dias em família

saímos de alexandria levados pela corrente do tráfego e preferimos não escolher a estrada ao longo da costa. fugimos para as pequenas ruas, encontrando aldeias no meio do nada. entre cada aldeia, tínhamos nas bermas, um cemitério de animais não enterrados. vimos vacas, cavalos, burros, cabras e ovelhas. gatos e cães, era todos os dias! custa passar devagar por eles mas nós viajamos devagar... uns estão inchados, uns estão esfolados, outros já estão com o esqueleto à mostra. custa muito abrir um buraco e enterra-los… a berma é para isso mesmo, depositar os corpos dos animais que já não servem para nada.
saímos sem saber onde iríamos parar, sem saber o que iríamos encontrar. entrávamos nas aldeias e sentíamo-nos como verdadeiros heróis. os convites para beber chá eram muitos, sendo obrigados a recusar uns quantos. os tok-tok (motorizadas transformadas em táxis) perseguiam-nos e acreditem que dava vontade de perder a cabeça! foi cansativo, foi enervante e só queríamos que eles desaparecessem simplesmente! mas eles teimavam em seguir-nos dizendo constantemente: “i love you, i love you, i love you” ao qual eu gritava já bastante nervosa: “i don’t love you, i don’t love  you, i don’t love you” mas quanto mais me enervava mais eles achavam piada. a verdade é que explodi e soltei umas belas palavras portuguesas, num tom bastante agressivo. bem encostada ao tok-tok, “o que é que tu queres oh ca#*!lho? o que é que tu queres oh car#!*lho?” e se não estivesse de bicicleta, tinha-me atirado a eles! ficaram assustados, pois não estavam a espera de tal reacção, ainda por cima, vinda de uma rapariga, mas claro que não desistiram, voltaram e foi a ver do rafael intervir. num movimento repentino, meteu-se à frente do tok-tok, fazendo com que este se desviasse e por pouco não bateu contra uma carrinha. e assim a brincadeira terminou e seguimos caminho em paz.
nas aldeias, o alcatrão é inexistente. ou pedalamos por terra batida em muito mau estado, ou pedalamos num mar de lama, onde rezávamos para não pousar os pés no chão. a minha reza nem sempre foi ouvida e tive o azar de mergulhar o pé. a sensação não foi nada agradável.
estávamos em mutobis quando o sol estava prestes a deitar-se e achámos por bem começar a procurar sítio para montar a tenda. uma família acolheu-nos, oferecendo-nos dois sofás para passarmos a noite no mesmo compartimento, pois somos casados. comemos, embalamos os bebés, tiramos fotografias, explicamos a nossa viagem com gestos e com desenhos, e com gestos eles disseram que éramos boas pessoas e que gostaram de nós e com gestos nós agradecemos e dissemos que eles são boas pessoas e que gostamos deles! e assim tornamo-nos grandes amigos, recebendo ainda hoje, chamadas para saber como está a correr a viagem e quando é que os vamos visitar. por telemóvel não há gestos mas há sempre alguém por perto que fale árabe. 

 

o que não se come ao jantar come-se ao pequeno-almoço. assim, cheios de energia, depois de uma noite mal dormida, lutando contra as melgas, partimos à aventura. de novo no meio do caos das pequenas aldeias, de novos os tok-tok colas, irritantes, chatos, enervantes, fatigantes…   


de novo a terra batida ou a lama, de novo o cemitério de animais, de novo os convites para os chá, de novo os “welcome!” os “where are you from?”, de novo o lixo em todo o lado!
uma carrinha parou, e recebemos um convite para jantar. o inglês não servia para comunicar…  como explicar que não podíamos jantar porque depois ficava escuro para procurar sítio para dormir… tentámos e tentámos perguntar se podíamos dormir em casa deles. mostrámos o famoso papel e um grande sorriso e o movimento com a mão, deu-nos a entender que éramos bem vindos, e que podíamos seguir a carrinha até casa.
- slowly, slowly.
- it’s ok! – dizia ele.
foi das noites mais bem passadas! uma família bem diferente de todas as outras! a mabruca ensinava-nos árabe, enquanto preparava a sopa de lentilhas. o jantar estava óptimo, a companhia estava óptima… sentimo-nos bem! fim do jantar e o dominó saltou para a mesa enquanto o rafael saiu com o toré. passado meia hora, chegaram. a seguir, foi a vez da mabruca me levar à rua e senti-me como a atracção da aldeia. levou-me a uma casa onde me apresentou a duas amigas. levou-me a outra casa, onde nos sentamos todas na cama a comer laranjas. fomos comprar tangerinas, pão e em cada sítio que parávamos, explicava quem eu era. e por fim, mais duas amigas me conheceram. Notava-se que estavam contentes por nos terem lá e nós estávamos contentes por ter conhecido uma família fantástica, onde nos divertimos muito! recebemos o convide para ficarmos mais um dia, mas não foi possível… despedimo-nos rapidamente sabendo que aquelas pessoas nunca mais seriam esquecidas! 

 

saímos de hamul e um rapaz segui-nos de bicicleta. ele seguia-nos sem falar. passado 20 quilómetros, despediu-se e voltou para trás! há adolescentes irritantes mas há outros que nos derretem o coração.
chegámos a damyeta ou melhor, a nova damyeta! não foi fácil lá chegar… as indicações eram sempre diferentes mas com 20 quilómetros a mais, conseguimos chegar! parecia que estávamos noutro país! ficámos em casa da maria, uma espanhola que vive no egipto há 9 anos, por motivos profissionais. a casa era uma casa! estávamos em casa!
onde estava todo o lixo típico do egipto? ui ui, que estranho! tudo era mais calmo, mais limpo mas sem vida, sem nada… aproveitamos para não fazer nenhum e lavar a roupa – na lavandaria! coisa fina! dormimos sem melgas, sem tampões nos ouvidos – resumindo: dormimos bem!!!

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