pedalar devagar


Após 10 meses de viagem e depois de termos passado por tantos países e conhecido gente que, como nós, meteu os pés ao pedal para se fazer à estrada, decidimos criar uma nova secção no nosso site dedicado a quem vamos conhecendo. Além de nos proporcionar saber um pouco mais acerca dessas pessoas, proporciona a quem nos acompanha, uma diferente visão do que é esta coisa de viajar de bicicleta, que não seja só aquilo que contamos.

A escolha dos “viajantes” é um pouco ao acaso, mas queríamos, antes de tudo, dar a conhecer os portugueses que escolheram este meio de transporte para partir por um longo período de tempo. Pelo meio, com toda a certeza, virão alguns estrangeiros!

Para começar, queríamos que fosse em grande (pelo menos para nós) e acolher no nosso espaço as palavras do João e da Valérie, as pessoas que nos fizeram sonhar com uma viagem de bicicleta. Eles, mais do que ninguém e após termos devorado o livro que escreveram anos depois – “Pedalar Devagar”- foram os principais culpados de termos deixado tudo para trás e partido. Eles, mais do que qualquer pessoa, foram a fonte de inspiração para este sonho tornado realidade. Depois de nos terem acolhido em sua casa em Zurique durante uma semana na nossa passagem pela cidade, temos a certeza que podemos trata-los por amigos, o que nos irradia ainda mais o sorriso! A eles dedicamos esta nova secção a que decidimos chamar “Pedalar Devagar”.

Perfil:

João Gonçalo Fonseca
Portugal
Matemático (não praticante) neste momento trabalhando em logística
46 anos

Valérie Fonseca
Suíça
Neste momento ocupa-se mais dos filhos
45 anos




- Qual a primeira viagem de bicicleta que fizeram e o porquê da escolha?

João - A minha primeira viagem de bicicleta foi em Portugal: de Lisboa a Sagres e de Sagres a Vila Real de Santo António. Tinha 17 anos e fi-la com um amigo durante as férias de Verão.
Valérie - A minha primeira viagem de bicicleta foi com o João depois de voltarmos de África. Da Suíça até Portugal num mês, em 1990.

- Como fazem quando querem viajar, em relação a trabalho e claro, a dinheiro?

Na nossa viagem de 4 anos, deixámos tudo, que não era grande coisa: casa alugada e trabalho, para nos dedicarmos a um novo meio de vida: andar pelo mundo que, se não fosse esta nova aventura de ter dois filhos, com toda a certeza ainda andávamos aí pela estrada, pois quase não sabíamos viver de outra maneira!

- Qual, para vocês, o sentido de viagem e o que buscam quando partem?

Aventura, descobrir, conhecer outras culturas, outras comidas, outras maneiras de ver e de estar no mundo. Sair de uma vida rotineira, largar os padrões "normais de vida": casa, carro, trabalho, trabalho, casa, carro, consumir e voltar a consumir.

- Porquê a bicicleta?

Permite ir muito longe, a um bom ritmo, com a nossa própria energia, conhecer facilmente lugares não turísticos, entrar em contacto com as populações locais e é um transporte simples. 

- Um episódio curto da viagem que destaquem;

É uma escolha difícil. Entre o acolhimento espectacular dos russos, às paisagens do Vietname, aos elefantes selvagens no Sri Lanka que se atravessaram à nossa frente, à travessia do deserto de Taklamakan, na antiga Rota de Seda, a subida até Lhasa por uma estrada proibida com passagens a mais de 5000 metros de altitude sem alcatrão e quase sem comida, a descida do rio Namu no Laos com rápidos perigosos, num barco a remos a meter água por todo lado, carregado de bagagens e duas bicicletas, à Índia misteriosa com histórias infinitas, pedalar no Uzbequistão sem visto, etc. Não sabemos que episódio escolher mas, para quem quiser, ainda pode comprar o livro "Pedalar Devagar" com centenas de episódios!


- O país no qual mais gostaram de pedalar até hoje e porquê? 

