os primeiros quilómetros

Estávamos em terra de ninguém e o Ghandi já estava de olho em nós. Pensava que ia ver o Rafael mais entusiasmado com a nossa entrada na Índia, já que conhecia bem este terreno. Há 7 anos atrás, passou uns belos 6 meses enriquecedores que lhe valeram uma mala cheia de histórias para contar. Se fosse eu, estaria aos pulos como uma criança. Se fosse amanhã para o Canadá, sei que esta noite, não haveria Vitinho para ninguém!

Ele estava calmo. Eu também, estranhamente calma. O Rafael contou-me tantas histórias sobre a Índia que me apaixonei sem nunca lá ter estado. Estava calma… ou melhor, calma não é a palavra correcta, mas sim, receosa. Os últimos dias no Paquistão foram desgastantes, irritantes, saturantes..antes…antes… Estava sem paciência, cansada do trânsito, cansada do picante, cansada dos homens. “Ui, ui, vai ser bonito na Índia! Ai vai, vai!” Dizia o meu pequeno diabinho. Que irónico que ele é! “Então Tanya, nem parece teu! Vá, pedala com vontade para entrar com o pedal direito no país que tanto querias conhecer!” Foram estas as palavras do meu anjinho que me dá sempre forças para o que quer que seja! “Pois é! Não vai custar nada. Vai correr tudo bem! Estou ansiosa para provar a gastronomia do país e beber um Lassis de manga! Finalmente na Índia!” E esta sou eu a falar para moi même, mas não fui muito convincente para comigo.

- Passaporte. – Pediu o grande senhor de bigode arrepiado e de turbante na cabeça. 
Não tínhamos qualquer problema com o visto por isso, não tivemos qualquer problema em entrar.

Índia!

Ainda na fronteira, fomos espreitar os preços dos sumos.

- O pessoal todo, e tu, não diziam que o Paquistão era mais caro que a Índia? “Se isto é barato, vais ver na índia”. Para já, parece-me bem igual! – Pensava que ia encontrar os preços mais baixos que nunca mas é um baixo igual ao vizinho!

Pedalámos sem dificuldade, apesar de possuir apenas as mudanças da frente e o Rafael, por solidariedade, também ele pedalou com as mesmas mudanças. Estávamos a ter uma bela mas monótona estrada plana, mas o plano, às vezes, é do melhor que há!

Finalmente hora do almoço! Sentámo-nos onde vimos muitos indianos nas mesas e pedimos dois Thalis! Que exagero de comida! Dava perfeitamente para 4 pessoas (com a fome que tínhamos naquela altura). Foi impossível comer tudo, pela quantidade e pelo picante. Depois da China e do Paquistão, as nossas bocas recusam qualquer tipo de picante! O sabor?
Podia ter sido melhor…


De volta às bicicletas e já só tínhamos 25 quilómetros até Amritsar. 10 quilómetros depois e a 15 do destino:

- Cabaré, cabaré. – Um rickshaw, passava por nós.

Ele insistia em acompanhar-nos. Ora ultrapassava, ora deixava-nos ultrapassar…

- Não estou a gostar nada disto. – Continuava com a mesma má disposição do país anterior.
Tentava reduzir a velocidade mas também ele reduzia.

- Cabaré, cabaré.

- Vamos ultrapassar e dar o nosso máximo. Ele não nos vai apanhar. – Acreditava Rafael.

E assim foi… Força nos pedais e lá fomos nós em grande velocidade! Não valeu de nada, ele continuava bem juntinho a nós, sem um pingo de suor na testa. Nada a fazer… Chegámos a Amritsar acompanhados pelo Cabaré men.

- Cabaré, cabaré.

1 comentário:

sara da silva disse...

Beijinhos para os dois! Isto por aqui está muito dépré... Aproveitem muito todas as cores e o calor e os sorrisos que encontrarem :)

Fiquem BEM!

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