paquistão seguro

Passadas 22 horas, chegámos a Islamabad, ou melhor, chegámos a Rawalpindi que fica a alguns quilómetros da capital. Entrámos em contacto com o nosso couchsurfer e até o conhecermos, tivemos de percorrer 25 quilómetros numa grande confusão. Depois de uma noite mal dormida, foi difícil engolir estes quilómetros… Só desejávamos chegar rápido para podermos cair numa cama!

Conhecemos o Hanif no seu local de trabalho. Jantámos juntos, passeámos num parque onde vimos porcos selvagens, e já de noite, fomos para a casa de uns amigos, onde iríamos passar a noite.

Foram dias de muito calor! Um calor insuportável diria. Passámos os dias a suar, e com uma moleza gigantesca no corpo, o que nos obrigou a passar a maior parte do tempo a dormir em frente à ventoinha. 

Obrigámo-nos a sair para tratar do visto da Índia! Podia ter corrido pior, mas podia ter corrido bem melhor! Foi-nos recusado o visto de 6 meses…. 

- E se for apenas 4 meses? Precisamos mesmo de mais de 3 meses! - Pedimos, fazendo figas por detrás das costas.

- Podem tentar, com a vossa embaixada em Deli, estender o visto, mas não garantimos nada.
Nada feito ali. Ficámos com 3 meses e caso não possamos estender o visto, teremos de passar o Natal e a passagem do ano fora da Índia… e pedalar como loucos!

Voltando aos dias em Islamabad:

Passámos 4 noites em 3 sítios diferentes… as duas primeiras, em casa dos amigos, onde éramos obrigados a jogar cartas à força e onde queriam que representasse alguma coisa para eles. 

- És actriz? Faz qualquer coisa para vermos. Representa para nós! – Pedia um deles.
Foi difícil explicar que não tinha nenhum texto na cabeça e mesmo que tivesse, não era coisa que me iria apetecer. “Ah! Trabalhas num banco? Conta dinheiro para ver como fazes.” 

A terceira noite foi passada com a família, onde o Rafael esteve muito tempo sozinho, fechado num quarto, pois não podia ver a mãe, nem as irmãs dele. Isto já nos cansa um pouco. No dia seguinte, enquanto tomava banho, a senhora chamava por mim:

- Tanya! Tanya! -Gritou ela.

O Rafael abriu a porta e não queria acreditar no que estava a ver… A senhora estava escondida por detrás de uma cortina com o braço estendido, com o pequeno-almoço. 

- A Tanya está no chuveiro! – Disse pouco simpático e fechou a porta. 

O que podemos fazer? Temos de respeitar, mas há coisas que começam a cansar, ainda por cima, quando conhecemos uma pessoa bastante moderna, que viajou várias vezes pela Europa mas que diz que trabalhar num bar, num café ou restaurante, é trabalho de baixo nível. Ainda tentei explicar que trabalhei num restaurante e que gostei muito. Não me sentia humilhada por estar a servir, pelo contrário! Gostava muito do meu trabalho e andava sempre a sorrir. Ele não compreendeu…

Quarta noite, passámos no seu local de trabalho. Maravilha! Na pequena loja de câmbios e transferência de dinheiro existe, no andar de cima, um compartimento com meio metro de altura. Passámos uma bela noite sozinhos, com a nossa tão conhecida ventoinha das tardes de calor e internet por nossa conta! 

Fim das noites em Islamabad. De volta à estrada! O calor continuava insuportável! Todo o nosso corpo transpirava… Fizemos muitas paragens, bebemos muita água, muitos sumos, muitos milkshakes aos quais não conseguimos resistir! Ele é de manga, de maçã, de banana, de ananás… e muitas vezes, bebemos aos pares! Com tanto calor, o apetite é pouco ou nenhum, mas vingamo-nos nas bebidas e fruta!
Ainda não chegámos à Índia e já andamos doidos e fartos das buzinas injustificáveis, com o trânsito caótico, com as inexistentes regras de trânsito e com a falta de respeito pelos outros. O único ser com paciência na estrada, é a búfala! Atravessa lentamente a estrada, num passo elegante e importante. Morro de inveja ao vê-los nos rios, apenas com a cabeça de fora! “Aqui é que estou bem!”

Chegámos já de noite a Gujar Khan e foi difícil entrar um hotel, ou melhor, o primeiro que fomos, era muito caro, o segundo estava cheio e o terceiro não era permitido a entrada a mulheres… Não tínhamos muito por onde escolher… já estava escuro para sairmos da cidade para acampar. Hotel com empregados nada simpáticos, foi a nossa escolha.  

Saímos bem cedinho e parámos em Jhelum onde voltámos a ter a mesma dificuldade em arranjar hotel. Apenas dois hotéis nos aceitaram mas um deles já tinha morrido mas não sabia. O quarto não era mau, bem melhor que da noite anterior! Não tinha pêlos nem cabelos nos lençóis! 