Gostámos de pedalar em todo lado. Pedalar é quase sempre bom, mesmo quando é duro, mesmo que tenhamos momentos que quase desesperamos, mesmo que às vezes apeteça atirar a bicicleta por uma ribanceira abaixo! Pedalar é uma maneira de viajar que se torna viciante para quem começa. Assim, todos os países foram bons…com momentos menos bons. 

- O pior momento e porquê; 

O pior não há. Há só países em que o trânsito não é tão organizado como na Europa, mesmo caótico, o que se torna um pouco mais difícil e perigoso para os ciclistas. A bicicleta na Ásia não tem grandes prioridades e é a isso que nos temos que habituar.

- O que levam na bagagem que achem indispensável?

Na bagagem levamos alguma roupa (pouca), primeiros socorros, máquina fotográfica, tenda, sacos-cama, fogão, mapas, agulha e linha. No fundo, levamos uma pequena casa em miniatura.
Indispensável é difícil de dizer mas, com certeza, os primeiros socorros, roupa para não andarmos nus e pouco mais.

- Quando regressam, o que mais custa?

Entrar numa rotina de vida, se essa for a decisão.

- Próximo destino: onde e quando?

O próximo destino é na próxima quarta-feira, dia 20 de Julho, para Portugal. Se não, em Outubro, talvez à Turquia ou Egipto! Com dois filhos na escola é mais difícil de prever. Vai-se sonhando e vivendo o dia-a-dia…




- Consideram-se viciados em viagens ou pessoas que têm prazer em viajar?

Muito prazer em viajar! Vício, talvez, não sei, mas o ir, o partir, o sair sem saber onde se vai dormir, o que se vai comer, o descobrir, o ir à aventura; é isto que nos corre no sangue!

- Que tipo de viajantes são?

Aventureiros, sem destino, sem tempo, sem programas definidos, sem hábitos, com sede de conhecer e descobrir.

- Qual a sensação de ser mulher viajando por esse mundo fora de bicicleta? Reações, como te olham, o que mais te custa sendo mulher?

Fisicamente é mais difícil. Andava muitas vezes mais atrás. Em certos países, como na Índia ou Bangladeche, chegou a ser insuportável: havia homens que paravam só para me darem a mão, muitas vezes pensando que as mulheres ocidentais são todas umas prostitutas.

(podem ver a viagem que fizeram em http://www.nomad2.org/)

a caminho da pamir highway

- Estão a sair do país com mais dólares do que entraram. – Disse o militar uzbeque, na fronteira.
- Sim, tivemos de levantar dinheiro. Temos aqui o comprovativo. – Respondeu o Rafael muito calmamente.
- Mas não podem e o comprovativo não vale nada. – Acrescentou o militar trombudo. – Têm de escrever o mesmo valor.
- Mas não temos o mesmo valor. Temos mais.
- Mas têm de escrever o mesmo valor. Não podem sair com mais dinheiro. – Finalizou o militar com um ponto final.
Mudámos o valor, mesmo tendo dinheiro a mais na carteira, e saímos do país, sem revistarem as malas. 
Tajiquistão! 
Nas embaixadas, na Turquia e no Uzbequistão, fomos muito bem recebidos. É nas embaixadas que temos a primeira impressão do país. Na fronteira, a simpatia deste povo mantinha-se. Continuávamos 4numundo, e estávamos os 4 numa grande fila… Não gostamos de esperar mas também não gostamos de passar à frente de ninguém. 
- Precisam de ajuda? – Perguntou um militar sorridente.
- Não, obrigada. Estamos à espera da nossa vez para receber o formulário e voltar para a fila para o podermos entregar e entrar no país. – Disse o Sam com voz de quem precisa de ajuda mas que não quer pedir directamente.
- Venham comigo. – Sorriu o militar.
Entrámos no gabinete, preenchemos os papéis e não foi preciso voltar para a fila. Fizeram-nos o trabalho todo. Por vezes sabe bem ter um tratamento especial por sermos “turistas”.
Já estávamos perto da entrada do país, só tínhamos de preencher um último papel e entrega-lo ao militar mais antipático de todos os tempos. 
Finalmente no Tajiquistão, por baixo do mesmo calor! 


