cada vez mais perto da pamir

Acordámos cedo, bem cedinho para conseguirmos tratar do meu furo e depois de um breve aquecimento, puxámos as meninas nos pedregulhos, até chegar à estrada. Curva à direita e lá estava ela: A subida que nos ia levar aos 3252 metros de altitude. Foram 35 lentos quilómetros… 35 quilómetros que foram feitos em 5 horas.


 

Estávamos em forma e bem-dispostos, bem mentalizados da subida que teria de ser feita. “Como será lá em cima?”. Íamos devagar e deixávamos que as belas paisagens nos ajudassem a cada pedalada. O nosso olhar era obrigado a estar atendo à má estrada e em simultâneo às imponentes montanhas à nossa volta. Parávamos para fotografar, parávamos para observar com um sorriso, parávamos para dizer “que lindo!”. O caminho estava a ser pedalado com prazer, apesar do esforço físico e das pingas a caírem pela cara.

Víamos as pequenas casas escondidas entre as árvores e toda a verdura à volta, as crianças com os seus burros, as nascentes que serviam para enchermos as garrafas. Absorvíamos tudo o que podíamos e parámos para almoçar com uma das melhores vistas! A “cama-chá” tinha janelas viradas para o paraíso com uma casa de banho cor-de-rosa que saltava à vista, mas lá dentro, saltámos de susto!

A mercearia é azul, ao meio é a cozinha e ao lado é o restaurante e a própria casa. Mais em cima há uma casa e à volta, um enorme manto verde.

Sam e a Franscesca apareceram no momento em que terminámos a nossa salada de tomate e o pão com mel. O Sam estava doente e a Frank não estava muito bem, pois foi mordido por duas abelhas e o corpo estava a reagir um pouco mal. Deixámo-los a descansar e voltámos à estrada para continuarmos a subir…


Já avistávamos a passagem! Estávamos quase! Pelos meus cálculos, eram precisos mais 4 quilómetros para lá chegar.

- Quais 4 quilómetros! São uns 10 quilómetros que ainda tens de transpirar! – Diz o Rafael, não acreditando no meu cálculo.

- Quais 10 quilómetros! É já ali! Estamos quase, vamos! – Dizia eu, certa daquilo que estava a dizer.

Passaram 4 quilómetros e nem a meio íamos… Se calhar ele tinha razão… Ultrapassámos os 10 quilómetros e já estávamos quase, mas sem termos os 3252 metros … Estávamos na curva da passagem! Estava feliz! Está quase! Só mais um pouco! Só queria ver a estrada a descer mesmo que em más condições! Fim da curva e… nova subida... longa recta inclinada, nova curva lá ao fundo, bem lá ao fundo!

- Pronto, é só mais um pequeno esforço, estamos quase… - Tentávamo-nos animar um ao outro.

Chegámos à curva e nada de boas notícias… a estrada continuava a subir. Já estávamos a ficar cansados, um pouco fartos. As subidas pareciam cada vez mais íngremes. O prazer já estava a desaparecer e só queríamos chegar ao topo.

3252,8 metros! Como explicar a nossa alegria? Uma paragem de autocarro avisava a meta e chorei de alegria ao perceber que tínhamos chegado! (O Rafael diz que não chorou mas eu bem vi os olhos vermelhos que ele tinha) (É a mais pura mentira, mas enfim…  - Rafael) Abraçámo-nos com força, eu soluçava, as lágrimas caiam pela face… foi grande a emoção!

- Consegui! Subi aos 3252,8 metros! CONSEGUI!!! – Gritava de alegria.


Podia ter dito “conseguimos” porque claro que “conseguimos” mas naquele momento, pensamos no que conseguimos pessoalmente. O andar de bicicleta, torna-se numa coisa egoísta, algo pessoal. O Rafael conseguiu, eu consegui, e foi apenas eu que puxei a minha bicicleta, que transpirei para lá chegar, que senti as minhas pernas como pedra… EU CONSEGUI e estava feliz por gritar essas palavras! O Rafael irradiava felicidade também, ele conseguiu, mas disso eu não tinha qualquer dúvida.

