pedalar devagar


Após 10 meses de viagem e depois de termos passado por tantos países e conhecido gente que, como nós, meteu os pés ao pedal para se fazer à estrada, decidimos criar uma nova secção no nosso site dedicado a quem vamos conhecendo. Além de nos proporcionar saber um pouco mais acerca dessas pessoas, proporciona a quem nos acompanha, uma diferente visão do que é esta coisa de viajar de bicicleta, que não seja só aquilo que contamos.

A escolha dos “viajantes” é um pouco ao acaso, mas queríamos, antes de tudo, dar a conhecer os portugueses que escolheram este meio de transporte para partir por um longo período de tempo. Pelo meio, com toda a certeza, virão alguns estrangeiros!

Para começar, queríamos que fosse em grande (pelo menos para nós) e acolher no nosso espaço as palavras do João e da Valérie, as pessoas que nos fizeram sonhar com uma viagem de bicicleta. Eles, mais do que ninguém e após termos devorado o livro que escreveram anos depois – “Pedalar Devagar”- foram os principais culpados de termos deixado tudo para trás e partido. Eles, mais do que qualquer pessoa, foram a fonte de inspiração para este sonho tornado realidade. Depois de nos terem acolhido em sua casa em Zurique durante uma semana na nossa passagem pela cidade, temos a certeza que podemos trata-los por amigos, o que nos irradia ainda mais o sorriso! A eles dedicamos esta nova secção a que decidimos chamar “Pedalar Devagar”.

Perfil:

João Gonçalo Fonseca
Portugal
Matemático (não praticante) neste momento trabalhando em logística
46 anos

Valérie Fonseca
Suíça
Neste momento ocupa-se mais dos filhos
45 anos




- Qual a primeira viagem de bicicleta que fizeram e o porquê da escolha?

João - A minha primeira viagem de bicicleta foi em Portugal: de Lisboa a Sagres e de Sagres a Vila Real de Santo António. Tinha 17 anos e fi-la com um amigo durante as férias de Verão.
Valérie - A minha primeira viagem de bicicleta foi com o João depois de voltarmos de África. Da Suíça até Portugal num mês, em 1990.

- Como fazem quando querem viajar, em relação a trabalho e claro, a dinheiro?

Na nossa viagem de 4 anos, deixámos tudo, que não era grande coisa: casa alugada e trabalho, para nos dedicarmos a um novo meio de vida: andar pelo mundo que, se não fosse esta nova aventura de ter dois filhos, com toda a certeza ainda andávamos aí pela estrada, pois quase não sabíamos viver de outra maneira!

- Qual, para vocês, o sentido de viagem e o que buscam quando partem?

Aventura, descobrir, conhecer outras culturas, outras comidas, outras maneiras de ver e de estar no mundo. Sair de uma vida rotineira, largar os padrões "normais de vida": casa, carro, trabalho, trabalho, casa, carro, consumir e voltar a consumir.

- Porquê a bicicleta?

Permite ir muito longe, a um bom ritmo, com a nossa própria energia, conhecer facilmente lugares não turísticos, entrar em contacto com as populações locais e é um transporte simples. 

- Um episódio curto da viagem que destaquem;

É uma escolha difícil. Entre o acolhimento espectacular dos russos, às paisagens do Vietname, aos elefantes selvagens no Sri Lanka que se atravessaram à nossa frente, à travessia do deserto de Taklamakan, na antiga Rota de Seda, a subida até Lhasa por uma estrada proibida com passagens a mais de 5000 metros de altitude sem alcatrão e quase sem comida, a descida do rio Namu no Laos com rápidos perigosos, num barco a remos a meter água por todo lado, carregado de bagagens e duas bicicletas, à Índia misteriosa com histórias infinitas, pedalar no Uzbequistão sem visto, etc. Não sabemos que episódio escolher mas, para quem quiser, ainda pode comprar o livro "Pedalar Devagar" com centenas de episódios!


- O país no qual mais gostaram de pedalar até hoje e porquê? 

Gostámos de pedalar em todo lado. Pedalar é quase sempre bom, mesmo quando é duro, mesmo que tenhamos momentos que quase desesperamos, mesmo que às vezes apeteça atirar a bicicleta por uma ribanceira abaixo! Pedalar é uma maneira de viajar que se torna viciante para quem começa. Assim, todos os países foram bons…com momentos menos bons. 

- O pior momento e porquê; 

O pior não há. Há só países em que o trânsito não é tão organizado como na Europa, mesmo caótico, o que se torna um pouco mais difícil e perigoso para os ciclistas. A bicicleta na Ásia não tem grandes prioridades e é a isso que nos temos que habituar.

- O que levam na bagagem que achem indispensável?

Na bagagem levamos alguma roupa (pouca), primeiros socorros, máquina fotográfica, tenda, sacos-cama, fogão, mapas, agulha e linha. No fundo, levamos uma pequena casa em miniatura.
Indispensável é difícil de dizer mas, com certeza, os primeiros socorros, roupa para não andarmos nus e pouco mais.

- Quando regressam, o que mais custa?

Entrar numa rotina de vida, se essa for a decisão.

- Próximo destino: onde e quando?

O próximo destino é na próxima quarta-feira, dia 20 de Julho, para Portugal. Se não, em Outubro, talvez à Turquia ou Egipto! Com dois filhos na escola é mais difícil de prever. Vai-se sonhando e vivendo o dia-a-dia…




- Consideram-se viciados em viagens ou pessoas que têm prazer em viajar?

Muito prazer em viajar! Vício, talvez, não sei, mas o ir, o partir, o sair sem saber onde se vai dormir, o que se vai comer, o descobrir, o ir à aventura; é isto que nos corre no sangue!

- Que tipo de viajantes são?

Aventureiros, sem destino, sem tempo, sem programas definidos, sem hábitos, com sede de conhecer e descobrir.

- Qual a sensação de ser mulher viajando por esse mundo fora de bicicleta? Reações, como te olham, o que mais te custa sendo mulher?

Fisicamente é mais difícil. Andava muitas vezes mais atrás. Em certos países, como na Índia ou Bangladeche, chegou a ser insuportável: havia homens que paravam só para me darem a mão, muitas vezes pensando que as mulheres ocidentais são todas umas prostitutas.

(podem ver a viagem que fizeram em http://www.nomad2.org/)

2 comentários:

Cisfranco disse...

Espectacular a aventura do João e da Valérie!... Parabéns a eles pela fanfástica descrição. Supera todas as expectativas.
Obrigado a 2numundo, por terem colocado este endereço.
A vossa viagem está a ser incrível. Continuação de boa viagem e cuidado com a saúde! As melhoras para Tânya. Troço para que tudo vos corra bem.
Cumprimentos.

Tetris disse...

Fiquei completamente fascinada, é um privilégio, acreditem, nem toda a gente tem coragem para se atirar no mundo assim!

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