jordânia, jordânia

à saida da polícia, onde passámos a noite, avistámos ao fundo uma placa azul: kings way! lá estava ela, a tão esperada, tenebrosa e mítica estrada! quem viaja de bicicleta, tem obrigatoriamente de passar por ela mas lemos em vários sites que o melhor é não levar mais de 15 quilos. nós andamos a puxar uns 25, mais o atrelado e mais todas as prendas...
saímos confiantes pois foi-nos dito que depois da subida que estava mesmo à nossa frente, seria sempre a descer até petra. é estranha a noção de descida, das pessoas daqui... sim, uma coisa é certa, descemos muitas vezes mas sempre entrecalando com subidas! mas que paisagens tão bonitas! a estrada vai rasgando o monte seco e cada quilómetro que fazemos é um suspirar de bem estar! pode não ter sido fácil chegar a petra mas tudo à nossa volta era grandioso e era nosso naquele momento!

fizemos o caminho sem pressas pois queríamos tirar fotografias a tudo. viva as máquinas digitais!
chegámos a wadi musa e tivemos uma pequena amostra de petra. tem de haver uma forma de entrar sem termos de passar pela bilheteira. petra estava ali, aos nossos olhos e estes tentavam encontrar uma possivel passagem.
o nosso anfitrião esperava por nós na aldeia dos beduinos e isso fez com que somassemos mais uns quilómetros e que suássemos um pouco mais. lemos nos seu perfil que iríamos dormir numa caverna! estávamos ansiosos! chegámos à aldeia e ele tinha uma casa mais que normal... arrumámos as nossas coisas e depressa nos encontrámos com um copo de chá nas mãos.

- preparem as vossas coisas, vamos para a caverna, jantámos lá e tomámos o pequeno almoço antes de voltarmos para aqui.


a caverna sempre existia e podemos dizer que é incrivel! entrámos na carrinha e fizemo-nos à estrada. o alcatrão deixou de existir e começámos aos solavancos, montanha fora.

- a caverna fica ali - apontava lá para o fundo.


ao fundo só havia vários montes, pedras gigantes... qual delas seria a "casa"?


os nossos olhos ficaram enormes ao ver de frente a caverna, com mais de 2000 anos! não queríamos acreditar! acendemos a fogueira e começámos a cozinhar. ele percebeu que éramos vegetarianos e não cozinhou carne para nós mas os caldos de galinha, foram colocados em tudo o que era tacho e não tivemos coragem de dizer um "ai, não" estávamos no meio da natureza, longe de tudo e de todos, sem luz, sem água e sem casa de banho, a cozinhar na fogueira, tudo como no tempo antigo mas os cados de galinha, vieram quebrar todo o encanto.

o chá era aos litros e o açucar nele, ao quilos! (um toque de exagero, fica sempre bem)
ficámos 7 dias na aldeia dos beduinos e só ao 5º dia, fomos a petra. tínhamos de estudar bem o plano! na pequena petra (ou pedra dos pobres, pois a entrada é gratuita) que já deixa a boca aberta, disseram-nos que podíamos, dali, caminhar até petra, depois era só rezar para que nenhum guarda perguntasse pelo bilhete, mas se formos ao fim da tarde, não correríamos esse risco. ao fim da tarde não queríamos ir e a ideia de sermos apanhados sem bilhete, também não nos agradava...
ao 5º dia, fomos a petra sem pagar! querem que desvendemos o segredo? deixamos em baixo o nib para depositarem um agradecimento!
um bilhete para um dia, custa 50 dinares (perto de 52 euros), o bilhete para dois dias, 55 dinares e para três dias, 60 dinares. conhecemos uns americanos que dormiram na caverna e que visitaram petra no dia seguinte. pedimos para comprarem um bilhete para dois dias, assim nós ficaríamos com o do segundo dia. ok, assim não é totalmente de graça mas podemos pagar apenas os 5 dinares a mais, ou pagar metado do bilhete. não sei se foi por causa dos nossos lindos olhos mas eles não aceitaram o nosso dinheiro!
no bilhete do segundo dia, vem escrito o nome da pessoa que comprou... esse é o pequeno problema, mas não se entrarmos pelas traseiras. na aldeia dos beduinos, há uma entrada para petra com um guarda que é beduino e que não levanta problemas! quem entrar pela entrada principal, pode ter que mostrar o passaporte para confirmar o nome. simples!


soube bem entrar em petra sem pagar mas se tivessemos comprado o bilhete, não ficaríamos arrependidos! é incrivel!!! cada canto respira história. dá para ficarmos tipo estátuas, sem reação e com cara de parvos em frente a toda aquela "arquitectura". petra é enorme, é grandioso, é majestoso... imaginar aquilo com vida, arrepia! o mosteiro, onde poucos vão, é impressionante. e o tesouro, não decepciona.


