Dicas - Quanto custa?

Há algum tempo que temos como ideia ajudar, com a experiência que temos, por mínima que seja, aqueles que se imaginam a fazer uma viagem igual ou parecida com a nossa, com algumas dicas e sugestões sobre o mais variado tipo de coisas: material, custos, campismo, itinerários, ou outro qualquer assunto que achemos essencial responder e que, também nós, vimos respondido por outros cicloturistas aquando da nossa pesquisa antes de tudo começar! Assim sendo e porque temos sempre vindo a adiar esta ideia, vamos tentar a partir de hoje e dentro do tempo que temos disponível, colocar alguns posts sobre o mais variado tipo de assuntos. Não queremos fazer disto uma enciclopédia, mas sim uma ferramenta de ajuda e por isso tentaremos ser breves nas nossas explicações, quando estas o permitirem, é claro! Estamos também abertos a perguntas e curiosidades que nos queiram colocar, ajudando-nos também desta maneira a responder aquilo que querem saber, ao que mais vos interessa!
Para primeiro post, achámos importante responder a um assunto que “fascina” as pessoas e que tem a ver com o facto de conseguirmos juntar dinheiro para uma viagem destas que, na ideia de alguns, deve custar milhares de milhares, sobre milhares de euros. Como fazem? Ganharam algum prémio? Roubaram alguém? Receberam alguma herança? Devem ter tanto dinheiro…
Apresentem-nos uma viagem de ano e meio em que gastem somente 15 euros por dia, para duas pessoas, tudo incluído: dormida, alimentação, transporte, vistos, manutenção, entretinimento e acreditem, nós partimos já hoje! Se pensarem numa viagem de carro, só em gasolina, gastam num mês, aquilo que gastariam em 3 meses com uma bicicleta! Se pensarem numa viagem de mochila às costas, gastam em 2 meses, aquilo que gastariam em 15 dias numa viagem de bicicleta! De avião então, nem se fala! Como dizemos sempre a quem nos pergunta: “Quanto mais gastares, menos viajas!” - e tem sido esse o nosso lema. Se conseguíamos fazer por menos? Muito menos! Damo-nos ao luxo de beber um café, comer num restaurante, dormir num hostel de vez em quando, beber uma cerveja ou comer meia dúzia de gelados! Damo-nos a luxos! Temos a certeza que, com 5 ou 6 euros por pessoa, uma viagem à volta do mundo é possível! Sabemos de pessoas que o fizeram.
Dica 1 – Transporta-te a ti mesmo:
Numa viagem de bicicleta, caíamos sempre na tentação de passar à frente uma parte que seja chata ou que “nada” tenha para ver. Para isso, a tentação de apanhar um avião, um comboio ou um autocarro é sempre grande. Se imaginares que no mesmo percurso, não vais pagar qualquer bilhete, vais cozinhar, dormir na tua tenda e, muito possivelmente, ser convidado por famílias a almoçar ou pernoitar, pensa no dinheiro que não gastas nestes dias. Como experiência pessoal, podemos dizer que quando deixámos as nossas bicicletas em Teerão e apanhámos o autocarro para o sul do Irão, gastámos mais dinheiro nesta semana que durante o resto das 3 semanas que estivemos no país. Parece incrível, mas andar de mochila às costas, fica caro. Antes ainda, apanhámos um avião que nos levou de Munique ao Cairo e, pelos bilhetes, num só dia, gastámos mais do que num normal mês de viagem, se tivéssemos feito o percurso por terra! A ideia é: transporta-te a ti mesmo!
Dica 2 – O barato, fica caro:
Não caias nunca no erro de pensar: isto serve. Não, não serve. Os maiores gastos duma viagem deste tipo são feitos antes de tudo começar. Fica caro? Fica, temos que admitir. Porém, se pensarmos que uma tenda custa 300 euros, mas que nos vai durar meia dúzia de anos (a ser bem tratada) isto dá muito pouco por ano. Nunca podemos pensar a curto prazo, é um enorme erro. Temos de pensar sempre que o material tem que durar anos, por isso tem que ser resistente e muito bom. Na primeira pedalada pela Europa, caímos no erro de ir a grandes armazéns de desporto e dizer: “Este casaco é impermeável! Este colchão é confortável! Estes calções de ciclista são bonitos e são iguais aqueles que custavam mais 50 euros!” – não são iguais, garantimos! Se viajas durante 1 mês ou 2, sabes que não vai chover, nem fazer muito frio e que vais sempre ficar em hotéis, ok, qualquer coisa serve. Agora se vais apanhar todo o tipo de clima, subir montanhas, percorrer planaltos, pedalar na neve, dormir em terrenos cheios de lama, cozinhar ao ar livre, então é de uma viagem a “sério” que estamos a falar e isto exige…material a sério. É caro? É, mas no fim vais ter a certeza que fizeste a melhor escolha e que sobreviveste graças à escolha! Além disso, sabes também que ele te vai durar até ao fim da viagem e muito possivelmente, para as viagens seguintes, para utilizares até no teu dia-a-dia e não terás de, passados uns 1000 quilómetros e umas tantas chuvadas, “comprar outra coisa, porque aquela não serve.” O barato, fica caro!



