Dicas - Quanto custa?

Há algum tempo que temos como ideia ajudar, com a experiência que temos, por mínima que seja, aqueles que se imaginam a fazer uma viagem igual ou parecida com a nossa, com algumas dicas e sugestões sobre o mais variado tipo de coisas: material, custos, campismo, itinerários, ou outro qualquer assunto que achemos essencial responder e que, também nós, vimos respondido por outros cicloturistas aquando da nossa pesquisa antes de tudo começar! Assim sendo e porque temos sempre vindo a adiar esta ideia, vamos tentar a partir de hoje e dentro do tempo que temos disponível, colocar alguns posts sobre o mais variado tipo de assuntos. Não queremos fazer disto uma enciclopédia, mas sim uma ferramenta de ajuda e por isso tentaremos ser breves nas nossas explicações, quando estas o permitirem, é claro! Estamos também abertos a perguntas e curiosidades que nos queiram colocar, ajudando-nos também desta maneira a responder aquilo que querem saber, ao que mais vos interessa!
Para primeiro post, achámos importante responder a um assunto que “fascina” as pessoas e que tem a ver com o facto de conseguirmos juntar dinheiro para uma viagem destas que, na ideia de alguns, deve custar milhares de milhares, sobre milhares de euros. Como fazem? Ganharam algum prémio? Roubaram alguém? Receberam alguma herança? Devem ter tanto dinheiro…
Apresentem-nos uma viagem de ano e meio em que gastem somente 15 euros por dia, para duas pessoas, tudo incluído: dormida, alimentação, transporte, vistos, manutenção, entretinimento e acreditem, nós partimos já hoje! Se pensarem numa viagem de carro, só em gasolina, gastam num mês, aquilo que gastariam em 3 meses com uma bicicleta! Se pensarem numa viagem de mochila às costas, gastam em 2 meses, aquilo que gastariam em 15 dias numa viagem de bicicleta! De avião então, nem se fala! Como dizemos sempre a quem nos pergunta: “Quanto mais gastares, menos viajas!” - e tem sido esse o nosso lema. Se conseguíamos fazer por menos? Muito menos! Damo-nos ao luxo de beber um café, comer num restaurante, dormir num hostel de vez em quando, beber uma cerveja ou comer meia dúzia de gelados! Damo-nos a luxos! Temos a certeza que, com 5 ou 6 euros por pessoa, uma viagem à volta do mundo é possível! Sabemos de pessoas que o fizeram.
Dica 1 – Transporta-te a ti mesmo:
Numa viagem de bicicleta, caíamos sempre na tentação de passar à frente uma parte que seja chata ou que “nada” tenha para ver. Para isso, a tentação de apanhar um avião, um comboio ou um autocarro é sempre grande. Se imaginares que no mesmo percurso, não vais pagar qualquer bilhete, vais cozinhar, dormir na tua tenda e, muito possivelmente, ser convidado por famílias a almoçar ou pernoitar, pensa no dinheiro que não gastas nestes dias. Como experiência pessoal, podemos dizer que quando deixámos as nossas bicicletas em Teerão e apanhámos o autocarro para o sul do Irão, gastámos mais dinheiro nesta semana que durante o resto das 3 semanas que estivemos no país. Parece incrível, mas andar de mochila às costas, fica caro. Antes ainda, apanhámos um avião que nos levou de Munique ao Cairo e, pelos bilhetes, num só dia, gastámos mais do que num normal mês de viagem, se tivéssemos feito o percurso por terra! A ideia é: transporta-te a ti mesmo!
Dica 2 – O barato, fica caro:
Não caias nunca no erro de pensar: isto serve. Não, não serve. Os maiores gastos duma viagem deste tipo são feitos antes de tudo começar. Fica caro? Fica, temos que admitir. Porém, se pensarmos que uma tenda custa 300 euros, mas que nos vai durar meia dúzia de anos (a ser bem tratada) isto dá muito pouco por ano. Nunca podemos pensar a curto prazo, é um enorme erro. Temos de pensar sempre que o material tem que durar anos, por isso tem que ser resistente e muito bom. Na primeira pedalada pela Europa, caímos no erro de ir a grandes armazéns de desporto e dizer: “Este casaco é impermeável! Este colchão é confortável! Estes calções de ciclista são bonitos e são iguais aqueles que custavam mais 50 euros!” – não são iguais, garantimos! Se viajas durante 1 mês ou 2, sabes que não vai chover, nem fazer muito frio e que vais sempre ficar em hotéis, ok, qualquer coisa serve. Agora se vais apanhar todo o tipo de clima, subir montanhas, percorrer planaltos, pedalar na neve, dormir em terrenos cheios de lama, cozinhar ao ar livre, então é de uma viagem a “sério” que estamos a falar e isto exige…material a sério. É caro? É, mas no fim vais ter a certeza que fizeste a melhor escolha e que sobreviveste graças à escolha! Além disso, sabes também que ele te vai durar até ao fim da viagem e muito possivelmente, para as viagens seguintes, para utilizares até no teu dia-a-dia e não terás de, passados uns 1000 quilómetros e umas tantas chuvadas, “comprar outra coisa, porque aquela não serve.” O barato, fica caro!



