Pode parecer estranho o que vamos escrever,
muitos não vão entender e até podem criticar mas aqui vai: Estamos a precisar
de férias! Precisamos de praia, de ver o mar que não vemos desde a Turquia…
Precisamos de deixar as bicicletas fechadas algures e não as ver durante um
mês! Férias da viagem, das bicicletas, da confusão, de discutir os preços… “Mas
vocês já estão de férias há mais de um ano!” Isso é o que muitos dizem, mas
negamos. Estamos a viajar e viajar não pode ser visto como férias. Passado um
ano e um mês o corpo disse: “Chega! Antes que a viagem deixe de ter sentido,
antes que se cansem de pedalar por estes países e começarem a matar pessoas,
tirem umas férias e descansem!”. Só desejo fazer o que o meu corpo me pede mas
para isso, temos de pedalar até Deli, onde sabemos que teremos sítio seguro
para as nossas meninas.
Lá fomos nós, com o pensamento nas férias!
Olhámos para o mapa e marcámos o nosso trajecto para ver quantas paragens
seriam necessárias. 5 ou 6, dizia-nos o mapa.. Não estávamos longe.
Continuávamos com as 3 mudanças, eu por
obrigação, o Rafael por solidariedade. Começámos a criar rotinas nos dias que
pedalávamos. Primeira paragem para um sumo natural, segunda paragem para um
sumo com gás e um pacote de batatas fritas, terceira paragem para o almoço.
Intercalávamos muitas paragens para pararmos nas bombas para encher a nossa
garrafa com água fresca. Foram dias longos no selim. Todos os dias chegávamos
perto dos 100 quilómetros. Dias longos e cansativos. A falta de regras na
estrada faz perder a paciência a quem as tenta seguir. Os carros não respeitam
nada nem ninguém! O lema de cada um é “ eu tenho de chegar em primeiro lugar” e
todos lutam para que tal aconteça! Os carros param mesmo à nossa frente,
obrigando-nos a travar bruscamente. Chamámos burros aos polícias por terem mandado
parar um carro mesmo à nossa frente. Os insultos aos condutores foram muitos,
então da minha parte… ui ui!
Chegámos a Phagwara,
uma pequena cidade (à escala indiana) onde fomos acolhidos por um casal do Warmshowers. Ele anda a planear a sua
viagem pela Europa em bicicleta e então fez disso o tema principal de conversa.
Tirámos várias dúvidas e trocámos várias experiências. Outro tema de conversa
foi a corrupção que existe por cá… mas não vamos falar em coisas tristes! Só me
quero lembrar das refeições que a mulher dele nos preparou! Agradecemos as
horas que ela passou na cozinha para satisfazer o nosso estômago!
Depois de termos dado umas voltinhas de moto,
visitado umas quintas de agricultura biológica, partimos para mais uma
aventura, a nossa aventura em duas rodas sem motor.
Chegámos a Anandpur
Sahib onde voltámos a dormir num Templo Sikh
e onde voltámos a jantar em comunidade. Para dormir, tivemos de pagar mas
normalmente, nos templos Sikhs, tudo
é gratuito, pois o Guru deles passou a maior parte da vida a viajar a pé. Como
qualquer peregrino, aceitava as ofertas das pessoas. Quando alguém viaja, é
fácil descobrir o que o viajante precisa.
Fora do Templo, tudo é negócio. Pequenas
barracas recheadas de coisas e coisinhas! Nada me atraía. Nada me chamava a
atenção, nada me agradava…
- Espera até chegares a Deli! – Dizia o
Rafael, adivinhando a minha reacção em relação às compras.
No caminho para Chandighar, saltou a tampa ao Rafael! Fiquei admirada! Foi na nossa
segunda paragem, hora da bebida com gás, mas desta vez, sem as batatas.
- Quando custa a Coca-Cola? – Perguntámos.
- 20 Rupias. – Respondeu o jovem empregado.
“20 Rupias?!” Não abri a boca. Perguntei ao
Rafael se ele queria e já que ele aceitou o preço, não ia reclamar. 20 Rupias
era o preço no Paquistão. Aqui, tem de ser (+/-) metade do preço! Olhei para a
garrafa e estava marcado 12 Rupias. Claro, assim tem mais lógica.