Chegámos a Dushanbe já de noite e não foi nada fácil chegar! A estrada era terrível e num estado degradado. Os condutores aqui são doidos ou burros (preferimos a segunda opção)! Aqui, conduzir com vodka no corpo, é uma coisa cultural e natural! 
Passado 120 kms, chegámos ao hostel onde todos que por lá passam ficam doentes… Montámos a tenda por 5 dólares cada e adormecemos num sono profundo. 
Dushanbe é uma capital calma com pouco para ver. Olhando para ela, sentimos que nos encontramos num país com algumas posses. Grandes construções da antiga União Soviética, grandes carros (droga?) e mais uns tantos valores de desconfiar!
O desejo por uma pizza fez-nos descer até ao centro, caso contrário, o desejo de visitar a capital era nula… queríamos descansar e aproveitar o wi-fi gratuito do hostel
- Tenham cuidado com a água da torneira e quando usarem alguma loiça, certifiquem-se se ela está bem limpa, sem vestígio de água. – Avisou-nos um casal francês, que viaja num tandem (corajosos). – Todos os que ficam neste hostel, acabam por ficar doentes…
A Franscesca e o Sam foram os primeiros a correrem para a casa de banho e a saírem de lá aos “ais”. No dia seguinte, juntei-me ao grupo dos “ais” e até tive de dormir na sala, bem perto da casa de banho. A minha alimentação passou a ser arroz branco ou massa sem condimentos, pior que comida de hospital, mas feita com muito amor pelo Rafael que continuava a comer de tudo com muito prazer, sem “ais”, sem correrias para a casa de banho. “Todos ficam doentes” – menos o Rafael! (eheheh – Rafael)
No dia da partida, acordámos às 5 da manhã. Eu estava como uma zombie… 
- Rafael… não sei se consigo sair hoje… não me sinto bem, estou sem forças, sem energia e voltei a deixar pedaços do meu intestino na sanita, sim, porque só posso estar a desfazer-me…
- Queixei-me.


Ficámos mais um dia com corridas do sofá para a sanita (santo hostel com sanita!) e com grandes dores no estômago. No dia seguinte, acordei melhor. Partimos primeiro que a Franscesca e o Sam, mas depressa nos apanharam numa paragem de autocarro a 20 quilómetros. Estava sem forças e as dores no estômago continuavam. As idas à casa de banho tinham terminado, graças a um super medicamento. Tive 3 dias duros, muito duros, sem forças para puxar a bicicleta. Os quilómetros eram somados muito lentamente com muitas paragens e não conseguia comer o que quer que fosse. Sem forças e sem comer, não ia longe não…
 
Na primeira noite, voltámos a acampar os 4 a 1500 metros de altitude. Estávamos bem contentes com o frio que sentíamos. Há muito que o calor dominava! Mesmo estando frio, eu e o Rafael decidimos dormir ao ar livre, numa das camas-chá. Vesti o meu polar e dormimos quentinhos. Voltei a acordar bem-disposta mas passado poucas horas, a má disposição ataca e as forças vão abaixo… Nesse dia, conhecemos a Athina, uma rapariga da Nova Zelândia que está a viajar sozinha de bicicleta! Ela estava a fazer o caminho contrário, o que significava que já tinha feito a Pamir Highway! Valente mulher!!! Porém, não estava com bom ar… Também ela estava doente e o pior é que não tinha ninguém para lhe prepara o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, preparar-lhe o chá, como eu tinha.
- Estás a sentir-te bem? Estás toda a tremer… Rafael, segura na bicicleta dela. – Disse.
Ela estava doente, exausta, cansada e só dizia:
- Só quero ir para casa… - Mas falava-nos dos seus planos e a Europa está planeada - Até o dinheiro acabar- disse-nos. 
Claro que nesses momentos só pensamos em voltar para casa e ficar curados, mas sabemos que todo este mau estar vai passar e vamos continuar a ter prazer no selim e massacrar o rabo.
Quando nos despedimos, eu só pensava, “não me posso queixar, ela está pior que eu e está sozinha. Vá lá Tanya, força nessas pernas, não custa nada!”. Não valia de nada… continuava a sentir-me doente… 