Tirámos as fotos da praxe para quando estivermos a 4600 metros de altitude, nos rirmos delas. Enquanto estávamos a tirar as fotografias, avistámos o casal inglês. Não queríamos estar presentes na chegada deles. Deixámos um pequeno bilhete e partimos. Eles tinham de fazer a festa, sozinhos, como nós fizemos. Não queríamos estragar aquele momento.
Dura descida na dura estrada. Só desejávamos alcatrão para poder descer com prazer e sem dores no corpo. As montanhas ficaram diferentes, mais fechadas em nós. O rio continuava forte, ao nosso lado direito. O verde tinha desaparecido, as pequenas casinhas tinham-se transformado em tendas feitas com qualquer tipo de material. A paisagem metia respeito. O Rafael estava a adorar, eu engolia em seco aquela beleza bruta e rude. Olhar para o rio bem lá em baixo, metia medo. Um rio que se confundia com as castanhas montanhas e que corria com grande força, fazendo-nos desejar, não cair nunca ali!


Fizemos 15 quilómetros a descer. O dia estava a escurecer e tínhamos de encontrar sítio para acampar. Já estávamos com os ingleses e a Frank também estava super contente por ter conseguido! Fizemos a nossa pequena festa com um forte abraço.


A escolha do sítio para acampar não estava a ser fácil. Mal encontrámos um pequeno terreno, montámos a tenda, acendemos o fogão e… tivemos de comer a cebola, o pimento verde e o tomate crus, com pão… O querosene tinha terminado e não tínhamos como cozinhar… Estávamos a prepara uns belos nuddles que foram “por água abaixo”. Comemos em silêncio, tristes por acabar o dia daquela forma. Depois daquele esforço todo, de um pobre almoço, merecíamos comer muito e bem! Deixámos a loiça por lavar e enfiámo-nos na tenda, desconsolados…

Estávamos a 2600 metros de altitude mas o frio, nem o sentimos. Estávamos rotos do dia anterior. Cada pequena subida parecia uma tortura e as pernas recusavam-se a pedalar. 15 quilómetros depois, parámos numa pequena cidade que faz fronteira com o Afeganistão! Uuuuhhhh, Afeganistão… Abastecemos os nossos sacos com comida e ficámos a olhar para a grande montanha que pertence ao misterioso país. Procurámos protector solar e não existia nesta zona… o melhor é proteger o corpo com uma camisola de manga comprida. Continuámos caminho, depois do chocolate, mas este pouca força nos deu…

As pequenas aldeias que apareciam eram um pequeno encanto. Tudo muito bem arranjadinho, muito limpinho. Fomos convidados para um chá que aceitámos sem hesitar. O espaço era lindo e por minutos, ficámos a pensar se ficaríamos ali ou se devíamos fazer mais quilómetros. Tínhamos de partir e agradecer à senhora que nos convidou e nos encheu a toalha de comida!

Pedalámos por mais umas horas mas decidimos parar mais cedo. Forçar o corpo seria ridículo. Ridículo também, seria continuarmos com o cabelo no estado que estava… Parecia pêlo de cão sujo. Qualquer água que vemos, é motivo para uma banhoca, nem que seja apenas o cabelo, braço e pernas. E assim se engana o corpo!

Nesse dia ficámos num café à beira da estrada e a proprietária, depois de nos dar os plov com a carne que ela retirou mesmo à nossa frente, que se encontrava no topo, disse que podíamos passar ali a noite. Aceitámos o convite e passámos a tarde a descansar, a olhar para o Afeganistão e a ficarmos com os olhos esbugalhados quando ouvimos explosões do lado desse país tão perigoso… (dizem…)

- Devem estar a rebentar pedra. – Disse a senhora muito calmamente.

