pamir highway II - bem devagarinho

Deixámos Murgab e o mercado em contentores, deixámos para trás as pessoas que conhecemos e continuámos caminho com protector solar na cara e no bolso levávamos um bilhete com pontos importantes para o caminho: "30kms - água, 5kms - termina a estrada com alcatrão (…)".


Saímos cedinho e começámos a subir devagarinho. As placas azuis indicavam-nos, de um lado, os quilómetros que já tínhamos percorrido desde a fronteira até então e, do outro lado, os quilómetros que faltavam para a fronteira com o Quirguistão. Já não estávamos longe mas ainda era preciso subir bastante e passar pela maior passagem: 4655 metros de altitude!

Subimos devagarinho com a China bem perto de nós, do lado direito. Dava vontade de conhecê-la mais cedo, apenas para fazer sorrir o nosso estômago. Continuámos em frente olhando para o bilhete com os quilómetros de tudo e mais alguma coisa, para não deixarmos escapar os riachos com água que iríamos necessitar durante a nossa estadia no Hotel-Ar-Livre-Cinco-Estrelas-Com-Vista-Para-As-Montanhas.

Subimos devagarinho mas isso não quer dizer que não fiquemos cansados. Respirar torna-se complicado e todos os nossos movimentos precisam de ser lentos, para não ficarmos com tonturas.
Parámos a 20 quilómetros da grande e respeitosa passagem. Montámos a tenta devagarinho e devagarinho ganimos ao lavar a loiça no gelado riacho. Deitámo-nos bem cedo e durante a noite, ouvimos flocos de neve a cair devagarinho na tenda. Não saímos dos sacos-cama antes do sol aparecer. Começámos a pedalar já tarde nesse dia… e quando estávamos prontos para a saída, apareceram os dois rapazes holandeses, que conhecemos em Khorog e que voltámos a ver em Murgab. Também eles em bicicleta e também eles prontos para subir, bem mais rápido que nós.


Subimos devagarinho e assim sabe bem. Quando pensamos que já estamos quase a chegar ao topo, aparece a grande subida inclinada. É sempre assim… pensamos “se continuar assim até ao topo, não vai custar nada” mas acaba sempre por custar muito.

Parámos no sinal azul a avisar o tamanho daquele bicho gigante e foi a partir daquele momento que fizemos várias paragens para descansar e respirar. Só nos ríamos da situação. O que podíamos fazer? Tínhamos de nos rir para o caminho ser mais fácil ou mais divertido e nesse duros momentos, o melhor é não nos chatearmos, caso contrário, toda a magia das montanhas desaparece, por isso, ríamo-nos e apoiávamo-nos. Conseguíamos ver os holandeses no topo, a chamarem-nos.


Chegámos devagarinho e para a nossa chegada, os dois holandeses desenharam uma meta invisível e fizeram a festa! Fiquei em segundo lugar… nada mau… bem colada ao Rafael que ficou em primeiro. Sabe bem chegar! 4655 metros! O que sentem os que viajam de mota ao chegar ao topo? "ai… estou cansado, dói-me o pulso…" Será que correm para beijar o sinal a avisar da descida que temos pela frente? Falamos dos que viajam de mota, apenas porque conhecemos vários e gostamos de nos meter com eles. Deve ser uma viagem bastante interessante e bem mais simples, mas não trocamos as bicicletas por nada! Tudo tem mais beleza, tudo tem mais sabor, tudo é feito devagarinho! Saltámos juntos e partilhámos aquele momento único. Despedimo-nos deles. Eles desceram e nós continuámos ali, aos 4655 metros.
- Vamos tirar uma foto assim. Agora assim. Olha, trás a bicicleta para aqui e tiramos com estas montanhas por trás… - Dizíamos.

Na hora da descida, vestimo-nos da cabeça aos pés! Estava frio e mais frio iríamos sentir na descida. Descemos devagarinho, não só porque queríamos absorver tudo o que víamos mas também pelo estado degradado da estrada… uma vez mais…

- Agora é sempre a descer até Karacol! – Dizia o Rafael. 
Descemos, é certo, mas só me recordo das subidas que apareciam intercaladas com as descidas e do vento forte e de frente que apareceu sem ser convidado, no fim da tarde, mesmo perto da hora do lanche. Fino não? Para chegar a Karacol, foi necessário fazer muitos quilómetros mas o simples facto de saber que iríamos ter um banho quente à nossa chegada, fez-nos encontrar forças que ainda hoje não sei onde as fui buscar…


