com os pés na síria

Tínhamos a Síria a poucos metros de nós. Não conseguíamos disfarçar a nossa alegria! Estávamos curiosos para conhecer o país que tanta gente dizia ser especial e acolhedor. Ao chegar, já sentíamos os olhos do presidente e do pai a olhar para nós. Pedimos autorização para tirar uma fotografia, a primeira na Síria, acompanhados pelo presidente e claro, nunca esquecendo o seu pai. Quem também não tirava os olhos de nós eram os guardas. Uma fotografia, apenas uma fotografia e nada mais. Estranho, mas temos de respeitar as leis.
Parámos na primeira cidade, sem sabermos qual o nome. Trocámos dinheiro, tentámos ver os preços das coisas. Olhámos para as pessoas, a ver se sentíamos a simpatia, mas não deu para sentir muita coisa.
- Onde podemos encontrar um hotel barato? - perguntou o Rafael a uns senhores, na esperança que um deles nos convidasse.
- Só há dois hotéis. Um fica nesta rua, a 300 metros e o outro é um pouco mais à frente. – disse um dos senhores.
- Se eles me derem 300 libras podem ficar em minha casa. - ouvimos dizer o outro.
Olhámos um para o outro com ‘cara de burros’ e lembrámo-nos daquilo que aprendemos com os países vizinhos. Agradecemos e fomos à procura dos hotéis debaixo de chuva. Tínhamos dois hotéis à escolha, um de duas estrelas e outro de quatro estrelas. O Rafael foi espreitar o de duas estrelas.
- É caro! Que estranho, é mais caro que na Jordânia. E não me apetece levar as bicicletas para o terceiro andar! Queres ir tu perguntar ao de quatro estrelas, só por curiosidade?
A chuva continuava e o dia estava a terminar. Coloquei a minha cara de ‘gato do Shrek’ e entrei no elevador com o porteiro do hotel. O preço não foi do meu agrado e não deu para discutir muito. Estava triste. Voltei a descer.
- Então? - perguntou o Rafael.
- É caro, mas se este pede 1300, o de duas estrelas, por 1200, deve estar a pedir muito. Vou lá ver se a mim baixam o preço, é impossível ser tão caro aqui nesta terra. – pensei.
Voltámos ao outro hotel.
- 1200, é o meu último preço. - disse ele com um ar nada simpático.
Detestei aquele sítio. O tempo estava a passar e não sabíamos o que fazer. Estávamos todos molhados e cansados. Voltei para o hotel de quatro estrelas para ver se o dono do hotel já tinha mudado de ideias. De novo no elevador com o porteiro e de novo o senhor disse que não podia baixar mais. Mordi o lábio e entrei com cara triste para o elevador.
- Não baixou o preço? - perguntou o porteiro.
- Não.
O Rafael percebeu pela minha cara que não tinha conseguido nada e ficámos os dois com cara triste. Não era suposto correr tudo bem na Síria? “Se quiserem, têm casa todos os dias, as pessoas são fantásticas!” - lembrámo-nos da frase que o casal francês nos disse no Sinai. Ficámos parados. O porteiro aproximou-se e perguntou-nos quanto é que ele tinha pedido.
- 1500 no início e depois baixou para 1300. – respondi.
- Mas 1300 é o preço do quarto, na realidade ele não baixou nada.
O que ele foi dizer... A nossa estadia estava a começar um pouco mal.
- Quanto é que podem pagar? - perguntou ele.
Atirámos um número para o ar: 1000! Queríamos atirar mais para baixo, mas também não queríamos exagerar, com medo de parecermos ridículos.
- Tragam as bicicletas para o interior. - disse ele.
Não estávamos a perceber. Dissemos que não podíamos pagar o que pedia e ele insistia para que colocássemos as bicicletas no interior. Assim sendo, arrumámos tudo e tirámos apenas o que precisávamos para o quarto, sempre com um olhar desconfiado e a pensar “mas quem é este porteiro?”. Subimos no elevador e a simpatia do rapaz tinha desaparecido, mas o preço foi o que dissemos poder pagar. Tentámos ignorar a cara dele e fomos fechar-nos no quarto. Já no interior e com acesso à Internet, vimos que não estávamos a fazer bem a conversão. Afinal estávamos a pagar ainda menos do que aquilo que pedimos!
- Que chulos que nós somos! - desatámos a rir.
Agradecemos vezes sem conta ao porteiro, pois se não fosse ele teríamos de montar a tenda algures por baixo da chuva.
Fim do primeiro dia na Síria, cansativo e um pouco desesperante, mas com final feliz.

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