tivemos das vistas mais incríveis! há placas que dizem que se vê o fim do mundo. as montanhas nuas e secas desaparecem e fica uma enorme planície a perder de vista. arrepia! não tivemos muita sorte com o dia. o sol não aparecia e isso não ajudou nas fotografias...

daqui a 3 meses os bilhetes passarão a custar 70 euros e em 2012, mais de 100, por isso, aproveitem antes que a jordânia seja apenas para turistas ricos.

não podemos deixar de falar da bedour. uma menina de 11 anos que conhecemos quando nos passeávamos pela aldeia. ela apareceu com o a sua burra, depois de ter vendido alguns postais em petra. meteu conversa connosco, num inglês perfeito. aceitámos o convite para beber chá em sua casa. porque não? aquela menina caiu nos nossos corações!
o caminho até casa não foi nada fácil... os burros estavam doidos e que doidos!
conhecer aquela família foi das melhores experiências! foi tão bom, que os dois dias seguintes estivemos com eles, ora a beber chá, ora a jantar, ora a rirmos às gargalhadas.
não conhecemos os 15 irmãos/ãs mas conhecemos uns quantos, assim com a sua mãe e a outra mulher do pai. conhecemos uma família humilde que oferece o que tem e o que não tem, sempre com um enorme sorriso! o barulho era constante, sempre aos berros uns com os outros. o mais velho berra com o mais novo e o mais novo berra com o ainda mais novo, e assim são educados. mas os olhos da bedour enfeitiçaram-nos e só desejamos que ela seja feliz, no meio de toda aquela confusão. ela estava feliz por estarmos lá e nós ficávamos felizes com isso e feliz ela ficou quando nos levou a casa do irmão, onde me fecharam num quarto e me vestiram! foi uma festa naquele quarto, e o rafael sozinho na sala, à espera da diva!


- que nome vão dar se tiverem uma menina? - perguntou ela

- petra.

ela não gostou da resposta, disse que não era bonito.

- bedour - dissemos.

ela sorriu envergonhada escondendo a cara e fez-nos prometer!

um chá no deserto

entrar na jordânia

as bicicletas fizeram os primeiros quilómetros na jordânia e estavam felizes por isso! a do rafael continuava a queixar-se do furo que tinha desde o egipto. foi quando chegámos ao centro de aqaba que tratamos do dói-dói da menina e enchemos o nosso estômago, com novos sabores. 
passear em aqaba fez-nos bem! respirámos uma cidade bem mais limpa e com mais luminosidade. vimos mulheres a fumar shisha na praia e os homens a mergulhar na água. há algodão doce que se passeia para ser comprado, assim como o chá e o cavalo que é levado pela mão de uma criança, ao longo da areia. 
o choque foi ver os preços das coisas. habituamo-nos depressa aos preços do egipto. aqui, tudo é bem mais caro, por isso, antes de sairmos do egipto, comprámos 16 pacotes de noodles! nunca se sabe!
os preços assustaram-nos mas o que mais nos assustava eram as subidas que tanto ouvíamos falar! a king's highway, tínhamos de a fazer! é aquela estrada mítica que não podemos deixar escapar! 

 

saímos de aqaba com os pneus bem cheinhos para que psicologicamente, as primeiras subidas, não custassem tanto! numa delas, parámos para o beijinho nos 4000 quilómetros e continuámos caminho com as calças arregassadas e os braços à vista de todos!
estávamos a 10 kms de wadi rum quando decidimos parar e pedir para montar a tenda numa pequena terra que se dá pelo nome de salhia. estávamos numa aldeia de beduínos. em zurique, o joão disse-nos que quem viaja em bicicleta, tem um anjinho da guarda e devo confessar que ele está bem presente na nossa viagem (e devo ser eu a transportá-lo, porque a minha bicicleta está cada vez mais pesada...) não podíamos ter escolhido melhor porta! montámos a tenda e quando fomos ter com um rapaz para perguntar se seria possivel carregar uma bateria, ele convidou-nos para sentar à volta da fogueira. ofereceram-nos chá e víamos os homens a chegarem aos poucos e a sentarem-se. iam começar uma reunião e nos ficámos a assistir. estávamos na presença do sheikh ali, o chefe da tribo. conhecemos o abdarhman, que está à frente da protecção dos orex. trabalha em
 wadi rum e fomos convidados para o acompanhar no dia seguinte. estávamos com os beduinos que nos proporcionaram um serão que mais parecia uma cena tirada de um filme! estavam contentes por estarmos lá e nós estávamos ainda mais contentes com todo aquele acolhimento! o prato da comida apareceu e não conseguíamos disfarçar os hmmm, hmmm durante a refeição.


acompanhámos o abdarhman ao seu trabalho e visitámos wadi rum sem nada pagar e com direito a guia. sempre com a janela aberta e braço estendido a disparar sem parar! saltámos na tão famosa rocha e sentimo-nos turistas a sério.

