em família

Mardin ficava a 20 kms da casa daquela família que não queria que fossemos embora. Prometemos voltar. Não estávamos a mentir, sabíamos que teríamos de passar novamente por aquela estrada, para voltarmos para a longa recta que nos levaria para fora da Turquia. Confiámo-lhes as bicicletas e fomos à boleia ter com o nosso anfitrião que afinal não morava em Mardin mas sim em Kiziltepe, bem perto de onde passámos a noite.
Neste dia, se tudo tivesse corrido bem, teríamos apenas feito 20 kms à boleia. Não podemos dizer que tenha corrido bem… voltámos a fazer 20 para deixarmos os sacos em casa do nosso couchsurfing (pois só quando nos encontrámos no topo, é que nos disse que não morava lá) e depois mais 20 para voltarmos a Mardin que era a cidade que queríamos visitar. Nisso já somávamos 60 kms. O nosso "motorista" convidou-nos para almoçarmos com ele. Aceitámos. Fomos até à loja dele, esperámos… voltámos para o carro e fomos buscar um amigo. Os quatro no carro, voltámos para Kiziltepe.
- Mas… estamos a voltar para trás? – Perguntou o Rafael.
- Sim, vamos comer pizzas. – Respondeu.
Torcemos o nariz mas deixámo-nos levar para ver até onde íamos. E com isso somámos mais 20. Nesta volta foi mais que isso, pois saímos da cidade e não foi para comer pizzas, foi para eles terem uma reunião! Ficámos no carro a ferver! Quando chegou o chá, percebemos que era para demorar. Não estávamos a achar piada à situação e marcámos um tempo limite.
- Daqui a 10 minutos, vamos embora. – E activei o despertador do telemóvel para não falhar.
O despertador tocou e eles saíram. Esperámos um pouco mais… entraram no carro e não conseguimos disfarçar a nossa má disposição e a nossa má disposição aumentou quando voltámos uma vez mais para Mardin! Incrível! 100kms feitos naquela manhã! Quando pararam para irmos comer as pizzas, perdemos toda a fome que tínhamos. Tínhamos perdido muito tempo e ainda não tínhamos visto nada daquilo que queríamos ver e tudo porque eles queriam, à força, estar com "tourist".
Ficámos cansados de todas aquelas voltas e daquela situação e isso afectou a nossa tarde. No topo de Mardin ficam as muralhas mas não é permitido entrar pois agora é uma zona militar. Foi preciso subir até lá para nos depararmos com essa realidade.
Gostámos dos estreitos caminhos que nos levam até às muralhas e ao cemitério. Bela vista que os mortos têm! Lá do alto vemos a enorme planície. Rectângulos de diferentes tamanhos e diferentes tons de verdes e castanhos a perder de vista, com uma ou outra estrada a rasgar a terra.
Nesses estreitos caminhos, vemos crianças a brincarem à bola e a gritaram "tourist" sem parar, à nossa passagem. Os adolescentes acompanham-nos por alguns minutos, mostrando-nos uma ou outra palavra em inglês. As mulheres fixam o olhar em nós e cumprimentam-nos quando as cumprimentamos. Sentámo-nos numa bela esplanada com vista para a enorme planície (não chorámos o preço do café porque somos fortes). O que mais gostámos foi do grande e labiríntico bazar. Em todas as terras que passamos, são os bazares que mais nos atraem. Um pequeno café chamou a minha atenção. Pela porta só via uma pequena mesa com dois bancos. Tinha de entrar ali! Subimos umas pequenas escadas para entrar. A mesa que se via do lado de fora, era a única mesa do café (ou devo chamar "chá"? Porque não há mais nada a não ser chá). Ficámos um bom bocado naquele pequeno espaço a jogar ao jogo do "adivinha-o-que-estou-a-dizer" com o dono do "chá".
Passámos uma noite com o nosso anfitrião mas no dia seguinte voltámos para a casa da família. Não foi uma má experiência com o couchsurfing mas não nos sentimos muito bem… não podemos dizer que tenha sido uma muito boa experiência também. Preferimos voltar para perto das pessoas que tanto tínhamos gostado.

