nunca mais!

- Vão voltar ao Turquemenistão? – Perguntou um dos militares, ao sairmos do país.
Não respondemos mas ele deve ter ouvido os gritos nas nossas cabeças: “NÃO! NUNCA MAIS! COM APENAS 5 DIAS?! NUNCA!!! COM 45, 47 GRAUS?! NÃÃÃÃO!!!”
Entrámos no Turquemenistão, confiantes! 500 kms em 5 dias, que loucura, mas vamos em frente.
Não tivemos qualquer problema em sair do Irão. Os militares não ofereceram qualquer tipo de problema, nem revistaram as malas. Passado 1h30, estávamos à entrada do Turquemenistão. Ali os sorrisos eram escassos… assina papeis, mais dólares na mesa, mais uma assinatura, uma folha mais para preencher, conta todo o dinheiro, tira todos os sacos, volta a colocar todos os sacos… tudo isso por baixo do olhar atento e sério dos militares. Mais de uma hora e meia à espera para termos autorização para entrar finalmente no grande desafio.

1º dia:

Começámos o nosso percurso às 11h, no meio de um calor insuportável. Não nos podíamos queixar pois ainda só estávamos no 1º dia. Nada podia falhar. Tínhamos o nosso trajecto marcado num papel e a nossa  primeira paragem teria de ser em Hauz- Han e para isso, teríamos de pedalar 110 kms.
Às 13h parámos para almoçar. Pedimos autorização a um senhor para almoçarmos, abrigados do sol, no alpendre da casa. A sua mulher preparou naquele instante o espaço. Toalha no chão, chá verde, talheres e pão ao nosso dispôr. Era ela que nos fazia companhia e que rezava por nós, depois de saber o nosso trajecto. No fim do almoço, imitámos o gesto, a seu pedido, de agradecimento a Deus pela refeição. As horas passavam e ainda tínhamos muitos kms pela frente. Foi-nos impossível aceitar o convite para ficarmos à dormir mas aceitámos o forte e sentido abraço, entrelaçado em preces a Deus. O adeus durou até se perder de vista. 
De novo na estrada com as nossas 15 garrafas de água já a escaldar. O vento continuava de frente, a estrada era terrível, em más condições. Só tínhamos como objectivo pedalar, pedalar, pedalar…  90 kms feitos numa recta e parámos para comer qualquer coisa e retomar energia para os últimos 20 kms.

- Hauz-Han, kms? – Perguntei a uns senhores, enquanto o Rafael escolhia o que iríamos comer.

Não queria acreditar no número que ele desenhou na terra. 50?

- 50?!

Afirmativo.
O Rafael sai da loja com cara de preocupado…

- Tanya, sabes quantos kms faltam?

- 50… O senhor disse 50 mas é impossível!

- Também me disseram 50… Mas como é que é possível? Onde foi que nos enganámos? O que fazemos agora?

- Comemos primeiro e depois pensamos. 


- Disse eu, obedecendo ao meu estômago. Pensar de estômago vazio é que não!

Jantámos rodeados de novos pequenos amigos que nos iam fazendo inúmeras perguntas. Olhávamos um para o outro preocupados.

- O que fazemos? – Perguntávamos aleatoriamente.

Obtivemos resposta quando a única miúda do grupo, nos convidou para dormir. Tínhamos de ser realistas. Estava escuro e estávamos cansados. Era impossível retomar caminho!
Aceitámos o convite e montámos a tenda numas divisões que construíram nas traseiras. Umas divisões que serve de quarto ou de sala de estar/jantar ao ar livre, protegidos do sol. Os adultos pouco falavam connosco, poucas perguntas faziam. Ali eram as crianças que nos ajudavam, que nos faziam companhia e nos davam conselhos, como por exemplo, tirar todos os sacos das bicicletas e coloca-los perto da tenda e unir as bicicletas com um cadeado.

- Não é seguro? – Perguntámos.

- Sim… mas é melhor com o cadeado. – Responderam e nós obedecemos.

