Até já, China!


Direcção ao Paquistão! Mais um país que me deixa o estômago a borbulhar. Será por ter o conhecimento do rapto de dois suíços, há poucos meses atrás? “Não nos vai acontecer nada. Vai correr tudo bem. Os suíços saíram da rota turística, foi esse o problema.” E era esse o meu pensamento, mas o estômago continuava a borbulhar.

Depois de duas semanas em Kashgar, não foi fácil voltar ao exercício físico mas estávamos com muita vontade de deixar para trás esta grande cidade. Queríamos montanhas, natureza e voltar a adormecer na nossa tenda!

O caminho alcatroado, é um pequeno prazer. Belas estradas que a China tem! Foi bom voltar a sentir a existência de regras. 

Até ao Paquistão, tivemos várias experiências. Comemos tofu, ovos, pão e cogumelos, tudo frito, tudo muito frito, com óleo de já alguns dias. Será esse o truque do bom sabor? O óleo podia escorrer pelo canto da boca mas passado poucos dias, andávamos a cantar, com o ritmo do “beijo frito, beijo frito” dos Lupanar, “ovo frito, ovo frito” e “tofu frito, tofu frito”, com desejo de voltar a encontrar esse pequeno petisco.  

As nossas noites foram bem diversificadas. No dia que partimos de Kashgar, chovia e a nossa tenda não anda de boa saúde. Já deitados, começámos a sentir umas pingas, a invadir o nosso espaço. 

- Vou espreitar aquela casa. Não está ninguém e se aparecer alguém durante a noite, não vai haver problema. – Dizia o Rafael. Passado poucos minutos, ele voltou. – É perfeito. É um compartimento onde guardam a palha. Acho que vamos dormir quentinhos. Podemos guardar as bicicletas lá dentro. Mudamos?

Claro que mudámos. A chuva não parava de cair. Mudámos tudo às escuras sem fazer barulho. Mudámos a palha de lugar e estendemos os sacos-cama. Dormimos quentinhos, mas quem não dormir foi ia chuva que caiu a noite toda. No dia seguinte, não choveu, mas queríamos dormir protegidos – Não vá o diabo tecê-las! (Nunca tinha escrito essa expressão) Não foi fácil encontrar um sítio para montar a tenda. 

- Vou ali ver uma coisa. – Disse o Rafael, afastando-se. Voltou com um sorriso malandro. – Já sei onde vamos dormir! Que me dizes de dormirmos debaixo da estrada? 

- Debaixo da estrada?! – Estava um pouco admirada.

- Sim, ali por baixo. Só tem dois “presentes” mas estão secos. De resto, é perfeito!

- Então vamos! – Disse entusiasmada. – Nunca dormir debaixo da estrada! Que loucura!


Montámos a tenda e preparámos o nosso ninho. O Rafael apareceu com uma pedra e começou a limpa um dos presentes.

- Afinal não está muito seco…

- Pronto, agora cheira mal… - diz ao sentir o aroma a incenso estragado…

Estava vento e este levava o mau cheiro para longe, foi a nossa sorte. Jantámos bem e dormimos ainda melhores, sem chuva, sem ninguém a chatear. Estávamos bem escondidos, bem protegidos!

Depois de uma noite bem dormida, começámos a subir. (Estou contente de ter desistido do meu atrelado. Comprámos um saco para colocar à frente e assim, sinto-me bem mais segura e equilibrada. Tanto nas subidas como nas descida. Agora conduzo um tanque! Um alemão fez a comparação.) Subimos até ao lago Karakol, que fica a 30 quilómetros da passagem aos 4100 metros. 


Passámos duas noites num Yurt. Nova experiência! A Yurt era só para nós! Guardámos às bicicletas no interior e estendemos a roupa para secar. O cheiro não era muito agradável… Sente-se o forte cheiro de pele de animal, e para ajudar, há pedaços de carne seca pendurada… Queremos natureza e dormir como as pessoas das terra? Desejo cumprido! 

A família preparava-nos o jantar e o Yake deles, aparecia sempre à mesma hora. A porta fechada não é problema para ele. Na primeira noite assustámo-nos, pois a porta abriu violentamente, com um grande estrondo, e do outro lado, vimos uma grande cabeça preta e branca. À segunda vez, já sabíamos quem era e passámos a gostar das suas visitas.
Não estávamos com muita sorte com o clima… as nuvens escondiam as montanhas nevadas, deixando-as todas o mesmo tamanho. Sabíamos que tínhamos ao nosso lado uma montanha com 5000 metros e outra com 7000 mas não se deixavam fotografar. Passadas duas noites partimos para enfrentar a subida.

A estrada continuava cinco estrelas e a subida não era dura. Depressa chegámos ao topo com facilidade e há poucos metros do final, fomos mandados parar por um carro de “chinocas” que nos queria fotografar e nos felicitar. Estivemos mais de 10 minutos a pousar para as diferentes câmaras! Só nos ríamos! Estavam todos contentes por aquele momento e nós estávamos contentes por saber que a partir dali, seria sempre a descer até Taskurgan. Descemos bem e em grande velocidade, almoçámos bem sem grande velocidade. 


