há dias assim

Iskenderun voltou a acolher-nos por um dia. Foi dia de preparar as malas e prepararmo-nos psicologicamente para voltarmos à estrada. Já estávamos com saudades mas saber que teríamos de subir tudo o que descemos para chegar a Iskenderun... só pensar nisso, já nos cansava!
Acordámos bem dispostos e com vontade de partir e essa vontade fez com que o nos divertissemos na subida de 20 kms. Parámos para um chá de oferta numa bomba. Parámos para respirar. Parámos para nos rirmos do nosso cansaço e sem nos apercebermos, chegámos ao topo! Nem foi assim tão difícil!

- Vamos parar nas bombas onde estivemos a almoçar da outra vez! - Disse eu.
Voltámos a ser bem recebidos!
- Chá? - perguntaram.
Porque não? Venha ele! Um, não mais! Caso contrário, teríamos de levar a casa de banho connosco! Despedimo-nos e voltámos para a estrada, agora sim, lembrando-nos que pela frente, teríamos uma longa descida! Sabe bem descer em dias de sol!


Encontrámos um australiano que estava a viver em Barcelona e decidiu voltar para a Austrália de bicicleta (claro que o último transporte será o avião). Saiu de Barcelona mas não esqueceu Portugal! Passámos a gostar dele, no momento que nos disse isso! Não teve pressas de entrar em França e quis conhecer esse pequeno país que está perdido, lá longe, a oeste!
É sempre bom cruzarmo-nos com outros aventureiros. Dá-nos forças para continuar caminho e neste dia estávamos com muito boa energia! Sabe bem viajar assim!
Depois de muitos quilómetros percorridos, parámos numas bombas para "apalpar terreno". Descobrimos um tesouro! Estavam a acabar de cortar a relva nas traseiras da bomba. Um belo jardim com muitas árvores e muito espaço para a nossa tenda! Um senhor aproximou-se.
- Precisam de ajuda?
- Queremos comprar pão. - Dissemos.
- Aqui não temos mas mais à frente, podem comprar. Depois se quiserem podem voltar para aqui e passar a noite!
Era exactamente isso que íamos perguntar! Parece que adivinhou! Claro que aceitámos a oferta mas primeiro fomos às compras para o lanche e jantar.
Estávamos numa pequena terrinha e quando nos viram a entrar, seguiram-nos. Não tiravam os olhos de cima de nós! Uns sorriam, outros olhavam com muita admiração. Os meninos, seguiram-nos até às bombas, nas suas pequenas bicicletas. Estavam admirados ao ver ali "turistas" - como nos chamam.
Montámos a tenda em cima de um enorme cartão que nos deram.
- É para ficarem mais quentes. Querem tomar banho? Temos água quente.
Mas o que estava a acontecer? Não repáramos nas 5 estrelas na entrada das bombas? Depois do banho tomado, deitámo-nos a descansar mas depressa esse descanso foi interrompido quando o dono chegou com uma travessa! Era o nosso jantar que estava a chegar! Inacreditável! Soube tão bem! Belas bombasl!
Novo dia: dia 14 de Abril! Terrivel dia! Os meus primeiros 5 kms foram de morrer! Mas o que é que se passava comigo? Não tinha forças nas pernas, não conseguia ganhar velocidade e começava a ficar chateada! Parámos e os nossos conta-quilómetros não marcavam mais que 5 kms! Hora forçada para o chá que nos ofereceram! O corpo queixava-se e desejava não continuar mas tínha de ser.
Novo começo. Muito melhor. Não podíamos parar, tinha de me obrigar a pedalar. Ganhei forças quando o Rafael perdeu as forças. Era ele que se queixava e eu irritava-o nas subidas com as minhas cantorias. Mas não fazia de propósito... Queria animá-lo e queria esquecer que estávamos a subir. Tinha de cantar e cantei muito alto músicas em português! Os Deolinda costumam dar-nos energia! Voltámos a parar e adormecemos por breves minutos... de volta ao caminho, não podemos parar. A subida não tinha terminado e chegámos ao topo a muito custo. Parámos para almoçar, tirámos uma sesta e voltámos para o terror! Agora sim, foi doloroso! Desejámos que uma carrinha parasse para nos oferecer boleia, mas nada! Não podíamos desistir porque tínhamos pessoas à nossa espera. Se não tivessemos ninguém, teríamos desistido, teríamos acampado algures! Qualquer sítio, até na berma da estrada! Foi o pior dia para o Rafael, para mim não sei, porque é fácil esquecer os dias que nos foram difíceis mas que já passaram e achamos sempre que este novo dia, é o pior.
Já estávamos chateados, já chamávamos nomes feios a toda gente, tratávamos mal as subidas que apareciam... que dia! 14 de Abril... queremos esquecer esse dia!
Finalmente Kilis! Esperámos pelo rapaz que seria o nosso tradutor. Contactámos uma rapariga pelo couchsurfing mas ela está a estudar em Vienna. Disse, no entanto, que os pais queriam muito acolher-nos mas não falavam inglês... tivemos a ajuda do seu vizinho, um rapaz de 16 anos!
Quando chegou perguntou:
- Porque chegaram tão tarde?
Espera aí! Devo perder tempo a explicar-lhe que foi o pior dia? Que o nosso rabo está em ferida? (estou a exagerar) Que se não fossem eles estarem à nossa espera, que teríamos desistido? Valeria a pena explicar isso tudo? Preferimos sorrir e dizer:
- Foi um dia muito duro... estamos cansados.
Tivemos duas noites com a família e foram impecáveis! Fizeram tudo para nos agradar e ficámos a adorá-los e eles a nós! O Rafael fez sucesso ao lavar a loiça e eu voltei a fazer sucesso ao ler o futuro na chávena do café turco. Acho que deixei a rapariga a pensar. Fiquei com vontade de abraçá-la quando ela se despediu, agradecendo-me aquele momento. Não é fácil para mim ver uma rapariga com um olho pisado e ler na chávena dela, que ela se sente muito vazia, que lhe falta algo na vida para se sentir completa e ver que concordava comigo. Mas disse que via que nada estava perdido porque via raízes e que essas raízes eram fortes para ela poder lutar e preencher o espaço vazio. Ela iria sentir-se completa mas teria a ajuda de uma pessoa. Essa pessoa não sei quem é mas é uma pessoa que nasceu em 1943. Era o que estava na chávena! Depois ela disse-me que o pai do marido, nasceu nessa data... Sei que não é uma história interessante para escrever no blog mas para mim foi muito forte e espero que ela acredite que tem forças dentro dela.


Kilis é uma cidade pequena mas soube bem! Fomos ao mercado e saltámos de loja em loja. Não éramos nós que marcávamos o ritmo do passeio e isso foi muito bom! Cozinharam para nós o Künefe que tanto gostamos mas decidimos que este seria o último, quando vimos que era feito com banha de vaca...
Tentámos não pensar nisso e comer com prazer a sobremesa que prepararam prepositadamente para nós! Passámos uma noite divertida com muitas risadas!
Depois de termos descansado o rabo e os músculos que estavam duridos, voltámos a partir para mais uns dias na estrada. Tínhamos de fazer 200 kms até chegar a Urfa, cidade onde a Gulden esperava por nós. Até chegarmos, conhecemos pessoas generosas, tivemos experiências únicas, que não vos vamos contar para já! Vai ficar para o próximo post!
Podemos dizer, porém, que foi das melhores semanas que tivemos! Assim sim, sentimo-nos a viajar verdadeiramente!

1 comentário:

The Crow disse...

Obrigado por mais um post! Boas pedaladas!!

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