pamir highway

Há sítios onde sabe bem pedalar. Há sítios onde o sentimento de liberdade é maior. São lugares como a Pamir Highway que fazem a bicicleta ganhar mais valor, mais sentido.


Assustava saber que teríamos de passar por 5 passagens acima dos 4000 metros, assustava a altitude e o que esta podia provocar ao corpo mas as fotografias que víamos de outros viajantes, fazia-nos desejar esta mítica estrada. É uma estrada obrigatória e ganha mais beleza se for atravessada lentamente.


Saímos de Khorog e demorámos 5 dias a chegar a Murgab. 5 belos dias onde festejámos os nossos 9000 quilómetros com frio que se fazia sentir aos 4000 metros de altitude. Esta nossa história podia ter sido destruída por um polícia que não nos queria deixar passar pelo checkpoint, dizendo que a nossa autorização GBAO não era para o caminho onde nos encontrávamos.
- Tirámos a autorização em Tashkent e pagámos por ela! Temos de passar por aqui! O nosso visto está a terminar e não temos tempo de voltar para trás e fazer a outra estrada! – Dizia o Rafael, achando que o polícia estaria a brincar.
- Não podem passar por aqui. Têm de voltar para trás. – Continuava o polícia, sem piedade.
- Não podemos! Não temos tempo e queremos fazer a estrada pela qual pagámos! – Dizia eu.
- E estas terras estão escritas em russo, que nós não percebemos e por isso não dava para ver que não estava correcto. Agora que vamos passar por aqui, vamos! – Dizia o Rafael já preocupado.
Ele não queria deixar-nos passar. Nós implorávamos e, enquanto isso, um camionista chegou, cumprimentou o polícia com uma nota escondida entre as mãos. Que material estaria escondido no camião? Será que este corrupto queria o nosso dinheiro para poder fechar os olhos e deixar-nos passar?
- Não vou dar dinheiro a este polícia. Podemos ficar aqui o dia todo, ele vai acabar por nos deixar passar. – Dizia eu, depois de ter feito a asneira de ter dito uma asneira em inglês, que, por meu azar, foi a única palavra em inglês que o excelentíssimo agente percebeu. Ele tentou de tudo para nos fazer sentir mal e culpados para poder receber uma nota. Outro polícia apareceu e olhou para os nossos passaportes. Voltámos a explicar a nossa situação e minutos depois fomos autorizados a seguir viagem. Corruptos!



Depressa esquecemos esta situação e fomos contaminados pela beleza das montanhas. A estrada era alcatroada, livrando-nos assim de uma bela dor de cabeça. Fomos subindo aos poucos, sem grande esforço. Quando olhava para a altitude no conta-quilómetros, ficava admirada com o que já tínhamos subido sem nos apercebermos. O que nos apercebemos com facilidade é quando a fome aparece.

- Queres ver se ali tem batatas fritas com ovo? Pergunta quanto é.
Entrei pelo portão que se encontrava aberto. Do interior da casa, a música fazia dançar as mulheres que passavam com comida. Perguntei se tinham algo para comer. Ela pareceu-me admirada, mas disse que sim. Um senhor apareceu com um prato com batata frita e uma coxa de frango.
- Sem frango. Trocamos o frango por uma salada. Quanto é? – Perguntei.
O senhor abriu os braços, como boas vindas, e disse que não era nada.
- O senhor disse que não era nada… que estranho. Comemos aqui? – Perguntei ao Rafael.
Entrámos e tudo à nossa volta nos parecia estranho.
- Isto não será um casamento? – Perguntou o Rafael.


Perguntei a uma rapariga, a única que falava inglês, e ela respondeu afirmativo. Estávamos numa festa de casamento e, antes de almoçar, fomos obrigados a um pezinho de dança! Estavam à espera dos noivos que se encontravam na família dela. É lá que começa a festa da parte da manhã. Depois o noivo traz a esposa para a casa da sua família e a festa continua. Não os vimos, não podíamos esperar mais tempo. Dançámos, comemos e ainda descascámos cebolas para ajudar. Continuámos caminho com mulheres a tocarem música para a nossa partida.
- Elas estão a tocar para vocês! Boa viagem! – Despediu-se assim a rapariga do bom inglês.

Continuámos a subir. Continuámos bem-dispostos, enchendo as garrafas com água do rio. Não se encontram mercados nem mercearias, as pequenas aldeias são escassas, o sol queima e não se encontra protector solar. As pessoas são de uma gentileza gigantesca, acolhedoras, respeitadoras. As mulheres de longos e belos cabelos, são sorridentes. As crianças usam roupas, umas por cima das outras, misturando diferentes cores. Pedimos para montar a tenda e somos convidados para o interior da casa. Conhecemos duas adolescentes que adoram o sítio onde vivem. Não querem grandes cidades, nem estar longe dos pais. São adolescentes que nos perguntam se em Portugal há pássaros, há relva, há flores. Conhecemos pessoas com cara de felicidade, trabalhadoras, lavando a loiça no gelado rio, enquanto nós, temos as luvas enfiadas nas mãos.