Fomos para a tenda e adormecemos sempre com a mesma pergunta na cabeça. “Mas onde foi que nos enganámos?”  

2º dia:

O despertador tocou às 4 da manhã. Tudo foi arrumado ainda com remelas nos olhos. Tentámos beber leite de camelo misturado com água gasificada mas foi-nos impossível. Ainda fechei os olhos e pus a garrafa à boca e bebi o máximo que consegui. “Se eles bebem, é porque faz bem” Mas não voltei a repetir o gesto.

A manhã começou sem qualquer tipo de problema. O fresco da manhã, fez-nos pedalar com mais velocidade pelas estradas esburacadas. O vento ainda não tinha despertado por isso tínhamos de dar o nosso máximo.

Passámos por um jipe que levava os 4 piscas ligados. À sua frente, dois homens corriam. Cumprimentámos os atletas e continuámos com os nossos 23 kms/h. Uma chinesa de câmara na mão a disparar contra nós, fez-nos parar. Um autocolante na carrinha chamou a nossa atenção. “Running the Silk Road”.

- Eles estão a correr a Rota da Seda?! – Perguntámos espantados. 

Sim, 150 dias a correr! E nós é que somos doidos! Passado uns minutos, os dois campeões chegaram. Ficámos contentes em vê-los. Trocámos contactos para que, em Hong Kong, uma chamada baste para termos casa.

Faz-nos bem ver estrangeiros. Ganhámos nova energia e descobrimos o engano do dia anterior. Ofereceram-nos um mapa da Ásia central. Uns dias anteriores, tínhamos lido sobre como passar o país sem grandes problemas. Um dos avisos foi em relação à estrada que muitos ciclistas se enganam. “Cortar à direita e seguir pela estrada secundária. Muitos ciclistas enganam-se e seguem em frente. Tenham cuidado.” Enganamo-nos… Pronto, está explicado.
Com o mapa novo nos sacos, partimos com novos disparos de câmara. Kms à frente parámos. Fomos espreitar a sopa do vizinho mas vimos pedaços de carne a boiar… Não conseguimos comer nada naquele sítio. Enchemos o estômago com água e lá fomos somar mais kms, com o vento bem desperto. É o 6º dia com vento de frente… Já começa a chatear!
Nessa manhã conseguimos pedalar muitos quilómetros. Quando parámos para almoçar, já nos encontrávamos com 70 kms. Nesse dia, teríamos de chegar a Mary e para isso, faltavam 50. Deixámo-los para o fim da tarde. Ficámos protegidos do calor, num café no meio do nada. Almoçámos melão quente com uma lata de puré de beringela e bebemos água quente. Tivemos um cão como amigo que o alimentámos com pão duro e borrifámos o nosso produto anti-melgas no pêlo para fazer desaparecer uma espécie de bicho que não fazemos a mínima ideia do que seja – um misto de aranha e mosca. A partir desse momento, tornámo-nos os seus melhores amigos!

Chegámos a Mary com 124 kms. Estávamos rotos e com fome. Fomos convidados por uma senhora com um óptimo inglês, para dormirmos nas traseiras da sua casa. Dormimos ao ar livre com a ventoinha na nossa direcção.

3º dia:

O despertador voltou a acordar-nos às 4 da manhã… Já não acordávamos com muito boa disposição… umas bolachas secas no estômago e começámos caminho. Não temos grandes novidades para contar… Tudo nos cansava: o vento de frente, o calor, a água quente… o caminho era monótono e as nossas discussões continuavam…

- Não consegues ir mais depressa? – Perguntava o Rafael.

Pronto… Era a pergunta que estragava tudo!

- Se conseguisse andar mais depressa, acredita que andaria bem mais depressa. Passa à frente. Eu não vou acelerar! Não consigo!!! – E continuava, tentando fazer um esforço mas era impossível. O vento era forte e a estrada continuava terrível. O calor a partir das 11h era insuportável.

