Grande notícia! 2numundo estão de volta à
estrada e estão cheios de energia!
55 quilómetros depois, a energia fugiu a 7 pés
e encostámos às boxes… O caminho era do mais desinteressante, as pessoas insistiam
em não ser simpáticas, a comida continuava picante… Não há qualquer tipo de
dúvida - continuávamos na Índia!
Chato, chato, chato! Que estrada chata, que
estrada plana, que estrada… ok, com um bom pavimento mas nem por isso deixa de
ser chata! E depois há os chatos humanos:
- Paralelepípedo. – Responde o Rafael.
- Good
nome!
Prefiro não revelar o nome que me dei para não
levar duas chapadas da minha mãe, à nossa chegada, acompanhadas com uma mão cheia
de pimenta na boca.
Há uns chatos que não são bem chatos mas
chateiam a nossa paciência.
- Palwal?
– Perguntamos a direcção de terra onde queremos chegar, esperando uma resposta
ou um braço estendido a indicar o caminho.
Não temos qualquer tipo de resposta… Temos sim
uma cara de espanto, de admiração de não-sei-o-quê, de boca aberta, mostrando os
dentes vermelhos, acabando por escarrar o excesso de “Pan”. Não é uma imagem nada agradável de ver e depois de muitos
quilómetros nas pernas, nos ombros, nas costas, no rabo, não há paciência para
esperar por qualquer tipo de reacção…
Novo dia. “Mas quem me mandou enviar os
calções de ciclista para Portugal?” Há dias que penso muito neles e ao ver a
cara de sofrimento do Rafael a tentar sentar-se no selim, sei que ele também
sente remorsos de os ter enviado. Sabíamos que iríamos ter um dia de
ui-ui-ai-ui-ai-ai.
A multidão apareceu para o espectáculo dos
saltimbancos: os 2numundo e o furo no pneu!
Queríamos remenda-lo o mais depressa possível.
Não queríamos que fosse de outra forma. Velocidade nas mãos! Depois aparecem
aquelas frases que as mães ou as avós dizem: “devagar se vai ao longe”; “quanto
mais depressa mais devagar”. Como por milagre, o injector partiu! Pronto, e
agora? Estamos rodeados de indianos e nenhum se ofereceu para ajudar. Ah! Houve
um, sim!
- Por 10 Rupias, eles podem colar isto. – O
Chico-Esperto falou.
Apareceu, vindo do nada, furando a multidão,
um anjo sem asas que tinha uma oficina mesmo ao nosso lado. Tivemos uma bela
ajuda e aproveitei que o Rafael se tinha afastado para me levantar e com o pneu
na mão, tentar afastar o maior número de pessoas!
Pensava que o foco principal fosse a
câmara-de-ar furada mas quando o Rafael se afastou, ninguém o seguiu… Continuei
rodeada, como se fosse um bicho estranho numa jaula. Levantei-me e enxotei-os
como se de moscas se tratassem, com a ajuda do pneu que movimentava
violentamente de um lado para o outro. Resultou um pouco, mas o que consegui
provocar foi riso, que me deixava ainda mais fula! Foi preciso dois senhores de
muita idade dizerem meia dúzia de palavras, para conseguir respirar, sentar-me
com calma e guardar lugar para o Rafael.
Bicicleta pronta, perguntámos ao senhor anjo,
quanto seria pela ajuda.
- 20 Rupias! - Gritou um da multidão.
O anjo apertou a mão ao Rafael e depois levou
a mão ao peito dizendo que não era nada. Ui, não é nada? Agradecemos e
partimos.
A regra é não ter regras. Não podemos deixar
passar ninguém, pois ninguém nos vai deixar passar. Há sempre um buraquinho para
nós. Eles são obrigados a parar pois nós não paramos e quando não podemos fazer
nada e ficamos parados, discutimos com o vizinho de trás.
- Mas o que é que estás a fazer? – Pergunta o
Rafael ao vizinho do lado com o dedo colado na buzina com ar sereno.
- A buzinar. – Responde, achando ridícula a
pergunta.
- Claro que estás a buzinar! Mas porquê???
PÁRA!!! Não vais a lado nenhum a buzinar!
Depois há os que acham piada ao verem-nos
reclamar e mal viramos costas, voltam a buzinar.
- Estás a armar-te em parvo? O que fazes
agora? Queres passar por cima de mim? Vá passa, oh boi! (Adoro a palavra boi! É
rápida de dizer, pois digo em português para não ofender ninguém. É a palavra
que mais gosto de dizer! Escorrega bem na boca: boi! Não é bom? Boi!)
É uma grande adrenalina e um grande gozo,
pedalar em grandes cidades, mas é também a morte do corpo e da alma, da
paciência e da harmonia. Pedalar na Índia é a morte de tudo!
Finalmente chegámos à rua dos hotéis, e
escolhemos o hotel dos proprietários muçulmanos. Confiamos mais neles que nos
hindus. Acham estranho? Ah pois é, amigos! Negociámos um bom preço, e fizemos
do quarto o nosso ninho! Lavámos a roupa e montámos o “estendal” no quarto. O
cheiro a roupa lavada passou a mofo devido à falta de ar no quarto. Tristeza…
Banho frio e fomos para a rua!
2 comentários:
Estou pegando um bode (aversão) da índia que penso que nem comprarei mais incensos.
Nosso Millor Fernades desfila um rosário de frases sobre chatices e chatos. Diz ele que o chato não se esgota em ser chato, torna você chato, o ambiente chato, a casa chata, o mundo chato e pergunta: a chatice é biológica ou cultural?
Um outra amiga, afeita ao espiritismo e às reencarnações, quando se vê diante de qualquer contrariedade exclama: "na próxima encarnação quero nascer vaca na índia!" — Vou faze-la mudar de ideia...rsrsrs
Sorte e um abraço de ano novo bom e feliz!!
Douglas e Tânia - São Paulo, BR
Estes relatos que roçam o "dia mau" têm sempre o seu "Quê" de piada. São engraçados. A índia precisava de um Wall-E para ajudar a tratar desse lixo todo. É triste.
Pipa Cunha
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