Já não éramos 4numundo. Voltámos a ser 2numundo mas cruzávamo-nos muitas vezes. Temos +/- o mesmo ritmo, fazemos +/- os mesmos quilómetros por dia por isso, é muito difícil deixarmos de nos ver. Nesse dia, fizemos os últimos quilómetros juntos e de novo as tendas não foram montadas. O banho foi tomado no rio frio e castanho mas depois de um dia duro ao pedal, e passar pelo trânsito de vacas, sabe sempre bem! 

 

Terceiro dia e já estávamos fartos da má estrada! Alcatrão aqui é raro encontrá-lo, tudo está cheio de buracos, cheio de pedras e pedregulhos, as nascentes passam pelo meio da estrada formando pequenos rios, os carros passam levantando poeira que somos obrigados a respirar e que se cola no corpo e no cabelo… os dias não foram fáceis mas as paisagens eram incríveis e nem sequer estávamos na Pamir Highway! Nesse dia não chegámos aos 45 quilómetros … Precisava de descansar e não forçar o meu corpo a fazer o que ele não queria ou não podia. O Rafael estava bem mas foi obrigado a parar. Nas subidas, ele salvou-me muitas vezes, deixando a bicicleta dele no topo e vir buscar a minha. Não sei se um dia vou poder fazer o mesmo por ele, pois ele nunca fica doente! (ehehhehe – Rafael)

 

- Estou com desejo de peixe e sinto-me mal por ter este desejo mas a verdade é que estou e só penso nas receitas de peixe da minha mãe… Rafael, mesmo sendo vegetariana, se encontrar peixe e se quiser comer, vou comer. Tu podes continuar a comer as rodelinhas de tomate e os nouddles secos, mas… 
Precisava de comer, de me alimentar em condições. A alimentação na Ásia Central é terrível mesmo para quem não é vegetariano. O meu corpo não se satisfaz apenas com saladas. Tivemos de fechar os olhos e comer o que eles tinham. Comemos muitas vezes o famoso plov, onde não raras vezes temos de separar a carne que eles se esquecem de retirar, aquela que põem só para temperar, mas se não fosse isso, não comíamos nada. É difícil encontrar legumes para podermos cozinhar, não encontramos água sem gás à venda. Não há! Quando pedimos água eles apontam para o Ice Tea
- Não! Queremos água, sem gás! Têm fresca? Não?! Mas esta não, esta tem gás! Gás não! Água!!! Isso são sumos artificiais de maçã!
- Ah! Querem água transparente? – Acabam por perguntar…
Não há água à venda! Temos de encher as garrafas nas nascentes e nos riachos.

Andamos deprimidos com a comida e quase a entrar em desespero. Nessa noite, a massa estava estragada e não tínhamos mais nada para comer. Olhei para o folhado de carne, que um senhor deu, no caminho, ao Rafael. Abri e o aspecto da carne era terrível. Voltei a sentar-me ao lado do Rafael. Voltei para o lado do folhado e voltei a abri-lo e a tentar tirar o máximo de carne que conseguia. Não conseguimos entender como é que eles têm tão má carne… Os animais estão soltos e só comem pasto. Têm tudo para terem uma suculenta carne mas não… O aspecto dela é terrível e dizem que o sabor é como o aspecto… 
Fechei os olhos enquanto comia a massa folhada com restos de molho da carne. Não era bom mas conseguia engolir melhor que a massa, que o arroz e que o pão. Comi metade e passei a noite a arrotar àquele sabor… 
Acordámos para um novo dia. O Sam e a Franscesca estavam quilómetros mais à frente. Deixámos para trás a grande montanha com o nome de Tulipa e continuámos caminho sem saber se seria nesse dia que iríamos subir aos 3250 metros. Já me sentia melhor, bem melhor! Lavámos a loiça do dia anterior num riacho, continuámos na luta da má estrada, acenávamos para as crianças que nos gritam “HELLO!!!”. São “hellos que nos cansam mas são compreensivos… Como queremos que eles reajam? É um dia diferente para eles quando vêem turistas. Elas são crianças que vendem fruta na berma da estrada, que vão de manhã cedo para o campo, que passam o dia montados nos burros, que passam o dia atrás do balcão do mini mercado, que apanham a fruta do chão… crianças de cara suja que estão sempre prontas para sorrir. Gosto quando eles levam a mão ao peito para nos cumprimentarem. Há crianças que correm atrás das bicicletas, que tentam dizer uma ou duas frases em inglês. Oshellos” podem ser cansativos mas se isso os deixam felizes, se a nossa presença, por breves segundos que seja, lhes proporciona um dia diferente, eles podem continuar a cansar-nos com os seus fortes e repetitivos “HELLOS!!!” 