Dica 3 – Estás a viajar, não estás de férias!
Um casal que conhecemos disse-nos que, antes de começarem a viagem que os leva de Inglaterra à Austrália, um amigo lhes perguntou: “ E já fizeram todas as reservas de hotéis para esta viagem?” – não obteve resposta, disseram! Numa viagem de 15 dias, reserva-se hotéis, leva-se roupa para mudar, a tenda fica em casa, come-se em restaurantes, passa-se férias, descansa-se! Numa viagem de bicicleta, viaja-se! O que significa isto? Leva o menos possível, não caias em tentações de pensar: “Se calhar vou usar isto”. A roupa lava-se e seca de um dia para o outro! Leva material para cozinhar, pois vais utilizá-lo muitas vezes! Leva uma tenda! Poucos utensílios de cozinha! Máquina fotográfica! Pouco mais! Tens de montar e desmontar a casa quase todas as noites. Pedalas entre 4 a 8 horas por dia. Levas com tudo de frente: chuva, vento, neve, frio, calor, pó! Vais passar dias, talvez semanas, sem um duche. Tens de te adaptar a tudo: aos chatos, aos insistentes, ao silêncio, ao isolamento, aos problemas, à fome, à sede. Vais passar momentos em que te apetece atirar a bicicleta ao chão, quando ainda te faltam mais de 10 quilómetros até ao topo daquela montanha e pedalas com graus negativos, mas faz parte e no fim, vais agradecer a ti próprio o facto de não teres levado aquele quilo a mais que pensaste que, talvez fosses usar! No fim, vais saltar de felicidade quando vires tudo lá de cima e gritares bem alto: “CONSEGUI!”
Dica 4 – Foge das viagens “Lonely Planet”!
Vais ao Uzbequistão e que queres visitar? O mesmo que todos: Bukhara, Samarkand, Khiva! São as três pérolas da Ásia Central.  Nós também as visitámos…bem, Khiva, não. Sabes, porém, que vais estar na rota do turismo, que vais levar com grupos organizados, que vais encontrar os famosos touts que te vão querer levar para este hotel, a comer naquele restaurante, a ver aquele espectáculo tradicional cheio de turistas a abanar-se com o imenso calor! Sabes que sítios com turistas são muito mais caros que os restantes sítios e que o teu orçamento vai disparar. Foge deles o mais possível, tenta encontrar alternativas, ficar em vilas mais próximas e visitar os sítios no dia seguinte. Em Sharizsabz, a sul de Samarkand, fizemos o mesmo que fazemos em muitos sítios. Pernoitamos numa aldeia próxima e no dia seguinte, de manhã, pedalamos para a cidade e visitamo-la. Se não der para levar a bicicleta, deixa-a na polícia ou num posto de turismo. Quando fizeres a tua “ronda” pela cidade e se não quiseres ficar, continua a pedalar e assim evitas o hotel! O mesmo com os restaurantes e supermercados. Nunca escolhas os centrais, pois são sempre muito mais caros. Procura comprar em mercados. Outra coisa é tentar sempre entrar pela porta lateral, ou pela de saída! Muitas vezes funciona e se não te apanharem, perfeito! Se te apanharem, só tens que colocar aquela cara meia estúpida e perguntar: “Ah, pensava que era gratuito!” - e sais! Fizemos isto tantas vezes e vimos tanta coisa!
Dica 5 – Pede conselhos a outros cicloturistas!
Este é uma mais-valia quando se viaja de bicicleta. Salvo um ou outro viajante de duas rodas, todos querem é pedalar durante muito tempo com o mínimo possível e todos procuram uma coisa: poupar! Assim, sempre que encontres um viajante a vir em direcção contrária, faz perguntas que aches que podem ajudar-te. Além das normais: de onde vens, há quanto tempo estás a viajar, a estrada é boa, qual o melhor itinerário ou a paisagem é bonita, pergunta também se há supermercados nas redondezas, se há sítios para acampar, se se paga alguma coisa por cruzar este parque ou passar neste posto de controlo (muito importante na Ásia Central, onde a corrupção é enorme), quanto pagou por dormir nesta guesthouse. Tudo são ajudas e ajudam-te a poupar, a organizar a tua viagem! Se ficares em algum hostel, tenta deixar no guestbook – geralmente existem em quase todos – algumas dicas para outros viajantes. Eles vão fazer o mesmo por ti!
Dica 6 – Não te limites!