Pedalar já se tornava um movimento não desejado. Já desesperávamos com a areia do lado direito, com a areia do lado esquerdo. Com a falta de sombra. Com a sujidade das casas de banho. Sim, dá para desesperar! As casas de banho foram as piores até agora e não acredito que iremos ver pior! Elas estão no exterior das casas, feitas com qualquer tipo de material e um enorme buraco no chão. Há duas opções para o chão, ou é em cimento com um buraco no chão ou são duas tábuas, uma para cada pé. Quando temos a última opção, passámos o tempo a rezar para que nenhuma tábua parta naquele momento. Não temos nenhuma privacidade, as moscas ficam ali com o garfo e a faca na mão. Não há água, não há papel, há apenas mau cheiro, e muita sujidade.

Continuando no caminho: vimos uns miúdos de pila ao léu a mergulhar contentes num rio. Fomos fazer o mesmo! Não foi fácil entrar, sentindo os pés a enterrar na lama, sem saber o que estaria por baixo… o Rafael já estava com a cabeça debaixo da água e eu ainda estava a ganhar coragem para desenterrar um pé para voltar a enterra-lo… minutos depois consegui dar a alegria aos miúdos de ver a Miss t-shirt molhada. Estávamos bem mais frescos e quem também queria refrescar-se, eram as vacas que desceram colina abaixo para mergulhar e beber. O rio é de todos e todos ficam felizes!

Voltámos a parar para almoçar e descansar um pouco à sombra para voltar a desesperar no caminho. Parámos com 113 kms no único café que encontrámos no meio do deserto e eu não me estava a sentir muito bem. A família ofereceu a “cama-chá” para passarmos a noite. É exactamente isso: de dia serve para beber o chá, para comer, para descansar e à noite, a toalha do centro é retirada para as pessoas poderem dormir.

O senhor, ao ver-nos a tentar molhar a cabeça numa mangueira que pouca água deitava, perguntou se não queríamos tomar banho. Essa pergunta deixou-nos todos contentes! Tirou, com um balde, água do poço e tomámos um belo banho ao ar livre! Um balde para cada um bastou para tirar a sujidade do corpo!

A família despediu-se e aproveitámos para ir dormir pois o despertador iria tocar à hora do costume… Nessa noite, tivemos companhia. Pára um carro e saem de lá dois homens. Um deles agarra e abana o pé do Rafael para o acordar para perguntar a nossa nacionalidade. Eu nem abri os olhos e tentei manter a calma. O Rafael respondeu sem se mexer e assim perceberam que não valia a pena continuar com a conversa. Sinto movimentos na “cama” e levanto a cabeça. Era um deles que estava a preparar o ninho aos nossos pés… Não foi uma noite fácil! Tivemos de pedir para desligar a música do carro e para eles pararem de falar. Tínhamos poucas horas para dormir e nessas poucas horas, pouco dormimos …

4º dia:

Dia do desespero! Não aguentei mais! A má disposição do dia anterior, não tinha passado. O estômago e os intestinos não estavam bem mas tinha de continuar a pedalar. A paisagem continuava a mesma, deserto e deserto só deserto! A temperatura continuava nos 44, 45, 47 graus… Queria descansar mas não tínhamos uma única sombra. Tinha de parar, não me estava a sentir bem, o vento continuava de frente, o esforço era muito. A água quente cai mal no estômago. Parei a bicicleta, atirei-a para o chão e disse que não continuava mais, não conseguia. O Rafael ignorava-me. Sentei-me no chão e encolhi-me a chorar. Não tinha forças no corpo, sentia-me fraca sem saber o que fazer. O Rafael continuava na bicicleta à minha espera. Ele tem resistência e força. O bodybord deu-lhe essa resistência (foi a conclusão que chegámos). Eu sabia que ele queria conseguir atravessar o Turquemenistão de bicicleta, era o objectivo dele. Era o meu também mas no 4º dia desesperei, não queria continuar naquele estado. Não houve um carro que tenha parado para perguntar se estava tudo bem mas mal vi uma carrinha, levantei-me e mandei parar! Foi a minha salvação! Já tinha feito 50 kms até ali, por mim já chegava. Levaram-me 30 kms à frente onde esperei pelo Rafael, num café.