Voltámos a encontrar o Sam e a Franscesca
- Passámos o dia inteiro a falar de comida! Estou a ficar desesperada… - confessou a Franscesca.
Nesse momento, tive vontade de chorar! A comida é o tema principal, por más razões. É mesmo doloroso não ter nada de diferente e bom para comer… o que é doloroso também, foi ter de ficar para trás por causa de um furo.
- Precisam de ajuda? 
- Não Sam, continuem, vamos já ter com vocês. – Dissemos olhando para a minha roda traseira. 
Lindo! As colas que um motorista nos arranjou, não serviram… não tínhamos mais cola, não tínhamos mais câmaras-de-ar… Tentámos tudo e nada resultou. Decidimos trocar a roda do atrelado para a bicicleta e carregar todos os sacos e o atrelado. Não foi fácil… continuámos por mais uma dúzia de quilómetros. Parámos num novo check point e desta vez os polícias foram impecáveis! Até nos deram pão e isso foi uma boa prenda! Não se encontra pão no caminho, ninguém vende porque todos fazem pão em casa! 
Depois de passarmos um grande lago no meio da estrada, vimos o Sam a acenar-nos! Estávamos rotos e chateados com o estado do meu pneu. No dia seguinte, com a ajuda do Sam, conseguimos arranjar o pneu e voltar a montar o atrelado. Depois de um belo jantar, preparado pelo casal francês, montámos a tenda e preparamo-nos psicologicamente para a subida do dia seguinte. O grande dia tinha chegado e será que com ele chegou a boa estrada?

 

dos 2 aos 4numundo


 Chegámos à cidade de “sonho” e fomos à procura do hostel recomendado pelos guias turísticos. A escolha não podia ter sido melhor! Hostel Bahodir, um hotel familiar onde nos sentimos parte dessa mesma família. Foram dias de descanso com poucas saídas. O tempo era passado no interior do hostel a conviver com outros viajantes, uns de mochila às costas e outros que, tal como nós, escolheram ter o rabo no selim. Ali o inglês era pouco falado, quem vencia era o francês. Franceses e suíços tentavam “colonizar” Samarkand
 

- E vocês, são de onde? – Perguntaram-nos.


- De Portugal. – Respondemos, sempre com um certo orgulho.


- Portugal?! São os primeiros portugueses que encontro nesta viagem. – ou – Conheci um casal português na Tailândia há 5 meses atrás. Vocês não viajam muito, pois não?


- Pois não… a crise ajuda a ficarmos em casa e o português gosta de ser caseiro. – Respondemos. 

Às 18h saíamos para visitar a cidade que muitos desejam visitar. É realmente uma cidade bonita, mas confesso que depois de ter visto tantas mesquitas, tantas madraças… aquelas eram mais umas com a mesma cúpula azul e os mesmos rectângulos de diferentes tons de azul… mas pronto, tenho de confessar também que não deixa de ser incrível ter à nossa frente aqueles monumentos gigantescos, imponentes, majestosos, monumentos que nos fazem sentir pequenos perante tamanha beleza criada pelo homem.

