Welcome to Iran

“O Irão, é o melhor país para se viajar. As pessoas são as mais hospitaleiras. É um país incrível!” diziam-nos alguns amigos. Os que nunca aqui estiveram, porém, diziam-nos “Irão?! Mas não têm medo? Aquilo lá é perigoso! É terrível! Vais ter de andar toda tapada, Tanya! Coitadas daquelas mulheres.”

Queríamos muito conhecer o país. Estávamos ansiosos, mas confesso que estava com um pequeno medo que ruía o estômago. “E se a minha roupa não é a mais adequada? E se fazemos alguma coisa errada e somos presos e me separam do Rafael…” Medos e medos que sem querermos, atropelam os nossos pensamentos.


Irão! Quem cá esteve sabe o mágico que isto é, conhece o tamanho do sorriso das pessoas, sentiu a doçura dos olhares. As pessoas! São elas que fazem este país ser tão marcante.

Na fronteira, não tivemos qualquer problema. Muitos dizem que as malas são todas revistadas, que passam horas na fronteira, que têm de responder a inúmeras perguntas. Connosco, foi tudo muito rápido e com muita simpatia! Pediram para abrirmos os sacos e apenas espreitavam. Pouco tocaram, pouco remexeram.

- Welcome to Iran! – Diziam-nos os guardas.


Não tivemos qualquer problema. Sentimos que o nosso início estava a correr bem!

Montanha acima, montanha abaixo e um carro parou.


- Venham almoçar a minha casa! – disse, ou melhor, mimou um senhor com o vidro aberto.


Este foi o nosso primeiro convite. O primeiro de muitos! Se houve dias em que almoçámos na rua, é porque quisemos ficar sozinhos, meios escondidos mas… fomos sempre descobertos. Se nos encontramos parados, aparece sempre uma pessoa a convidar-nos para um chá mas quando convidam para o chá, há sempre muita comida a acompanhar! Estamos gordos (ou as balanças estão todas avariadas) e não podemos recusar comida! Comemos a toda a hora e o estômago já se queixa e não pára de se queixar mas de nada vale. Os pratos têm de ficar cheios e repetir é obrigatório. O “não”, não é entendido. A comida chega sempre à boca!

“Ah… vocês vão passar fome… eles só comem carne! Para vocês só vai haver arroz…” O arroz aqui é do melhor! Qualquer pessoa sabe cozinhar arroz da melhor forma! Aqui há muita carne, sim, mas há tanta, tanta comida para nós! Tanta variedade! Temos muitos amigos que não se atrevem a cozinhar para nós. “Eu não sei cozinhar comida vegetariana… vão ter de trazer a vossa comida ou cozinhar aqui…” Já ouvimos muitas vezes está frase. Aqui é diferente. Mal dizemos que não comemos carne, nem peixe, nem galinha, vão directamente para a cozinha e depressa chegam com pratos requintados e se não é requintado, é com boa vontade. Não importa o que comemos ou o que não comemos, o que importa é que comamos!



Chegámos arrepiados a Oshnaweya. Os carros reduziam a velocidade para nos cumprimentar. Olhei para o Rafael e os olhos dele estavam vermelhos. A simpatia das pessoas, o carinho, é emocionante. Elas passam, voltam a passar e quando tomam coragem, param o carro para falar connosco ou para tirar uma fotografia. Quando parámos as bicicletas, muitos carros pararam e sem darmos por ela, estávamos rodeados de pessoas. O Rafael estava rodeado de homens e eu ia sorrindo para as mulheres que passavam e sorriam para mim. Um carro ofereceu-se para nos levar até a direcção que tínhamos – a família do Khalid (o rapaz iraniano que conhecemos no Iraque). Tivemos de recusar o convite de dormirmos em sua casa, e tentar explicar que já tínhamos onde ficar. Ele compreendeu mas insistia no convite.



Chegados a casa da família do Khalid e foram as mulheres que nos abriram a porta. Os homens não estavam em casa. Todas muito simpáticas, avisaram para que nos sentíssemos à vontade e quando perguntei se podia andar sem o lenço, elas tiraram nesse momento os lenços que tinham até então.


- Aqui podes estar a vontade, não te preocupes.



