beleza iraquiana

“Faz parte da viagem” foi o nosso pensamento quando vimos as nossas bicicletas despidas… O roubo aconteceu em Cizre.”Faz parte da viagem”, veio a seguir aos muitos nomes feios que atirámos para o ar, saindo porta fora, na esperança de encontrar o ladrão ali mesmo, à nossa espera com as peças nas mãos.
Não tínhamos como sair dali. Sem selins, sem espigões, sem punhos… Estávamos tristes, chateados mas “faz parte da viagem. Podia ter sido pior. Ainda temos as bicicletas e os atrelados. Não partimos as pernas nem os braços. Vai correr tudo bem.”. Queríamos manter o pensamento positivo.
Mais uma vez, a Specialized foi impecável connosco! As novas peças para as nossas meninas chegaram passado uma semana!
Foi uma longa semana… Pouco saímos, pois os homens comiam-nos com os olhos. Há olhares que são suportáveis mas os de Cizre… impossível! Passámos os dias em casa, fechando o nosso cérebro na internet.
Os nossos planos foram por água abaixo… Uma semana perdida esperando pela encomenda de Portugal e mais uma semana à espera das peças… são menos duas semanas que temos no Irão. Fazendo as contas, só ficamos com um mês no país que mais queremos conhecer e um mês para atravessar o Irão, não sei se será possível! Pensámos na possibilidade de saltar o Iraque, apanhar um transporte que nos ajudasse a ganhar tempo. Estávamos confusos, sem saber muito bem o que fazer. Foi uma semana dura… estávamos tristes com o roubo, tristes com a cidade e todo o seu ambiente mas contentes por termos ficado em casa de um rapaz simpático que fez tudo para que nos sentíssemos bem.
Passado uma semana, partimos. Finalmente! Até à fronteira com o Iraque, foi terrível! As crianças pediam dinheiro, ameaçando-nos com pedras, e uma foi na direcção do Rafael. Os adolescentes tinham atitudes infantis… “Será que isto é uma amostra daquilo do que será o Iraque?”. Queríamos chegar rápido para saber.
Carimbo de saída da Turquia no passaporte e com o visto gratuito de dez dias para o Iraque nas mãos, estávamos prontos para continuar caminho. Impossível. O ar estava amarelo, o vento mostrou a sua força. Assistimos pela primeira vez a uma tempestade de areia! As nossas bicicletas caíram, a chuva apareceu ao espectáculo e nós corremos para dentro do edifício não querendo assistir a nada!
- Durmo já aqui. – Dizia o Rafael.
Estávamos às portas do Iraque mas era impossível entrar.
- Precisam de ajuda? – Perguntou um iraquiano num inglês perfeito.
- Precisamos de sair daqui para passar a noite algures mas é impossível. – Disse o Rafael num inglês nada mau.
- Eu posso levar-vos na carrinha. Há espaço para vocês e para as bicicletas. – Disse a frase que nos fez sorrir. – Eu vou até Erbil, posso levar-vos até lá.
Erbil?... hum, nós vamos até lá mas fica a meio do Curdistão. Sim, precisamos de um milagre para conseguir ter os 30 dias (no mínimo) no Irão. Indo com ele, ganhamos quatro dias. Vamos com ele até lá ou não? Entrámos no carro ainda sem saber se iríamos aceitar ir tão longe.
- Fazemos uma coisa. Telefonamos ao nosso anfitrião em Erbil (contacto que temos do couchsurfing) e se ele nos puder acolher hoje, vamos até lá e se não for possível, ficamos na primeira cidade que aparecer. – Propôs ao Rafael e ele aceitou.
Tivemos um bom caminho até Erbil parando em todos os chekpoints. As perguntas eram sempre as mesmas. De onde somos, o que estamos ali a fazer, para onde vamos…
Estávamos na capital do Curdistão Iraquiano. Na realidade, não podemos dizer que estamos no Iraque… para isso precisamos de um visto especial que não nos dariam. É perigoso e ninguém se atreves a lá entrar.