Dica 3 – Estás a viajar, não estás de férias!
Um casal que conhecemos disse-nos que, antes de começarem a viagem que os leva de Inglaterra à Austrália, um amigo lhes perguntou: “ E já fizeram todas as reservas de hotéis para esta viagem?” – não obteve resposta, disseram! Numa viagem de 15 dias, reserva-se hotéis, leva-se roupa para mudar, a tenda fica em casa, come-se em restaurantes, passa-se férias, descansa-se! Numa viagem de bicicleta, viaja-se! O que significa isto? Leva o menos possível, não caias em tentações de pensar: “Se calhar vou usar isto”. A roupa lava-se e seca de um dia para o outro! Leva material para cozinhar, pois vais utilizá-lo muitas vezes! Leva uma tenda! Poucos utensílios de cozinha! Máquina fotográfica! Pouco mais! Tens de montar e desmontar a casa quase todas as noites. Pedalas entre 4 a 8 horas por dia. Levas com tudo de frente: chuva, vento, neve, frio, calor, pó! Vais passar dias, talvez semanas, sem um duche. Tens de te adaptar a tudo: aos chatos, aos insistentes, ao silêncio, ao isolamento, aos problemas, à fome, à sede. Vais passar momentos em que te apetece atirar a bicicleta ao chão, quando ainda te faltam mais de 10 quilómetros até ao topo daquela montanha e pedalas com graus negativos, mas faz parte e no fim, vais agradecer a ti próprio o facto de não teres levado aquele quilo a mais que pensaste que, talvez fosses usar! No fim, vais saltar de felicidade quando vires tudo lá de cima e gritares bem alto: “CONSEGUI!”
Dica 4 – Foge das viagens “Lonely Planet”!
Vais ao Uzbequistão e que queres visitar? O mesmo que todos: Bukhara, Samarkand, Khiva! São as três pérolas da Ásia Central.  Nós também as visitámos…bem, Khiva, não. Sabes, porém, que vais estar na rota do turismo, que vais levar com grupos organizados, que vais encontrar os famosos touts que te vão querer levar para este hotel, a comer naquele restaurante, a ver aquele espectáculo tradicional cheio de turistas a abanar-se com o imenso calor! Sabes que sítios com turistas são muito mais caros que os restantes sítios e que o teu orçamento vai disparar. Foge deles o mais possível, tenta encontrar alternativas, ficar em vilas mais próximas e visitar os sítios no dia seguinte. Em Sharizsabz, a sul de Samarkand, fizemos o mesmo que fazemos em muitos sítios. Pernoitamos numa aldeia próxima e no dia seguinte, de manhã, pedalamos para a cidade e visitamo-la. Se não der para levar a bicicleta, deixa-a na polícia ou num posto de turismo. Quando fizeres a tua “ronda” pela cidade e se não quiseres ficar, continua a pedalar e assim evitas o hotel! O mesmo com os restaurantes e supermercados. Nunca escolhas os centrais, pois são sempre muito mais caros. Procura comprar em mercados. Outra coisa é tentar sempre entrar pela porta lateral, ou pela de saída! Muitas vezes funciona e se não te apanharem, perfeito! Se te apanharem, só tens que colocar aquela cara meia estúpida e perguntar: “Ah, pensava que era gratuito!” - e sais! Fizemos isto tantas vezes e vimos tanta coisa!
Dica 5 – Pede conselhos a outros cicloturistas!
Este é uma mais-valia quando se viaja de bicicleta. Salvo um ou outro viajante de duas rodas, todos querem é pedalar durante muito tempo com o mínimo possível e todos procuram uma coisa: poupar! Assim, sempre que encontres um viajante a vir em direcção contrária, faz perguntas que aches que podem ajudar-te. Além das normais: de onde vens, há quanto tempo estás a viajar, a estrada é boa, qual o melhor itinerário ou a paisagem é bonita, pergunta também se há supermercados nas redondezas, se há sítios para acampar, se se paga alguma coisa por cruzar este parque ou passar neste posto de controlo (muito importante na Ásia Central, onde a corrupção é enorme), quanto pagou por dormir nesta guesthouse. Tudo são ajudas e ajudam-te a poupar, a organizar a tua viagem! Se ficares em algum hostel, tenta deixar no guestbook – geralmente existem em quase todos – algumas dicas para outros viajantes. Eles vão fazer o mesmo por ti!
Dica 6 – Não te limites!

