últimos dias em espanha

de novo em pamplona. não porque tenhamos gostado da cidade quando cá estivemos mas sim como forma estratégica. foi em madrid que olhamos bem para o mapa e decidimos tomar uma decisão acertada. não seria de pessoas sãs atravessar os pirinéus por uma das partes mais altas, nesta altura do ano, não tendo sítio para ficar. "nós não somos doidos". o mais acertado seria fazer o caminho francês do caminho de santiago. isso não quer dizer que não será duro! será, com toda a certeza, mas sabemos que no final de cada etapa, teremos uma cama e um banho quentes, ficando nos albergues de peregrinos! é normal compararmos está viagem com a viagem anterior, e sentimos esta nossa estadida em espanha, bem diferente! estamos a demorar-nos mais, estamos a passar por pequenas aldeias que nos surpreenderam, por aldeias que nunca tínhamos ouvido falar. estamos a saborear mais, estamos sem pressas, estamos mais abertos a novas descobertas. antes de sair de portugal, sabíamos que madrid seria uma paragem obrigatória. não há um grande motivo... apenas por ser uma capital... ficámos cinco noites bem instalados, em casa da ana joão vide, de ovar.


madrid é grande, muito grande! madrid tem muitas pessoas. madrid é uma capital! ela não nos oferece muita história pois é uma capital muito recente. não estamos a dizer com isso que não vale a pena visita-la! há muita coisa para ver e fazer!

visitámos la casa encendida, com o bruno e a laura, que vieram de portugal para andarem com a câmara ao ombro e passar dois dias connosco. uma casa com mais de 1700 actividades por ano, com cursos na área do meio ambiente e social, tendo um especial trabalho com novos artistas e o voluntariado. no seu interior, temos um completo centro de recursos: biblioteca, rádio, fotografia, multimédia... no terraço encontramos uma pequena horta biológica e muitas pessoas sentadas no chão ou nos bancos corridos, a comer a comida trazida de casa.
uma paragem obrigatória é o museu reina sophia, um museu de arte contemporânea. o espaço em si merece uma visita e as exposições que
vimos foram muito interessantes. visitamos um dos pulmões de madrid, el retiro. um grande espaço verde, onde vemos muitas famílias a passear, pessoas a correr, a andar de bicicleta, de patins em linha... temos de estar sempre atentos a quem vem pela direita e pela esquerda. temos "profissionais" nessas actividades e temos aprendizes, por isso, todo o cuidado é pouco! conhecemos restaurantes onde nos deliciámos: pelo espaço e pela comida, mas se falarmos em quantidade... podemos dizer que os olhos ficavam com fome, quando o prato chegava à mesa, mas o sabor valia ouro! com fome, andamos nós, de conhecer novas coisas.

saímos de madrid e continuamos a insistir na dificuldade que é pedalar em espanha! sair de madrid foi uma loucura! parecia tudo tão simples, e seria, se não tivesse aparecido uma auto-estrada à nossa frente! dirijimo-nos às autoridades que estavam numa esquina com as mãos por detrás das costas.
- como fazemos para sair de madrid em direcção a guadalajara, sem ser pela auto-estrada, porque não podemos.
- não devem...
- não podemos - insistimos.
- não devem - insistiram.
e no meio desse jogo, conseguimos um trajecto e, mais à frente, deparamo-nos com outra auto-estrada. já começávamos a fervelhar! novos guardas.
- podem passar por aqui (auto-estrada) até à próxima saida e de lá, é sempre em frente.
assim foi! com a autorização da autoridade, pedalamos mais de 3 quilómetros, entre eles 2,5 eram de um longo túnel que passava por baixo das pistas do aeroporto de barajas! vimos a luz ao fundo de túnel e respiramos mais calmamente!