O Iraque, ou melhor, o Curdistão, foi para nós, uma surpresa! É incrivelmente bonito! As pessoas são simpáticas e os homens super respeitadores! Não temos nada de negativo para contar. A polícia manda-nos parar para perguntar de onde vimos e assinam num dos sacos e ficam contentes com a assinatura do Rafael na mão. Comemos os melhores falafeis com o super molho iraquiano e era difícil resistir aos gelados. Voltámos os preços baixos e isso deixava-nos contentes e gordos. A nossa alimentação não variava muito… ao meio dia dois falafeis para cada um e gelados ao longo do dia e à noite uma salada fria com muita fruta. Demos graças ao falafeis pois se não fossem eles, pouco ou nada tínhamos para comer na rua. Aqui, vence a carne!
Saindo de Erbil parámos numa pequena aldeia mas até lá, suportámos com dificuldade, um dia muito quente! Foi o dia mais quente da viagem. As subidas eram muitas e eu só desejava encontrar uma cabeleireira e caso isso acontecesse, cortava naquele momento o cabelo muito curtinho!
O caminho não foi fácil mas estávamos com uma energia fora do normal! A paisagem era incrível e inesperada! Não tínhamos essa ideia do Iraque. Da nossa boca só saia “uau!” Tudo era verde, tudo era bem cuidado. Ao ver tanta beleza, pedalávamos sem dificuldade montanha acima!
Parámos quando vimos um tanque, perto de um pequeno mercado com quatro crianças à porta! Elas riram-se quando mergulha-mos a cabeça na água! Qual miss t-shirt molhada! Foi o único momento fresco do dia!
Chegados à pequena aldeia, fomos acolhidos por uma família. Ofereceram-nos um quarto mas preferimos montar a tenda no jardim para escaparmos aos mosquitos.
A família estava curiosa para saber mais sobre nós mas não se atreveram a meter conversa. Apareciam para nos trazerem o chá e mais tarde o jantar. A vizinha não quis ficar atrás e apareceu com a sobremesa e foi ela que se sentou ao nosso lado e timidamente nos ia perguntando coisas. Fomos para a tenda com almofadas e cobertores e “boas noites”.
Novo dia e mais uma ameaça de um dia duro! Às oito da manhã, já estavam 28 graus mas depressa arrefeceu graças ao vento. Vento forte que soprava de todos os lados!
- Tanya! – Gritaram duas pessoas de dentro de um carro que me ultrapassou pela direita.
Era a Esther, a professora inglesa que seria nossa anfitriã nessa noite em Diana e o seu namorado iraquiano. Foi uma sorte nos termos cruzado. Entregou-nos as chaves de casa que trazia ao pescoço.
- Vou chegar tarde a casa. Sintam-se a vontade. Têm comida no frigorífico, podem acabar com ela. Beijos, beijos, tenho de ir! Até logo! – E partiu!


Com as chaves na mão, continuámos caminho. Mais um dia cheios de energia! Subimos montanha acima em grande velocidade sem darmos importância ao vento que se fazia sentir. A subida parecia nunca mais acabar… A paisagem continuava a deixar-nos de queixo caído! Não conseguíamos encontrar palavras! Chegámos ao topo e até Diana foi sempre a descer e plano, rasgando a montanha! Estávamos a pedalar no vale com montanhas imponentes de um lado e do outro. Sabe bem viajar assim! Parámos mal vimos uma enorme cascata que soubemos pelo senhor que nos ofereceu o chá e uma bandeira do Curdistão Iraquiano que essa cascata é a mesmo que aparece nas notas de 50000 Reais. Depois de várias fotografias, voltámos para mais uns quilómetros pelo vale, até chegarmos a Diana.
Tínhamos a casa só para nós e à noite, conhecemos melhor a Esther – a mulher com mais energia que conhecemos!
- Amanhã não vou estar cá nem vou dormir cá mas não há problema. Ficam com as chaves e combinamos um sítio onde as podem deixar. – Disse-nos isso, sem parar de arranjar as suas coisas.
Aproveitámos para ficar mais tempo e aproveitei para cortar o cabelo, bem curtinho! Mas quem me manda cortar o cabelo numa sexta-feira 13? Foi a pior experiência que tive! Terrível! Mostrei uma fotografia de quando tinha o cabelo bem curtinho e perguntei se conseguia cortar assim. Claro que conseguia! Mandou-me sentar e eu comecei a transpirar às primeiras tesouradas, enquanto o Rafael comia um gelado numa gelataria ao lado.
Foi terrível e o meu sorriso e simpatia desapareceram quando percebi que ela não percebia nada do assunto!
- Mais curto! Quero como está na fotografia. Não, assim não. Assim. Não! Mais curto! Sim, como um rapaz! Mas eu primeiro perguntei se era capaz e disse-me que sim! Não! Ok. Está bem. Não é preciso mais. Ok Ok, fica assim! – Levantei-me e sai porta fora.
- Espera, espera. – E veio tirar-me o plástico preto que estava à volta do meu pescoço.
Estava cheia de vergonha de estar na rua com aquele cabelo! Chorei o caminho todo. Fui ter com o Rafael e pedi para irmos embora depressa dali! Não queria acreditar no que me tinham feito! Cheguei a casa e tentei com o Rafael, fazer melhor. O Rafael não foi a melhor ajuda… tive de ser eu no meio de lágrimas a tentar colocar um pouco de beleza em mim… Não ficou um espectáculo mas não ficou um terror mas foi sem dúvida, a pior experiência que tive! Por favor, não pensem cortar nunca o cabelo no Iraque!
Saíamos de Diana e estávamos perto da fronteira com o Irão! Mandaram-nos parar para um chá e convidaram-nos para passarmos a noite lá – lá, que era um estaleiro. Conhecemos o Khalid e o seu amigo, a dupla perfeita! O fim da tarde foi passado entre gargalhadas! Ambos eram iranianos e tratamos logo de saber de que terra eles eram e trocar contactos pois iríamos necessitar de casa no Irão!

