Autocarro Amarelo


Direcção: Islamabad

Objectivo: visto para a Índia no passaporte

Saímos de Gilgit, num pequeno autocarro amarelo, com acentos brancos. O aspecto deu-nos a ilusão de poder ser confortável. As bicicletas viajaram no andar de cima e nós nos lindos bancos brancos com um ângulo de 90 graus. Impossível encontrar posição. Os homens iam entrando. Tive a sensação de ser a única mulher mas não! A meio da viagem, vi uma mulher, bem escondida nos últimos lugares. O autocarro ia cheio. Íamos passar umas belas longas horas nele, por isso, era bom ganhar um pouco de amor por ele.

- Não estou a conseguir arranjar posição e por azar, hoje dói-me as costas… - Dizia, na primeira meia hora.

- Eu estou bem encaixado. Não me está a custar nadinha.

“Bom para ti. Eu não estou bem!” - Falava com os meus botões, bem baixinho. Muito azar, ficar com dores de costas no dia que temos de apanhar um autocarro amarelo com bancos brancos. Enquanto procurava melhor posição, o Rafael estava tipo estátua, e o rapaz à minha frente, estava constantemente a cuspir grandes bisgas, para a rua. O autocarro parava para o condutor falar com os amigos que ia encontrando nas várias terras. Mais 5 minutos, menos 5 minutos, não fazem mal a ninguém.

Nova paragem… 10 minutos para o xixi que acabam por ser 15 ou 20. Mais 5 minutos, menos 5, não fazem mal a ninguém. A música no mp3 ajudava-nos a passar o tempo. Cantávamos baixinho mas logo a nossa voz foi abafada… A rádio foi ligada, e eles aqui gostam muito de música indiana! Não consigo entender os agudos dessas mulheres! No autocarro amarelo, o maior problema não é o timbre de voz, mas sim o volume da rádio que destorce as músicas e o agudo entra como agulhas nos ouvidos.

Nova paragem, 20 minutos para jantar. Mais 5 menos, 5 minutos, não fazem e ninguém, por isso, meia hora depois, retomámos caminho. O rapaz da frente acumulava saliva como nunca tínhamos visto e conseguia criar grandes poças no chão. Isso quando a janela estava aberta, porque quando a noite começou a ficar mais fria, e a janela foi fechada, as poças passaram a ser depositadas no chão do próprio autocarro amarelo. Sorte a nossa que não apanhámos subidas…

O condutor, para não adormecer, aumentava o volume da rádio, e assim, todos nós o acompanhávamos na noite não dormida.

Nova paragem: check point. Os dois estrangeiros – nós – tiveram de sair para os passaportes mostrarem aos senhores guardas. Houve vários check points. Houve vários guardas que entraram no autocarro à procura de não sei o quê. Voltámos a sair para mostrar o passaporte e fazer o registo. Mais 5 minutos, menos 5 minutos, não fazem mal a ninguém.
Hora do chá sem hora marcada para sair e pequena revisão ao autocarro amarelo. Um dos pneus foi substituído e isso demora o seu tempo. Estava frio, mas sair do banco branco, é sempre uma alegria. Beber o chá, também é outra alegria – chá verde no leite com açúcar – delícia! Podem fazer com uma saqueta de chá verde, numa caneca de leite quente. 
Novas bisgas, nova tentativa de arranjar posição. Havia homens que saiam e outros que entravam. Os lugares eram improvisados, tudo vale. Tentávamos dormir, embalados pelas cantoras indianas. O Rafael, há muito que começara a queixar-se. Não encontrava posição, o espaço era pequeno… o que tínhamos de fazer era não perder a calma e esperar pelo Vitinho de olhos fechados.  

- Não sei se estou a ter miragens, mas este homem aqui ao lado, fez a segunda tentativa para te tocar. – Dizia o Rafael a olhar de lado para o homem que fingia dormir.

Estávamos a dormir, finalmente, mas o Rafael foi acordado pelo homem - o que fingia dormir. Este estava ligeiramente tombado para cima do Rafael, com os braços esticados, a tocar-me nas pernas. O Rafael acordou-me no mesmo momento e acordei a tempo para ver o murro que ele deu no braço esticado do fingidor… ficou atrapalhado, fingindo que não sabia o que estava a acontecer e virou-se para o outro lado, para continuar o seu soninho.

O sol começou a aparecer e a cabeça do Rafael estava no meu ombro. Não me podia mexer para não o acordar. Já não tinha sono, mas estava morta de cansaço.

Nova paragem para o pequeno-almoço às 9 horas.

- Já devemos estar quase, não? - Perguntava, tendo a certeza que sim.

- Estamos, estamos. – Respondia o Rafael com um sorriso irónico.

Estava sem sono, assim como o rapaz das bisgas, que continuava com o seu árduo trabalho. Estávamos no trânsito de uma terra, por isso, teríamos de estar quase. Estávamos, estávamos! Voltámos a passar pelo sono e as horas foram passando, passando e passando.
Passado 22 horas e 600 quilómetros, o autocarro amarelo com os bancos brancos, fez a sua última paragem, desligou a música e o motor, e saímos todos com o rabo quadrado. 

2 comentários:

Cisfranco disse...

Ora vivam! Sejam bem aparecidos!
Já começava a ficar apreensivo... Mas ainda bem que continuam a dar notícias. A viagem deve ser difícil no Paquistão. Pelo que já me apercebi de outros relatos desse país, a coisa não há-de ser fácil. Mas vc superam tudo...
Boa continuação!

Rita Miranda disse...

já vi que recomendam :D

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