um miminho da síria

Bosra é turístico mas vale a pena passar por lá. O teatro romano é dos teatros mais incríveis do mundo! O seu estado de conservação e a sua grandeza é de ficarmos de boca aberta. É uma visita obrigatória!


Chegámos ao centro antigo da cidade com a ajuda de uma placa que diz “oeld center”. Uma cidade romana, onde podemos encontrar ainda algumas famílias a viver. A maioria das casas estão vazias e em ruínas. Algumas paredes mantêm-se em pé, outras têm as suas pedras espalhadas pelo chão. Como ainda há famílias a habitar o centro, este local ainda é gratuito. Para quem quer visitar bosra, o melhor é afastar-se dos locais turísticos e procurar as pequenas ruas onde encontramos pessoas da terra. É o sítio perfeito para almoçar sem sermos depenados. 

 

Saímos de Bosra e escolhemos uma pequena rua para seguirmos em direcção a Damascus, a capital da síria. Iríamos fazer mais quilómetros mas isso não era o mais importante, pensando na redução de trânsito que iríamos ter. Parámos numa pequena terra para comprar pão e para tentar perceber o que de estranho se passava ali. As mulheres andavam com o cabelo solto! Há muito tempo que não víamos tanta mulher junta, sem o lenço a aprisiona-las. Pensei que podiam ser cristãs. Fomos convidados para beber café em casa do senhor que nos ajudou a comprar o pão por 25 libras (eu sabia que tínhamos sido roubados em Bosra. mas como podíamos ter desconfiado daquele senhor simpático?). há muito que não éramos convidados, por isso aceitámos o convite. Não perguntámos porque é que a sua mulher, também ela, estava de cabelo solto. Fomos embora com a nossa dúvida mas, ao mesmo tempo, continuando a pensar que podiam ser mesmo cristãs, pois não víamos nenhum minarete.
Na terra mais à frente, voltámos a ver mais mulheres de cabelo solto e parámos para almoçar um fallafel. Eram mulheres que estavam à frente do pequeno restaurante! Continuámos caminho mas nada de diferente aconteceu, nada que fizesse perdoar os dias anteriores. Parámos noutra pequena terra, voltámos a comer qualquer coisa e quando fomos perguntar o preço do café, obtivemos como resposta:
- No problem!
Não gostamos destas respostas, porque depois eles pedem um preço absurdo. Sorrimos e insistimos em saber o preço. Percebemos que ele queria oferecer-nos o café. No fim do café, fomos convidados pelo senhor da loja ao lado para beber com ele o chá. Ficámos algumas horas e estávamos um pouco preocupados pois tínhamos de arranjar sítio para dormir. Dissemos que tínhamos de partir e explicamos o porquê.
- Sleep. E apontava para o interior da loja.
“É para dormirmos aqui?”. Depois ele apontou para o outro lado da rua para uma garagem. Pelos gestos, percebemos que poderíamos passar lá a noite.
O nosso problema estava resolvido e continuamos a beber litros e litros de chá. O senhor que nos ofereceu o café apareceu e disse que podíamos dormir no restaurante dele. Será que vai ser como o outro dia, no fim não vamos ter sítio nenhum e vamos terminar na esquadra… é melhor atirar para longe esse pensamento e colocar as bicicletas no restaurante.
Jantámos na loja e dissemos que queríamos ir dormir.
- Wait - disse o senhor e agarrou no telefone. Voltou a aparecer o senhor simpático do restaurante.
- Passport, money, you.
Mau! - Virei bicho - Money?!
- Calma - dizia o Rafael – parece que é para irmos dormir em casa dele e para levarmos o passaporte e o dinheiro connosco para não ficar aqui. - Ah!!! Nunca se sabe o que querem por isso já estava à defesa antes que me colocassem no chão.
Conseguimos uma casa! Estávamos contentes! Conhecemos a mulher de cabelo solto e os seus três filhos. Ganhámos coragem e perguntámos porque é que não usavam lenços. “Não somos cristãos, mas sim druzes.” (mais tarde percebemos, depois de lermos sobre o assunto, que não deixando de ser muçulmanos, seguem um conceito diferente, podendo ser equiparados aos protestantes para a religião cristã). Enquanto íamos falando, a comida ia aparecendo aos poucos e nunca mais víamos o fim. Não podíamos mais!
- Ralas, ralas! - dizíamos nós. (Ralas significa chega, pára, basta).
- La ralas - respondiam eles e continuavam a dar-nos coisas. Até descascaram uma maçã ao Rafael, obrigando-o a comer. Faz parte da cultura alimentar quem vem de fora e o que dão nunca é demais. A sala estava quente e por isso, eles prepararam os colchões para dormirmos lá.
- onde é que dormem vocês e as crianças? - perguntámos.
- ali! - responderam apontado para a cozinha.
Não queríamos acreditar. Fomos ver e era impossível dormirem lá os cincos! Estava frio e não era confortável. Não aceitámos dormir assim. Insistimos para que trouxessem as crianças para a sala e nós dormíamos no outro compartimento que era mesmo ao lado! Não estávamos a perceber porque que é que eles escolheram a cozinha quando tinham o outro compartimento. Assim não! Nem que tenhamos de dormir nós na cozinha!
Perdemos a luta! Não havia maneira de os convencer. Sentimo-nos mal mas eles estavam contentes em nos ter lá.
Tivemos um fim de dia em família e adormecemos contentes por ter finalmente encontrado pessoas que nos abriram a porta e não nos deixaram na rua!
Podíamos perdoar a Síria mas não a podíamos considerar ainda “o país especial”. O Egipto e a Jordânia continuavam em vantagem!

2 comentários:

João Moita disse...

Muita inveja é o que sinto.
A vossa viagem torna se cada vez mais interessante de dia para dia, nunca desistam nem de continuar a pedalar nem de postar aqui no blog.
Força e continuem a viver a vida!

ruimnm disse...

mais uma grande história! (com final feliz ;)

adorei as fotografias do teatro romano de Bosra.

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