Calmos é que não estavam os nossos coraçõezinhos naquele momento. Quando voltaram ao seu batimento normal, o riso apareceu.

Novo dia e esse dia, foi o dia da boa comida mas antes, tivemos de apanhar um grande susto! Continuávamos na estrada que mete respeito e mais respeito mete quando vemos serpentes mortas na estrada e sinais de aviso de minas antipessoais e olhamos para o lado direito e vemos o Afeganistão e respiramos fundo e engolimos em seco e continuamos caminho em silêncio… Num dos avisos parámos, pois uma foto era obrigatória. Juro que fico com medo mesmo sabendo que onde nós estávamos não havia perigo de minas, ou o homem que colocou o sinal, teria explodido com o próprio. Por causa desse medo, nem o meu xixi faço longe da estrada!

Máquina pronta… Um, dois, três, salto e… BUUUUUMMM no exacto momento que colocámos os pés no chão! E outro BUUUUUMMM. Ficámos parados com cara aterrorizada a olhar um para o outro.

- Mas o que foi isto?

Novas explosões… Muitas pedras rebentam!

- Vamos embora, chega de fotos! A polícia disse para não pararmos no caminho…. – Dizia eu um pouco aflita.

Partimos sem mais fotografias em diferentes ângulos. Continuávamos a olhar para a grande montanha do país ao lado, para as pequenas aldeias e para a pequena estrada estreita em terra batida, onde os carros não passam, apenas pessoas que caminham durante dias para chegarem a algum lado. Do outro lado, as crianças acenavam-nos, gritavam “Hello”… as crianças afegãs… víamos as mulheres… afegãs… a caminharem na longa estrada que sofreu varias derrocadas. Tudo aquilo parecia retirado de um filme ou estaríamos nós, na película?

Fomos convidados para um chá. Aceitámos e depressa a comida apareceu em abundância.

- Oh… somos vegetarianos… não comemos carne, nem peixe, nem galinha… - Explicámos, ao ver um belo prato de gizado a aproximar-se.

- Não se preocupem, não tem nenhum animal aqui dentro. Só legumes! – Explicou a senhora dos dentes de ouro.

Um belo prato vegetariano?! Seria verdade? Um prato bem diferente daquilo que temos vindo a comer! Comemos pensando que já tínhamos o estômago cheio mas toda aquela novidade, nos fez comer tudo, deixando o prato limpinho, sem vestígios de batatas!


- Não me importo nada de dar dinheiro por esta refeição! Comemos como uns bois e agora só quero dormir a sesta. – Disse o Rafael com olhos pequenos de sono.

Caímos para o lado, mortos de cansaço e de estômago cheio. Quando acordámos, decidimos perguntar o preço - normalmente é sempre de graça, pois fomos convidados e quando perguntamos, ficam ofendidos. A mulher não ficou ofendida mas sim envergonhada… Perguntou à filha um valor e esta não se envergonhou com o valor que escreveu.

- 50?! 50 somonis é muito caro! – Disse eu, tentando controlar-me e manter o meu sorriso.
Não me importo de pagar e ajudar famílias assim, mas detesto quando gozam com a minha cara! Pensou melhor e perguntou se 20 somonis estaria bem.

- 20, não é caro mas num restaurante pagamos muito menos. Que se lixe! Foi bom, não foi? 20 são 4$, não é nada! Pagamos os 20. – Dissemos.

Voltámos para o caminho e aos 60 quilómetros parámos numa estranha e silenciosa aldeia. Encontrámos depressa um sítio para montar a tenda. Uma senhora aproximou-se.

- Hotel? – Perguntou.

- Não! Não temos dinheiro para hotel… Há problema se montarmos aqui a tenda? – Perguntei.

- São de Portugal? Hum… Aqui não há problema mas… venham comigo. Ficam em minha casa e não quero nenhum dinheiro! – Disse a bonita senhora!