Estava preocupada com ele pois nesses 30 kms ele não iria ter nada! Nenhuma sombra, apenas areia... passado duas horas ele chegou… fiquei contente! Ele estava morto… sem mim, atingiu mais velocidade mas sentiu-se mal. Ficámos a tarde todas no café e nessa tarde o Rafael também ficou doente… Quando a noite chegou, achámos melhor fazer mais uns quilómetros, mas desistimos passado uns 15 e montámos a tenda no deserto. Senti-me como o Judas nessa noite!

Deitámo-nos sem comer, não tínhamos nada, nem apetecia nada… adormecemos depressa mas fui acordada pelo Rafael que me agarrou a perna e olhava para fora com cara de aflição. O meu coração também batia com força sem saber ao certo o que se estaria a passar. Um camião passou e o Rafael conseguiu respirar.

- Parecia que o camião vinha contra nós e não consegui reagir…

Que susto… voltámos a adormecer naquela que seria a última noite no Turquemenistão!

5º e último dia:

4 da manhã e quem acordou connosco? O senhor vento! Mas PORQUÊ??? Ele disse que preferia beijar-nos a boca que o rabo. Último dia, estávamos doentes, fartos, chateados, mas saímos! 5 dias duros, desesperantes. A não repetir!
Voltar de bicicleta a este país com apenas 5 dias? NUNCA! Não vimos nada, não aceitámos nenhum convite das pessoas, não dormimos bem, não nos aliment+amos bem e discutimos muitas vezes. Foi desesperante… mas já estamos no Uzbequistão!

last days

Chegar a casa do Hamid e conhecer a sua mulher e a sua filha de quase 3 meses, foi como chegar a nossa casa. Estávamos cansados do longo dia e do stress que foi pedalar em Teerão. Ficámos com anfitriões profissionais! Pessoas com um enorme coração, sempre prontas a ajudar e sempre com conversas de longas horas. O tema principal era a religião mais especificamente o Islão e o Corão. Foram conversas bastantes abertas e sinceras e ele sempre que podia, dizia que o Rafael era um bom Muçulmano. Eu cá não sou… gosto muito de uma boa pinguinha de tinto e de uma cerveja geladinha acompanhada com tremoços!
Olhar para este casal, dá vontade de nos fecharmos no quarto e fazer um filho o mais depressa possível! Parece tão simples! Há tanto amor, tanta paciência, tanta alegria naquela casa! Assistimos ao 3º mês da filha! Grande festarola! Toda a família se reuniu e jantaram depressa para depressa arrumarem tudo da mesa, para dançarem depressa para que depressa chegasse o bolo, ou melhor, os 3 bolos e depressa entregarem as prendas para terminarem a festa e irem depressa para casa pois, no dia seguinte, é dia de trabalho.
Para nós, foi dia de vistos… e é sempre um dia terrível! As moradas das embaixadas nunca estão correctas e nem os taxistas sabem onde elas se encontram. Essa é a única dificuldade porque, até agora, tem sido muito simples ter os vistos nos passaportes! Disso não nos podemos queixar!
Quando chegámos à embaixada do Turquemenistão, vimos um senhor de barba branca. Iraniano é que ele não era, disso tínhamos a certeza!
- Não és português? – Perguntei com um ar de felicidade.
Claro que é português! Em Buein Zahra, tinham-nos dito que há uma semana atrás, tinha ficado um português com eles, que anda a viajar de bicicleta. Vimos a fotografia dele e ao vê-lo, aquela barba não enganava ninguém. Tinha de ser ele!
- Eh… sim, mas… o que se passa? Como… eh… - Estava admirado e confuso.
Explicámos como o conhecemos e tudo ficou esclarecido.
Mais um português com os pés nos pedais! O Armindo partiu com 14 anos para França mas o seu coração é português. A reforma estava a aproximar-se mas não quis esperar por ela para partir em viagem com a sua mulher. Começaram em Portugal e, na Síria, as saudades dos netos foi mais forte. A mulher voltou para a França e o Armindo continuou caminho sozinho.
- Era a minha mulher que falava inglês. Agora não percebo nada o que este gajo quer. Estou há mais de 4 horas aqui à espera e ainda não tenho o meu visto! – Queixou-se.
Ficámos com ele e ajudamo-lo a sair dali com o passaporte na mão, com mais um visto para a colecção. Almoçámos juntos, trocando histórias e peripécias. Nós terminamos em Macau e ele não tem destino nem prazo para terminar! Está reformado e com um mundo para conhecer.
Em Teerão fizemos novos amigo e reavimos um! Durante a nossa estadia no mosteiro de Mar Musa, na Síria, conhecemos o Reza, um rapaz iraniano que mora na Suécia, com quem simpatizamos. Deixou a Suécia há dois anos para caminhar até à Índia!
É sempre muito bom voltar a ver pessoas que conhecemos durante a viagem. Juntos, apanhámos um autocarro que demorou 12 horas, para Shiraz e o Reza tratou do alojamento. Enviou várias mensagens para o Couchsurfing e em poucos minutos recebeu um telefonema.
- Reza? O teu nome de família é-me familiar. – Disse a prima do outro lado do telefone, sem ainda saber que existia esse grau de parentesco entre eles.

