Férias a correr

O que é que fomos fazer a Cochim? “Ah e tal, aquilo é muito giro, foi onde nosso Vasco da Gama morreu. Há lá umas cenas, tás a ver, umas redes de pescar e depois os peixes ficam estendidos nas bancas do mercado, mesmo ali ao lado e ao ar livre, com os gatos a apreciarem o espectáculo.”

Saímos esfomeados do comboio. Fomos atacar uma pizza mas ela tinha uma protecção contra mordidelas humanas. Pizza com massa doce, feita e aquecida no micro-ondas, simplesmente terrível. Neste entretanto, o nosso couchsurfer chegou e levou-nos para uma casa perto de Cochim onde iríamos passar a noite sozinhos. Fomos espreitar a praia mas era uma daquelas onde as pessoas vão para a água cobertas com roupa. Não me quero imaginar em biquíni no meio deles e delas.



No dia seguinte, depois de termos feito 5 quilómetros a pé, de termos apanhado um barco e um autocarro, estávamos no centro de Cochim. Fomos almoçar num daqueles sítios que sonhamos vir a ter e onde dá vontade de ficar o dia inteiro.



Mas o que fomos fazer a Cochim? Ok, vimos as redes de pesca. Interessante. Fomos ao museu indo-português. Ok, há ali a presença portuguesa, preservada graças ao financiamento da Gulbenkian. Passámos pelo mercado do peixe. Vimos a casa onde o Vasco da Gama viveu e faleceu e que agora é uma Guesthouse. Caminhámos e caminhámos e caminhámos, à procura de mais qualquer coisa… de qualquer coisa de português… algo que nos fizesse querer ficar mais um dia, algo que nos fizesse compreender o porquê de vermos tantos turistas. Sentíamo-nos um pouco perdidos pelas ruas de onde os portugueses foram apagados, esquecidos e destruídos.
- Desculpa, onde fica o centro? – Perguntou o Rafael a um turista, pois estávamos com dificuldades em encontra-lo e não queríamos sair da cidade, ficando sem perceber a geografia da mesma e sem encontrarmos o tão atractivo Fort Cochim.

Apontou para onde já tínhamos passado e repassado…

- Vamos embora amanhã? – Perguntei, fazendo figas escondidas por detrás das costas, torcendo por uma resposta positiva.

Fomos até um posto de internet para traçarmos o nosso trajecto e arranjar bilhetes de autocarro, pois de comboio de um dia para o outro é quase impossível ou mesmo impossível. Queríamos ir para sul, para Trivandrum, onde teríamos um posto para turistas na estação de comboio. Lá poderíamos reservar todos os bilhetes até voltarmos para Deli.

- Estamos lixados! Em Trivandrum não há o posto para turistas. Agora só em Chennai que m#!*a, e para lá não há comboios. Está tudo esgotado! Mas porque decidimos vir para Cochim? Estávamos tão bem em Goa! – Disse o Rafael com ar preocupado e chateado, a pesquisar e tentar encontrar um milagre na net.

A solução encontrada foi o tão indesejado autocarro de muitas horas! Não fomos para Chennai numa viagem só. Isso não! Não queríamos morrer dentro de um autocarro! A nossa primeira paragem foi em Madurai. Passámos a noite no autocarro mas não foi possível pregar olho. Não arranjávamos posição, tentei ver um filme mas passado 20 minutos deixei o Rafael com o portátil só para ele, pois já estava enjoada. As horas custavam a passar mas só para nós pois todos ressonavam, homens e mulheres de olhos fechados e bocas abertas, a deixarem cair um fio de baba pelo canto da boca. Sem conseguirmos dormir, chegámos a Madurai e fomos para a casa do nosso couchsurfer dormir a manhã toda!

Madurai foi uma surpresa. Fomos visitar o Palácio Tirumalai Nayak e o Sri Meenakshi Temple, passeamo-nos pelo mercado, descobrimos novos sabores e comemos em folhas de bananeira.





Voltei a encontrar muito amor no Palácio Tirumalai Naya. Estivemos num dos edifícios mais bonitos a nível de arquitectura e mais importante do sul da Índia. Os apaixonados gostam de eternizar o seu amor nas centenas de colunas do edifício mesmo existindo cartazes que proíbem essas declarações. Ao visitar o Palácio, é obrigatório cansar o pescoço! O tecto é todo trabalhado, com pinturas ou com esculturas de bizarras e grotescas figuras, que nos fazem querer disparar a máquina fotográfica para os aprisionarmos.




Fomos ver o Sri Meenakshi Temple,e UAU!!! O governador Tirumalai Nayak mandou e o Vishwanata Nayak contruiu! Parabéns à equipa!