O que mais me surpreendeu foi o cemitério! O antigo – os mausoléus -  e o moderno. Para visitar o que quer que seja, temos uma senhora à entrada a cobrar… ah, querem visitar sítios turísticos? Para alimentar os olhos e guardar umas belas fotografias no aparelho fotográfico, temos de deixar várias notas na mão da senhora e claro, sendo uma mão turística a entregar, o número de notas, é maior. Chega a ser ridículo o abuso mas descobrimos muitas formas de entrar sem pagar, entrando e saindo pela porta lateral. Nunca formos apanhados mas caso tivéssemos sido, sempre tínhamos a desculpa da nossa profissão:


- Ah, pedimos imensas desculpas mas como trabalhamos em teatro, estamos habituados a entrar pela porta dos artistas… a porta principal é para o público que paga bilhete. – Nunca foi necessário desculparmo-nos e não sei se iriam compreender. 



 Uzbequistão é cansativo pela luta que temos de fazer para conseguir o preço certo ou o preço razoável. Até os polícias tentam ganhar dinheiro pela mão do turista, pedindo 10000 soms para se subir a um dos minaretes para ver o pôr-do-sol ou o nascer do sol e terminam por aceitar 3000 soms. Nos mercados a luta continua. Pedem mais pelo pão, pela fruta, pelos gelados… e quando o preço é certo, a quantidade é menor.
No meio de uma das conversas com os inúmeros viajantes, descobrimos que em Tashkent, na capital, era possível tirar o visto para a China em apenas um dia. Isso, para nós, foi uma boa notícia, pois pensávamos que teríamos de esperar uma semana em Dushanbe, no Tajiquistão. Isso foi notícia para mudar os nossos planos. Apanhámos o comboio da noite – cadeira e não cama, pois era bem mais barato – e fomos até à capital que descobrimos, não ter nada de bonito para ver. O comboio foi terrível! Foi sem dúvida a pior viagem da nossa vida e das próximas vidas, tenho a certeza! As cadeiras não eram cadeiras, nem davam para encostar as costas numa superfície plana e o pior, é que passámos a viagem a olhar para as pessoas deitadas a ressonar. Aos poucos comecei a sentir os nervinhos a atingir o seu auge. 


Tashkent - só o nome assustava pois o termómetro continuava acima dos 40 - valeu a pena: visto da China num dia e autorização para a Pamir Highway, também este num dia, em poucas horas! Para volta para Samarkand, escolhemos o autocarro, além de ser bem mais barato, sabemos como são as cadeira e foi uma festa quando sentimos o ar condicionado! 


Mais uma noite no hotel Bahodir! Foi bom rever as pessoas que por lá ficaram. Deixámos o nosso cartão e uma mensagem colados na parede com imensa história de muitos que por lá passaram e no dia seguinte, estávamos prontos com os pés nos pedais. Saímos à mesma hora que um inglês e um holandês e passámos o dia com eles. Subimos juntos a montanha e juntos estivemos no topo a admirar toda a beleza da natureza. 
Foi boa a experiência de pedalar com outras pessoas. Deu para perceber o ritmo das outras pessoas e perceber que o nosso ritmo não era assim tão mau.


- Não quero mais ouvir-te dizer que vou muito devagar, ouviste Dom Rafael? – Dizia eu sempre que chegávamos primeiro ao topo. 

 


Ver um rio ou água a correr é desculpa para pararmos para um “mergulho”, nem que seja apenas um “mergulho” de pés, cabelos e braços ou apenas cabeça. Sabe sempre tão bem e o corpo agradece o reforço de energia.


Na descida da montanha ficámos sozinhos… Foi boa a experiência por um dia.

 


Nessa noite parámos perto de um rio e vimos um sítio perfeito para passarmos a noite. 


- Vou tomar banho ao rio, vens comigo? – Perguntou o Rafael. 