Isso é que é falar! Se fosse portuguesa, seria fadista! Abriu-nos o portão e ficámos boquiabertos com a casa. Os amigos do Ronaldo – era assim que ela chamava ao filho, pois este é grande fã do jogador – estavam todos presentes em frente à única televisão da aldeia. Voltámos a comer como reis e não apenas um prato mas sim dois pratos bem diferentes do normal! O nosso estômago estava aos pulos de tanta alegria!


Dormimos bem ao ar livre e na manhã seguinte partimos depois do grande pequeno-almoço. No momento que partimos, nada diria que o pior estaria para chegar…
Primeiro problema: O meu atrelado não estava nada bem… o pneu não rodava e andava a arrastá-lo. Tivemos de desmontar o atrelado e continuar caminho com tudo ao monte na minha super bicicleta.

Segundo problema: Fiquei sem mudanças… a pecinha das mudanças estava solta e não havia forma de a fixar…

Terceiro problema: A corrente do Rafael partiu e as velocidades não mudavam. Tentámos fixar a corrente mas depois do roubo na Turquia, ficámos sem ferramentas e em nenhum lado as conseguimos encontrar. Tivemos de solucionar com uma pedra… Ficou a rolar…
Quarto problema: O suporte da bagagem da minha “menina” partiu… Os parafusos partiram e ficaram no interior dela… Impossível continuar caminho assim, sem atrelado e sem suporte traseiro… Impossível!

Estávamos de rastos! Desanimados! Estávamos a 150 quilómetros de Khorog e tivemos de pedir a um camião para nos levar até lá. Não foi fácil encontrar um camião que não levasse dinheiro. O primeiro perguntou quanto queríamos dar, um jipe queria 100$ e o motorista russo, não se importou no momento que lhe disse que não tínhamos dinheiro para pagar. Passámos pelo Sam e pela Frank e ficámos ainda mais tristes pois queríamos muito pedalar até Khorog e não “viajar” num camião a ouvir música russa nas alturas e sermos obrigados a confiar na condução do camionista… sentimo-nos mais seguros nas bicicletas.
Chegámos a Khorog e fomos directos para o hostel manhoso: Pamir Lodge … Barato mas manhoso. Dormimos ao ar livre e o banho é raro estar quente… e não é chuveiro, é um grande tanque com uma pequena mangueira. Está de longe de ser o melhor hostel onde ficámos mas conhecemos pessoas fantásticas e mais pessoas em bicicleta a queixarem-se da estrada. Voltámos a encontrar um casal que conhecemos no Uzbequistão e estes continuaram caminho com os nossos amigos ingleses. Foi difícil a despedida. Nós tivemos de ficar por mais uns dias para tentarmos resolver os últimos problemas das nossas bicicletas.  

O grande Sam foi uma grande ajuda! Tratou das nossas meninas com muita paciência mas os parafusos continuam no interior da minha bicicleta. O Rafael terá de transportar o meu grande e pesado saco amarelo, durante uns belos 1000 quilómetros, até chegarmos a algum sítio com outras condições para cuidarmos delas. Não encontrámos correntes para a bicicleta dele e isso era outro grande problema porque a corrente empancava, impossibilitando-a de rodar. Um casal suíço, antes de partir, deixou como presente, a sua antiga corrente, exactamente a corrente que andávamos à procura! Salvou-nos a vida e levantou-nos o ânimo. 
As bicicletas estão prontas a andar, eu bem mais levezinha e o Rafael transformado em mula.

Para terminar, queremos apresentar-vos um prato tradicional, o Kortog - o antes e o depois. Ao princípio estranhamos mas depois passamos a procurar nos restaurantes. É um prato que encontramos em Khorog, apenas em Khorog. Delicioso!

1 comentário:

MagikPoiZion disse...

e a malagueta do Kortog? não se come?!
estou, sinceramente, com pena do Rafael :( deve estar a carregar um peso imenso! vê lá se compensas com massagens e muitos mimos!!

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