Escolher o destino


Pega num mapa, olha bem para ele e vê a dimensão do mundo! No nosso projecto de apresentação, escrevemos:

“O mundo, na sua imensidão, é ele próprio uma estrada sem fim, com todo um conjunto infindável de montanhas, oceanos, culturas, pessoas, idiomas que, ao olhar para um mapa, nos faz divagar o imaginário! O mundo é tão grande que olhá-lo de cima, faz querer agarrá-lo todo! Percorrê-lo!”

Porque é assim, mesmo agora, que ainda vemos o mundo: grande de mais!

Uma viagem de bicicleta começa com o desejo de partir, lentamente, sem pressas: à volta do mundo, ou à cidade mesmo ali ao lado. Há uns dias atrás conhecemos o Paul, um inglês que vive em Bangkok e que há 12 anos, quando voltou do Canadá, onde vivia, para Inglaterra, decidiu comprar uma bicicleta e ir até à Holanda, “dar uma volta!” Chegou à Holanda e gostou! Continuou: desceu a Europa, passou para a Tunísia, de lá voou para o Egipto, seguiu-se a Índia e por aí fora até à Nova Zelândia. Voltou ao sudoeste asiático e ficou-se por lá. Desde então, viaja pela Ásia, a maior parte do ano! Outro exemplo, traz-nos a Sara, que tem apenas 16 anos e nos escreveu a dizer que todos os anos faz uma pequena viagem de bicicleta e que o ano passado foi de Coimbra a Tomar, em três dias!

O importante não é o destino, mas sim começar!

Pedala para longe: visita um amigo que vive no sul, vai àquele festival de música no interior do país, junta-te com alguém e tira duas semanas para explorares as aldeias históricas de Portugal! A primeira coisa que notarás, é que as estradas pelas quais já passaste antes de carro, são afinal muito diferentes: vão ter muito mais altos e baixos, vais ver coisas nas quais nunca antes havias reparado, as pessoas vão olhar-te de maneira diferente e até gritar-te “Força!” Depois, começa a ser contagiante! Quando regressas a casa, só pensas noutra viagem e acredita que aquele cansaço que sentiste, nem te vais lembrar dele! Vais começar a pensar mais longe: e explorar Marrocos de bicicleta? E dar uma voltinha pela costa norte de Espanha? E fazer o Caminho Francês de Santiago de Compostela? E provar um caril na Índia?

Assim, sim!

Antes porém, vais colocar-te algumas questões:

Será a época a indicada?

Uma viagem de um ano, não tem uma época indicada! A nós, por exemplo, as pessoas perguntavam-nos vezes sem conta: “Porque é que vão no Outono e não esperam pela Primavera ou Verão?”, e a resposta era lógica, porque numa viagem de ano e meio, vamos apanhar todas as estações, algum dia, em algum lado e acreditem que preferimos passar um Outono frio na Europa, que temos onde ficar, do que no meio da Pamir Highway, no Tajiquistão, onde não passa vivalma. No entanto, se conseguirmos gerir o melhor possível a rota com o clima, perfeito! Mesmo assim, apanhámos um dos Outonos mais nevados da história e voámos para um destino mais quente, o Cairo! Pedalar exige planificação. Ninguém gostará de pedalar na Rússia em Janeiro, nem na Índia em Julho, ou andar no meio da confusão de uma costa espanhola em Agosto. O melhor é estar sempre atento à época turística, pois geralmente a melhor época para viajar é sempre fora da época alta e atento à meteorologia, num qualquer sítio de internet.

Será este país o meu “estilo” de país?

Não penses em viajar no Irão, se queres estar sozinho, pois vais receber convites a toda a hora para comeres ou dormires lá em casa. Não penses pedalar no Tajiquistão, se pensas em tomar um banho ao fim do dia, todos os dias. Não penses em pedalar no Egipto, se não suportas a sujidade e o caos nas ruas. Um destino errado pode destruir totalmente todo o prazer de viajar. Começa com uma coisa simples, com cidades ou países onde te percebam, onde a comida não te seja estranha, onde as pessoas te reservam privacidade. Depois, parte para um voo maior: pedala em Marrocos, por exemplo, onde a cultura e a religião já são muito diferentes, mas onde as pessoas são de uma hospitalidade fantástica e, se tiveres um problema, pelo menos vão entender-te minimamente! A partir daí, tudo em aberto!