Este é um dos conselhos mais importantes. Não limites o teu prazer, afinal de contas, uma viagem é mesmo isso e só isso: prazer! Nunca olhes para um gelado de 27 bolas com chocolate por cima e penses: “Comia um igual, mas custa 2,70€”. Come! Muitas vezes, é até mais barato comer fora do que cozinhar e a Ásia é um desses exemplos! Não penses que coisas que te apetece são demasiado caras quando realmente as desejas! Poupas já o suficiente para não usufruíres desse prazer! Nesta viagem, damo-nos a luxos, como dissemos: bebemos um café, comemos fora, dormimos num hotel, comprámos até uma bolsa para a cintura, porque nos é útil…e bonita, temos que admitir! São estes pequenos luxos que também fazem o prazer de viajar! Não os satisfazer, pode estragar-nos os dias, pode estragar-nos a viagem! Roupa, pouca compramos, vamos trocando nos poucos hostels que ficamos com outros viajantes que vão deixando e serve perfeitamente! Não te limites! Tudo pelo prazer de viajar!
São estas as nossas 6 dicas de Quanto custa?


Esperamos ter ajudado de alguma maneira a responder a quem pensa que isto é coisa de ricos! Não é! É mais barato do que se possa imaginar! É preciso fazer sacrifícios? Não, só adaptações! Boa Viagem!

o fim da pamir highway

Chegámos com o Andres e com a chuva, à fronteira do Quirguistão. O guarda pouco se importou com a chuva. O seu caminhar era lento e pachorrento. A nossa paciência era pouca e limitada.
- Passaportes. – Pediu ele, por baixo de chuva.
- Não podemos entrar e mostrar os passaportes, ali, abrigados?
-Passaportes. – Insistia.
Com este, não íamos a lado algum. Não tive outro remédio senão entregar os livrinhos preciosos e protegê-los da chuva com a carteira transformada em guarda-chuva.
A simpatia ali era pouca mas conseguimos entrar sem problemas neste novo país, prontos para encontrar caras mais amigáveis!

Souberam bem os primeiros quilómetros! À nossa volta, tudo era verde, dando a sensação de estarmos a pedalar na Escócia. Nunca lá estivemos mas é isso que as fotos nos dizem.


Souberam bem os primeiros quilómetros! Víamos os cavalos à solta, os yaks bem perto de nós, as crianças que corriam pelo grande manto verde, na nossa direcção para serem fotografadas.
Souberam bem os primeiros quilómetros! Tínhamos o vento pelas costas e conseguíamos atingir grande velocidade. Estávamos com um bom sentimento cá dentro e ver ao longe a estrada sempre plana, fazia-nos pedalar com um sorriso na cara. Aquele sorriso que colamos na cara quando estamos apaixonados e suspiramos de amor… Estávamos com essa expressão.

Os últimos quilómetros não souberam nada bem! O vento rodou, levantando as saias, num passo de dança, e levou com ele o nosso sorriso. Não rodámos, seguimos em frente sem dar um pezinho de dança. Seguimos em frente com grande esforço. Já estávamos sentados nos selins há muitas horas. Só queríamos chegar o mais rapidamente possível.
Os últimos quilómetros não souberam nada bem! Já avistávamos a aldeia mas esta parecia que tinha perninhas e se ia afastando cada vez mais.

Confesso, o meu pior inimigo é o vento, não o suporto quando ele está mal disposto. E, nos últimos tempos, ele tem andado insuportável! Somos mais teimosos que ele e conseguimos chegar a Sary-Tach e encontrar uma Guest House baratinha, mas sem chuveiro… sem chuveiro mas com muitos franceses e todos eles de bicicleta. Aceitámos o convite e fomos para o quarto deles, bem mais quentinho que o nosso!

