até delhi

Fomos até Kurukshetra, uma cidade pouco turística.

Pedimos alojamento a várias pessoas mas houve uma que ficou na cabeça do Rafael. No perfil, mencionava que era fotógrafo e ficámos com curiosidade para ver o seu trabalho. Respondeu-nos positivamente mas quem foi ao nosso encontro, foi um amigo.

O Rafael sentiu-se em casa! Chegámos cansados, depois de termos ultrapassado os 100 quilómetros e mesmo assim, ele conseguia preencher todos os buraquinhos de silêncio que poderiam existir no quarto/sala. Eu estava exausta! Deixei que a conversa fluísse entre eles e fiquei tipo mobília a decorar o espaço. Conversa para direita, conversa para esquerda e os The Gift entraram na roda. Ficámos a saber que o nosso couchsurfer que não estava presente, foi quem fotografou a capa do último álbum – Explosion - dos The Gift. O grupo viajou para a Índia na altura do grande festival das cores – o Holi – para serem fotografados pelo Poras, o nosso couchsurfer.

A conversa despertou-me mas o que me fez levantar do sofá, foi a hora do jantar. Fomos jantar fora com mais um amigo. Comemos até ficarmos prontos para irmos embora e morrermos na cama! Não queria confessar isto, mas sei que o Rafael vai fazer questão em contar, mais cedo ou mais tarde. Semanas depois é que soube que o amigo, com quem fomos jantar, com quem falámos de fotografias, com quem fomos passear na manhã seguinte, era o próprio Poras!

Antes de partirmos para o próximo destino, fomos visitar a maior atração de Kurukshetra, o Templo que está no meio do maior tanque de água da Índia. Tem 1 quilómetro de comprimento! É incrível o tamanho daquela construção mas não é nada de ficar de queixos caídos… Será por ter visto primeiro o Golden Temple?

Nesse mesmo dia partimos para fazermos apenas 40 quilómetros por baixo de muito calor! Sabe sempre bem parar as bicicletas para beber algo fresco e para desfilar a t-shirt do Rafael! (Não se preocupem, Zulmira e Zé, o vosso filho já enviou a t-shirt para Portugal e comprou uma nova!)

Não foi custoso chegar a Karnal. Fomos recebidos pela mãe do nosso novo couchsurfer já que este não se encontrava na cidade. Caminha feita, jantar na mesa… somos os seus filhos durante uma noite! Apenas uma noite pois no dia seguinte partimos em direcção a Deli.

Deli, Deli, ai Deli! Não era suposto chegar a Deli nesse dia mas chegámos, contra a minha vontade, mas chegámos. Fizemos 140 quilómetros, contra a minha vontade, mas fizemos… Estava muito calor, não encontrávamos comida e começava a ficar chateada.

Chegámos à noite e fomos até Velha Deli, onde iríamos encontrar os hotéis mais em conta. Não foi fácil! Dá vontade de chamar “burro” a todos os condutores. O Rafael só se ria e eu só gritava! Mas as pessoas são burras ou quê? Estamos na Índia, não nos podemos esquecer mas era impossível controlar-me. Claro que eles me ignoravam, e claro que não me compreendiam pois gritava tudo em português mas era uma forma de pôr tudo cá para fora.

Chegámos noite cerrada e… Estávamos enganados! O Rafael fez confusão… O que é que podíamos fazer? Chatearmo-nos? Voltámos para a estrada e lá fomos nós para Nova Deli onde encontrámos um quarto com uns bichinhos estranhos na cama, que largavam muito sangue quando os esmagava…

Os dias melhoraram! A vontade de comprar tudo e mais alguma coisa, apareceu! Muitas pulseiras, muitos anéis, muitas calças, camisolas, sacos, almofadas, muitas cores, muitas coisas e coisinhas. Fizemos umas pequenas compras para podermos deixar para trás a roupa rota.


Não visitámos nada… Andámos de um lado para o outro para nos encontrarmos com amigos e para tratar da extensão do visto. Não tivemos sorte… Sabíamos que ia ser difícil ou mesmo impossível!

- Três meses dão perfeitamente para atravessarem o país. – Disse o senhor que nos estava a atender, no Ministério dos negócios estrangeiros.

- Mas nós não queremos atravessar o país! Queremos visitar um pouco e queremos ir até ao sul. Com apenas três meses de visto, é impossível, pois como dissemos, estamos em bicicleta. – Tentámos explicar.
-Pois, mas para visitar, se calhar um mês não chega para Deli.

Mas é burro ou quê? O pior, nem foi esse diálogo, foi a forma como ele nos recebeu, como ele falou e como se despediu. Adeus extensão!

Estar em Deli, é uma luta constante! Torna-se tão cansativo! Há coisas que não dá para entender! Quando se viaja, tornamo-nos muito mais tolerantes mas por outro lado, faz-nos perder a cabeça noutras situações. A tolerância desaparece e tem de desaparecer!