Fomos mais que bem tratados! Muita comida e quando digo muita comida, é mesmo muita comida, com direito a banho quente, a quarto só para nós e pequeno-almoço! Saímos com um saco enorme de frutos secos, queijo e pão! Despedimo-nos com um até já e preparamo-nos mentalmente para a subida que avistávamos e que sabíamos que não seria fácil! Foi muito estranha a energia que tivemos no Iraque! Foi realmente um país magnífico de se pedalar! Tudo era lindo à nossa volta e até me emocionei nesse dia com tanta beleza! Estávamos felizes!
Lá ao fundo tínhamos o Irão! Tirei do saco a camisola larga de manga comprida e o lenço para a cabeça e assim, estávamos prontos para entrar no país que mais desejávamos entrar!


9 comentários:

diogo disse...

palavras, qualquer palavra e demais latim gasto, tenho vos acompanhado a algunsss meses... admiraçao e inveja... quando fiz o nosso pequeno portugal de norte a sul foi um pouco, admito, inspirado em voxes os dois. para alem de toda a bagagem de sitios, pessoas, linguas, tudo uma viagem dessas impoe, adoro a vossa cumplicidade... e isso é um dos motivos de vos acompanhar...gostava de perceber pk vos admiro tanto, a unica conclusao a que chego e que provavelmente voxes conseguiram quebrar a vida esteriotipada que as sociedades impoe,e isso por si só e um motivo de admiraçao.
malukeira, coragem e amor acho (sem vos conhecer) que e o qu vos caracteriza. parabens parabens!!!! à porra o mundo esta no vosso pedais.. parece etopia....

Anónimo disse...

Olá pessoal
Aqui estou eu sempre de "ollho em vós".
Essas coisas de roubo, pelo que tenho lido sobre grande viagens, é uma situação comum e possível de acontecer. São paises com graves carências económicas que quando surge algo "diferente" é uma tentação. Mas já percebi que tudo está a resolver-se pelo melhor. Agora é preciso é ânimo!! Aqui, ou melhor o mundo, está a torcer por vós nessa viagem da vida. Força eu acredito que vão conseguir chegar ao fim. Vocês já fazem parte do meu dia, dia.
Tânia, continuas lindissima apesar do teu "new look".
Abreijos e Alegria.
PP

Daniela disse...

Oh Tanya, até queria ver uma foto do cabelo, pra ver se consigo entender como podes ficar feia!! Ai que tola! Beijinhos Grandes e Bom Irão!!

mundopatafundo disse...

Olá Tânia e Rafael! Somos seguidores do vosso blog e acompanhamos a vossa aventura sempre que escrevem! As vossas estórias deliciam-nos e admiramos a vossa coragem, descontracção e abertura para pedalarem pelo Médio Oriente. Deve ser realmente fantástico, com paisagens lindas, culturas muito diferentes e concerteza muito "off the beaten track"! Não desanimem perante os infortúnios, pensem que no momento a seguir vem sempre a sorte, através de uma boleia improvável, um conforto de um lar, uma refeição revigorizante! Obrigada pela partilha, pelas gargalhadas quando lemos os vossos posts!
Nós tb temos um blog (é este, mundopatafundo) muito simples onde vamos partilhando as nossas aventuras, se quiserem dêem uma espreitadela. Despedimo-nos dos nossos empregos para dar a volta ao Mundo num ano ;) força! Cláudia e Pedro

Anónimo disse...

Opa, só tenho uma palavra a dizer: ESPECTÁCULO!

Irei enviar-vos um email um dia destes, eheh

A*

Cisfranco disse...

Tenho-vos seguido sempre.Fantástica viagem me proporcionais também com os relatos.
Força! Boa viagem!

Aubigné disse...

Rafael e Tânia,

Força nisso! Bem sei o quanto é precioso tê-la e senti-la, aqui fica um pouco da minha. De Portugal para aí!

Abraço & Beijo
Tiago d'Aubigné

Bruness disse...

É pá.. Ladrões dum caneco...
Mas faltou mesmo a foto do corte de cabelo da Tanya.

Força e Boa Viagem!
Bruno

Eva Castanheira disse...

vocês são muita malucos! mas são um espectáculo! Força. sigo-vos desde do primeiro dia! beijos

Posts mais populares