- Ui… Eu conheço-te! Estive em tua casa há uns anos atrás! – Disse uma rapariga saltando do seu lugar quando viu o Rafael a entrar.
"Que história é essa?" Pois é, essa menina esteve com a irmã na nossa casa em Guimarães, através do Couchsurfing. Está a viajar com o namorado e quando chegaram à China, lembraram-se de nós e da viagem de bicicleta que estávamos a planear. "E porque não fazer o mesmo?", pensaram. Tanto pensaram que acabaram por comprar uma bicicleta.
Passámos um bom serão a falar em francês mas tivemos de nos recolher para o nosso gelado quarto. Já na cama, o Rafael propôs:
- Não queres ir a Osh à boleia?
- Claro! Mas foi isso que te propus ontem! Estou mesmo cansada de subir montanhas e como temos de voltar para aqui…
Assim foi, na manhã seguinte, preparámos a pequena mochila e fomos para a rua esticar o dedo. As pessoas por aqui não entendem o significado de dar boleia… levar estrangeiros no carro, significa receber umas notinhas. Aceitámos, mas o rapaz que parou, foi obrigado a aceitar o nosso valor.
O caminho até Osh foi bastante assustador. Toda eu travava nos vários travões invisíveis e por pouco não arranquei o apoio do braço, da porta do carro. A estrada estava sem alcatrão e a cada curva, rezava. Terrível andar de carro, mas terrível também seria subir tudo o que subimos de bicicleta! Estávamos, muito sinceramente, cansados! Precisávamos de uma pausa! Pausa de montanhas, pausa de bicicletas!


Chegar a Osh foi uma surpresa para nós! Vimos trânsito de carro e de pessoas, vimos um enorme mercado onde encontrámos massas e saladas vegetarianas, vimos uma pizzaria onde nos deliciámos, vimos um grande supermercado com tudo e mais alguma coisa, vimos frutas e legumes, meninas com saias airosas e até 3 portugueses.
Reencontrámos os holandeses e fizemos um jantar de despedida. Sentámo-nos numa esplanada e bebi uma bela cerveja! Falámos com a família e amigos. Ufa, tanta novidade, tanta coisa boa!
Passado 3 noites, voltámos para Sary-Tach, para os pequenos mini mercados, para o silêncio nas ruas, para a Guest House onde encontrámos um bilhete nas nossas bicicletas. Era o Sam e a Frank!!! Eles estavam na Guest House ao lado! Fomos a correr até lá e por entre abraços e "como estão" bebemos um belo café Illy! São prazeres da vida, esses pequenos mimos!


Voltámos a ser 4numundo e soube bem! Partimos no dia seguinte juntos, com as montanhas nevadas por todo os lados! A estrada era impecável! Não havia buracos, apenas uma bela e nova camada de alcatrão! Voltámos a falar em comida e da enorme vontade que tínhamos de entrar na China para poder comer tudo o que os nossos olhos avistassem. Voltámos a encontrar um belo espaço para acampar e antes das boas noites, voltámos a gritar "Amanhã entramos na China!!!".


alguém quer responder?

Nestes 11 meses que temos de viagem, foram muitas as pessoas que nos escreveram, incentivando-nos, dando-nos força e coragem para esta viagem! Não foram muitas, foram imensas! Foram também muitos os que nos pediram dicas de viagem, conselhos e que respondêssemos a curiosidades que tinham, o que sempre fizemos! Nunca, pelo que nos lembramos, deixámos para trás um email por responder! Sempre agradecemos, a todos os que connosco pedalam nesta odisseia, todas as palavras e todo o tempo que a ler o nosso site dispensam! Transcrevemos até alguns excertos ou mensagens que nos enviaram, quando nos tocaram de alguma maneira! 

No entanto, e porque nem só de boas mensagens está a nossa viagem feita, recebemos, pela primeira vez, uma mensagem de "desapoio" ou "desincentivo", se assim podemos chamar. Não concordamos com as palavras que nos foram dirigidas, achando até que caem no absurdo e, por essa mesma razão, não quisemos responder. Porém, como aceitamos as opiniões de todos, mesmo que com elas não concordemos, queremos deixar aqui a mensagem, para que todos, à sua maneira, possam concordar ou não!

"João Nobre (joaonobre1947@gmail.com)
ANDAM A PASSEAR NO MUNDO MAS SE CALHAR SE VOS PEDISSEM PARA TRABALHO COMUNITARIO NAS VOSSAS TERRAS  NÃO TINHAM TEMPO OU DISPONIBILIDADE E EU SEI DO QUE ESTOU A FALAR.DEPOIS QUEREMOS QUE OS FINLANDESES  ALEMAES E OUTROS NOS EMPRESTEM DINHEIRO.POIS EM VEZ DE TRABALHARMOS QUEREMOS E PONTES ENTRE OS FINS DE SEMANA PRAIA  BENEFICIOS  PORQUE OS SACRIFICIOS SÃO PARA OS OUTROS  NAO TENHO PENA NEM ELOGIO A VOSSA AVENTURA"

Alguém quer responder?

pamir highway II - bem devagarinho

Deixámos Murgab e o mercado em contentores, deixámos para trás as pessoas que conhecemos e continuámos caminho com protector solar na cara e no bolso levávamos um bilhete com pontos importantes para o caminho: "30kms - água, 5kms - termina a estrada com alcatrão (…)".