Estávamos a ter um dia perfeito! Depois do almoço, foi outra história. Estávamos com 70 e ainda nos faltava 35. Já não tivemos grandes descidas… pelo contrario, passámos a subir e com o vento pela frente. Mas porque foi que o vento decidiu mudar de direcção?

Taskurgan! Finalmente, e finalmente um banho! Há 6 dias que o nosso corpo não via água. Houve um dia que penso quejá estávamos a cheirar mal pois estávamos a comer dentro de uma casa, com muitos miúdos à nossa volta e estes tapavam o nariz e movimentavam a mão, como se alguma coisa estava a cheirar mal.

- Estamos a cheirar mal? Porque é que estão a tapar o nariz? Cheiro mal? - Perguntava.

- Não…

- Será dos meus pés? – E ao perguntar, senti-me na obrigação de calçar as sandálias. Eles continuavam a tapar o nariz…

Já no hotel baratinho, num belo momento de prazer, a despejar com um copo, a água quente para cima do meu corpo, o Rafael tenta entrar, nuzinho, para se juntar ao banho.

- Sai!!! Sai já! – Gritei e fechei a porta! – Cheiras mal!!! Que horror! 

Afinal, cheirávamos mesmo mal… muito mal… 

Taskurgan foi a nossa última terra na China, pois a partir dali, a Karakorum Highway (da parte da China até Sost, no Paquistão), tem de ser percorrida, obrigatoriamente, de transporte público. Ninguém sabe ao certo as razões, nem mesmo os guardas que nos acompanham noutra carrinha. 

A nossa última refeição na China, não foi famoso, ou melhor, consegui estragá-la. A comida estava deliciosa – no 3º restaurante que entrámos pois os outros, não entendiam nem queriam entender o que queríamos, e garanto-vos que tufo em chinês, diz-se tofu!) Comemos até não pudermos mais! Quando veio a conta, não queríamos acreditar! Era mais que o dobro daquilo que costumávamos pagar, pela mesma coisa! Era impossível ser aquele preço! Não queríamos pagar mas ela não queria mudar o preço. Mostrava-nos o menu, em chinês lá está, e apontava para o preço das coisas. Descontrolei-me, gritei com a senhora… Não gostei do tom de voz da senhora e gritei com ela, armando um grande espectáculo. Claro que acabámos por pagámos o que ela queria e partimos. Estava cheia de nervos e cheia de remorso por ter reagido como reagi. Se pudesse voltar para trás, voltava e perguntava primeiro o preço das coisas antes de pedir… mas como podia adivinhar? Os preços não variavam muito de restaurante para restaurante, e nós comíamos sempre a mesma coisa, pois não sabíamos o que mais podíamos comer… A partir daquele dia, prometi a mim própria, ter mais calma com as pessoas, mesmo nos momentos que estou mais cansada e sem paciência. 

Nesse dia estava mesmo cansada por causa das muitas horas passadas na bicicleta e cansada de tentar obter informações. Queríamos saber as horas do autocarro para o Paquistão e num hotel a senhora, ofereceu-nos champoo e um sabonete, pensando que era isso que queríamos, depois de termos feito um movimento de conduzir um autocarro ou qualquer veículo com um volante, ter dito Paquistão e mimado um relógio para saber as horas da partida… jogar à mímica com eles não vale a pena. Perguntámos a várias pessoas e nada… não jogo mais!

Conseguimos ter acesso à informação, depois de muita luta, em vários ringues. Partimos no dia seguinte perto da uma da tarde, quando o autocarro tinha como hora de saída às 10:30…

Estava a ver que tenha de continuar a viagem sozinha, pois os guardas chineses, não estavam a acreditar que quem estava na fotografia do passaporte era o próprio Rafael. Levaram-no para uma sala à parte e chamaram o superior. O Rafael teve de mostrar várias fotografias e explicar que o passaporte já tem 7 anos, é normal que esteja diferente. Ficou mais de 10 minutos a tentar provar que aquele era mesmo ele. 

Comigo foi bem mais rápido. Não tenho o longo cabelo que tinha na fotografia do passaporte e isso já foi um problema, mas mostrei outra fotografia com o cabelo de corte médio e pronto, passei. Passei depois de ter assinado várias vezes e em vários tamanhos… Afinal éramos mesmo nós e conseguimos colocar as bicicletas dentro do autocarro e continuar viagem, para o novo país! 

O autocarro sem bancos, são 3 filas de camas pouco confortáveis. A paisagem era incrível e estávamos com pena que não estarmos a pedalar! As montanhas eram gigantes e brancas, bem perto de nós. Não estávamos autorizados a tirar fotografias mas foi impossível seguir essa regra. O xixi tinha de ser feito muito rapidamente e tínhamos de voltar rapidamente para o autocarro. Os guardas não tiravam os olhos de nós… 


Estávamos perto do Paquistão, sem visto para entrar…

2 comentários:

Cisfranco disse...

Fantástica a vossa crónica da viagem. A realidade parece que vai além da própria ficção. Gostei muito. Parabéns, voa viagem!

Anónimo disse...

Ai se soubessem como vos invejo... Ó quem me dera a alma grande como a vossa para me meter ao caminho. Nem que fosse apenas aqui pela Europa. Felicidades e regressem bem

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