Preparámos o ninho e fomos para um mergulho. Deixei o Rafael ir à frente. Gosto do lema: homens primeiro.
- Cheira mal aqui dentro… cheiro mesmo mal…


Dito isso, nem um pezinho emergi na água. Aceitei a oferta do banho que um senhor nos tinha dado, num hotel manhoso… o Rafael, também ele aceitou pois ficou a cheirar pior. Hotel manhoso mas com boa água. A noite foi passada sem tenda a olhar para as estrelas. Bastaram os colchões e os sacos cama para acordarmos no outro dia com valentes picadas… 



Novo dia e chegámos aos 8000 quilómetros… e para comemorar, o Rafael teve um novo furo! Foi em Shahrisabz que este feito se realizou. Bela pequena cidade onde Timur – o grande responsável pela beleza do país - mandou construir a sua própria sepultura que nunca chegou a ser usada, pois, aquando da sua morte, a neve na estrada impossibilitou o transporte do corpo, sendo este obrigado a ser sepultado em Samarkand!
 
Visitámos a cidade com as bicicletas pela manhã e continuámos caminho sem destino. De novo um rio e de novo os corpos como bacalhau a demolhar! 


- Eu já parava. – Disse eu.


- Eu também, estou todo roto… - Acrescentou o Rafael.


- Corta aí à direita. – Disse apontado para um pequeno caminho em terra batida.


Um cão fez sinal da nossa chegada e um miúdo veio ao nosso encontro. O terreno da casa era grande suficiente para colocar umas 50 tendas das nossas.


- Podemos montar a tenda para passar a noite? Amanhã partimos cedo. – Explicámos com várias palavras soltas em inglês, russo, uzbek e com gestos à mistura.


Virou costas com um sorriso e foi chamar o pai que não demorou a aparecer. Fizemos a mesma pergunta.
 

- Tenda não! Dormem ali na teabed (cama-chá), é melhor! – Foi o que percebemos e percebemos bem!


Mas que família!!! 5 estrelas! Ali jantámos apenas com um dos homens. A mulher e os filhos traziam a comida aos poucos. Fomos proibidos de cozinhar, o jantar apareceu. A comida ia aparecendo sem nunca percebermos qual seria o último prato.


- Não é preciso trazerem mais coisas, por favor. Isto já é suficiente! Muito obrigada! – Dizíamos mas sem sucesso.


- Preciso de energia para amanhã! Isto não chega! 


Na hora de dormir, mais colchões apareceram.


- Não é preciso mais, estes servem perfeitamente! – Disse eu.


- Serve perfeitamente em Portugal, aqui vocês dormem com dois colchões cada um!


Dormimos todos cá fora mas essa cama-chá foi só para nós. Fomos embalados belo ressonar do senhor mas sem picadas! O pequeno-almoço apareceu bem cedinho pela manhã. Tirámos as últimas fotos e de novo na estrada com o rabo a ganhar bolhas!
 

A estrada mantinha-se plana, o calor mantinha-se vivo e o Rafael recebeu um chapéu - um esconde carecas - de um senhor. Nesse dia estávamos muito preguiçosos. Parámos para almoçar com 45 kms nas pernas. Estávamos sentados numa sombra quando vimos um casal de bicicleta. Depressa os chamámos e depressa eles travaram para virem ao nosso encontro.


Nova história:
4numundo


Eles são ingleses e decidimos pedalar juntos até chegarmos a Dushanbe, no Tajiquistão. Fiquei contente com essa ideia pois não eram dois rapazes mas sim um casal. Era o aniversário do Sam e ele e a Franscesca não queriam pedalar mais naquele dia. Para nós não foi nenhum problema! Pedalámos até encontrarmos um restaurante para jantar e estudar terreno para acampar. 


Jantar: batata frita e salada. Dormida: nas traseiras, eles numa cama-chá, nós no chão com um traço de formigas em cima das nossas cabeças. 

 


Na manhã seguinte acordámos cedinho para juntos começarmos a subir pequenas montanhas. O vento coçava-nos as costas. A paisagem era incrível e a companhia era muito boa! 