 

recomposemos o queixo que caiu com tamanha natureza e fomos ver e saber um pouco mais sobre o projecto da protecção dos orex. pessoas que protegem animais em via de extinção, só podem ser boas pessoas! e sim, as pessoas que conhecemos em salhia, são realmente boas pessoas! os momentos à volta da fogueira foram sempre acompanhados com muito riso e chá à mistura! passámos duas noites com os beduínos e saimos de lá bem carregados com muitas prendas!


foi a sair de salhia que encontrámos uma grande subida que nos levou mais de uma hora para vencer... mas antes, remendar um novo furo. essa tarefa é-nos cada vez mais familiar!
no topo estava um posto de polícia, a quem perguntámos se podíamos montar a tenda para passar uma noite, naquela montanha fria. "sejam bem vindos" 
estava frio e o comandante tinha essa noção, por isso abriu-nos a porta de um quarto, e disse que as bicicletas estariam mais seguras no interior e nós estaríamos bem mais quentes, com o ar condicionado ligado.
estávamos no escritório do comandante e ele aparece com uma laranja para nos oferecer. sentasse ao meu lado e descasca-a e queria fazer o mesmo para o rafael. volta a sair e volta a entrar com uma madalena. "chá, querem chá?" porque não? venha ele! bebíamos o chá ao som dos diferentes toques de telefone e entre eles, o som dos vários cuspos do comandante para um dos auscultadores, no meio de uma conversa não muito animada... olhava para nós e ria-se. não sei quantas vezes ele falou de nós pelo telefone, só sei que iam aparecendo pessoas para nos conhecer e uma delas, deixou um grande bolo que foi dividido para todos. o jantar apareceu e mal este acabou, xixi-cama!

estávamos cada vez mais perto de petra! aquele sítio que há muito desejamos conhecer!

últimos dias no sinai

tivemos um belo descanso em st. katherine! por menos de 6 euros a noite, ficámos no fox of the desert camp. a escolha não podia ter sido melhor! o preço é convidativo, (com um pequeno choradinho) os quartos são limpos, assim como as casas de banho. o problema, é que ficam fora do quarto e nem sempre há água quente. temos de escolher bem a hora do banho! à noite, juntamo-nos todos à volta da fogueira e assim se passa um bom bocado com as pessoas que lá trabalham e com os estrangeiros. no interior há um restaurante mas não fizemos lá uma única refeição. montámos a cozinha no quarto. não é que seja caro almoçar e jantar… ou melhor, para o egipto é caro mas para o estrangeiro não, ou melhor, 3 euros por refeição torna-se caro quando a comida não vem bem servida, ou vem fria, ou vem sem sabor, ou vem com pouca quantidade, ou as 3 coisas juntas. ouvimos várias queixas e até os que lá trabalham se queixam. “alugámos o restaurante mas era muito melhor quando éramos nós a cozinhar. agora, os turistas comem cá uma vez mas no dia seguinte não voltam”.
soube bem acordar com toda a tranquilidade daquele sítio! criámos pequenas rotinas: acordávamos cedo, pegávamos nas bicicletas ou íamos a pé até à povoação, que fica a 1 km. comprávamos pão que era atirado para um balcão, onde o apanhávamos ainda quente, e espalhávamos no chão, para arrefecer e não ficar colado. penso que seja para isso… limitávamo-nos a fazer o que as pessoas da terra faziam. comprávamos o resto do pequeno almoço e voltávamos para o fox camp onde nos sentávamos ao sol, com o nosso novo amigo alemão, para nos deliciarmos com as nossas sandes matinais!


ao fim da tarde e depois do jantar, íamos até à fogueira onde ouvíamos as piadas e adivinhas do ahmdi, um dos empregados mais importantes do fox camp. ele faz com que o sítio se torne ainda mais especial! sabe acolher as pessoas e sabe proporcionar óptimos serões. foi uma pessoa que gostámos muito e em que na despedida, o abraço foi mais sincero! outra cara que faz este sítio ser tão especial, é o faradje. um miúdo de 16 anos, apaixonado por uma miúda grega. pede-nos sempre ajuda para lhe enviar mensagens em inglês.

