não podia ser fácil sair da síria

Passámos 4 noites com a família que nos acolheu. A chuva forte não nos deixava sair e ganhámos um certo carinho pela família. Os nossos dias estavam preenchidos. Saltámos de casa em casa para beber chá e para “dar uma voltinha sobre nós para sermos vistos”!
À hora das refeições a mesa estava sempre cheia e ajudámos a preenchê-la com novos sabores.
- Gostam de crepes? – Perguntou o Rafael.
- Só vimos crepes na televisão…  - Responderam a Julieta e a Lina.
Durante dois dias houve crepes e público numa mini cozinha. Não foi fácil, mas ficámos contentes ao vê-los a devorarem os crepes com tanta satisfação. Todos os dias tentávamos oferecer algo novo. A chuva e o granizo não paravam e nós não nos importávamos com isso. Estávamos quentinhos e bem acompanhados.
Mais uma vez, a nossa rota foi mudada. O clima obrigou-nos a continuar caminho pela costa e deixar as montanhas e as cidades perdidas para outra altura. Ficámos bastante tristes mas as estradas estavam cortadas e o frio era muito. Fomos para a costa e, nada de interessante. Passámos por Tartous e Lattakia e tínhamos a Turquia ao "virar da esquina".
Saímos de Lattakia sem termos molhado o pezinho no mar, sem nos termos sentado  beira mar… a construção do porto destruiu a ideia de mar e praia que nós temos. Caminhámos para ver o mar e uma grande grade não nos permitiu chegar perto. Há uma grade a dividi-lo da cidade! Ficámos parvos a olhar para tal fenómeno.
A nossa estadia na Síria tinha terminado. Não conseguiu cativar-nos. Quando vimos a fronteira da Turquia, ficámos bastante contentes! Com um grande sorriso nos dirigimos para os guardas fronteiriços para dar a nossa saída.
- O que é isso? – Perguntou um guarda apontando para a bicicleta com cara séria.
- Diz-lhe que é um barco. – Disse eu para o Rafael.
- É uma bicicleta. – Respondeu o Rafael, quase soletrando a palavra.
Pagámos a nossa saída e dirigimo-nos para outro posto.
- O vosso visto terminou há 5 dias. - Informou-nos o novo guarda.
Mas claro que não ia ser fácil sair da Síria! Não podia acabar em bem se não começou bem!
- Vão ter de esperar uma ou duas horas aqui. Não sabemos se vão poder entrar hoje na Turquia ou se vão ter de voltar para trás.
- Mas nós estamos de bicicleta. – dissemos.
- Apanham um táxi. – Esta foi a bela resposta do guarda.
Não gostámos da resposta mas estávamos calmos. Sabíamos que não tínhamos culpa de nada e que tudo se iria resolver.
Passados 2 horas fomos chamados e tivemos autorização para sair do país. Estava à espera de um pedido de desculpa, mas nada! Fui à casa de banho e roubei um sabonete com cheirinho a kiwi!

Estava escuro e ainda tínhamos de procurar sítio para dormir. Parámos na primeira terra na Turquia e não foi fácil encontrar vivalma que falasse inglês, ou melhor, não encontrámos! Batemos à porta e mostrámos o nosso papel para poder montar a tenda algures.
- Tenho muito dinheiro. Eu posso pagar-vos o hotel! – Disse o senhor, num inglês muito mau.
Explicámos que não queríamos dinheiro. Nunca iríamos aceitar isso! Explicámos que preferíamos montar a tenda ou ficar com eles, se fosse possível. Explicámos tudo isso com gestos, em inglês e até com algumas palavras em árabe. Fomos convidados para entrar e tudo correu bem! Ele num sofá com um dicionário turco – inglês. Nós noutro sofá, com um dicionário francês – turco. Não foi fácil, mas foi divertido.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, partimos. Tivemos de recusar o dinheiro que ele nos queria oferecer. O dia estava quente, muito quente e não foram fáceis os primeiros quilómetros. A Turquia não será um país simples mas temos a certeza que teremos das mais belas paisagens! Estávamos bem dispostos e apesar do grande esforço físico, estávamos com forças e com entusiasmo para continuar caminho.


Antaquia! Tínhamos o contacto da Bárbara. Sabíamos que ela nos poderia ajudar. Pois claro, ela era dona de uma guest house. O espaço é incrível. Estávamos no centro histórico, um verdadeiro paraíso de arquitectura do império otomano.

Conhecemos um espaço de artes, onde nos sentimos em casa. Lá encontrámos um rapaz que nos convidou a ficar em casa dele. Por muito que gostássemos de ficar no espaço da Bárbara, o convite atraiu-nos e aceitámos.
Conhecemos muitas pessoas nesse espaço das artes e conhecemos também o rapaz que seria o nosso anfitrião na próxima cidade, Iskenderon.

As nossas meninas estão em Iskenderon em repouso. Nós não repousamos! Apanhámos um autocarro e passado 18 horas, chegámos a Trabzon onde tínhamos como objectivo, o visto do Irão! A viagem foi cansativa mas só tínhamos o visto na cabeça!
Saímos contentes da embaixada do Irão, com o visto nas mãos! Em menos de 3 horas (com a hora do almoço) tínhamos os passaportes nas mãos e um grande sorriso.
- Estamos felizes! – Justificámo-nos o nosso sorriso, ainda no interior da embaixada.

Agora temos uma viagem para fazer até Ancara para mais uns vistos. Sabemos que não os vamos conseguir com tanta rapidez. Iremos estender o polegar para viajar até Ancara e depois de todos os vistos em nossa posse, voltaremos a ver as nossas meninas que estão ansiosas para novas pedaladas!

Sem comentários:

Posts mais populares