Demos um pezinho de passeio e pela primeira vez, um empregado “enganou-se” na conta final. Não levámos muito a sério e pedimos para rever bem a conta, pois algo de errado se passava. Estávamos admirados com aquela situação, pois no Paquistão sempre foram correctos connosco! Depois das contas resolvidas, fomos à procura de algo que nos deixasse o estômago a sorrir. Gelados!!! Encontrámos o sítio perfeito com novidades para os nossos olhos e estômago! 

- O que é aquilo que as pessoas estão a beber? Que estranho! Quero um! - Não posso ver nada de diferente que quero provar!

Não sabemos o nome mas sabemos que é bom! É feito com leite, gelado, noodles frios, como havia no Irão, e umas sementes que conhecíamos também do Irão. Sabia a arroz doce ou pudim, ou não sei… era uma grande mistura de sabores que me agradou bastante!  

Estávamos satisfeitos com o nosso final de tarde e estávamos prontos para nos estendermos nas camas para um belo soninho cor-de-rosa! 

“Tok-tok-tok.” Não, não foi bem assim… recomeço:  “Pum, pum, pum!” - Melhor.

- Quem é? Que horas são? - Perguntei sem estar a gostar da brincadeira.

Era meia-noite e quarenta. O Rafael levantou e abriu a porta aos 5 polícias!

- O que é que estão a fazer no Paquistão? – Perguntaram com voz grossa.

- O que é que… a fazer? A dormir! Já passa da meia-noite e também fazemos turismo!

- Passaportes.

Depois de revista cuidadosa aos passaportes, um deles disse:

- Pedimos desculpas pelo incómodo. Vão ficar aqui dois guardas para vossa segurança.
Dito e feito. Na manhã seguinte, os dois guardas lá estavam! Passaram a noite ao relento a zelar por nós e saímos da cidade com uma carrinha a acompanhar-nos. Parecíamos a família real!

Novo dia de calor e de muita transpiração! A confusão do trânsito continuava. Os grandes camiões coloridos passavam por nós sem deixar de buzinar. Há umas buzinas com apenas uma nota musical mas há aquelas mais irritantes que mostram as suas capacidades para recriarem uma sinfonia. 


Entrar numa nova cidade, é uma aventura. 

- Cuidado. Agora podes. Vai, vai! Oh boi olha para a frente! Então pá! Estás parvo ou quê? Não paras, não? Vai, vai!...

Não é fácil e chegamos ao fim do dia mortos! Nesse dia parámos em Wazirabad e fomos à polícia, para ser diferente.

- É possível montar a tenda aqui, para passarmos uma noite segura? – Fica sempre bem dizer “noite segura”. 

Não encontrámos um agente da autoridade que soubesse falar inglês, mas pelos gestos, percebemos que iríamos para uma casa, onde poderíamos passar a noite. Maravilha! 

Ele não nos enganou, aquilo era uma casa mas estava desabitada e vazia. Preferimos dormir ao ar livre, pois no interior, parecia um zoo de insectos! O mais bonito que vi, foi um sapinho que não tirava os olhos de mim. Assustei-me varias vezes com o senhor sapo, a fixar-me o olhar… não tive coragem de o beijar…

- Não vais acreditar! – Disse o Rafael com um grande sorriso. – Temos net!

- Estás a brincar?

- Não estou nada! Vi o modem, experimentei liga-lo e dá! Sou bom ou não sou bom! - Só lhe faltou dizer “who is the dady?”

Se não fosse as constantes falhas de luz, teria sido bem aproveitada, mas a electricidade no Paquistão está sempre a falhar… “poupanças de energia” 

22h, e dois guardas chegam para tomarem conta de nós. Já estávamos a dormir mas eles queriam que o Rafael ficasse com eles para beberem a garrafa de álcool que tinham trazido em nossa honra.
 
- Não bebo, obrigado. 

- Então vamos ter de bebê-la nós. – Dito e feito! 

Noite terrível! Tínhamos o despertador para as 5:30 e estava a ser impossível adormecer! 
Eles falavam alto, apareciam mais guardas, voltavam a sair, tinham a música nas alturas... 

- Podem desligar a música? São 2 da manhã e não estou a conseguir dormir! – Não consegui ficar calada. Um deles não ficou muito contente com a minha reacção e pelo facto de ter de ficar sem música. Bufava, e baixinho repetia “não consigo dormir… não consigo dormir…”

Mais um cigarro, mais um “Rafael, vem para aqui”, mais um amigo que entra e que sai de moto, mais um copo de não sei o quê e de novo a música.

- Não estou a conseguir dormir!!! – Voltei a queixar-me com um tom de voz diferente.

“Não estou a conseguir dormir”, imitavam-me mas o mais importante, é que desligaram a música e passado algum tempo, foram dormir, arrastando a cama para o interior da casa. Duas horas mais tarde, o despertador toca…

2 comentários:

Daniela disse...

Eu amei os camiões, carrinhas e carretas coloridos! amei mesmo!! qd for grande quero ter um!

Cisfranco disse...

Uma verdadeira aventura, a sério mesmo.
Relato muito bom.
Boa continuação!

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