Saímos cedinho e começámos a subir devagarinho. As placas azuis indicavam-nos, de um lado, os quilómetros que já tínhamos percorrido desde a fronteira até então e, do outro lado, os quilómetros que faltavam para a fronteira com o Quirguistão. Já não estávamos longe mas ainda era preciso subir bastante e passar pela maior passagem: 4655 metros de altitude!

Subimos devagarinho com a China bem perto de nós, do lado direito. Dava vontade de conhecê-la mais cedo, apenas para fazer sorrir o nosso estômago. Continuámos em frente olhando para o bilhete com os quilómetros de tudo e mais alguma coisa, para não deixarmos escapar os riachos com água que iríamos necessitar durante a nossa estadia no Hotel-Ar-Livre-Cinco-Estrelas-Com-Vista-Para-As-Montanhas.

Subimos devagarinho mas isso não quer dizer que não fiquemos cansados. Respirar torna-se complicado e todos os nossos movimentos precisam de ser lentos, para não ficarmos com tonturas.
Parámos a 20 quilómetros da grande e respeitosa passagem. Montámos a tenta devagarinho e devagarinho ganimos ao lavar a loiça no gelado riacho. Deitámo-nos bem cedo e durante a noite, ouvimos flocos de neve a cair devagarinho na tenda. Não saímos dos sacos-cama antes do sol aparecer. Começámos a pedalar já tarde nesse dia… e quando estávamos prontos para a saída, apareceram os dois rapazes holandeses, que conhecemos em Khorog e que voltámos a ver em Murgab. Também eles em bicicleta e também eles prontos para subir, bem mais rápido que nós.


Subimos devagarinho e assim sabe bem. Quando pensamos que já estamos quase a chegar ao topo, aparece a grande subida inclinada. É sempre assim… pensamos “se continuar assim até ao topo, não vai custar nada” mas acaba sempre por custar muito.

Parámos no sinal azul a avisar o tamanho daquele bicho gigante e foi a partir daquele momento que fizemos várias paragens para descansar e respirar. Só nos ríamos da situação. O que podíamos fazer? Tínhamos de nos rir para o caminho ser mais fácil ou mais divertido e nesse duros momentos, o melhor é não nos chatearmos, caso contrário, toda a magia das montanhas desaparece, por isso, ríamo-nos e apoiávamo-nos. Conseguíamos ver os holandeses no topo, a chamarem-nos.


Chegámos devagarinho e para a nossa chegada, os dois holandeses desenharam uma meta invisível e fizeram a festa! Fiquei em segundo lugar… nada mau… bem colada ao Rafael que ficou em primeiro. Sabe bem chegar! 4655 metros! O que sentem os que viajam de mota ao chegar ao topo? "ai… estou cansado, dói-me o pulso…" Será que correm para beijar o sinal a avisar da descida que temos pela frente? Falamos dos que viajam de mota, apenas porque conhecemos vários e gostamos de nos meter com eles. Deve ser uma viagem bastante interessante e bem mais simples, mas não trocamos as bicicletas por nada! Tudo tem mais beleza, tudo tem mais sabor, tudo é feito devagarinho! Saltámos juntos e partilhámos aquele momento único. Despedimo-nos deles. Eles desceram e nós continuámos ali, aos 4655 metros.
- Vamos tirar uma foto assim. Agora assim. Olha, trás a bicicleta para aqui e tiramos com estas montanhas por trás… - Dizíamos.

Na hora da descida, vestimo-nos da cabeça aos pés! Estava frio e mais frio iríamos sentir na descida. Descemos devagarinho, não só porque queríamos absorver tudo o que víamos mas também pelo estado degradado da estrada… uma vez mais…

- Agora é sempre a descer até Karacol! – Dizia o Rafael. 
Descemos, é certo, mas só me recordo das subidas que apareciam intercaladas com as descidas e do vento forte e de frente que apareceu sem ser convidado, no fim da tarde, mesmo perto da hora do lanche. Fino não? Para chegar a Karacol, foi necessário fazer muitos quilómetros mas o simples facto de saber que iríamos ter um banho quente à nossa chegada, fez-nos encontrar forças que ainda hoje não sei onde as fui buscar…


O Rafael conseguiu tirar todo o prazer do possível belo banho quente… 
- Este balde de água está muito quente, não consigo tomar banho assim. – Queixava-se sem antes ter experimentado molhar o corpo. 
- Tens a certeza? – Perguntei mergulhando a mão na água. – Para mim está bom assim, tens a certeza que queres juntar água fria? 
- Sim, assim não consigo tomar banho. – Insistia e tanto insistiu que acabou por juntar um grande balde de água. 
"Pronto, estragou tudo", pensei. 
- Está melhor assim? – Perguntei, já adivinhando a resposta. 
- Está mais ou menos… ficou um pouco fria.
 E pronto, cá está um bom motivo para lançar alguém à fogueira para sentir o que realmente é quente. Todo o prazer que desejei ter com um banho desapareceu… Ficámos ambos desconsolados mas a cheirar bem.