- Podemos passar mais uma noite aqui? – Perguntámos sabendo, à partida, qual seria a resposta.
Vimos no rosto delas que ficaram contentes e nós estávamos sinceramente felizes por ficarmos. Sinto-me bem no meio das mulheres. Elas chamam-me para a cozinha enquanto estendem a toalha no chão para prepararem a refeição. Nessas alturas, o Rafael fica na sala com os homens e as senhoras mais velhas. Elas perguntam-me como foi o nosso casamento, como é que eu ia vestida, se gosto dele…
- Pois… foi assim uma coisa muito simples. O vestido era branco e muito simples. Poucas pessoas. Aliankça? Está em Portugal… não dá jeito pedalar com o anel… - Respondo tudo isso com palavras soltas e gestos. Elas compreendem.
Elas tentam ensinar-me algumas palavras em turco, perguntam-me se podem ir connosco para Portugal. Eu digo que sim mas tem de ser de bicicleta. Elas riem-se. Elas fixam muito o olhar e eu sorrio para elas, admiro-as e respeito-as. A cozinha é o mundo delas, lá elas podem fumar às escondidas, dizer que o marido bate nelas, confessar que não gostam do rapaz com quem vão casar, tirar o lenço para lavar a loiça… Tenho vontade de as abraçar e dizer que elas são lindas!
O jantar é servido e quando terminámos, voltámos para a cozinha – as mulheres, apenas as mulheres. Deixaram tudo limpo (eu não tenho autorização para as ajudar) e duas delas levam-me para a casa delas enquanto o Rafael termina de ver o futebol. Passei um bom momento a ver o vídeo de casamento, mas o melhor não foi o facto de estar a ver o vídeo e sim, de estar a dançar com elas! Ensinavam-me os passos e eu tentava fazer igual, com pouco sucesso. Adorei aquele momento. O futebol acabou e foram chamar-me. A festa terminou. Não queria sair dali porque sabia que no dia seguinte teríamos que retomar caminho.
A despedida foi dura. Sabemos que, dificilmente, as voltaremos a ver, por isso abracei-as desejando que elas fossem felizes.

De novo na estrada, agora com as mudanças do Rafael a saltarem, tivemos de procurar um mecânico pois todas as nossas tentativas de arranjo falharam. Voltámos para a estrada já da parte da tarde mas não foi isso que nos impediu de fazer muitos quilómetros. Os dias são longos e assim dá para pedalar até ficarmos estoirados!

Nesse dia estávamos com uma dúvida. Não sabíamos se queríamos ficar com alguma família ou montar a tenda num sítio só nosso. Estávamos cansados e ficar com uma família iria cansar-nos ainda mais. Ficámos parados na berma da estrada a olhar um para o outro e para a aldeia que se encontrava do nosso lado esquerdo. Arriscámos ir até lá pois estava na hora do jantar e depois iríamos querer ir cedo para a cama. O tempo que iríamos passar com as pessoas, não seria muito.
Entrámos pelo caminho com menos crianças e encontrámos um grupo de mulheres muito sorridentes. Mostrámos o famoso papel mas não tivemos sucesso… mandaram-nos para outro sítio, não percebemos bem onde mas continuámos caminho. Novo grupo de mulheres sorridentes. Tivemos a mesma sorte… nenhuma! Elas ainda chamaram um dos maridos para ler o papel enquanto uma senhora falava comigo muito alto e sempre a tocar-me e a agarrar-me. Muito estranho e um pouco assustados. Eles disseram para os seguirmos e quem nos seguia era um enorme grupo de miúdos que adoram ver turistas e de chamá-los/nos de turistas! Ah!!! Como detestamos a palavra "tourist"!

Naquele momento, percebemos porque não fomos acolhidos em nenhuma família. Há um senhor na aldeia que fala muito bem inglês e que é casado com uma holandesa. Dois dias atrás, houve um francês que parou ali, também ele de bicicleta e que também ficou com eles. Fugimos das crianças e ficámos a salvo dentro de casa. Conhecemos a loira holandesa e foi bom ver e falar com uma mulher não turca mas que vive e convive com eles há 6 anos. Estávamos cansados mas estávamos bem. Pediram-nos para ficarmos no dia seguinte mas não aceitámos porque queremos chegar rápido ao Irão para podermos ter tempo de atravessar o país sem grandes pressas. Depois de um grande e bom pequeno almoço, partimos em direcção a Cizre.

seguindo a longa recta


Sanliurfa, ou apenas Urfa, agradou-nos! Ainda vemos mulheres a usar as roupas tradicionais que chamam a atenção de qualquer turista, até os mais distraídos, devido às suas cores alegres e brilhantes. Os homens usam o típico lenço azul/violeta e são eles que se sentam nos pequenos bancos de madeira, nas várias esplanadas, que fizemos questão de conhecer. Claro que não se vêem mulheres nessas esplanadas mas a nós agradam-nos muito e os homens ficam admirados em ver uma estrangeira no meio deles. Esses bancos ficaram na nossa cabeça mas não é por causa deles que a cidade é conhecida e importante, não é por causa desses bancos que a cidade é uma paragem obrigatória para os peregrinos. Esta cidade é uma cidade sagrada onde podemos conhecer os peixes sagrados, na grande "piscina" de Golbasi. Nós passámos a chamá-los de Lucky Fish. Peixes gordos que se atropelam para apanharem a comida que as pessoas atiram. 