Há muito que não nos encontrávamos dentro de uma casa, apenas com mulheres. Elas estavam contentes em nos receber e os seus olhares não paravam de nos fixar. Os homens chegaram mas não foram o centro das atenções. As mulheres continuavam a dominar! Depressa a grande toalha foi estendida no chão e a comida foi sendo espalhada. Todo estava delicioso mas a barriga gritava:


- Não penses em enfiar nem mais uma migalha de pão! Porque repetiste o pudim? Uma fatia não era suficiente? Diz que não queres mais! O quê?! Aquela rapariga está a encher um copo de sumo para ti! Recusa! Por favor! NÃÃOoooo… (gluglugluglu).

Ficámos apenas uma noite. Os nossos dias estão tão reduzidos… o Irão é tão grande… queremos ver tudo e não temos tempo. No dia seguinte, depois de um grande pequeno-almoço e do lenço enfiado na cabeça, fizemo-nos à estrada. Nesse dia somámos com muito custo 90 kms. Estávamos de rastos, mas de novo, em casa de familiares do Khalid. Desta vez, foi a sua mulher e os pais dele. No dia seguinte ele chegava e finalmente poderíamos agradecer toda a hospitalidade da incrível família que tem.



Estávamos em Mahabad. A comunicação não foi fácil mas estávamos bem. Sempre com o estômago cheio, lá está! Depois do mapa desenhado para sabermos o caminho de volta a casa, fomos dar um pezinho de passeio.


Onde é que estão os olhares persistentes? Onde estão as pessoas chatas com as mesmas perguntas de sempre, a sair da cartola? Os homens não falam comigo ou muito pouco, não estendem a mão para me cumprimentar (sinto-me ignorada). Perguntam ao Rafael de onde somos e despedem-se com muita simpatia. Quando não sabem falar inglês e percebem que não falamos persa, não continuam a conversa. Estávamos admirados e a gostar cada vez mais do Irão.

No dia seguinte, o Khalid chegou e “obrigou-nos” a ficar mais um dia para podermos visitar a gruta de Sahoolan. Aceitámos para podermos estar mais tempo com ele e com a mulher. Valeu a pena pegar no carro para ir ver a famosa gruta que está cheia de água. Vestimos os coletes salva vidas e atravessamo-la de um lado ao outro. É a família dele que se ocupa do espaço e claro que não podemos voltar para casa, sem antes visita-los com um prato à nossa frente. “Come e cala-te” - é o lema deste país!



Antes de partir, tivemos de recusar o dinheiro que o Khalid nos queria oferecer. Até nos estávamos a sentir mal com tanta generosidade. Convencemo-lo a ficar com o dinheiro e a coloca-lo de lado e a esse juntar mais para nos poder visitar em Portugal.

Até Janzan o caminho foi montanhoso e duro. O calor começava a dizer que estava a chegar e que dias piores iríamos ter. Passámos por Aidiche, Incha Afechar, e outra terra que não fazemos a mínima ideia do nome e claro que os outros nomes estão mal escritos mas é assim que soa.



Nessas três terras fomos convidados para passar a noite. Não era preciso pedir, as pessoas aproximavam-se e sem saberem falar inglês, convidavam-nos e nós não somos de recusar convites dessa natureza.


Quando estamos na estrada, também não recusamos os sinais que nos mandam param. Não nos recusamos a responder às perguntas. Não nos recusamos a tirar uma fotografia e isso tudo acontece muitas vezes ao dia! Foi graças a uma das paragens que conseguimos casa em Zanjan. Um carro parou e de dentro dele, saíram dois rapazes e três raparigas. Conversa puxa conversa, uma fotografia tirada, troca de máquina, outro disparo, também queremos uma para nós, mais uma troca de máquina.


- Ah são de Zanjan? Nós chegamos lá amanhã ou depois de amanhã! – Dissemos sem hesitar.


- Querem ficar em minha casa? O meu filho fala melhor inglês que eu. – Disse uma das raparigas.