Na manhã seguinte, aproveitámos para ver o lago que impressiona pelo tamanho e pelas montanhas que o rodeiam e no início da tarde pegámos nas bicicletas para fazer mais umas quantas passagens a mais de 4000 metros.

 Não chegámos nem à primeira que ficava a 30 quilómetros do destino… O vento estava ridiculamente forte e assim não brincamos! Estava sem forças e nem conseguia levantar a cabeça para olhar à minha volta, a incrível paisagem. O Rafael estava bem disposto, apesar de todo o esforço que era necessário fazer para conseguir realizar 100 metros. Muitas vezes ele teve de me socorrer e puxar a minha bicicleta. Dia terrível… Estávamos a menos de 700 metros da passagem e montámos a tenda… dormimos a 4100 metros e o frio não estava a brincar ao faz-de-conta! Tentámos juntar os sacos-cama para podermos dormir bem juntinhos e quentinhos mas depressa aceitámos o divórcio. Estamos sempre a aprender… Juntar os sacos-cama, não ajuda em nada. O frio invadia devagarinho o interior e por ele ter vindo meter a colher, o divórcio foi a única solução encontrada. Finalmente conseguimos adormecer quentinhos, apenas com os olhos de fora.

Novo dia de luta. Há alguns dias que andava com a sensação de ter plástico no estômago e não andava muito feliz com essa sensação. Voltei a acordar com essa bola de plástico e sem forças para mais subidas. Só desejava pedalar durante uma semana na Holanda. Estávamos no nosso último dia no Tajiquistão e por muito bonito que fosse o país, queríamos sair depressa! Voltámos a olhar para o nosso papel e este dizia "13 kms – fim do asfalto; 9 kms – Tajik border; 2 kms – Pass (4290 m)". Foi novamente muito doloroso. O vento era forte, as subidas eram íngremes e a energia era pouca.
Chegámos com cara de defuntos à fronteira do Tajiquistão e, por entre grossas pingas de chuva que aleijavam e pequenos flocos de neve, tivemos o carimbo de saída, assim como mais 2 quilómetros de subida pela frente, para chegar ao topo. Chegar devagarinho aos 4290 metros, foi mais uma vez motivo de lágrimas. É impossível controlá-las, quando uma subida custa muito. É uma boa vitória chegar ao topo com o rabo no selim. A felicidade é enorme mas a respiração fica descontrolada… foi necessário acalmar-me para continuar caminho.

Voltámos a descer devagarinho, voltámos a ter má, mas bela estrada a serpentear a montanha e, no fim da descida, uma casa que se apresentava como Guest House. Estávamos em terra de ninguém e de fronteira a fronteira, eram 20 quilómetros.

- Tea, tea – Dizia o pequeno miúdo de 7 anos, ao mesmo tempo que mimava o convite.
 Não foi possível resistir ao convite daquele lindo e cativante catraio.
- Vamos e vemos se eles têm alguma coisa para almoçar. – Dissemos, sentindo o estômago a puxar por nós.
Almoçámos algo com pouco sabor mas que deu para encher e ficar a descansar por umas horinhas. Durante o descanso, apareceu o Andres, um espanhol que conhecemos em Karacol e que o apelidamos de "patrocinador" por nos ter oferecido uma ferramenta. Foi com ele que continuámos a pedalar com o vento feroz, que passámos o riacho que destruiu o caminho e foi com ele que entrámos no novo país: Quirguistão, bem mais verde mas com o mesmo vento que parece ter cornos.

pamir highway

Há sítios onde sabe bem pedalar. Há sítios onde o sentimento de liberdade é maior. São lugares como a Pamir Highway que fazem a bicicleta ganhar mais valor, mais sentido.


Assustava saber que teríamos de passar por 5 passagens acima dos 4000 metros, assustava a altitude e o que esta podia provocar ao corpo mas as fotografias que víamos de outros viajantes, fazia-nos desejar esta mítica estrada. É uma estrada obrigatória e ganha mais beleza se for atravessada lentamente.