Este é um dos conselhos mais importantes. Não limites o teu prazer, afinal de contas, uma viagem é mesmo isso e só isso: prazer! Nunca olhes para um gelado de 27 bolas com chocolate por cima e penses: “Comia um igual, mas custa 2,70€”. Come! Muitas vezes, é até mais barato comer fora do que cozinhar e a Ásia é um desses exemplos! Não penses que coisas que te apetece são demasiado caras quando realmente as desejas! Poupas já o suficiente para não usufruíres desse prazer! Nesta viagem, damo-nos a luxos, como dissemos: bebemos um café, comemos fora, dormimos num hotel, comprámos até uma bolsa para a cintura, porque nos é útil…e bonita, temos que admitir! São estes pequenos luxos que também fazem o prazer de viajar! Não os satisfazer, pode estragar-nos os dias, pode estragar-nos a viagem! Roupa, pouca compramos, vamos trocando nos poucos hostels que ficamos com outros viajantes que vão deixando e serve perfeitamente! Não te limites! Tudo pelo prazer de viajar!
São estas as nossas 6 dicas de Quanto custa?


Esperamos ter ajudado de alguma maneira a responder a quem pensa que isto é coisa de ricos! Não é! É mais barato do que se possa imaginar! É preciso fazer sacrifícios? Não, só adaptações! Boa Viagem!

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei :)
Mais, mais dicas please =))

A

Traço disse...

Bem, já não bastava a vossa fantástica viagem partilha connosco, de uma forma tão regular e tão afável, ainda somos brindados com este manual de concelhos, dicas, informações, sempre tão úteis principalmente para quem viaja a pé ou de bicicleta. Vocês são realmente FABULOSOS! O meu muito Obrigado!
Gostava de vos colocar uma dúvida que me intriga já algum tempo, não só convosco, mas também com outros viajantes que tive o prazer de acompanhar e que actualmente ainda acompanho por esse mundo fora.
A questão é o Computador. Viajam com um portátil hiper resistente, ou vão há procura de um posto com internet? Ou ainda caso transportem um, como conseguir sinal, é com uma “pen” (não me parece) ou através de um cabo algures?
Desculpem esta dúvida talvez um pouco técnica, mas é coisa que por vezes me tira o sono :-)
Sempre fiel às vossas mensagens, desejo a continuação de Bons Caminhos até Macau.
Obrigado.

Sergio disse...

"Outra coisa é tentar sempre entrar pela porta lateral, ou pela de saída! Muitas vezes funciona e se não te apanharem, perfeito! Se te apanharem, só tens que colocar aquela cara meia estúpida e perguntar: “Ah, pensava que era gratuito!” - e sais! Fizemos isto tantas vezes e vimos tanta coisa!" Vocês estão no Uzebequistão, a gastar numa viagem de lazer mais do que uma família de lá ganha num ano, e acham bem defraudar a economia local do pagamento das entradas para os seus locais turisticos, que normalmente são usadas para a sua conservação e para suportar a deficiente economia local. Sinceramente não é uma atitude de um verdadeiro viajante e não me parece nada coerente com o resto do que li do vosso blog.

Viagem disse...

Olá Tânia e Rafael,

tudo bem?
O vosso blog é excelente, fiquei a conhecer hoje e adorei, vou passar a acompanhar :)

Que inveja de saber que já estiveram no Irão, queria tanto ir lá!!
beijinhos
Patricia

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