golden temple

Qual “olhos de camaleão” qual quê! Pedalar na Índia é ter todo o corpo em alerta máxima! Os olhos sempre atentos, os dedos bem juntinhos aos travões. Os carros são muitos e as pessoas rodopiam entre eles. Há homens que pedalam transportando pessoas por um preço irrisório. Os olhos sempre atentos. As motas impacientes ultrapassam pelas fendas possíveis. Todas as manobras são feitas com buzinas. Buzinas de vários tons, com várias melodias. Há pessoas que gritam aquilo que têm para ti, aquilo que sabem que vais gostar ou querer. A poluição sonora é para eles, vida. Para nós, a vida é poluição sonora.

Chegámos a Amritsar com o cabaré men, e tentámos fluir com o trânsito, tentámos ser um deles. As buzinas metiam-me muita confusão pois nunca sabia se eram para mim. O truque é ignorar e ter os olhos bem abertos e o corpo bem desperto. Mesmo com toda aquela confusão, não foi complicado chegar ao Golden Temple.

Não fomos á procura de nenhum hotel. Sabíamos que podíamos passar no máximo 3 noites no próprio templo. Há um espaço reservado para os peregrinos e outro para estrangeiros. Neste espaço, há guardas que olham pela nossa segurança. Lemos em alguns sites que essa segurança, por vezes, não é tão segura e que alguns guardas, com a vontade de guardar tão bem os bens dos outros, decidem guardar o que podem nos bolsos. Segurança máxima e de longa duração! Fizemos ouvidos mudos a essas histórias e fomos até lá.
Entrámos para o hall onde dormiam os guardas. As duas portas à direita eram quartos com 3 camas e a porta em frente era um grande quarto com muitas camas, coladas umas às outras. No interior do grande quarto, havia outra porta que dava para mais um pequeno quarto. Estava tudo ocupado… nenhuma cama sobrava e já havia pessoas que ocupavam o chão. Não queríamos ir para um hotel, então decidimos escolher um cantinho no chão.

- Não têm cama? Nós estamos neste quarto e a nossa amiga vai-se embora hoje. Se quiserem dormir os dois numa cama, podem ficar aqui. – Disse um casal.

- Boa, obrigada! Ficamos sim! – Agradecemos pelo facto de podermos ter um colchão mais molinho.

- Vamos agora jantar para nos despedirmos da nossa amiga. Depois vimos arrumar o quarto para terem espaço.

- Podemos ficar aqui agora. Queríamos tomar um banho e ficar a descansar um pouco. – Disse o Rafael.

- Mas não vou deixar-vos a chave. Eu não vos conheço de lado nenhum!

- Mas só queremos guardar as nossas coisas para não ficarem aqui na entrada. - O Rafael insistia em explicar.

- Deixa estar. – Já tinha percebido que não íamos a lado nenhum.

- Mas eu não vos conheço. Não confio em quem não conheço.

- Podes levar os nossos passaportes, pois nós confiamos em ti!

- Deixa estar. OK, OK. Ficámos aqui e logo à noite vemo-nos. – Não valia mesmo a pena continuarmos com a conversa.

Ficámos bastante chateados com aquela situação… e só depois é que concluímos que eles não podiam ter feito aquilo, pois não estávamos num hotel onde eles podem fechar o quarto à chave! Aquele espaço é de todos, e quem não confia nas outras pessoas, que se enfie num hotel!  

- Mas como não nos lembrámos disso! Eles não podem fazer isso! E aqueles que estão todos juntos no quarto grande? Mas quem pensam eles que são?

Não vamos revelar a nacionalidade para não pensarem que os estamos a julgar a todos, mas confessamos que tínhamos uma certa desconfiança e não estávamos errados. A história de um país fica bem marcada nas pessoas!


Esquecemos o sucedido e fomos visitar o Golden Temple. Lindo! Há muito que não via um monumento tão imponente! As luzes reflectiam o templo na água que o cercava. Tudo à nossa volta era grandioso! Entrámos ambos descalços e ambos com o cabelo tapado. Mesmo não sendo da mesma religião, somos bem-vindos, desde que sigamos as regras. Estávamos rodeados de Sikhs. Estes usam um grande turbante à cabeça bem arranjado. Soubemos mais tarde que este pano tem uns 7 metros e demora alguns minutos para ser colocado, para ser bem colocado. O pano tem de estar bem dobrado e colocado com uma certa arte. E nós que pensávamos que eram comprados já feitos… Ignorantes!