chegamos cedo a guadalajara, dando-nos tempo para a visitar na companhia da alícia que nos apresentou a cidade, outrora uma importante rota no comércio do país. ainda podemos ver uma das entradas da cidade, que servia de portagem a pessoas e bens, no caminho que ligava saragoza a madrid. guadalajara foi motivo de disputa entre muçulmanos e católicos durante séculos. traços dos vários povos que foram passando pela cidade são ainda visíveis em sítios como a catedral de santa maria da fonte, na qual se pode observar a torre da igreja que outrora foi um minarete e as portas da mesma em estilo árabe. encontramos também muitos azulejos em toda a cidade.
depois do passeio e da lição de história, voltámos para casa da nossa anfitriã, cicloturista, onde conhecemos as suas amigas também apaixonadas pelas bicicletas e que nos fizeram sentir como heróis! no dia seguinte, enfrentamos o frio e partimos sem sabemos o destino desse dia.



jirueque! conhecem? montamos a tenda, depois de nos terem dito que o melhor era voltarmos para trás, para a cidade, pois lá teriamos restaurante e hotéis.
- não temos dinheiro para hotéis.
- pois, mas aqui não há nada! não há comida, não há hotéis, não há nada! - insistia o homem.
uns metros à frente, encontramos um parque para crianças, com mesas e relva no chão. perfeito! montamos a tenda ao frio, e quando estávamos a preparar o jantar, um senhor aproxima-se:

- querem uns tomates?
se queremos uns tomates? acabados de colher? mas quem seria capaz de dizer que não a esta oferta? acabaram cortados num prato, com sal e oregãos!

mesmo congelando as mãos, os dentinhos foram lavados na fonte e antes de adormecer, o famoso joguinho de cartas!

- vamos até cincovillas!

a alícia falou-nos de um amigo que lá morava, mas nesse dia não chegámos à aldeia... íamos parando de terra em terra em busca de um café mas cafés, era coisa que não existia... continuávamos o caminho até parar numa terrinha com café mas esse encontrava-se fechado...

- só à uma é que abre! - disse-nos um senhor na beira da estrada - querem um café? entrem que eu preparo-vos um!
café com leite e um pacote de bolachas! ajudou a aquecer o corpo e foi graças a esse senhor, que conhecemos atienza! fizemos um pequeno desvio para comprar comida e foi quando chegamos lá que decidimos ficar mais do que o pensado!

é uma pequena cidade realmente muito bonita! o simpático senhor tinha-nos avisado!
- vale mesmo a pena!



a aldeia encontra-se num pico rochoso e é de uma beleza rara! tudo muito bem cuidado, bem recuperado, e o castelo construido pelos árabes e posteriormente ampliando pelos reis católicos que, do seu alto e rodeado das suas enormes e largas muralhas, tudo olha de cima!
dirijimo-nos ao posto de turismo e perguntamos se nos podiam ajudar a encontrar um sítio para passar a noite. ficámos no pátio coberto da câmara municipal onde soubemos mais tarde que era onde os peregrinos passavam a noite. vimos que é uma das paragens de um dos caminhos de santiago, mas como muito poucas pessoas passam por lá, não viram ainda necessidade de construir um albergue para eles.

antes de visitar a cidade, consegimos tomar um banho, ou algo parecido... a água fazia doer os ossos de tão gelada que estava! enchíamos o nosso "alguidar" (serve para lavar a loiça, a roupa, e para pequenos banhos) e lá
nos conseguimos lavar! foi uma nova experiência que deu para enganar o corpo. nessa noite, os nervinhos começaram a aparecer... não conseguia dormir com o incrível e impressionante ressonar de um japonês que pediu abrigo nesse mesmo dia. tivemos de mudar de andar e ficámos arrependidos por lhe ter emprestado as nossas mantas polares! dormiu como um anjinho, foi o que foi!

novo dia, de novo sem destino! cinco quilómetros à frente, parámos em cincovillas.

