China! Viva a China!

Parecíamos 4 crianças! China é aquele país que fica muito longe! China fica do outro lado do mundo… China, aquele grande país onde tudo é feito e copiado. “China! Vamos para a China! Viva a China!”. Muito gritámos nós. Pensávamos na boa comida que iríamos comer, pensávamos em todas as chinesadas que iríamos encontrar e isso fez-nos pedalar com mais energia. 

Conhecemos um casal que anda a viajar de mochila às costas, com o filho de 4 anos. Conhecemo-los em Sary-Tach e voltámos a cruzar-nos na fronteira. Ele é americano e ela chinesa. Aprendemos com ela uma frase muito importante “wo chi sù” que quer dizer “eu sou vegetariano” mas que passado duas semanas, descobrimos que na realidade quer dizer “eu como vegetais” ou se mal prenunciado “eu sou um vegetal” – a última justifica muitos risos.

Passámos um grande portão e um guarda deu-nos as boas vindas e pediu os passaportes. Nada de inglês, tudo em chinês, o que nos deixava confusos e com muita vontade de rir. Ele não percebia que nenhum de nós percebia a língua dele… Ele insistia a fazer perguntas, sempre muito bem-disposto e com um grande sorriso.

- No chinese – Dizíamos sem conseguir controlar o riso e o guarda continuava bem-disposto.
Chegou a minha vez de entrar em acção e pôr em prática o que tinha aprendido:

- Wo chi sù

Gargalhada por detrás de gargalhada! Foi a festa, e a partir desse momento, ficámos grandes amigos. Não me saí nada mal com o meu mandarim e depois dessa frase, avançámos para outra fase. A fase da sala grande.

Entrámos na grande sala, e fomos para a fila com o passaporte na mão. Não conseguíamos parar de falar, parecia que tínhamos pulgas no corpo.

- Por favor, respeitem a fila. – Disse o militar que parecia ter engolido uma tábua de engomar, apontando para um aviso que mostrava como devíamos ficar em fila. Um atrás do outro e não todos ao molho. 

Ah pois é, pensávamos que ainda estávamos na Ásia Central… Um a um, entregámos o passaporte e antes de passarmos para a fase seguinte, um aparelho acendia umas luzinhas onde podíamos carregar no botão que classificasse o trabalho da pessoa que nos atendeu. Só novidades! Aposto que aquele aparelho é Made in China! Muito satisfeitos? Satisfeitos? Demorou muito tempo? Nada satisfeito? Tive medo de carregar no “demorou muito tempo” e ver a senhora a ser despedida nesse preciso momento…

Saímos da grande sala e: CHINA, aqui vamos nós!!! 

Encontrámos o casal com o filho de 4 anos que já estavam com uma bebida na mão.

- Vocês têm de provar isto. – Disse a nossa amiga chinesa.

Fomos a correr para o mini mercado e tirámos cada um, uma bebida! 

- Já não compro mais Coca-Cola! – Repetia o Sam.

- Pare que queres a lata? – Perguntava-me o Rafael ao ver-me com ela na mão, já vazia, a estudar possíveis locais na bicicleta para a colar.

- É uma recordação, foi a minha primeira bebida na China! Tenho de a guardar. – Dizia eu olhando e experimentando vários locais. (passados 2 dias, a lata estava no lixo)
 
Com o casal de “tradutores” fomos almoçar os primeiros noodles com vegetais! Mas que delícia! Parecia que não comíamos há vários meses, e em certo ponto, é verdade. A comida estava deliciosa, saborosa, divinal, majestosa… Estávamos todos com caras de satisfeitos!

- Adoro a China! – Dizíamos à vez, por entre vários hmmmm, hmmmm, hmmmm…

As nossas bicicletas eram as vedetas. Elas não gostam de ser tocadas mas nesse dia, muitas mãos passaram por elas! Tínhamos de estar com um olho na comida e o outro nas 4 meninas mas não foi isso que nos impediu de soltar mais uns hmmmm, hmmmm, hmmmm!
Saímos com o estômago aos pulos de felicidade e despedimo-nos do casal que ia partir num táxi para longe. Mas antes:

- Têm de provas estas bolachas. São óptimas! Boa viagem e divirtam-se. – Disse-nos a chinesa que ficou rodeada de pessoas e de perguntas. Apontou para mim e para o Rafael e disse “Putoiá” (o mais provável é estar mal escrito mas é assim que soa ao ler). Putoiá? Torcemos o nariz… não é uma palavra muito bonita de se dizer enquanto se aponta para a minha pessoa…

- Quer dizer Portugal. Eles estão a perguntar de onde são. – Explicou-se.

Difícil esquecer a palavra. Ficou colada nas nossas mentes e é sempre divertido pronunciá-la.
Já esclarecidos, fomos comprar as bolachas e, quando as provámos, foi altura de soltar novamente vários hmmmm, hmmmm, hmmmm! 

As horas estavam a passar e tínhamos muito caminho para percorrer. Pés aos pedais e lá fomos a pedalar numa estrada em reconstrução. A má estrada persegue-nos… Tivemos vários sobes e desces, várias ondas de poeira mas estávamos muito bem-dispostos a fotografar todos os diferentes sinais. É só novidades por estes lados!