Pedalávamos lentamente sem grandes pressas. Foi bom partilhar experiências, ter uma rapariga ao meu lado a pedalar. Ela fala russo e ambos farsi (o idioma falado no Irão e entendido no Afeganistão e no Tajiquistão). Era sempre ela que pedia as coisas, que entrava nas cozinhas e explicava o significado do vegetarianismo - que não bastava retirar a carne do prato para o prato passar a ser vegetariano. Sendo assim, não podendo tirar a carne do prato, voltamos a comer batatas fritas e salada com um ovo estrelado. 


- Não somos vegetarianos mas queremos o mesmo. A carne aqui é terrível! – Diziam eles.


Almoçámos tarde, pois no caminho não aparecia nada… foi das manhãs mais longas! Estávamos com fome, fracos e a arder debaixo do sol! Desejávamos encontrar o mais rapidamente possível um sítio para almoçar e no primeiro restaurante, parámos! 



- Coca-cola. Duas! Duas Coca-colas! – Pedimos em simultâneo com um grande sorriso nos lábios e com os olhos muito abertos!
 

Não somos os únicos a desejar esta bebida! Não sabemos explicar, é mais forte que nós! Só pensamos em Coca-cola e se uma loja não tem ou não está fresca, no momento que nos encontramos a morrer por ela, ficamos desesperados e com má cara!!! Coca-cola! Bebemos aos litros e sabe sempre tão bem! E nada de Zam Zam, de RC Cola, de Super Cola, tem de ser Coca-cola! Eles também veneram a bebida, desde o Turquemenistão!


Ao fim do dia, quando já estávamos à procura de sítio para montar a tenda, um senhor mandou-nos parar. 

A Franscesca trato de tudo e depois traduziu tudo.


- Ele está a convidar-nos para dormir lá em casa.


Os 4 concordámos em passar lá a noite. Estávamos em casa de uma família rica. A comida chegou em abundância e a Franscesca teve uma grande conversa com o senhor e o resto da família enquanto nós os três nos partíamos a rir com as piadas que saiam umas a seguir às outras, da boca do Rafael. Tivemos de por travão com respeito à família e à Franscesca
 

Dormimos os 4, uns ao lado dos outros, no grande parque de brincar da criança que roda as mãozinhas quando cantarolam uma música. 


De volta às subidas e às paisagens de dizer “UAU” de volta às Coca-colas, de volta aos rios e desta vez aproveitámos o rio para um momento íntimo feminino. Ficámos com novas pernas e mais leves, prontas para pedalar mais depressa! 


A estrada é terrível, obriga-me a travar bastante em todas as descidas e nas subidas somos obrigados a andar aos ziguezagues para fugir aos buracos e às lombas que aparecem sem avisar. Eu travo, mas os rapazes não travam. No fim de uma descida, eu e a Franscesca parámos pois não os víamos. Esperámos mais de dez minutos e nada… voltei um pouco para trás, não muito, porque não queria subir contra o vento. Estava um pouco preocupada. Não gosto quando o Rafael fica muito atrás. 


- Ia morrendo! – Disse o Rafael ao chegar.


O atrelado dele saiu durante uma rápida descida e partiu o guarda-lamas. Que susto! Mas nada lhe aconteceu! Obriguei-o a descer mais devagar pois quero chegar a Macau!

 

A paisagem continuava “UAU” e as pessoas continuavam a acharem-nos “UAU”. Somos como estranhas pessoas nos circos de antigamente. A alguns provocamos riso, a outros provocamos um olhar de espanto…
Nesta noite acampámos! Escolhemos uma casa abandonada com uma piscina vazia nas traseiras. Pela primeira vez cozinhámos e soube bem comer algo diferente sem ninguém a perguntar de onde somos. Esta, foi a última noite no Uzbequistão! No dia seguinte, cansados, entrámos na Tajiquistão! 


Foi bom entrar acompanhados num novo país, pedalar com uma rapariga e saltarmos para o disparo da máquina fotográfica, com novos viajantes!   
 

Aqui fica o site deles que vale a pena acompanhar! www.odycycle.wordpress.com

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