Terei tempo suficiente?

Tirar um ano, dois ou tempo indeterminado para viajar, é um luxo que, parece que não, mas está ao alcance de quase todos. Fora um ou outro problema que nos impossibilite, não há desculpas para não o fazer. Conhecemos um inglês, o Alex, que é cego e está a viajar pela Ásia sozinho! Tudo tem a ver com prioridades e cada um tem as suas. É engraçado ouvir as pessoas dizerem-nos: “Que sorte que vocês têm, partir assim durante tanto tempo” e dentro das nossas cabeças logo a resposta se constrói: “Sim, mas não trocamos de carro cada quatro anos, não temos uma casa nossa, é alugada, não pedimos nenhum empréstimo a nenhum banco, não vamos jantar fora todos os fins-de-semana, não temos um trabalho fixo, não temos filhos para já e, não fossem os nossos cães velhinhos, também vinham connosco!”. O que fizemos? Pensámos em viajar, poupámos até não podermos mais e despedimo-nos. Parece simples…e é, mas temos noção das consequências! Quando não se pode ou quer fazer o mesmo, porém, deve pensar-se também no destino de viagem, conforme o tempo que se tem, ou seja: partir para fazer a costa da Austrália, um destino que nos leva no mínimo dos mínimos um ano a fazer e só ter 3 ou 4 meses, só nos vai deixar em stress e sem tempo para nada, ou mais perto, fazer o Caminho Francês de Santiago de Compostela, em todos os seus 900 quilómetros, numa semana, achamos que é de loucos. Mas fica ao critério de cada um. Já falámos aqui do alemão que conhecemos e que percorreu em 2 meses aquilo que nós fizemos em 9. No entanto, ele não está a viajar, está a fazer exercício!

Será que terei preparação física?

Quando alguém nos diz que nunca conseguiria porque não tem preparação física, nós achamos que ela está a dar a desculpa mais fácil e a que menos…a desculpa. Costumamos dizer que ninguém treina para ir Fátima a pé! Brincando ou não, é rara a pessoa que o faz, o “treino”! Nós não somos atletas. Nunca fomos! Não frequentamos qualquer ginásio. Nunca o fizemos! Não andámos a preparar-nos para esta viagem, pedalando dias a fio. Nunca o faríamos! E cá estamos nós, no Paquistão! A Tanya diz muitas vezes: “Nunca seria capaz de me levantar, num dia normal e dizer- Vou pegar na minha bicicleta e subir aquela montanha! - Nunca!” e no entanto, já passou montanhas com mais de 4500 metros! O estado físico é importante, sim, muito importante. É essencial saber comer bem (nós somos vegetarianos), descansar, não fumar, evitar beber. É importante saber que temos que nos exercitar, caminhar, dar umas voltas de bicicleta. Porém, daí até deixarmos de fazer uma viagem porque não temos capacidade física, vai uma grande diferença. Na primeira viagem, à proposta de fazermos um “treino” em Portugal, antes de partirmos para a Europa, a Tanya respondeu: “Treinamos em Espanha e daí, seguimos em frente!” - e assim foi!


“Nada é particularmente difícil se o dividires em pequenas etapas” – Henry Ford

1 comentário:

Anónimo disse...

Que fixe!
Estou mesmo a adorar ler estes novos posts com dicas.
Apetecia-me falar com vocês. Vocês falam a "mesma língua" que nós. É um alívio ler isto escrito por portugueses, porque nos faz sentir mais próximos. Sentir que temos muita coisa em comum...
Depois de ler, o pensamento imediato é "uau, é como se eles tivessem lido os meus pensamentos!" "Isto é mesmo assim!"
Continuem compinchas portugas!
Fantástico

ana (nomadiclas)

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