Saímos de Khorog e demorámos 5 dias a chegar a Murgab. 5 belos dias onde festejámos os nossos 9000 quilómetros com frio que se fazia sentir aos 4000 metros de altitude. Esta nossa história podia ter sido destruída por um polícia que não nos queria deixar passar pelo checkpoint, dizendo que a nossa autorização GBAO não era para o caminho onde nos encontrávamos.
- Tirámos a autorização em Tashkent e pagámos por ela! Temos de passar por aqui! O nosso visto está a terminar e não temos tempo de voltar para trás e fazer a outra estrada! – Dizia o Rafael, achando que o polícia estaria a brincar.
- Não podem passar por aqui. Têm de voltar para trás. – Continuava o polícia, sem piedade.
- Não podemos! Não temos tempo e queremos fazer a estrada pela qual pagámos! – Dizia eu.
- E estas terras estão escritas em russo, que nós não percebemos e por isso não dava para ver que não estava correcto. Agora que vamos passar por aqui, vamos! – Dizia o Rafael já preocupado.
Ele não queria deixar-nos passar. Nós implorávamos e, enquanto isso, um camionista chegou, cumprimentou o polícia com uma nota escondida entre as mãos. Que material estaria escondido no camião? Será que este corrupto queria o nosso dinheiro para poder fechar os olhos e deixar-nos passar?
- Não vou dar dinheiro a este polícia. Podemos ficar aqui o dia todo, ele vai acabar por nos deixar passar. – Dizia eu, depois de ter feito a asneira de ter dito uma asneira em inglês, que, por meu azar, foi a única palavra em inglês que o excelentíssimo agente percebeu. Ele tentou de tudo para nos fazer sentir mal e culpados para poder receber uma nota. Outro polícia apareceu e olhou para os nossos passaportes. Voltámos a explicar a nossa situação e minutos depois fomos autorizados a seguir viagem. Corruptos!



Depressa esquecemos esta situação e fomos contaminados pela beleza das montanhas. A estrada era alcatroada, livrando-nos assim de uma bela dor de cabeça. Fomos subindo aos poucos, sem grande esforço. Quando olhava para a altitude no conta-quilómetros, ficava admirada com o que já tínhamos subido sem nos apercebermos. O que nos apercebemos com facilidade é quando a fome aparece.

- Queres ver se ali tem batatas fritas com ovo? Pergunta quanto é.
Entrei pelo portão que se encontrava aberto. Do interior da casa, a música fazia dançar as mulheres que passavam com comida. Perguntei se tinham algo para comer. Ela pareceu-me admirada, mas disse que sim. Um senhor apareceu com um prato com batata frita e uma coxa de frango.
- Sem frango. Trocamos o frango por uma salada. Quanto é? – Perguntei.
O senhor abriu os braços, como boas vindas, e disse que não era nada.
- O senhor disse que não era nada… que estranho. Comemos aqui? – Perguntei ao Rafael.
Entrámos e tudo à nossa volta nos parecia estranho.
- Isto não será um casamento? – Perguntou o Rafael.


Perguntei a uma rapariga, a única que falava inglês, e ela respondeu afirmativo. Estávamos numa festa de casamento e, antes de almoçar, fomos obrigados a um pezinho de dança! Estavam à espera dos noivos que se encontravam na família dela. É lá que começa a festa da parte da manhã. Depois o noivo traz a esposa para a casa da sua família e a festa continua. Não os vimos, não podíamos esperar mais tempo. Dançámos, comemos e ainda descascámos cebolas para ajudar. Continuámos caminho com mulheres a tocarem música para a nossa partida.
- Elas estão a tocar para vocês! Boa viagem! – Despediu-se assim a rapariga do bom inglês.

Continuámos a subir. Continuámos bem-dispostos, enchendo as garrafas com água do rio. Não se encontram mercados nem mercearias, as pequenas aldeias são escassas, o sol queima e não se encontra protector solar. As pessoas são de uma gentileza gigantesca, acolhedoras, respeitadoras. As mulheres de longos e belos cabelos, são sorridentes. As crianças usam roupas, umas por cima das outras, misturando diferentes cores. Pedimos para montar a tenda e somos convidados para o interior da casa. Conhecemos duas adolescentes que adoram o sítio onde vivem. Não querem grandes cidades, nem estar longe dos pais. São adolescentes que nos perguntam se em Portugal há pássaros, há relva, há flores. Conhecemos pessoas com cara de felicidade, trabalhadoras, lavando a loiça no gelado rio, enquanto nós, temos as luvas enfiadas nas mãos.


