seguindo a longa recta


Sanliurfa, ou apenas Urfa, agradou-nos! Ainda vemos mulheres a usar as roupas tradicionais que chamam a atenção de qualquer turista, até os mais distraídos, devido às suas cores alegres e brilhantes. Os homens usam o típico lenço azul/violeta e são eles que se sentam nos pequenos bancos de madeira, nas várias esplanadas, que fizemos questão de conhecer. Claro que não se vêem mulheres nessas esplanadas mas a nós agradam-nos muito e os homens ficam admirados em ver uma estrangeira no meio deles. Esses bancos ficaram na nossa cabeça mas não é por causa deles que a cidade é conhecida e importante, não é por causa desses bancos que a cidade é uma paragem obrigatória para os peregrinos. Esta cidade é uma cidade sagrada onde podemos conhecer os peixes sagrados, na grande "piscina" de Golbasi. Nós passámos a chamá-los de Lucky Fish. Peixes gordos que se atropelam para apanharem a comida que as pessoas atiram. 


Os peixes teriam sido outrora as achas, e a água, outrora o fogo. Assim explica a lenda de Abraão que foi atirado para a fogueira e que, milagrosamente, foi salvo. A lenda continua dizendo que quem apanhar um desses Lucky Fish, fica cego! Não sei não, mas o que sei é que nem me atrevi a meter um dedinho nessa água sagrada, com peixes sagrados, numa cidade sagrada! 

Passámos os dias com a Gulden e o seu irmão, ela professora de inglês e ele militar sem grande paixão. Conhecemos os alunos dela e até fomos apresentar a nossa viagem, numa das aulas. Sentimo-nos uns heróis sempre que entrámos pela porta do liceu. Uns queriam cumprimentar-nos, outros apenas olhar, outros apenas soltar pequenos risinhos, e houve os que quiseram tirar fotografias connosco. É sempre um prazer poderem falar com estrangeiros.
As raparigas olham para mim e descobrem que podem fazer muito, podem ir mais longe e olham para o Rafael e descobrem que é possível um rapaz cozinhar e lavar a loiça. Acho que ficaram baralhadas quando viram o Rafael a fazer a massa para a pizza e eu sentada a olhar para ele.
- Não sabes fazer, é? – Perguntaram por entre risinhos.
- Eu sei, mas ele também sabe. E como ele está a cozinhar, eu lavo a loiça.
Umas ficaram com uma estranha cara, outras apoiaram-me e gostaram da ideia e acredito que desejam encontrar um futuro marido assim.
Foi em Urfa que passámos, pela primeira vez, um dia, um sem o outro. O Rafael voltou a Kilis para recuperar a encomenda que teimava em não chegar e eu voltei a apresentar a nossa viagem a outra turma da Gulden. Foi um dia diferente para ambos.
Depois de termos provado novos sabores ao jantar, em casa dos vizinhos, de termos aprendido a jogar "OK", de termos feito uma tentativa de fazer um pic-nic, como qualquer turco (mas a chuva apareceu sem contarmos), partimos. Atrás de nós, foi atirado um recipiente de água. Uma forma de mostrar que querem que regressemos.
- Sei que não gostam que se desperdice água mas quero mesmo que voltem! – Dizia a Gulden que insistiu bastante para que prolongássemos um pouco mais a nossa estadia.
Continuámos caminho na longa recta que nos vai acompanhar até sairmos da Turquia. Fizemos muitas paragens para o chá e sentíamos que estávamos cheios de energia! Os quilómetros eram somados sem grandes problemas. Isso acontece quando estamos muito tempo sem pedalar e voltamos a pegar nas "meninas".
Não temos outro caminho a não ser esta longa recta que pouco tem de interessante. Já não encontrámos pequeno-almoço, nem crianças a correrem ao lado das bicicletas. O nosso olhar mantinha-se fixo na recta e longa recta monótona.
Parámos numa aldeia e pedimos autorização para montar a tenta! Claro que foi fácil arranjar sítio e, depois da tenta montada, com algum público, fomos convidados para o chá, depois para o jantar e depois para desmontar a tenda e dormir no interior da casa. Não somos pessoas de dizer não a nada!