video

depois de 5 noites de descanso, partimos em direcção a nuweiba. há muito que não sentíamos dificuldades como naquele dia… o caminho era um sobe e desce constante e perdemos as esperanças de fazer 130 kms num dia. encontrámos um casal francês, com os seus 40's e muitos ou até 50 anos, a viajar de bicicleta. “saímos de frança há 5 meses e estamos na recta final da nossa pequena viagem. os filhos estão criados, por isso temos tempo!” compraram um terreno em frança onde vivem no interior de um camião, e construíram uma tenda mongol.
o rafael ficou inspirado por aquele casal. “vamos dormir esta noite no deserto!” mas que bela ideia que teve!

 
encontrámos o sítio perfeito, onde da estrada, ninguém nos podia ver. montámos a tenda e ficámos a olhar para ela… ora bem… do lado direito da tenda, tinha havido uma derrocada, do lado esquerdo, o mesmo… só faltava cair no meio, que era exactamente onde nos encontrávamos. “não deve cair esta noite…” olhámos um para o outro... silêncio… “ok, vamos mudar de sítio!”

a nossa primeira noite no deserto foi das melhores noites! ninguém veio meter conversa, tínhamos o silêncio só para nós! não encontrámos madeira suficiente para fazer uma bela fogueira mas enquanto durou, era bela!


acordámos e sabem quem estava lá para nos desejar um bom dia? ninguém! não estávamos com pressa de sair. arrumámos tudo nas calmas e preparávamo-nos mentalmente para a subida que deixámos no dia anterior, por estarmos demasiado cansados…
foi das poucas subidas daquele dia! depressa chegámos a nuweiba, com dores nas mãos de tanto descer e travar. avistámos de novo o mar vermelho e é sempre uma grande emoção quando vemos mar! o sorriso fica maior, há um aperto no peito e só temos vontade de gritar e dar pulinhos de alegria!
depois de vermos muitos hotéis à beira mar, escolhemos aquele que nos ofereceu por menos de 6 euros, um quarto com casa de banho, água quente, internet e tudo muito limpo!

 
os hotéis com pequenas cabanas estão espalhados por uma distância de 15 kms. mesmo havendo hotéis fechados, continuam a construir mais e mais e o que está fechado a cair de podre não é retirado o que torna tudo muito mais degradante.
éramos os únicos naquele! voltámos a transformar o quarto em cozinha e decoramos com roupa pendurada, a secar! mesmo estando sozinhos, o hotel mantém todos os empregados a trabalhar, à espera de clientes, ou na esperança que jantemos, ou à espera de algo que não percebemos o que poderia ser. sempre em frente da televisão, os empregados esperam e esperam. isso não acontecia apenas no nosso hotel, isto acontecia em todos que se mantinham abertos e alguns, sem uma única pessoa.
as praias têm um ar de falso tropical com toda a falta de cuidado que existe mas descansámos e passámos um bom bocado.


no dia 20 de janeiro, acordámos cedo para apanhar o barco que nos levaria para a jordânia. este último dia no egipto foi, sem dúvida, o pior dia! saímos do país com uma pequena raiva!

passamos a explicar:
fomos aos correios e eles queriam 50 euros para enviar três pequenas encomendas! primeiro, o facto de abrirem as encomendas, deixa-me fula! mas que falta de privacidade! respirei fundo e explodi, ou melhor, explodimos quando nos disse o preço que tínhamos de pagar! pegámos nas nossas coisas e virámos costas! um senhor lá fora disse que era assim porque estavam a enviar em correio rápido. ok, falta de comunicação. fomos dar uma nova oportunidade e dissemos que não queríamos em correio rápido mas sim em correio normal. ah e tal, afinal não era só por isso, tínhamos de pagar aquele valor porque estamos a enviar lenços fabricados no egipto, e temos de pagar taxas! lindo! voltámos a explodir! mas são doidos ou quê? já pagámos tudo e mais alguma coisa quando comprámos os lenços! claro que não vamos pagar aquele preço absurdo!  “são as leis do país!” resposta errada!!! dissemos tudo o que tivemos vontade de dizer! falamos mal deles e do país, que era por isso que o país não ia para a frente, que é só corrupção, que tentam  sempre enganar… blá blá blá… saímos chateados e mais chateados ficámos ao ver outro furo na bicicleta do rafael. não podíamos ficar ali a remendar o pneu… enchemos o pneu e fomos para outros correios.
estava com má cara e por duas vezes ordenei a um dos empregados para não sorrir enquanto olhava para mim! conseguimos enviar tudo pagando menos de 13 euros e, com esta história, perdemos mais de uma hora com tantas esperas, com tantas confusões!
o barco tinha como hora de partida o meio dia. eram 13h quando entrámos no barco. eram 17h quando o barco arrancou e chegámos às 22h à jordânia! respirámos fundo...“ já estamos noutro país!” 

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