 Pedalar na Pamir sem comida, pode ser um problema. Não tivemos esse problema mas a nossa alimentação não variou. Parávamos para cozinhar e fazíamo-lo nas melhores paisagens possíveis, o que não era difícil. Fazíamos o mesmo para acampar. Era obrigatório uma boa vista, belas montanhas e, se possível, com um chapeuzinho de neve no topo! É sempre bom ter um rio para lavar a loiça, para nos lavarmos, para cozinhar e para beber.


1 de Agosto foi dia de frio, dos 9000 quilómetros, dos 80 quilómetros sem uma casa, nem mercado, sem nada e da passagem aos 4272 metros de altitude.


Os últimos 5 quilómetros até à passagem foram os mais custosos. O alcatrão falhou e a inclinação era de 12%... nada ajudou! Respirar tornava-se complicado e éramos obrigados a parar a cada meio quilómetro. Chegar ao topo, não foi tão emocionante como a anterior passagem aos 3252 metros.
Não houve nenhum sinal a avisar e foram apenas os últimos 5 quilómetros que foram realmente custosos. Festejámos com um salto e continuámos caminho em direcção às próximas passagens. 80 duros quilómetros sem nada… estávamos cansados e a tentar arranjar um sítio para montar a tenda. Olhávamos para o mapa e víamos a existência de um rio com um nome de uma aldeia ao lado. Ter um nome, não significa nada mas como tinha um rio ao lado, poderia querer dizer que existiam pessoas. A aldeia nunca mais aparecia…

- Acampamos aqui? Já estou cansado. – Dizia o Rafael.
Tínhamos uma pequena subida à nossa frente e as montanhas não permitiam vermos o que teríamos em frente.
- Vamos até ali acima e se não aparecer nada, acampamos. Só mais um pequeno esforço. – Estava com uma forte sensação que iria aparecer qualquer coisa, ou queria acreditar que sim.

O Rafael ia à frente e, quando chegou ao topo, deu um grito de felicidade! Lá do alto, víamos uma pequena aldeia branca que esperava por nós! Tínhamos chegado a Alichur e procurámos uma Homestay.
Ao longo da Pamir, existem várias Homestays, onde podemos dormir e ter as refeições por 10$ por pessoa, sempre discutíveis (nós gostamos de discutir). Gostámos do sítio onde ficámos. A família era muito simpática e a comida era deliciosa! Simples, mas deliciosa! O banho era de água quente, despejando a água com uma caneca e posso afirmar que sabe imensamente bem! Tudo era limpo e com cama “confortável” como dizia a rapariga. Se era confortável, já não estamos habituados a conforto e a meio da noite fomos para o chão para podermos dormir bem.



Fazer a Pamir Highway em bicicleta, é ter a ideia de pedalar numa longa ciclovia. Essa ideia é desfeita de duas em duas horas com a passagem de um camião… damo-nos ao luxo de pararmos as bicicletas no meio da estrada para tirarmos umas fotografias e até de nos sentarmos e esperar pelos 10 segundos antes do disparo. Há dias em que o trânsito é mais e conseguimos ver 2 camiões de hora em hora mas isso já é uma loucura, um trânsito infernal!


Antes de chegarmos a Murgab, parámos noutra Homestay. Montámos a tenda para não pagar para estar de olhos fechados e aceitámos o jantar por menos de 2$ cada. Estávamos em Qarasu e estávamos na única casa da terra. Vimos os yaks a chegarem, assim como as cabras e as ovelhas. Ofereceram-nos uma bola de queijo de yak que é impossível cortar. Brincámos com a gata que gostou tanto de nós que quis marcar território na nossa tenda e tanto quis que o fez. Estar perto dos yaks, mete respeito… só consegui fazer miminhos num com o senhor a segurar na cabeça. Mesmo sabendo que não fazem mal, prefiro ter um adulto por perto.

Estávamos a 45 quilómetros de Murgab e o caminho foi quase sempre a descer, por isso chegámos bem antes do almoço. Para o conseguir, acordámos bem cedo e os primeiros 6 quilómetros foram bem gelados. Os dedos doíam de tanto frio! A mim eram os das mãos e ao Rafael, os dos pés. Começar o dia bem cedo, aos 4000 metros de altitude, não é fácil.


 A Pamir Highway não termina aqui, mas foi aqui que decidimos passar 3 noites para descansar na Homestay Erali, que recomendamos! Pela família, pela comida e pelo prazer de passear pelo bazar que foi o mais surreal que vimos até agora! Vários contentores metálicos espalhados, de diferentes cores e tamanhos, são as lojas onde se vende de tudo um pouco (ou não estivesse a China aqui ao lado).

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