- Não achaste caro? 20 Rupias, é quanto
custava no Paquistão. Se for mesmo 20 é mesmo muito caro mas pronto… aqui até
diz 12 mas não quer dizer nada, não é? – Tentei abrir-lhe os olhos.
- Pois tens razão! Ainda estava com os preços
do Paquistão na cabeça. São doidos ou quê?
Hora de pagar! Foi uma festarola! Discutimos
muito e conseguimos sair de lá com o troco certinho mas não foi fácil!
- Aqui está 12, por isso só pagamos 24!
Queremos o nosso troco! – O Rafael estava a comandar.
- São 40! – Dizia o dono querendo ignorar-nos.
Depois de muita confusão, muito barulho, do
Rafael lhe ter tirado o telemóvel, de pedirmos às outras pessoas para
telefonarem à polícia, ele disse a frase que fez o Rafael ficar fora de si!
- Só vos estou a levar mais 16 Rupias! O que é
isso para vocês?
O Rafael gritou-lhe na cara, exigindo o troco.
Mostrou que tem grande admiração pelas pessoas do seu país mas que ele era um
ladrão, era má pessoa! Muita confusão, mas conseguimos o nosso troco! Saímos de
lá alterados e bastante nervosos! Férias, férias, queremos férias!
Chandigarh! Ficámos em casa de dois estudantes e foi muito bom! Foi bom tê-los
conhecido e para mim, enquanto mulher, senti-me em família! Foram incríveis
connosco e até falaram com um amigo que trabalha na televisão, para fazerem uma
entrevistas “às nossas pessoas”. Foi uma nova experiência! Os 2numundo numa
televisão indiana! Fomos entrevistados para um programa de desporto, em inglês.
O meu inglês, é um inglês de desenrasque… Até tenho medo de ver as filmagens… O
Rafael como sempre, falava pelos cotovelos e ainda bem, pois respondia às
minhas perguntas, quando respondia algo que não tinha nada a ver… Tenho de me
defender! O apresentador falava muito rápido e juntar o rápido com o inglês de
um indiano… mau, mau…
Obrigámo-nos a sair de casa, mas o principal
objectivo era descansar. Visitámos o sector rico de Chandigarh onde ficámos sem perceber muito bem onde estávamos.
Mas claro que estamos na Índia! Este país está
recheado de pessoas ricas, pessoas muito ricas! Entrávamos em certas lojas e
saiamos de lá a correr! Vemos miúdos com o iPhone,
com o Blackberry, com roupinhas de
marca, com auscultadores a decorar o pescoço e muitos desses miúdos nos dizem:
- Vocês têm mais dinheiro que nós. São estrangeiros.
- O quê?! Mas como podes dizer isso? O que é
que sabes de nós. Olha, o nosso telemóvel, nem fotografias tira!
Eles ficam admirados e ficam sem saber o que
dizer…
Visitámos também o Fantasy Rock Garden. A história deste jardim fascinou-nos e conta-se assim:
aquando da separação da Índia com o Paquistão, milhares de pessoas mudaram de
país, deixando para trás todos os seus pertences e muito lixo. Chegado do
Paquistão, um dos novos inspectores rodoviários de Chandigarh, de nome Nek Chand,
viu no lixo deixado para trás, mais do que…lixo. Refugiou-se num quarteirão que
durante anos permaneceu sem construções e começou a construir um jardim de
fantasia! Com o lixo, criou obras baseadas na história da Índia: animais,
pessoas, seres imaginários e assim foi ampliando o jardim, com cascatas, muros,
caminhos. 15 anos mais tarde, quando a cidade decidiu ampliar para o lado do
jardim, os responsáveis encontraram esta obra imensa! A princípio pensaram
destrui-la, mas depois viram nela uma oportunidade de desenvolver um espaço de
arte e de turismo, claro está! Hoje é um dos locais mais visitados no país e o
seu criador, Nek Chand, continua a
ampliar a obra, com a ajuda de muitos empregados, pagos pela Câmara Municipal.
Se vimos mais alguma coisa em Chandigarh? Não! Voltámos foi a
descobrir um mimo de gelataria mesmo pertinho de casa! Fomos visitá-la todos os
santos dias!
Recarregámos energias e fizemo-nos à estrada!
Sabem quem fotografou a capa do último álbum
dos The Gift?






















1 comentários:
Foi o Hans Peter
Um abraço
PP
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