Passámos quatro noites em casa da família, que não via há mais de 12 anos. Fomos de novo rodeados de comida e comida a toda a hora!


De Shiraz pouco vimos. Escondíamo-nos do calor dentro de casa e ao fim da tarde saímos para um piquenique nos enormes jardins ou para a casa de amigos. O que nos vai ficar na memória será sem dúvida os gelados! Farudé - Não fazemos a mínima ideia do que é feito mas faz lembrar noddles gelados e os sumos de cenoura com uma enorme bola de gelado dentro! Para nós, eles têm os melhores gelados!
Deixámos o Reza em família e subimos para Esfahan, a cidade mais bonita do Irão. È realmente a pérola do Irão! Ficámos em casa de um casal que dentro de alguns meses, irá emigrar para o Canadá. Mais um casal revoltado com o país. As conversas rodaram à volta da política e da religião e mais uma vez estivemos com um casal formidável que nos levavam a piquenicar aos jantares nos enormes jardins repletos de famílias.


Em Esfahan, conhecemos a Catarina, uma portuguesa de Aveiro que mora em Dublin e que nos arrependemos de não ter tirado nenhuma fotografia para recordação. Ela encontrava-se no Irão em trabalho. Estava a fazer a assistência de realização de um filme. Soubemos da sua existência quando respondemos a um rapaz que éramos portugueses.


- Portugueses? Há ali uma rapariga portuguesa nas filmagens de um filme que estão a rodar na mesquita. Penso que seja uma das actrizes. Querem beber um chá e ver as bonitas carpetes?
Agradecemos o convite mas estávamos curiosos para conhecer essa portuguesa, possível actriz. Prometemos voltar nos próximos dias para um chá. Fomos à mesquita que se encontrava fechada mas fomos teimosos e conseguimos entrar e estar com ela. Não é actriz, mas é portuguesa!

