Sozinho ou Acompanhado


Se já chegámos à conclusão que sim, que vamos partir numa viagem de bicicleta, é tempo de começar a pensar no que queremos fazer e isso, admitimos, é muitas vezes o mais complicado mas admitamos também, muitas vezes complicamos mais do que aquilo que é necessário! No momento em que a decisão é tomada, uma reação estranha toma posse do nosso corpo, uma mistura de medo, adrenalina, tensão, excitação, vontade de sair para a rua e contar a toda a gente a ideia estúpida, quase ridícula, mas completamente excitante e fora do que a nossa cabeça poderia algum dia conceber, que tivemos!

“Vou pegar na bicicleta e partir!”

No momento seguinte, começam a chegar as dúvidas. Como planeio uma viagem de bicicleta? Que países devo escolher? Que estradas devo eu tomar? Devo ir no Verão ou no Inverno? Montanha ou praia? Sozinho ou acompanhado? Vou…ou não vou, afinal?

Vais, claro que vais!

Há dois tipos de viagem:

- Aquela que fazemos durante os nossos 15 dias ou mês de férias, em que temos datas marcadas e que tem de ser bem planeada;

- Aquela em que estamos decididos a partir durante meio ano, um ano ou por tempo indeterminado e que é muito mais relaxada e sem planos muito concretos!

São viagens totalmente diferentes. Se no primeiro caso, partimos geralmente num mês de Verão, não necessitando de equipamento para o frio, escolhendo geralmente uma rota ou um país que nos é mais familiar no idioma, na maneira de viver e no acesso que temos às coisas, no outro tipo, temos que pensar que vamos passar muito tempo na estrada, abusando do material que levamos e que vamos com toda a certeza, meter coisas nas malas que, passado um mês, vemos que nunca as vamos usar.


Vou sozinho ou acompanhado?

Apesar de poder não parecer, há muita gente que desiste de viajar só porque não tem ninguém que o acompanhe. Se eu me vejo a viajar sozinho, já a Tanya, por exemplo, diz que seria incapaz. Muitas vezes nem é o facto de não nos desenrascarmos, de não conseguirmos tomar decisões, mas sim o facto de não nos imaginarmos a pedalar durante centenas ou milhares de quilómetros sem falar com alguém, sem ter outra pessoa ao lado com quem comentar as coisas, com quem rir de uma situação ou quem nos olhe a bicicleta enquanto vamos ali ao lado, fazer um xixi!

Muitas vezes é complicado encontrar um amigo que entre nesta aventura connosco, que esteja na disposição ou que tenha a coragem de deixar tudo para trás e ir, durante tanto tempo. Há vantagens e desvantagens nas duas opções:

. Apesar de juntos nesta viagem, a maior parte do tempo pedalamos sozinhos. Isto dá-nos tempo de pensar em tudo e mais alguma coisa, de ter ideias sobre coisas a escrever, desenhar, de pensar no que vamos comer, onde vamos parar nesse dia, o que vamos fazer quando voltarmos a casa. No entanto, sabemos que o outro está ali, a uma certa distância, e isso dá-nos conforto. Em muitos países podemos mesmo pedalar lado a lado e ir discutindo o que vemos, o que sentimos e quando chegamos ao topo duma montanha, podemos até chorar juntos! Quando sozinhos, é mais complicado. Temos que estar muito mais preparados psicologicamente. O desafio é bem maior;

. Quando acompanhados, as decisões têm que ser tomadas a dois e este é um dos grandes problemas: a adaptação. Na nossa primeira viagem, na Europa, discutimos quase todas as semanas: ou por causa das paragens, ou da velocidade, ou da escolha do sítio para dormir, ou pela decisão de ficar mais um dia ou não. Com isso aprendemos! Nesta viagem, raramente discutimos! Em 5 dias no Turquemenistão, discutimos mais do que em 11 meses em viagem. A pressão era demasiada e não estávamos preparados. Tudo o resto, é perfeito! Quando sozinhos, no entanto, as decisões são só nossas. Não há ninguém maldisposto, com vontade de parar, de ficar mais um dia ou com dúvidas sobre o sítio onde acampar;

. É normal que, quando se pedala sozinho, se faça muito mais quilómetros por dia ou se passe muito mais horas em cima do selim. Não há razão para parar tantas vezes e a parar, não se justifica fazê-lo por tanto tempo…não temos ninguém com quem conversar. A maior parte dos ciclo turistas que conhecemos e que viajam sozinhos, faz mais de 100 quilómetros por dia, quase não pára para almoçar ou lanchar, preferindo comer uns chocolates enquanto pedala e levanta-se muito cedo para começar a viagem. Quando conhecemos, porém, duas ou mais pessoas a pedalar juntas, estes fazem geralmente um máximo de 80 quilómetros, param vezes sem conta para descansar, tirar fotos ou comer, param para acampar muito mais cedo e demoram-se no pequeno-almoço!

. Quando acompanhados, temos sempre quem nos olhe pela bicicleta enquanto saímos da estrada para um xixi; quem, à porta do supermercado, se sente ao lado das bicicletas enquanto o outro faz as compras; quem, em caso de acidente, nos ajude com algum problema de maior; quem, se estivermos doentes, se sente ali ao nosso lado a dar-nos chazinho e bolachinhas ou a fazer palhaçadas para nos levantar a moral! Sozinhos, arriscamo-nos muitas vezes a voltar e só ver o sítio onde deixámos a bicicleta, não temos ninguém que nos ajude a levantar do chão e o chazinho, esqueçam lá isso. 

1 comentário:

Anónimo disse...

Ohhhhhh!!!
Gostei tanto do que acabei de ler e é TUDO verdade!

ana

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