- se o amigo da alícia estiver, ficamos cá!
não apareceu.... e não tivemos coragem de tocar a campainha, já que era domingo e pouco passava das nove... de novo na estrada em direcção a almazán que já podíamos considerar uma grande cidade... voltámos a tentar o truque do posto de turismo mas este encontrava-se fechado. batemos à porta do lado, na polícia:
- há um sítio onde podem passar a noite. eu levo-vos até lá - disse-nos o guarda.
arrependo-me de não ter tirado fotografias ao espaço! como posso descrevê-lo? aquilo era podre! cheirava mal... qualquer pessoa podia abrir a porta, pois não tinha fechadura. a casa de banho era horrivel. tudo era mau! as camas tinha cada uma um cobertor que metia dó e o polícia ainda se saiu com esta:
- é para os pobres.

é para quem?! desculpe mas não percebi! os pobres??? e os pobres não merecem um cantinho mais bem cuidado? ou o pobre é sujo? dormimos em qualquer sítio mas aquilo caiu-me muito mal e sentiamo-nos muito mais seguros na tenda no meio do mato! o rafael que já esteve na índia, dizia que nunca tinha visto nada como aquilo, nos sítios mais pobres por onde passou!!!
pegamos nas bicicletas e fugimos! por muito que estivéssemos cansados, continuamos o caminho! paramos em viana de duero! e paramos bem!
- ponham a tenda naquele parque infantil, vão ficar melhor! estão perto de minha casa e perto do teleclub! - disse-nos uma idosa.
fomos bem recebidos pelas senhoras da aldeia. estávamos abrigados do vento e depois da tenda montada, jantar e mini banho com o famoso alguidar dentro da tenda, fomos ao teleclub, enrolados nas nossas mantas polares!
foi giro lá entrar! um pequeno café onde só entram os sócios! as senhoras estavam a jogar às cartas e os homens a ver televisão. bebemos o nosso café com leite e não demoramos muito a nos irmos deitar! pensávamos que o ambiente seria diferente... pensavamos que estariam lá dentro na conversa e que teriamos um serão mais animado... mas não... uns jogavam cartas, outros viam televisão... fomos dormir cedo!

no dia seguinte, tentamos pedalar com o casaco polar vestido mas passado cinco minutos, o calor já era muito... menos nos dedos das mãos e dos pés que pareciam cubos de gelo! o vento é terrivel e quando é de frente, dá vontade de o tratar mal e atirar para o ar uma meia dúzia de palavras feias! o certo, é que estávamos na maior planalto do país! fazíamos todo o trajecto a mais de 900 metros de altura. era complicado pedalar com tanto vento e há uns dias piores que os outros e, nessa manhã, acordamos com energias diferentes! houve uma altura que tivemos de parar as bicicletas e conversar com calma. há dias que o corpo não consegue puxar mais, está cansado. tinha os joelhos a precisar de "óleo"... foi um dia terrivel!!! mas terminou bem em ágreda! ficamos numa casa da paróquia com banho quente e tudo! e sorte a nossa que o senhor que dormiu no mesmo quarto, não ressonava! ainda nos armamos em fortes e mesmo com o frio, saímos para visitar um pouco a vila , enquanto procurávamos uma pizzaria. não encontrámos nada! nada de bonito, nada de interessante e nada de pizzaria! voltámos para "casa" e comemos o que tínhamos: massa com alho em pó, azeite e oregãos...



se há dias que são muito duros, há outros que tudo está a nosso favor! partimos para tudela, onde a anais nos esperava. descemos para os 200 e poucos metros e na recta para tudela, o vento estava pelas costas! bom! batemos o nosso recorde de 21 kms/h! maravilha! tudela, visita-se num dia! cidade habitada há séculos por muçulmanos, cristãos e judeus, conserva uma série de catedrais, praças e outros palácios que estariam bem melhor integrados se umas boas mãos entrassem em trabalhos de recuperação na cidade inteira. as casas estão velhas e em muitos locais, a desmoronar-se. há quem tente embelezar as paredes com grandes graffitis que dá alguma alegria à cidade mas não é suficiente.