Ficámos satisfeitos com a nossa visita e estar na segunda maior praça do mundo! O bazar é gigantesco e continuámos a comer gelados como se não houvesse amanhã. A cidade está repleta de espaços verdes e as famílias juntam-se ao final da tarde para encher cada espaço vazio do gigante tapete verde.
De novo em Teerão depois de nova viagem de autocarro de muitas horas. Fomos buscar as bicicletas e quase que tivemos um ataque cardíaco. Eu sabia que alguma coisa ia correr mal. Eles foram do mais antipático e do mais ignorante no dia que deixámos as bicicletas. Chegámos à loja e a única coisa que mudaram, foi a cassete da bicicleta do Rafael. Nem trocaram correntes, nem afinaram, nem mudaram os travões… nada, não fizeram nada. Não estávamos com boa cara e eles ficaram preocupados. Não mostraram nenhum profissionalismo, nenhum entendimento no assunto. Pediram para voltarmos no dia seguinte que teriam as nossas meninas como novas. Voltámos e já estava com outro aspecto mas quase que voltávamos a ter outro ataque cardíaco… 250 dólares?! Reclamámos com o preço mas só estava um empregado. Pedimos para ver o que estávamos a pagar e no meio das contas estavam 25 dólares do táxi. Recusamo-nos a pagar esse valor e dissemos que só tínhamos connosco 200 dólares. Fomos enganados e detesto essa sensação. Estivemos a ver os preços das peças e eles aumentaram todos os valores! Foram terríveis mas não vamos deixar morrer esse assunto.

Não podíamos perder mais tempo no Irão… o nosso visto estava a terminar. Fomos até Mashhad de comboio e parecia uma criança… Nunca tinha dormido num comboio com camas! Cada cubículo tem 6 camas, as primeiras, são os bancos e as camas do meio, são o encosto que levanta para fazer de cama. Só tinha visto nos filmes e estava contente por fazer uma viagem de noite naquelas condições!


Em Mashhad ficámos com o Hamed e a sua mãe. No primeiro instante, ficámos com um pé atrás mas depressa nos sentimos à vontade e nos divertimos.


Até a fronteira foi um tirinho muito custoso. Na 1ª noite ficámos no Crescente Vermelho, na 2ª ficámos numa mesquita e na 3ª num hotel. Três dias a pedalar contra um vento terrível, com calor acima dos 40 graus e com pouca água. Na noite do Crescente Vermelho, fomos convidados por umas senhoras para um chá no interior da casa. Ficamos rodeados de mulheres e crianças. Elas fumavam shisha mas eu desisti de as acompanhar por ter um sabor tão forte a tabaco que arranhava a garganta. Preferi vê-las a fumar, observar os movimentos que faziam, o fumo a sair pela boca e o passar daquele objecto tão bonito. Estávamos numa pequena aldeia e mesmo sendo ela pequena, as famílias não têm mais de dois filhos. Não os sentimos tão conservadores como a ideia que tínhamos.
No 2º dia, não fizemos mais de 60 kms. O vento continuava forte e deixou-nos K.O. Ficámos emocionados quando um senhor nos perguntou se queríamos dormir na mesquita. Estávamos com fome e cansados e aquele convite, era tudo o que queríamos ouvir! Tivemos direito a banho e a uma bela noite.


Até Sarakhs sofremos muito. Muitos quilómetros feitos, muito calor e de novo, muito vento de frente. Nas horas de mais calor, abrigámo-nos numas ruínas e ficámos encolhidos numa linha de sombra. A pouca água que tínhamos estava a escaldar. O Rafael apanhou boleia para ir buscar água e chegou como se tivesse nas mãos um tesouro! Estávamos felizes com aquela água fresca!
Chegámos de noite em Sarakhs e a polícia não nos largava. Mostrámos os passaportes e quando continuámos a procura de sítio para dormir, reparámos que a polícia nos estava a seguir. Um polícia de trânsito fez-nos sinal para virar à direita e nesse momento, outro carro da polícia pára. Disseram-nos para os seguir e levaram-nos para o hotel que estávamos à procura. Muito caro! Não aceitámos ficar lá. Voltámos para a entrada da cidade, para a única esperança. A polícia continuava a seguir-nos e nós já não estávamos a achar piada. Não nos largaram até terem a certeza que ficaríamos num hotel. Não entendemos o porquê e só ficámos no hotel depois de muito discutir o preço. Passámos as duas últimas noites num hotel a descansar para o novo desafio: Turquemenistão!
Sobrevivemos ao Turquemenistão mas podemos dizer que não foi nada fácil e agora sabemos que não queremos repetir...

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