Férias em Kashgar

- Isto é China! – Dizíamos muitas vezes à nossa chegada a Kashgar.
- Isto de chinês tem muito pouco. – Disse-nos um rapaz que nos ouvia a dar uns palpites sobre este país tão grande.

 
Ao que parece, isto não é bem a China mas estão a trabalhar para que o seja e nisso, os chineses são bons. A população maioritária desta zona é constituída por pessoas da Ásia Central, que são apelidadas de Uygurs, que estão a ser devorados e eliminados apesar da sua forte presença. As pequenas casas estão a ser destruídas para ganharem terreno para os grandes edifícios cheios de diferentes luzes. A pobreza está a ser substituída por uma onda de riqueza e extravagância.


Apesar de muitas diferenças com a Ásia Central, o certo é que ainda não nos tinham cortado o cordão umbilical.
Este ano, o mês de Agosto foi o mês do Ramadão e vivemos o Ramadão em Kashgar. Não somos muçulmanos mas convém respeitar a religião de cada um. Para respeitá-la, será necessário fazer como eles, e ficar desde o nascer do sol ao pôr-do-sol, em jejum? Damos por nós na rua com um sumo na mão a bebê-lo às escondidas, pois o olhar das pessoas, assim o obriga.

Apesar da forte presença dos muçulmanos, pouco sentimos na pele, o Ramadão. Tínhamos sempre os restaurantes chineses que serviam refeições a toda a hora. Sentimos o Ramadão na cara das pessoas que se juntavam para nada fazer durante a tarde, para não gastarem energias. Juntavam-se na grande praça e juntos esperavam pela hora da refeição. As pessoas esperam e pouco sorriem.

A cidade ganha vida à noite, quando o sol os deixa a sós para se transformarem em pessoas com energia. O cheiro de ovelha e de galinha, dá o sinal de partida para a grande paparoca que se prolonga noite adentro. Nós, só dávamos ouvidos ao gelado com claras de ovo e todos os dias peregrinávamos até lá.

 

Não visitámos a grande mesquita mas visitámos o Super-Hiper-Mega Super Mercado. Estávamos fora de controlo e juntamente com o Sam e a Frank, explorámos esse grande espaço sem necessitar de guia.
- Uau!!! Olha para isto! (…) Não acredito, olha o que eles vendem? (…) Dois corredores de shampoo?! Temos de comprar um… qual queres? (…) Oh! Que bom! Vamos levar isto! E isto! Olha isso! Levamos? (…) Que nojo… Olha o que eles têm aqui… - Não conseguíamos parar de comentar tudo o que víamos.
Tivemos de fugir para não esvaziarmos as prateleiras, mas prometemos voltar.
Não aconselhamos ninguém a fazer uma “visita” aos correios. Ao terceiro dia de “visita”, já conhecíamos as manhas deles e conseguíamos sair de lá sem grandes dores de cabeça. Não é fácil chegar a esse ponto, mas com o tempo aprendemos.

As “visitas” às casas de banho públicas só devem ser feitas 5 minutos antes da bexiga explodir ou caso sintamos prazer de ser observados. Graças às calças rasgadas, as pequenas crianças não necessitam de se deslocarem a essas salas de convívio e de partilha.
Os chineses foram programados para trabalhar e ficam sem tempo para jogar ao jogo da mímica. Não vale a pena tentar perguntar o que quer que seja por gestos. Só perdemos tempo e paciência. Mal vêem um estrangeiro a aproximar-se, a expressão facial transformasse, ficando com cara de atrapalhados e podemos ver o suor na testa a formar-se e antes de tentarem perceber o que queremos, dizem-nos que não, que não têm ou que não sabem. Não fazem um pequeno esforço para perceber, nem têm a mínima vontade em ajudar.
O que os chineses gostam é da confusão da estrada e de buzinar. A buzina é a musicalidade da cidade. Os nossos olhos parecem os olhos de um camaleão. É necessário, muita atenção na estrada para não se ser atropelado por uma das muitíssimas motorizadas eléctricas. Mas onde estão as bicicletas da China? Estão a desaparecer à medida que o país enriquece.
 
O que os chineses gostam é do pezinho de dança ao fim da tarde. As pessoas juntam-se no grande jardim para dançarem! Temos, de um lado as danças de salão e do outro, uma aeróbica da 3ª divisão. Pouco importa a qualidade, o importante é ter as pessoas ao ar livre, a exercitar o corpo.
Não são só os chineses que dão o seu pezinho de dança. Os estrangeiros também se divertem! Pois é! Em Kashgar, descobrimos a noite chinesa! Eu e a Frank confessámos o nosso desejo de dançar até não podermos mais! Há meses que não tínhamos uma saída nocturna e ao 2º dia da nossa estadia em Kashgar fomos, de cerveja na mão, ao Bar 88. Fomos para ver um grupo de amigos que se conheceram em Istambul e descobriram que havia entre eles, uma paixão mútua: a música. Desde então, passaram a viajar juntos e a criar novas canções. Dão pequenos concertos na rua e em alguns bares e assim, viajam um pouco mais. Foi graças aos Caspian Caravan que conhecemos o Bar 88.


As chinesas gostam de sair à noite com sainha justa, sainha curta, vestidinho elegante, longos cabelos com penteados de domingo e o sapatinho de salto alto. Nós, os estrangeiros, não tirámos da bolsa o batom vermelho, nem o vestidinho do casamento do amigo… Entrámos na festa de calções de e t-shirt do dia anterior. Foi assim que nos divertimos! Dançámos sem parar e até dançámos no palco, levando connosco os chineses que apenas mexiam os indicadores de um lado para o outro, sentados à mesa.
O divertimento faz bem e é necessário! Fez-nos tão bem que o Bar 88 teve o prazer de nos voltar a ver! A Lolla, a cantora chinesa que cantava as canções da Lady Gaga passou a ser a nossa amiga e até já cantava olhando para nós.
Longa e necessária estadia em Kashgar. Estávamos à espera da minha nova bicicleta! A Specialazed Portuguesa, uma vez mais, mostrou-se grande! Bastou explicar por e-mail o nosso problema para eles responderem “Enviem-nos o modelo da bicicleta que precisam para continuarem a viagem” Incrível! Passado uma semana, a minha bicicleta chegava de Shangai. Linda, preta, com discretos traços brancos e rosa, para não me esquecer que sou uma menina.

Tive de me despedir da minha amiga de viagem. Foram 11 meses de viagem juntas. Ela sentiu as minhas fraquezas, o meu cansaço, os meus gritos de alegria… Não foi fácil a despedida. Vendemos a minha menina e com o dinheiro, ajudaremos uma escola na Índia. Espero que ela não esteja chateada comigo em com ciúmes da minha nova Myka. Ganhou uma nova amiga e tenho a certeza que será bem cuidada.

Com a nova bicicleta pronta para andar, desfiz-me do meu atrelado e continuámos caminho em direcção ao Paquistão!

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