Chegámos à terra onde tínhamos combinado parar e perguntar por um hotel barato. Não valeu de nada o tempo que perdemos a estudar e decorar, cada um, uma palavra para perguntar onde podíamos encontrar um hotel. Decorámos “hotel”,” hostel”, “pousada” e “barato”. O “barato” foi a minha palavra mas nem cheguei a pronunciá-la… Não havia nada de nada e não fomos convidados para nenhuma casa. É de evitar ter estrangeiros em casa… e ao que parece, levam isso muito a sério. 

Não há hotel? Então vamos ao mini mercado. Patas de galinhas plastificadas, espetadas de carne plastificadas, tofu plastificado, salsichas de vários sabores plastificadas, sumos e mais sumos plastificados, ovos cozidos de vários tamanhos e cores plastificados, coisas e coisinhas que chamavam a nossa atenção, plastificados! Saímos com os braços cheios e fomos à procura de um restaurante. De novo noddles! Saborosos noddles

À medida que íamos comprando coisas para comer, fomo-nos apercebendo rapidamente, da quantidade de plástico que andávamos a consumir… Abrimos um pacote de bolachas e estas vêm duas a duas dentro de um saco de plástico… A papa para bebés, vem cada porção, num saquinho de plástico. Plástico, plástico, plástico! Plástico dentro de plástico. Rasga-se o plástico das madalenas, tiramos uma madalena e antes de comê-la, rasga-se o plástico de embalar a porção única da madalena. Simples! E depois, o que se faz com o plástico que o país mais povoado consome? Tanto crescimento, tanto desenvolvimento… 

Tudo era tão bom e tão “novidade” que só queríamos rasgar plástico para ver que novo sabor encontraríamos. 
 
Nessa noite não foi fácil encontrar sítio para dormir. Tentámos a polícia mas não nos ajudou. O Rafael entrou por um grande portão com várias árvores no seu interior e quando o ouvi perguntar “não há problema?”, percebi que já tínhamos arranjado sítio para ficar. Não foi fácil mas acabámos por sentir a hospitalidade do país.

No dia seguinte, foi o dia! Pedalámos por entre poeira e por entre sinais que nos deixavam de olhos em bico. (Tentei não usar esta expressão mas… saiu sem eu querer.) Foi um dia duro mas queríamos à força chegar a uma terra que pudesse ter no mínimo, um hotel. Para isso, ultrapassámos os 100 quilómetros. A entrada da cidade parecia a entrada de um aeroporto. Muitas luzes, estradas largas e as bicicletas? Onde estão as bicicletas da China?
Encontrámos um hotel bem baratinho, 5 euros o quarto duplo, que luxo! Antes do banho, fomos comer! Não há nada mais importante que uma boa refeição. Sentámo-nos e pronunciámos:

- Wu chi sù!

Perfeito, perceberam! Ementa: noodles com vegetais, tofu com vegetais, e 3 diferentes tipos de vegetais em 3 diferentes pratos. Maravilha e delicioso! Antes de termos os pauzinhos na boca, rasgámos o plástico que envolvia os pratos e o copo... Depois, sim, comida à vista! O primeiro pedaço de tofu que trinquei, só não chorei baba e ranho porque estava num lugar público. Não consigo descrever esse momento… Os empregados estavam sentados a olhar para a nossa mesa. Éramos os únicos clientes e ainda bem, pois festejávamos cada prato que aparecia e cada “pauzada” (para não dizer garfada) que metíamos à boca, era uma sinfonia de hmmmms. Não nos vamos esquecer dessa refeição, nunca mais! Os empregados gostaram tanto de nós e de ver o nosso apetite que abusaram nas quantidades! Os noodles com vegetais para os meninos, ui, ui, pareciam vir numa panela! Tudo por 8 euros os 4, ou seja, 2 euros cada pessoa!!! Viva a China! 

Saímos e ouvíamos o estômago a dizer:

- Ok, ok, estão perdoados! Ajoelho-me perante vós e agradeço tudo aquilo que têm posto em mim, mas prometam que não irão ingerir Plov nesta vossa estadia na China, bela China!
Prometido! Fomos dar um passeio sem o Sam que preferiu voltar para o hotel. Passados 5 minutos, ele voltou.

- A polícia está à porta do hotel. Não podemos ficar lá.

- Não! Estás a brincar! A sério? Oh pá… - Não queríamos acreditar.

Regressámos e lá vimos as 4 fardas especadas à porta do hotel que não tinha licença para acolher turistas. Não fizemos boa cara mas estávamos muito calmos e tentei explicar à senhora de farda, à única que entendia e falava algum inglês.

- Nós podemos mudar mas não temos mais dinheiro! Não podemos ficar num hotel onde se paga mais que este. Temos de ter o mesmo preço e vocês, por favor, têm de nos ajudar.
Senti no olhar dela uma certa “pena”. O meu discurso foi bom, tão bom que nos levaram para um hotel senhor hotel, pelo mesmo preço.

- Nós ajudamos com o resto do dinheiro. – Disse ela.

Controlámos o nosso entusiasmo quando vimos os quartos. Olhava para a Frank e os olhos dela sorriam e sentia que o seu corpo estava pronto para dar pulinhos de alegria! Que quartos! Tudo muito limpo, com casas de banho no interior, televisão, toalhas, escova de dentes (boas para lavar a corrente da bicicleta), chinelos… Já não estamos habituados a luxos e aquilo era um luxo. 

Mas que dia! Parecia que ia acabar mal mas não podia ter terminado melhor! Adoramos a China mas ao que parece, isto não é bem a China… Não é bem a China?

1 comentário:

Cisfranco disse...

Força nas canetas! Já faltou mais...
Boa continuação!

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