Não temos fotografias do interior do templo, pois as fotos são interditas. A beleza do exterior, continua presente no interior e é lá que nos arrepiamos ao ver a fé das pessoas. Não somos religiosos mas é em sítios como estes que as lágrimas aparecem com maior facilidade. Vimos um pai com um bebé ao colo com menos de um mês de vida, que se ajoelhou, deitou o bebé no chão, beijou o chão, voltou a pegar no bebé e virou-o para que este pudesse levar os lábios ao chão. Assim contado não dá para passar a força do gesto, do simbolismo. Para nós, foi muito tocante. Olhámos um para o outro e:

- Viste aquilo?

Ambos vimos e ambos estávamos com os olhos em lágrimas.


Saímos com aquela imagem na cabeça e fomos em direcção ao grande refeitório onde um casal de grandes amigos, arriscou a primeira refeição, na sua viagem á Índia, no ano passado. Bastou essa refeição para ele ficar doente, muito doente e perderam a vontade de experimentar o que quer que seja! “Gastronomia indiana? Não obrigado!” 


Nós arriscámos e a experiência foi do melhor! Entrámos e há uma senhora que nos dá o prato e outra que nos dá a tigela e a colher. Agora há que esperar pelas centenas de pessoas que estão a terminar a refeição. Neste entretanto, fui convidada por uma senhora a sentar-me no chão, perto dela. Trocámos sorrisos e alguns toques de boas vindas. As portas abriram-se e a senhora, com o seu marido, mostraram-nos o caminho, sentaram-se no chão com espaço suficiente para nós nos dois, entre eles. Estávamos em família, numa família sorridente.

Um homem com um grande balde, passava e com uma grande colher, enchia um dos espaços do prato. Aparecia outro homem com um novo balde que enchia outro espaço. Outro homem aparecia e atirava os pães para as mãos atentas das pessoas. E por fim, aparecia o homem da água que enchia a tigela. “O Adriano ficou doente por causa da comida ou da água… não quero saber, tenho de beber! Estou com a boca a arder!” Mesmo com este meu pensamento, esperei que o Rafael bebesse primeiro. Não há nada a fazer… Ou nos lembramos sempre de transportar a água connosco ou bebemos o que nos oferecem!
A senhora, já nossa amiga, insistia em falar comigo em hindi ou outro dialecto que não sei o nome… o senhor, também já nosso amigo, tinha em seu poder, palavras inglesas suficientes para manter pequenas conversas. Lá fora, já estava uma centena de pessoas à espera que as portas abrissem. Saímos com a loiça suja, para dar a vez. Aqui todos trabalham! A loiça suja é passada de mão em mão e atirada para um senhor que a acumula num grande balde de plástico. Outro homem leva esse balde para as pessoas, homens e mulheres, que estão com o esfregão na mão sem terem um minuto de descanso.



Hora do chá! Uma senhora estica o braço e dá-nos uma nova tigela que é enchida, um pouco mais à frente, com chá! Basta seguir a fila. Bebemos o chá tranquilamente, e somos bombardeados com olhares, sorrisos e pedidos de fotografias. Somos as vedetas por estes lados! Conhecemos os filhos e sobrinhos do casal, trocámos contactos e agradecemos aquele momento bem passado!


O nosso dia estava concluído e estávamos satisfeitos! “Acho que vou gostar da Índia” Estávamos à porta do quarto que estava trancado!

- Mas que m#!?a é esta? Eles não estão num hotel. Não podem fechar a porta! Isto é de todos – Disse o Rafael com cara de poucos amigos.

Batemos até um deles se levantar para nos abrir a porta. Não dissemos nada… mas porquê que não dissemos??? O melhor foi deitarmo-nos e não pensarmos neste assunto!
Um dia estava passado e eu estava nas nuvens! “Acho que vou gostar da Índia!” 



4 comentários:

Pedro disse...

A india é local para visitar... já está na minha lista to do. :D
quem sabe não vou até lá de bicla. :)

Tenho acompanhado todos os vossos posts, mas nem sempre consigo agradecer a vossa disponibilidade de partilha. ;)

Boas pedaladas e continuem em postar excelentes experiências e fotos.

Abraço
Pedro

NUNO FERREIRA disse...

Magnífica a vossa viagem e as vossas descrições. A Índia é um mundo!

Henrique Silva disse...

Excelente.
Adoro cada uma das vossas crónicas. Apesar de tudo têm sabido conquistar a sorte que vos tem acompanhado.
Sim, porque nessas zonas do Mundo é preciso ter sempre a sorte a acompanhar-nos.
Continuem

Cisfranco disse...

Olá viajantes!
Tenho-vos acompanhado na v/ extraordinária aventura. Boa continuação com boa pedalada e divirtam-se.

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