A comunicação não foi fácil e o inglês do miúdo era um terror! Tínhamos de estar com muita atenção e tentar adivinhar o que estava a tentar dizer.
You teleficha? – Pergunou o Sinan.
Teleficha?! O que é que ele quer saber? What? - Perguntava o Rafael.
You teleficha? – Insistia.
- Ah! No, thank you! – Respondi-lhe. – Ele está a perguntar se queremos carregar o nosso telemóvel. – Expliquei ao Rafael. Foi simples: tele – telefone e ficha, é mesmo ficha.
- Ah! No, thank you! – Agradeceu desta vez o Rafael.
Não, a comunicação não é fácil mas é muito divertida (quando não estamos cansados). Na realidade, não era isso que o nosso amigo Sinan nos queria perguntar. Descobrimos mais tarde que "teleficha" é uma palavra só e que quer dizer, telemóvel. O "you teleficha" era para nos pedir o nosso número! Se ao vivo não é fácil perceber o que ele diz, não queiram imaginar como foram as conversas com ele pelo telemóvel!
Novo dia: 25 de Abril! Dia da Liberdade e dia de aniversário! Pequeno almoço tomado e lá fomos nós para mais umas pedaladas. O vento podia ter-se lembrado do meu cadeaux e dar um empurrãozinho, mas não! Ele corria depressa em sentido contrário! Parámos, pouco depois, para uma pausa numas bombas onde chá é o que não falta!
O dia não podia estar mais perfeito! O vento parecia ter mudado de sentido, mas quando pegámos nas bicicletas, a chuva começou a cair sem dó nem piedade! Terrível! O céu estava cinzento, o  vento bailava e a chuva... molhava, lá está! A minha cara virou bicho e a cara do Rafael virou bicho quando percebeu que eu não tinha ouvido os seus parabéns mal acordámos, no meio dos grunhidos da manhã e dos bocejos. Mesmo com chuva, retomámos caminho.
- Estás a olhar muito para trás porquê? – Perguntei ao Rafael.
- Estou atento para ver se passa alguma carrinha.
A ideia agradou-me porque não queria, nem por nada, passar o meu aniversário numa tenda, com chuva lá fora. Depois de 70 kms uma carrinha parou.
- Vão para Mardin? – Perguntámos.
-  Sim, vamos para perto, para Kiziltepe, mas a carrinha avariou...
Ok não há problema, este dia tem de acabar mal e tem…
Mais à frente uma nova carrinha parou. O nosso sorriso apareceu e agradecemos loucamente ao senhor, que aceitou colocar as bicicletas na parte de trás, assim como as nossas pessoas. Estávamos para partir quando a polícia parou... 
- São de onde?  Portugal? Ah! Viva Portugal! Fazes anos? Parabéns!  E partiram, entraram no carro e ouvimos "güle güle, güle güle". Eram eles a despedirem-se usando o altifalante!
A carrinha parou pouco depois. Voltámos a pedalar com o objectivo de encontrar um sítio para montar a tenda quando aparece a carrinha que deixou de estar avariada!
- Subam!
Maravilha! Ficámos em Kiziltepe e avistámos Mardin. Para lá chegar teríamos de fazer 20 kms a subir...
- Fica para amanhã. - Dissemos.
Eles deixaram-nos já fora da cidade, no caminho para Mardin. Foram impecáveis! Começámos a procurar casas para podermos passar a noite com mais pessoas. Não queríamos ficar sozinhos nesse dia!
Em frente a uma pequena casa cor-de-rosa, umas pessoas sorriram para nós. Esse foi o sinal para travarmos e ir ao encontro daquela família que acabou por nos acolher.
Duas cadeiras para nós e todos à nossa frente como público! A família ia crescendo... assim como as perguntas. Posso dizer que fui muito bem tratada. Fui a uma casa de banho limpinha, com todas elas à minha espera para me apontarem onde podia lavar as mãos, onde estava o sabonete, e tinha já a toalha estendida! O Rafael não fazia anos, por isso teve a casa de banho comunitária no exterior (podem já imaginar a limpeza desta), com a porta que não fechava e, para terminar, ao sair bateu com a cabeça numa esquina. Eu tive um belo de um banho com chuveiro, bem quentinho. O Rafael teve de despejar canecas de água para cima dele. Senti-me uma princesa!
O jantar foi servido e quando pensava que estaria na hora de dormir, um rapaz entra com uma bandeja de coca-cola.
- Tenho de filmar isto. - Disse o Rafael. - Coca-cola time.
Logo a seguir, entram dois pratos com uma fatia de bolo cada um. Um para mim e outro para o Rafael. Percebi que era para o meu aniversário porque o meu estava cheio de enfeites e com um pedaço de cartão a dizer "Parabéns Tanya". As outras fatias iam aparecendo e o Rafael ia cantando os parabéns. Lindo! 
Depois do bolo chegou a hora de dormir e que bem que dormimos!

4 comentários:

Temporada perfumada disse...

Adorei seu blog!!! estou seguindo. segue o meu também?
www.temporadaperfumada.blogspot.com

MagikPoiZion disse...

eu também não meteria os dedos na água dos "peixinhos"... mas não seria pela lenda!

Rodolfo Dégues disse...

Teleficha...., muito bom... Grande abraço Rafa e beijinho para Tânia.

Cisfranco disse...

Maravilha!
Continuação de boa viagem!

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