Os peixes teriam sido outrora as achas, e a água, outrora o fogo. Assim explica a lenda de Abraão que foi atirado para a fogueira e que, milagrosamente, foi salvo. A lenda continua dizendo que quem apanhar um desses Lucky Fish, fica cego! Não sei não, mas o que sei é que nem me atrevi a meter um dedinho nessa água sagrada, com peixes sagrados, numa cidade sagrada! 

Passámos os dias com a Gulden e o seu irmão, ela professora de inglês e ele militar sem grande paixão. Conhecemos os alunos dela e até fomos apresentar a nossa viagem, numa das aulas. Sentimo-nos uns heróis sempre que entrámos pela porta do liceu. Uns queriam cumprimentar-nos, outros apenas olhar, outros apenas soltar pequenos risinhos, e houve os que quiseram tirar fotografias connosco. É sempre um prazer poderem falar com estrangeiros.
As raparigas olham para mim e descobrem que podem fazer muito, podem ir mais longe e olham para o Rafael e descobrem que é possível um rapaz cozinhar e lavar a loiça. Acho que ficaram baralhadas quando viram o Rafael a fazer a massa para a pizza e eu sentada a olhar para ele.
- Não sabes fazer, é? – Perguntaram por entre risinhos.
- Eu sei, mas ele também sabe. E como ele está a cozinhar, eu lavo a loiça.
Umas ficaram com uma estranha cara, outras apoiaram-me e gostaram da ideia e acredito que desejam encontrar um futuro marido assim.
Foi em Urfa que passámos, pela primeira vez, um dia, um sem o outro. O Rafael voltou a Kilis para recuperar a encomenda que teimava em não chegar e eu voltei a apresentar a nossa viagem a outra turma da Gulden. Foi um dia diferente para ambos.
Depois de termos provado novos sabores ao jantar, em casa dos vizinhos, de termos aprendido a jogar "OK", de termos feito uma tentativa de fazer um pic-nic, como qualquer turco (mas a chuva apareceu sem contarmos), partimos. Atrás de nós, foi atirado um recipiente de água. Uma forma de mostrar que querem que regressemos.
- Sei que não gostam que se desperdice água mas quero mesmo que voltem! – Dizia a Gulden que insistiu bastante para que prolongássemos um pouco mais a nossa estadia.
Continuámos caminho na longa recta que nos vai acompanhar até sairmos da Turquia. Fizemos muitas paragens para o chá e sentíamos que estávamos cheios de energia! Os quilómetros eram somados sem grandes problemas. Isso acontece quando estamos muito tempo sem pedalar e voltamos a pegar nas "meninas".
Não temos outro caminho a não ser esta longa recta que pouco tem de interessante. Já não encontrámos pequeno-almoço, nem crianças a correrem ao lado das bicicletas. O nosso olhar mantinha-se fixo na recta e longa recta monótona.
Parámos numa aldeia e pedimos autorização para montar a tenta! Claro que foi fácil arranjar sítio e, depois da tenta montada, com algum público, fomos convidados para o chá, depois para o jantar e depois para desmontar a tenda e dormir no interior da casa. Não somos pessoas de dizer não a nada!