a poucos quilómetros de tudela está o parque natural de
las bardenas reales - um parque natural
com mais de 45500 hectares, património da biofera da unesco desde 2000... temos a sensação que nos encontramos fora de espanha! tem um aspecto lunar! em tempos espaço de caçada de reis espanhóis e local de refúgio de muitos bandidos conhecidos da história espanhola, continua a ser um espaço de cultivo e pastoreio e serve ainda outras actividades como por exemplo a rodagem de filmes, como um da saga james bond, simulando as paisagens do cazaquistão. a erosão provocou, ao longo dos anos, um território árido, de quando em quando com elevações que nunca passam os 660 metros e a sua maior atracção é o castillodetierra - um pico arenoso que perde todos os anos parte da sua beleza e que desaparecerá com toda a certeza na próxima década. existe até um grupo nas redes sociais da internet que alerta para este problema e que lembra as pessoas que deveriam tirar uma fotografia frente ao mesmo para se ver a sua transformação e, com muita pena, o seu desaparecimento, que está cada vez mais perto!



carcastillo não ficava bem na nossa rota para pamplona... somaríamos mais 40 quilómetros, passando por lá, mas como sabíamos que não precisávamos
de montar a tenda, fomos até lá
conhecer o nosso anfitrião! não o conhecemos pois afinal não mora lá mas sim em pamplona... não ficamos em sua casa, pois ele esqueceu-se de deixar as chaves à sua mãe... mas para tudo há uma solução! não ficámos com o igor, mas ficámos com a mãe. a senhora estava a tomar conta de uma amiga que se encontrava doente, acamada e o marido da amiga, também passava lá as noites. não nos tínhamos rido tanto em toda esta viagem! o senhor tinha 69 anos mas gabava-se de ter 15 na sua cabeça, o que deixava as senhoras cansadas de o aturar! cigarros atrás de cigarros, iam-se picando uns aos outros provocando em nós cada vez mais riso. jantámos cedo e juntamos os dois sofás, formando assim uma bela cama de casal e tentámos adormecer por entre os risos deles. não temos nada para falar sobre carcastillo... não há nada para ver! nada!!! até parámos na praça, quando vimos várias pessoas agrupadas e perguntámos o que iria acontecer, na esperança de vermos algo interessante.
- um enterro, uma senhora de idade avançada, faleceu...



...e cá estamos nós em pamplona, onde finalmente conhecemos o igor! tivemos uns dias muito bons na estrada até aqui! e agora olhamos pela janela e vemos o início dos pirenéus! amanhã será um dia duro, temos a certeza! mas temos a certeza que venceremos mais esta etapa!

e vai aço!

4 comentários:

o santareno disse...

Fantástica a descrição destas etapas, fazendo-me sentir uma inveja enorme.
Muita coragem e muitas forças para os dois

MadeiradaSilva

Pirate disse...

Continuação da boa "cruzada".
Os Pirinéus já estão à vista e a saga continua...
Ainda bem que vos sobre tempo, engenho e energia para postar por aqui as vossas aventuras e desventuras. Tenham consciência que nunca estarão sózinhos nessa grande viagem transcendente. Há sempre internautas ávidos por notícias. Podem não comentar, mas vão seguindo a vossa Odisseia com prazer :-)
Imaginem só as centenas de história, de episódios maiores e menores que vão ter até Macau...
Pedalo, logo existo :-)

Ção Pitada disse...

Que tudo vos corra sempre bem!!! Abraço forte aos dois!! Ção Pitada ( Guimas)

Valdeis Barreto disse...

Sou do Brasil e estou lendo a história de voces e adorando tudo. Pretendo fazer uma viagem similar a de voces e vou importuná-los mais pra frente, pois pretendo ficar uns 6 meses viajando pela europa, já comecei a me preparar fisicamente, mas só irei fazer esta viagem em 2014 e espero contar com as dicas de voces.
Um grande abraço e se por acaso vierem ao Brasil, moro perto de Recife - PE, me procurem (valdeis@hotmail.com, abraços

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