Proposta de Viagem

“Um dia gostaria de fazer uma coisa como vocês estão a fazer, mas neste momento, não tenho tempo/dinheiro/preparação física/qualquer outra desculpa que queiram aqui colocar” – ouvimos esta frase tantas vezes. Tantas.




O problema, não é a falta de dinheiro, tempo ou preparação. O problema é maior: falta de iniciativa. Decidimos então falar da nossa pequena viagem de Ovar à praia do Carvoeiro, no Algarve, que fizemos entre 5 e 16 de Julho de 2010 (podem ler a "voltinha" aqui - LINK). Eu tinha um espectáculo marcado para a praia do Carvoeiro para iniciar dia 17 e como estávamos sem fazer nada nos 15 dias anteriores, decidimos pegar nas bicicletas e pedalar rumo ao sul, lentamente, sem pressas, em vez de continuar a “pastar” em casa. Já o tínhamos feito de carro, à boleia, mas nunca de bicicleta! Nova experiência! O importante, como já dissemos, não é o destino, mas começar!

No dia anterior – sempre no dia anterior – colocámos tudo nas bicicletas e com meia dúzia de quilómetros, reparámos que nos tínhamos esquecido de colchões para dormir! Falta de experiência? Não, já tínhamos andado 9 meses pela Europa. Chamemos-lhe falta de organização!
Partimos de Ovar, depois de um pequeno-almoço no Ó Chico e lá fomos nós, felizes e contentes, Portugal abaixo, com alguns amigos a dizerem-nos: “Outra vez?” - ao que respondíamos: “Só vamos ali, ao Algarve!”!

A nossa rota foi:
- Ovar – Praia da Barra
- Praia da Barra – Figueira da Foz
- Figueira da Foz – Leiria
- Leiria – Peniche
- Peniche – Sintra
- Sintra – Algés
- Algés – Santo André
- Santo André – Vila Nova de Milfontes
- Vila Nova de Milfontes – Odeceixe
- Odeceixe – Praia do Alvor
-Praia do Alvor – Carvoeiro

Escolhemos a costa, pois queríamos juntar a viagem a uns dias de praia e visitar uns amigos e família que viviam perto do Atlântico! Ficámos impressionados com a quantidade de ciclo vias existentes em todo o país e isso fez-nos acreditar que, mais dia, menos dia, teremos uma enorme ciclo via de norte a sul! O norte, que nos parece sempre plano na costa, é-o, na realidade, mas o sul, que nos lembramos sempre de dizer a todos que é plano, não o é! A partir de Sintra, a coisa começa a ficar mais dura! Nada de complicado, mas para quem tinha chegado há pouco de uma grande viagem e se tinha encostado só ao prato, tornou-se durinho!

Pelo caminho, além das pessoas que conhecíamos, dormíamos na tenda, mas nunca em parques de campismo. Escolhíamos uma praia- como aconteceu no Alentejo – pedíamos a alguma família para montar a tenda no quintal – como aconteceu em Peniche – ou tentávamos arranjar um espaço para dormir – como aconteceu num café na Figueira da Foz. Viajar de bicicleta tem esta contrariedade: enquanto de mochila às costas, se pode sempre carrega-la, sem problema, de bicicleta, se não tivermos um sítio para a deixar, muitas vezes não nos é permitido visitar os locais, por causa de escadas ou outros obstáculos. Apesar de tudo, sítios como a Polícia, os Bombeiros, Postos de Turismo ou algumas instituições, nunca recusam olhar pela bicicleta durante umas horas ou uma noite! Pelo caminho, tentámos ainda vender umas coisas que fomos fazendo durante o nosso tempo em Ovar, sem trabalhar. Revelámos também umas fotografias das nossas viagens anteriores, que transformámos em postais, que tentámos vender, sem grande sucesso, pois ao contrário do que pensávamos também, o Português é um pouco reservado e nem a nós se chegava para ver o que tínhamos, tentando passar ao longe ou por trás, à espião, espreitando de fugida! Isso levou-nos até a escrever um papel onde nos apresentávamos e onde dizíamos: “Podem parar para conversar!”. O curioso também é que viajar de bicicleta em Portugal é coisa rara e as pessoas que se vêem, na sua maioria, são de outros países. Assim, quando entrámos no barco que nos levou de Lisboa à margem sul, o senhor do barco nem uma palavra soletrou, rindo-se e guiando-nos com gestos, ao sítio que era reservado às bicicletas.




A viagem foi feita nas calmas, parando em sítios onde nunca havíamos antes estado, conhecendo pessoas que nunca antes havíamos visto e partilhando, quando oportunidade tínhamos, as nossas experiências com outras pessoas que viajavam de bicicleta ou mochila às costas, a maior parte deles, estrangeiros! Fomos reavendo amigos que há muito não víamos e família que raramente encontramos. No fim, aproveitámos mais para estar com pessoas do que fazer praia ou gozar a noite! Descobrimos novos caminhos para o litoral alentejano, acordámos com o mar à nossa frente, subimos as verdes colinas de Sintra e acabámos a viagem no dia 16, num belo dum hotel com piscina e quarto virado para o mar! Perfeito!

Decidimos partilhar esta viagem, para mostrar que, com pouco dinheiro, se pode fazer algo diferente. Há tantos destinos interessantes no nosso país: a costa de Norte a Sul, a rota das Aldeias Históricas, o interior algarvio, da fronteira de Espanha à costa alentejana, o Parque Nacional de Montesinho e tantos outros! Uma viagem de um dia, um fim-de-semana ou um mês! 


A desculpa do ”Um dia…” já não serve. Há que começar! Já!

1 comentário:

Pipa disse...

Muitas vezes a vontade que temos é abafada por medos e inseguranças. É certo que, bocadinhos de leitura como estes, são uma iniciativa fantástica e podem, sinceramente, transformar a vontade de muitos em sonhos verdadeiramente realizados. Gosto sempre de ler que os medos e as dúvidas são comuns a muita gente e é, ainda melhor, ler "relatos" de quem ultrapassou tudo isso.

:) beijinhos

PipaCunha

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