdade, éramos os únicos extra-comunidade. mas uns metros caminhados, as primeiras pessoas começavam a questionar-nos sobre o que fazíamos ali, de onde vínhamos, o que queríamos. tentávamos explicar o melhor possível, em inglês e nas poucas palavras gregas que sabíamos e, claro, com gestos, muitos! algumas crianças correram para nós e depois do comum "como te chamas?" as mãos ligaram-se e não mais se separaram até que saímos da comunidade, umas horas depois! fotos e mais fotos, perguntas e mais perguntas e muitos risos e sorrisos! estávamos rodeados de gente, dos mais pequenos, aos maiores e ao longe ouvia-mos música. encaminharam-nos para lá. um casamento, dois...três! música alta, muito alta e distorcida, mulheres que dançavam nos seus vestidos brilhantes, homens que bebiam e riam, pessoas a toda a volta a comerem arroz com carne que saía de uma grande panela, tiros para o ar, muitos tiros. muita festa! mais tarde, o yorgos juntou-se a nós e a festa continuou até voltarmos para casa e a festa continuar em casa, desta vez na companhia da irini e dum amigo deles.

preparámos o jantar, comemos até cairmos para o lado e a noite reservava-nos ainda uma sessão de danças tradicionais e muita música grega! foi dançar, rir e comer...fim de estadia perfeito! adormecemos com a certeza que no dia seguinte partiríamos mas querendo ficar. muito mesmo! pela manhã, o yorgos e a irini tentaram escapar-se sem nos acordarem. vimo-los pela porta entreaberta e quisemos saber onde iam, sem se despedirem. "durmam, durmam..." - repetiam, na tentativa de que ficássemos mais um dia, só mais um...mas não, abraçamo-nos e pouco depois de sairem, tomávamos um banho quente e pegávamos nas bicicletas que já não viam estrada há 4 dias! tirámos uma última foto com a sombra, a cadela deles e xanthi, ficou para trás, com todas a boas recordações. único!

6 comentários:

Rita Catita disse...

Estou verdadeiramente viciada no vosso blog, na vossa/nossa viagem!
Dou por mim a falar de vocês a amigos meus, a contar as vossas aventuras tal como se fossem meus amigos :)
Quando passarem por Lisboa contem comigo para vos oferecer um jantar vegetariano preparado por vocês! Só preciso que me digam quando chegam e o que precisam.
E olhem que este convite é a sério!
Tudo de bom, portem-se bem e acima de tudo divirtam-se!
Ana Rita

xistacio disse...

sombra foi o primeiro nome do pirralho! AH AH! TÁ FIXE!!!
kalu dromo! kali nirta, onira glicá, tycanis, etc!!! e em ultimo recurso: manatári magicô!!!
Xulos!!

Darkann disse...

Oláááá :)

Dou por mim, diariamente, colada ao vosso blog... desde antes de partirem que lia com alguma assiduidade mas depois do dia 8 venho sempre em busca de novidades fresquinhas... Isto porque 'invejo' a vossa coragem e ao mesmo tempo consigo sentir-me feliz por saber que realmente estão a disfrutar ao máximo!

(Tb foi bom ficar a saber que o João-meu amigo de escola primaria-casou e está feliz!)

A vocês os dois,continuações de boas histórias... Disfrutem desta vossa viajem.

Boas vibrações.
Amor.
Fiquem bem

O Escapista disse...

Que história fantástica :)
Gostei particularmente do cantinho de oliveiras que encontraram para acampar na primeira noite.

Abraço, boas pedaladas

Rjac disse...

olá tudo bem??
eu sei que sim
tenho acompanhado o vosso blog, e estou feliz por terem conseguido chegar onde chegaram, pois é estão na Grecia um pais que adorava conhecer, ñ se esqueçam de por aqui algumas fotoso de Atenas se passarem por lá, adoro aquela arquitectura toda.
Bjs e abraços para voçês, continuem força nos pedais xD.

Παναγιώτης Καλαϊτζής disse...

Raf and Tanya, I hope your journey is smooth and dry.
Glad to have met you. (In case my name is Greek to you, Panos, the guy with the red motorcycle, 10km after KAVALA)

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