Depois de muitas subidas e algumas descidas, depois de muito vento contra nós, chegámos e voltámos a ver a Shirin e conhecer o filho em que o inglês era muito fraquinho mas era o orgulho da mãe... aproveitámos a casa para descansar duas noites pois os dias anteriores foram de morrer! Ficámos em casa de uma rapariga que está separada do marido e que detesta usar o lenço. Mostrou o seu descontentamento em relação ao país. Não era a primeira vez que isso acontecia. Aqui, o assunto preferido é a política! A religião não é levada a sério. Falam mal da situação do país, da falta de liberdade. As pessoas daqui são muito mente aberta e dão muita importância aos estudos – é uma oportunidade para mudar de país. Estivemos com muitas famílias que estão prestes a emigrar para o Canadá, para a Austrália, Suécia ou Inglaterra. Não são felizes aqui mas estão sempre a sorrir e com um ar que transborda de felicidade. Admiro a força destas pessoas.


De novo na estrada e desta vez a caminho da capital, Teerão. Para quê? Para a dança dos vistos que nos faltam: o do Turquemenistão e do Uzbequistão.

Foram três dias loucos. Graças ao vento que nos atacava pelas costas (gosto da sua cobardia) conseguimos somar 366 kms e o terceiro dia, foi dia de novo record – 145 kms! O caminho foi sempre plano mas a estrada não era a melhor… era estreita e cheia de camiões que nos arremessavam para fora da estrada. Houve alturas que algum medo, muito calor, muito stress mas o vento e a estrada plana, foram a nossa salvação.


Em Buein Zahra, conhecemos Mahdi Amer num café net que nos convidou para passar a noite em casa do amigo. São um grupo de jovens que se juntam para andar de bicicleta e no dia da nossa partida, nos acompanharam nos primeiros 5 kms. Passado os 5 kms, estenderam a toalha e piquenicámos! O Mahdi Amer é um professor de inglês e convidou-nos para falar com as suas alunas. Gostamos de falar com alunos e neste caso, foi ainda mais especial. Todas mulheres iranianas que ficaram fascinadas em ouvirem-nos. Elas faziam perguntas e respondíamos a tudo mesmo quando o Mahdi pedia, brincando, para mudarmos de assunto, pois estávamos a falar em relação aos direitos das mulheres e a explicar como as mulheres europeias são. Temos a certeza que saíram daquela aula com mais força e vontade de mudar.


Ultrapassámos todos os dias os 100 kms e o terceiro dia, pensámos que seria impossível chegar a Teerão… nesse dia houve outro record batido: Rafael e os seus sagrados furos! 10 furos! No mesmo dia! No mesmo pneu! No mesmo momento! Muito azar… Um senhor prego furou de um lado ao outro a câmara-de-ar. Dois furos remendados e voltámos a encher o pneu. Pffffff… volta a tirar o pneu.


- Olha, mais um furo, como não o vimos? – Disse admirada, pois tinha voltado a encher e estava tudo bem.


Mais uns minutos ao sol, sem um tracinho de sombra. Trabalho terminado e quando o Rafael volta a encher o pneu… pfffff…


- Vamos ter calma. Volta a tirar. Algo de estranho de passa… Volta a ver se não encontras nenhum espeto no pneu e limpa-o bem por dentro. – Voltei a dizer.



Repetimos várias vezes o processo e o Rafael estava doido! Tenho a certeza que se ele se encontrasse sozinho, teria destruído a bicicleta e ele também tem essa mesma certeza! Duas horas ao sol, com um calor insuportável a remendar furos mágicos. Até trocámos de câmara-de-ar e como por magia, furou num sítio impossível de remendar! Terrível e por causa disso, pensávamos que nunca chegaríamos a Teerão! Era já noite quando estacionámos as bicicletas por debaixo duma ponte, numa das maiores capitais do mundo. De noite mas chegámos! Cansados mas chegámos! E não foi fácil pedalar no terrível trânsito, mas sobrevivemos!

Não me vou prolongar mais neste longo post. No próximo, falaremos do Armindo, um português de 50 e tal anos que viaja sozinho de bicicleta!

3 comentários:

Anónimo disse...

Um post adorável!

Também adorava ir ao Irão um dia! Eu sei que sim! :D

Boas vibrações no vosso caminho! Continuem essa magnifica e inspiradora viagem que têm feito até agora!


A

Daniela disse...

Tas linda de cabelo curto! Espectacular o relato! Beijinhos Nossos

Pedro disse...

Parabéns pela coragem de entratrem nessa aventura. Continuação de boa viagem!

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