- Andas a ficar menos simpática - Disse-me uma vez o Rafael. Claro que ando! Há muita falta de respeito! Há certas atitudes que não merecem a minha simpatia! Há situações terríveis, mas que têm de ser vivenciadas! Como por exemplo, andar de metro! É lindo ou deprimente!

As pessoas parecem animais selvagens quando as portas das carruagens são abertas. Não dão espaço para as pessoas saírem primeiro. É tudo a empurrar, para ganhar um lugar. Lá dentro, muitas vezes, parecem sardinhas enlatadas e quando pensamos que é impossível entrar mais uma pessoa, por mais pequena que seja, estamos enganados! Há sempre lugar para mais um e quando pensamos que esse “um” entrou, há espaço para outro.

Claro que perdemos a cabeça com a falta de organização! Os guardas só estão presentes para empurrarem as pessoas para poderem fechar as portas. Ficámos muitas vezes afastados para apreciar. Pensámos em comprar umas luvas de boxe ou rebolarmos em bosta de vaca e tentar entrar. Claro que também empurrávamos! Empurrávamos fazendo o grunhido dos porcos. Quando queríamos sair, tínhamos de empurrar e tentar bloquear a passagem aqueles que tentavam entrar. Eles não gostavam mas não queríamos saber! Eles refilavam connosco e nós refilávamos com eles! Aquilo já era um divertimento para nós! Ah, e depois há o ridículo dos seguranças que nos revistam à entrada, ou melhor, que passam a mãozinha, só por passar e nem olham para o ecrã quando as malas ou sacos passam raio-X. Já sabem, se quiserem entrar com uma bomba, não há qualquer problema! Por outro lado, quando pensamos que há um sítio onde eles não nos vão levar mais dinheiro, como o é o metro, estamos enganados, pois tivemos de reclamar muitas vezes, já que o valor que marcava na ficha não era o valor que pagávamos! Metro de Deli - a não perder!


Voltámos a pegar nas bicicletas para nos encontrarmos com o Pachu, um amigo indiano que o Rafael conheceu na Noruega. Já não se viam há 7 anos e eu estava ansiosa para o conhecer! Dez quilómetros pacíficos com uma situação muito engraçada.

- É nesta esquerda? – Perguntei ao Rafael.

- Não, é em frente. Quando eu disser vamos. Vai, agora.

Não sei como fiz. A estrada estava confusa e quando deu por mim, estava a cortar à esquerda e para me tentar safar, atravessei a estrada para mudar de direcção e nesse momento, pára um carro.

- Sabes que isso não são modos de conduzir?

A minha alma estava parva! Fiquei com cara de muita admiração e disse:

- Mas estás a ensinar-me a conduzir? Cala-te.

E fui embora, Não são modos de conduzir?! Mas há modos aqui? Já estamos há algum tempo na estrada para perceber os condutores de cá! Salve-se quem poder! Modos de conduzir, pois, pois.

Encontrámo-nos com o Pachu e conhecemos um brasileiro que ofereceu a sua casa para guardarmos as bicicletas no nosso mês de férias.

Passámos dois dias com a família do Pachu, com a linda família dele! Se pudesse escolher uma filha num catálogo, escolheria a sua, a Sreia!


Não fomos de bicicleta. Estas ficaram arrumadinhas a descansar! Entraram de férias e estão a apanhar sol numa bela varanda! Usámos o metro até ao fim da linha e para chegar ao destino, fomos de rickshaw. Os belos modos de conduzir deste país, fez-nos a assistir a um acidente como nunca tínhamos visto! Foi terrível! Uma mota ultrapassa pela esquerda um camião, quando o deveria fazer pela direita (na Índia, a condução é como em Inglaterra) e atropela um casal. Vimos os três corpos voarem pelos ares. Os dois homens ficaram inconscientes e a mulher gritava, com as pernas tortas e a sagrarem. O condutor da mota devia ter uns 15/16 anos. No meio da confusão, ele desapareceu… Modos de conduzir…

Os dois dias em casa do Pachu foram em família. Sabia bem ouvirmos a pequena Sreia, à 5:30 da manhã, a chamar por nós “aunti, uncle" bem baixinho para acordarmos devagarinho. Ficava derretida e tinha de abrir os olhos para ver o lindo sorriso que ela fazia ao ver que estávamos acordados.


Voltámos para Deli e fomos à Embaixada Portuguesa! Que bem que fomos recebidos! 


É bom sentirmo-nos em casa!

2 comentários:

Anónimo disse...

tany e rafa, esss bichinhos que deitam sangue devem ser bed bugs. Aconselho-vos a lavar a roupa a 60graus porque esses desgraçados reproduzem-se mais depressa que as baratas e metem-se em todo o lado. Além disso deixam borbulhas que fazem uma comichão horrivel!

andorinha voa-voa ... disse...

ahahahahaha! Vocês conseguiram fazer-me dar uma boa gargalhada ao fim de um dia mau...
Obrigada por isso. E boa sorte para o resto da viagem!

http://digamquevoei.blogspot.com/

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