o fim da pamir highway

Chegámos com o Andres e com a chuva, à fronteira do Quirguistão. O guarda pouco se importou com a chuva. O seu caminhar era lento e pachorrento. A nossa paciência era pouca e limitada.
- Passaportes. – Pediu ele, por baixo de chuva.
- Não podemos entrar e mostrar os passaportes, ali, abrigados?
-Passaportes. – Insistia.
Com este, não íamos a lado algum. Não tive outro remédio senão entregar os livrinhos preciosos e protegê-los da chuva com a carteira transformada em guarda-chuva.
A simpatia ali era pouca mas conseguimos entrar sem problemas neste novo país, prontos para encontrar caras mais amigáveis!

Souberam bem os primeiros quilómetros! À nossa volta, tudo era verde, dando a sensação de estarmos a pedalar na Escócia. Nunca lá estivemos mas é isso que as fotos nos dizem.


Souberam bem os primeiros quilómetros! Víamos os cavalos à solta, os yaks bem perto de nós, as crianças que corriam pelo grande manto verde, na nossa direcção para serem fotografadas.
Souberam bem os primeiros quilómetros! Tínhamos o vento pelas costas e conseguíamos atingir grande velocidade. Estávamos com um bom sentimento cá dentro e ver ao longe a estrada sempre plana, fazia-nos pedalar com um sorriso na cara. Aquele sorriso que colamos na cara quando estamos apaixonados e suspiramos de amor… Estávamos com essa expressão.

Os últimos quilómetros não souberam nada bem! O vento rodou, levantando as saias, num passo de dança, e levou com ele o nosso sorriso. Não rodámos, seguimos em frente sem dar um pezinho de dança. Seguimos em frente com grande esforço. Já estávamos sentados nos selins há muitas horas. Só queríamos chegar o mais rapidamente possível.
Os últimos quilómetros não souberam nada bem! Já avistávamos a aldeia mas esta parecia que tinha perninhas e se ia afastando cada vez mais.

Confesso, o meu pior inimigo é o vento, não o suporto quando ele está mal disposto. E, nos últimos tempos, ele tem andado insuportável! Somos mais teimosos que ele e conseguimos chegar a Sary-Tach e encontrar uma Guest House baratinha, mas sem chuveiro… sem chuveiro mas com muitos franceses e todos eles de bicicleta. Aceitámos o convite e fomos para o quarto deles, bem mais quentinho que o nosso!

- Ui… Eu conheço-te! Estive em tua casa há uns anos atrás! – Disse uma rapariga saltando do seu lugar quando viu o Rafael a entrar.
"Que história é essa?" Pois é, essa menina esteve com a irmã na nossa casa em Guimarães, através do Couchsurfing. Está a viajar com o namorado e quando chegaram à China, lembraram-se de nós e da viagem de bicicleta que estávamos a planear. "E porque não fazer o mesmo?", pensaram. Tanto pensaram que acabaram por comprar uma bicicleta.
Passámos um bom serão a falar em francês mas tivemos de nos recolher para o nosso gelado quarto. Já na cama, o Rafael propôs:
- Não queres ir a Osh à boleia?
- Claro! Mas foi isso que te propus ontem! Estou mesmo cansada de subir montanhas e como temos de voltar para aqui…
Assim foi, na manhã seguinte, preparámos a pequena mochila e fomos para a rua esticar o dedo. As pessoas por aqui não entendem o significado de dar boleia… levar estrangeiros no carro, significa receber umas notinhas. Aceitámos, mas o rapaz que parou, foi obrigado a aceitar o nosso valor.
O caminho até Osh foi bastante assustador. Toda eu travava nos vários travões invisíveis e por pouco não arranquei o apoio do braço, da porta do carro. A estrada estava sem alcatrão e a cada curva, rezava. Terrível andar de carro, mas terrível também seria subir tudo o que subimos de bicicleta! Estávamos, muito sinceramente, cansados! Precisávamos de uma pausa! Pausa de montanhas, pausa de bicicletas!


Chegar a Osh foi uma surpresa para nós! Vimos trânsito de carro e de pessoas, vimos um enorme mercado onde encontrámos massas e saladas vegetarianas, vimos uma pizzaria onde nos deliciámos, vimos um grande supermercado com tudo e mais alguma coisa, vimos frutas e legumes, meninas com saias airosas e até 3 portugueses.
Reencontrámos os holandeses e fizemos um jantar de despedida. Sentámo-nos numa esplanada e bebi uma bela cerveja! Falámos com a família e amigos. Ufa, tanta novidade, tanta coisa boa!
Passado 3 noites, voltámos para Sary-Tach, para os pequenos mini mercados, para o silêncio nas ruas, para a Guest House onde encontrámos um bilhete nas nossas bicicletas. Era o Sam e a Frank!!! Eles estavam na Guest House ao lado! Fomos a correr até lá e por entre abraços e "como estão" bebemos um belo café Illy! São prazeres da vida, esses pequenos mimos!


Voltámos a ser 4numundo e soube bem! Partimos no dia seguinte juntos, com as montanhas nevadas por todo os lados! A estrada era impecável! Não havia buracos, apenas uma bela e nova camada de alcatrão! Voltámos a falar em comida e da enorme vontade que tínhamos de entrar na China para poder comer tudo o que os nossos olhos avistassem. Voltámos a encontrar um belo espaço para acampar e antes das boas noites, voltámos a gritar "Amanhã entramos na China!!!".


1 comentário:

Pedro disse...

;) Força nas canetas. Boas atualizações do site. ;)

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