O Rafael conseguiu tirar todo o prazer do possível belo banho quente… 
- Este balde de água está muito quente, não consigo tomar banho assim. – Queixava-se sem antes ter experimentado molhar o corpo. 
- Tens a certeza? – Perguntei mergulhando a mão na água. – Para mim está bom assim, tens a certeza que queres juntar água fria? 
- Sim, assim não consigo tomar banho. – Insistia e tanto insistiu que acabou por juntar um grande balde de água. 
"Pronto, estragou tudo", pensei. 
- Está melhor assim? – Perguntei, já adivinhando a resposta. 
- Está mais ou menos… ficou um pouco fria.
 E pronto, cá está um bom motivo para lançar alguém à fogueira para sentir o que realmente é quente. Todo o prazer que desejei ter com um banho desapareceu… Ficámos ambos desconsolados mas a cheirar bem.


Na manhã seguinte, aproveitámos para ver o lago que impressiona pelo tamanho e pelas montanhas que o rodeiam e no início da tarde pegámos nas bicicletas para fazer mais umas quantas passagens a mais de 4000 metros.

 Não chegámos nem à primeira que ficava a 30 quilómetros do destino… O vento estava ridiculamente forte e assim não brincamos! Estava sem forças e nem conseguia levantar a cabeça para olhar à minha volta, a incrível paisagem. O Rafael estava bem disposto, apesar de todo o esforço que era necessário fazer para conseguir realizar 100 metros. Muitas vezes ele teve de me socorrer e puxar a minha bicicleta. Dia terrível… Estávamos a menos de 700 metros da passagem e montámos a tenda… dormimos a 4100 metros e o frio não estava a brincar ao faz-de-conta! Tentámos juntar os sacos-cama para podermos dormir bem juntinhos e quentinhos mas depressa aceitámos o divórcio. Estamos sempre a aprender… Juntar os sacos-cama, não ajuda em nada. O frio invadia devagarinho o interior e por ele ter vindo meter a colher, o divórcio foi a única solução encontrada. Finalmente conseguimos adormecer quentinhos, apenas com os olhos de fora.

Novo dia de luta. Há alguns dias que andava com a sensação de ter plástico no estômago e não andava muito feliz com essa sensação. Voltei a acordar com essa bola de plástico e sem forças para mais subidas. Só desejava pedalar durante uma semana na Holanda. Estávamos no nosso último dia no Tajiquistão e por muito bonito que fosse o país, queríamos sair depressa! Voltámos a olhar para o nosso papel e este dizia "13 kms – fim do asfalto; 9 kms – Tajik border; 2 kms – Pass (4290 m)". Foi novamente muito doloroso. O vento era forte, as subidas eram íngremes e a energia era pouca.
Chegámos com cara de defuntos à fronteira do Tajiquistão e, por entre grossas pingas de chuva que aleijavam e pequenos flocos de neve, tivemos o carimbo de saída, assim como mais 2 quilómetros de subida pela frente, para chegar ao topo. Chegar devagarinho aos 4290 metros, foi mais uma vez motivo de lágrimas. É impossível controlá-las, quando uma subida custa muito. É uma boa vitória chegar ao topo com o rabo no selim. A felicidade é enorme mas a respiração fica descontrolada… foi necessário acalmar-me para continuar caminho.

Voltámos a descer devagarinho, voltámos a ter má, mas bela estrada a serpentear a montanha e, no fim da descida, uma casa que se apresentava como Guest House. Estávamos em terra de ninguém e de fronteira a fronteira, eram 20 quilómetros.

- Tea, tea – Dizia o pequeno miúdo de 7 anos, ao mesmo tempo que mimava o convite.
 Não foi possível resistir ao convite daquele lindo e cativante catraio.
- Vamos e vemos se eles têm alguma coisa para almoçar. – Dissemos, sentindo o estômago a puxar por nós.
Almoçámos algo com pouco sabor mas que deu para encher e ficar a descansar por umas horinhas. Durante o descanso, apareceu o Andres, um espanhol que conhecemos em Karacol e que o apelidamos de "patrocinador" por nos ter oferecido uma ferramenta. Foi com ele que continuámos a pedalar com o vento feroz, que passámos o riacho que destruiu o caminho e foi com ele que entrámos no novo país: Quirguistão, bem mais verde mas com o mesmo vento que parece ter cornos.

1 comentário:

Rita Miranda disse...

fiquei tentada a acrescentar um vídeo da música do martinho da vila "devagar" :D

lição nº103 - nunca confiar quando um homem teimoso diz que a água está muito quente para o banho! nunca!

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