 Pedalar na Pamir sem comida, pode ser um problema. Não tivemos esse problema mas a nossa alimentação não variou. Parávamos para cozinhar e fazíamo-lo nas melhores paisagens possíveis, o que não era difícil. Fazíamos o mesmo para acampar. Era obrigatório uma boa vista, belas montanhas e, se possível, com um chapeuzinho de neve no topo! É sempre bom ter um rio para lavar a loiça, para nos lavarmos, para cozinhar e para beber.


1 de Agosto foi dia de frio, dos 9000 quilómetros, dos 80 quilómetros sem uma casa, nem mercado, sem nada e da passagem aos 4272 metros de altitude.


Os últimos 5 quilómetros até à passagem foram os mais custosos. O alcatrão falhou e a inclinação era de 12%... nada ajudou! Respirar tornava-se complicado e éramos obrigados a parar a cada meio quilómetro. Chegar ao topo, não foi tão emocionante como a anterior passagem aos 3252 metros.
Não houve nenhum sinal a avisar e foram apenas os últimos 5 quilómetros que foram realmente custosos. Festejámos com um salto e continuámos caminho em direcção às próximas passagens. 80 duros quilómetros sem nada… estávamos cansados e a tentar arranjar um sítio para montar a tenda. Olhávamos para o mapa e víamos a existência de um rio com um nome de uma aldeia ao lado. Ter um nome, não significa nada mas como tinha um rio ao lado, poderia querer dizer que existiam pessoas. A aldeia nunca mais aparecia…

- Acampamos aqui? Já estou cansado. – Dizia o Rafael.
Tínhamos uma pequena subida à nossa frente e as montanhas não permitiam vermos o que teríamos em frente.
- Vamos até ali acima e se não aparecer nada, acampamos. Só mais um pequeno esforço. – Estava com uma forte sensação que iria aparecer qualquer coisa, ou queria acreditar que sim.

O Rafael ia à frente e, quando chegou ao topo, deu um grito de felicidade! Lá do alto, víamos uma pequena aldeia branca que esperava por nós! Tínhamos chegado a Alichur e procurámos uma Homestay.
Ao longo da Pamir, existem várias Homestays, onde podemos dormir e ter as refeições por 10$ por pessoa, sempre discutíveis (nós gostamos de discutir). Gostámos do sítio onde ficámos. A família era muito simpática e a comida era deliciosa! Simples, mas deliciosa! O banho era de água quente, despejando a água com uma caneca e posso afirmar que sabe imensamente bem! Tudo era limpo e com cama “confortável” como dizia a rapariga. Se era confortável, já não estamos habituados a conforto e a meio da noite fomos para o chão para podermos dormir bem.



Fazer a Pamir Highway em bicicleta, é ter a ideia de pedalar numa longa ciclovia. Essa ideia é desfeita de duas em duas horas com a passagem de um camião… damo-nos ao luxo de pararmos as bicicletas no meio da estrada para tirarmos umas fotografias e até de nos sentarmos e esperar pelos 10 segundos antes do disparo. Há dias em que o trânsito é mais e conseguimos ver 2 camiões de hora em hora mas isso já é uma loucura, um trânsito infernal!


Antes de chegarmos a Murgab, parámos noutra Homestay. Montámos a tenda para não pagar para estar de olhos fechados e aceitámos o jantar por menos de 2$ cada. Estávamos em Qarasu e estávamos na única casa da terra. Vimos os yaks a chegarem, assim como as cabras e as ovelhas. Ofereceram-nos uma bola de queijo de yak que é impossível cortar. Brincámos com a gata que gostou tanto de nós que quis marcar território na nossa tenda e tanto quis que o fez. Estar perto dos yaks, mete respeito… só consegui fazer miminhos num com o senhor a segurar na cabeça. Mesmo sabendo que não fazem mal, prefiro ter um adulto por perto.

Estávamos a 45 quilómetros de Murgab e o caminho foi quase sempre a descer, por isso chegámos bem antes do almoço. Para o conseguir, acordámos bem cedo e os primeiros 6 quilómetros foram bem gelados. Os dedos doíam de tanto frio! A mim eram os das mãos e ao Rafael, os dos pés. Começar o dia bem cedo, aos 4000 metros de altitude, não é fácil.


 A Pamir Highway não termina aqui, mas foi aqui que decidimos passar 3 noites para descansar na Homestay Erali, que recomendamos! Pela família, pela comida e pelo prazer de passear pelo bazar que foi o mais surreal que vimos até agora! Vários contentores metálicos espalhados, de diferentes cores e tamanhos, são as lojas onde se vende de tudo um pouco (ou não estivesse a China aqui ao lado).

5 comentários:

Anónimo disse...

simplesmente fantástico!

A

Anónimo disse...

c/ paisagens dessas, não me importava de pedalar :D
amaizing!!

A

Cisfranco disse...

Fantástica viagem! E também fantástica para mim que vos acompanho. Boa continuação!

Rui disse...

Grandes fotos, as melhores desde q sigo o vosso blog e fb (desde o Egipto, acho eu).

Trilhos Sem Fim disse...

Grande aventura. As imagens são fantásticas.
Quando regressarem têm que fazer um curto passeio com os Trilhos Sem Fim de Leiria.
Continução de boa viagm.

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