São 12 torres coloridas entre os 40 e 50 metros. Quem não tem o vício de dedo com uma máquina fotográfica, aqui passa a tê-lo! As torres estão cobertas de figuras celestiais e animais! São milhares e milhares de esculturas, lado a lado, umas por cima das outras, cada espaço da torre é coberta com cenas de dança, de casamentos, de morte… É incrível estar perante tamanho trabalho e é incrível ver os milhares de peregrinos a entrarem nos Templos.
Seguimos os corredores com o chão e o tecto pintados de muitas cores e quando demos por nós, já estávamos na zona onde era suposto pagar para entrar.

- Acho que estamos dentro do Templo… - Disse o Rafael.

- Achas? Então… e ninguém pediu o bilhete? Estamos mesmo cá dentro?

- Sim. Vamos continuar por aqui até nos dizerem alguma coisa!


Estávamos mesmo no interior do Templo! Fomos ficando e deliciámo-nos com o espaço. Sabe bem ficar a observar as rezas, os movimentos, os rituais, as cores. O medo de sermos apanhados desapareceu. No fundo não éramos culpados! Continuámos a caminhar, procurando a saída. Deixámos de ver turistas e continuámos a descobrir coisas novas até que um guarda veio avisar-nos que não podíamos permanecer naquele local pois estávamos na zona reservada aos hindus. Explicámos que estávamos perdidos e ele indicou a saída, sem pedir os nossos inexistentes bilhetes. Templo visitado!


São pelo menos dez mil os visitantes diários que visitam o complexo que foi também o local onde Gandhi decidiu, em 1921, que nunca mais usaria roupa nenhuma a não ser o khadi, o famoso e tradicional pano que ajudou a eternizar a sua imagem.   


Juntando tudo o que vimos e saboreamos, Madurai ficou marcado como um dos nossos locais favoritos!

Apesar de estarmos de férias, não podíamos relaxar… o tempo estava a passar e mesmo tendo recebido um telefonema da embaixada portuguesa a confirmar que a extensão do nosso visto foi finalmente aceite, queríamos ter a certeza!

- Quando chegarem, têm de se dirigir ao FRRO para receberem a extensão. Se eles negarem outra vez, entrem em contacto comigo e eu trato do assunto, pois as comunicações entre eles não são as melhores. – Disse-nos a Maria João, que tem sido incansável e impecável na ajuda!

Não queríamos arriscar, mesmo tendo uma grande esperança que iríamos ter a extensão no passaporte, o melhor é vê-la mesmo lá, por isso não podíamos perder muito tempo! Voltámos a apanhar um autocarro. Saímos bem cedinho para passado 4 horas, chegarmos a Thanjavur onde queríamos visitar o complexo de Chola Linving Temples, inscrito na lista da UNESCO.
Continuo a dizer que o magnífico da Índia não são as pessoas mas sim os monumentos! 





Ficámos de boca aberta perante a arquitectura, o trabalho, os pormenores… Não são as pessoas que nos cativam, não as achamos simpáticas, acolhedoras. Pelo contrário! São elas que nos fazem perder a cabeça, que nos fazem querer sair depressa do país, que nos fazem soltar umas quantas asneiras em português, que ficamos burros com tamanha falta de respeito perante o outro. 


Eles são agressivos! De todos os países por onde passamos, o povo indiano é o povo menos ou nada acolhedor! Podem ser simpáticos se tens dinheiro para comprar o que eles querem que compres, se pagas o que eles querem que pagues, se vais para um hotel e vais comer ao restaurante deixando gorjeta. São simpáticos se não fores exigente e se não te importares de ser uma marioneta nas mãos deles. Esta é a nossa opinião e de muitos turistas com quem nos temos cruzado. Será moda dizer que a Índia é fantástica? Ok, é fantástica, consegue despertar todos os sentidos que temos. É aqui que tudo é possível, que vemos coisas que são impossíveis de vermos noutros países! Adoramos o país e detestamos! Queremos sair depressa mas queremos ver mais. Custa-me ver a agressividade deles, o olhar de “sou capaz de te matar”, a falta de respeito! Ufa, estou com as ideias numa confusão… Que estranho país!



2 comentários:

toortoth disse...

Thank you! I didn't folow you much lately cause I'm also on the road, but this part I had to read... reminds me so much of my own bicycle trip there one year and a half ago. Thank you for the colors!
I hope we can meet in India, though it's a big country, I'm flying to Delhi tomorrow, then Tamil Nadu in january, and maybe Orissa in march...

Douglas Germano disse...

Valerá o que ficará da jornada. Na Alma, na esperança, na sabedoria.
As imagens estão belíssimas!

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