a caminho de mar musa

Saímos de Damascus e fomos sempre a subir até Maloula, ou Maaloula ou Maalula ou Malula. Não sabemos qual das placas estava correcta. Procurámos o convento de St.Tekla onde queríamos passar uma noite, acabando por ficar duas.
Visitámos um pouco a cidade querendo ver mais no dia seguinte.

Em Malula, as casas estão construídas montanha acima, sem qualquer lógica na construção. Não há espaço para os carros nem para as motorizadas, estes ficam na base da montanha. Os caminhos são estreitos e em muito mau estado. As casas estão umas em cima das outras, formando um autêntico labirinto. Caminhámos pela longa garganta onde St.Tekla escapou da sua mãe e do homem a quem ela estava destinada. Refugiou-se numa caverna onde agora é o convento e onde passámos duas noites.

Não sabemos dizer o que mais gostámos nesta viagem, o que mais nos marcou, mas ter passado e ficado no mosteiro de Mar Musa, foi sem dúvida das experiências mais marcantes, das paisagens mais incríveis, de uma paz imensa e onde conhecemos pessoas que temos a certeza, ficaram para a vida!
Em Maloula conhecemos a história da Pascal e sabíamos que no caminho para Mar Musa nos cruzaríamos com esta francesa, que caminhava de França até Jerusalém.
Vimos uma senhora ao longe, a fazer-nos sinal para pararmos.
- És francesa? - Perguntei eu, mal parei a bicicleta.
- Sim! - Respondeu um pouco admirada.
- Pascal? - Queríamos ter a certeza.
- Sim… - continuava admirada.
- Conhecemos um casal que nos falou de ti e da tua viagem!
Ficámos uns bons minutos na conversa, a trocar experiências e a saber um pouco mais da sua história. Não são muitas as mulheres que viajam sozinhas, a pé, até Jerusalém mas ficámos a saber que no mosteiro de Mar Musa, iríamos encontrar uma irmã ermita que há 27 anos atrás, fez a mesma viagem. 
Despedimo-nos e continuámos, cada um com a sua viagem.

Chegámos a uma sexta-feira, que equivale a um sábado nosso. O deserto estava animado com as famílias a fazerem os tão frequentes piqueniques. Para nos prepararmos psicologicamente para subir ao mosteiro, aceitámos o convite de uma família para nos juntarmos ao piquenique.
Não é fácil subir até ao mosteiro. As bicicletas ficaram numa garagem (santa garagem) e subimos degraus acima. As paragens foram muitas e o mosteiro continuava longe! Lá em cima, não estava o “tiro-liro-liro” mas sim uma porta de um metro de altura que nos convidava a entrar.


Mulheres de um lado e homens do outro. O quarto do Rafael era ali perto, cavado numa rocha. Para subir ao meu, tinha todas as noites subir 165 degraus.

 
Entrámos na igreja mais bonita que conhecemos até agora. Ela é especial e sentimo-nos bem no interior. Assistimos às orações da manhã e da tarde e mesmo sem termos percebido nada, gostámos de sentir todo aquele ambiente, toda aquela energia.
Conhecemos um iraniano que vive na Suécia e que chegou a Mar Musa pelos próprios pés e há-de chegar à índia, sem saber se este é o último destino. Conhecemos a irmã Magnificat, ermita que caminhou até Jerusalém e que agora, tem como objectivo chegar ao Iraque, para ajudar a comunidade cristã. Conhecemos o padre Lucas, padre francês que caminha pela paz, de França até Jerusalém e quem caminha pelas mesmas razões também, é um jovem casal, também francês. Conhecemos um rapaz espanhol que decidiu ficar a viver no mosteiro. Por enquanto não sabe se quer tornar-se monge, mas sabe que quer viver lá. Conhecemos uma rapariga do Equador que está junta com um rapaz da Alemanha mas que estavam a viver em África do sul, agora procuram um novo país para recomeçar a vida e estão tentados em conhecer Portugal.

 
Conhecemos pessoas que ficaram apenas uma noite, outras que, tal como nós, vieram para dois dias e que ficam várias semanas. Todos eles, foram pessoas que nos marcaram e foram eles que fizeram aquele lugar, ainda mais especial.


Nova atração em Mar Musa: quem subir a montanha para ver o labirinto feito com pedras, no caminho até lá, terá de procurar pedras em forma de coração. No topo, encontrarão um grande coração, feito com várias pedras em formato de coração! A ideia é espectacular e tudo começou pelos extraordinários, Rafael, Tanya e Rezza (o rapaz sueco de descendência iraniana). Ao que parece, o coração está a crescer!
Ficar em neste mosteiro, é viver em comunidade. Dormimos e comemos todos juntos, à hora marcada, participámos nas orações, e ajudamos na lida ”doméstica”. Lavamos a loiça, lavamos o chão, metemos a comida na mesa, levantamos a mesa, descascamos os legumes… ajudamos, trocamos trabalhos: eles dão alojamento e comida, nós damos o nosso trabalho e quem quiser, um pequeno donativo.


Não foi fácil marcar uma data para a nossa partida mas essa data tinha de existir. Passado uma semana, deixámos Mar Musa e sentimos saudades.

1 comentário:

Teresa disse...

Lembrei-me hoje de vos procurar aqui. Adoro a vossa viagem e as lindas fotos. Continuem e força no pedal!

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