A comunicação não foi fácil e o inglês do miúdo era um terror! Tínhamos de estar com muita atenção e tentar adivinhar o que estava a tentar dizer.
You teleficha? – Pergunou o Sinan.
Teleficha?! O que é que ele quer saber? What? - Perguntava o Rafael.
You teleficha? – Insistia.
- Ah! No, thank you! – Respondi-lhe. – Ele está a perguntar se queremos carregar o nosso telemóvel. – Expliquei ao Rafael. Foi simples: tele – telefone e ficha, é mesmo ficha.
- Ah! No, thank you! – Agradeceu desta vez o Rafael.
Não, a comunicação não é fácil mas é muito divertida (quando não estamos cansados). Na realidade, não era isso que o nosso amigo Sinan nos queria perguntar. Descobrimos mais tarde que "teleficha" é uma palavra só e que quer dizer, telemóvel. O "you teleficha" era para nos pedir o nosso número! Se ao vivo não é fácil perceber o que ele diz, não queiram imaginar como foram as conversas com ele pelo telemóvel!
Novo dia: 25 de Abril! Dia da Liberdade e dia de aniversário! Pequeno almoço tomado e lá fomos nós para mais umas pedaladas. O vento podia ter-se lembrado do meu cadeaux e dar um empurrãozinho, mas não! Ele corria depressa em sentido contrário! Parámos, pouco depois, para uma pausa numas bombas onde chá é o que não falta!
O dia não podia estar mais perfeito! O vento parecia ter mudado de sentido, mas quando pegámos nas bicicletas, a chuva começou a cair sem dó nem piedade! Terrível! O céu estava cinzento, o  vento bailava e a chuva... molhava, lá está! A minha cara virou bicho e a cara do Rafael virou bicho quando percebeu que eu não tinha ouvido os seus parabéns mal acordámos, no meio dos grunhidos da manhã e dos bocejos. Mesmo com chuva, retomámos caminho.
- Estás a olhar muito para trás porquê? – Perguntei ao Rafael.
- Estou atento para ver se passa alguma carrinha.
A ideia agradou-me porque não queria, nem por nada, passar o meu aniversário numa tenda, com chuva lá fora. Depois de 70 kms uma carrinha parou.
- Vão para Mardin? – Perguntámos.
-  Sim, vamos para perto, para Kiziltepe, mas a carrinha avariou...
Ok não há problema, este dia tem de acabar mal e tem…
Mais à frente uma nova carrinha parou. O nosso sorriso apareceu e agradecemos loucamente ao senhor, que aceitou colocar as bicicletas na parte de trás, assim como as nossas pessoas. Estávamos para partir quando a polícia parou... 
- São de onde?  Portugal? Ah! Viva Portugal! Fazes anos? Parabéns!  E partiram, entraram no carro e ouvimos "güle güle, güle güle". Eram eles a despedirem-se usando o altifalante!
A carrinha parou pouco depois. Voltámos a pedalar com o objectivo de encontrar um sítio para montar a tenda quando aparece a carrinha que deixou de estar avariada!
- Subam!
Maravilha! Ficámos em Kiziltepe e avistámos Mardin. Para lá chegar teríamos de fazer 20 kms a subir...
- Fica para amanhã. - Dissemos.
Eles deixaram-nos já fora da cidade, no caminho para Mardin. Foram impecáveis! Começámos a procurar casas para podermos passar a noite com mais pessoas. Não queríamos ficar sozinhos nesse dia!
Em frente a uma pequena casa cor-de-rosa, umas pessoas sorriram para nós. Esse foi o sinal para travarmos e ir ao encontro daquela família que acabou por nos acolher.
Duas cadeiras para nós e todos à nossa frente como público! A família ia crescendo... assim como as perguntas. Posso dizer que fui muito bem tratada. Fui a uma casa de banho limpinha, com todas elas à minha espera para me apontarem onde podia lavar as mãos, onde estava o sabonete, e tinha já a toalha estendida! O Rafael não fazia anos, por isso teve a casa de banho comunitária no exterior (podem já imaginar a limpeza desta), com a porta que não fechava e, para terminar, ao sair bateu com a cabeça numa esquina. Eu tive um belo de um banho com chuveiro, bem quentinho. O Rafael teve de despejar canecas de água para cima dele. Senti-me uma princesa!
O jantar foi servido e quando pensava que estaria na hora de dormir, um rapaz entra com uma bandeja de coca-cola.
- Tenho de filmar isto. - Disse o Rafael. - Coca-cola time.
Logo a seguir, entram dois pratos com uma fatia de bolo cada um. Um para mim e outro para o Rafael. Percebi que era para o meu aniversário porque o meu estava cheio de enfeites e com um pedaço de cartão a dizer "Parabéns Tanya". As outras fatias iam aparecendo e o Rafael ia cantando os parabéns. Lindo! 
Depois do bolo chegou a hora de dormir e que bem que dormimos!

Agência Lusa

Queremos fazer aqui um agradecimento público à Agência Lusa, pela pessoa da jornalista Alexandra Couto,pelo apoio que nos tem dado e pelo constante contacto para recolher informações sobre a nossa viagem que, lembro, saiu em vários meios de comunicação antes de sairmos e agora, a semana passada, novamente! Este, é um exemplo:


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