Autocarro Amarelo


Direcção: Islamabad

Objectivo: visto para a Índia no passaporte

Saímos de Gilgit, num pequeno autocarro amarelo, com acentos brancos. O aspecto deu-nos a ilusão de poder ser confortável. As bicicletas viajaram no andar de cima e nós nos lindos bancos brancos com um ângulo de 90 graus. Impossível encontrar posição. Os homens iam entrando. Tive a sensação de ser a única mulher mas não! A meio da viagem, vi uma mulher, bem escondida nos últimos lugares. O autocarro ia cheio. Íamos passar umas belas longas horas nele, por isso, era bom ganhar um pouco de amor por ele.

- Não estou a conseguir arranjar posição e por azar, hoje dói-me as costas… - Dizia, na primeira meia hora.

- Eu estou bem encaixado. Não me está a custar nadinha.

“Bom para ti. Eu não estou bem!” - Falava com os meus botões, bem baixinho. Muito azar, ficar com dores de costas no dia que temos de apanhar um autocarro amarelo com bancos brancos. Enquanto procurava melhor posição, o Rafael estava tipo estátua, e o rapaz à minha frente, estava constantemente a cuspir grandes bisgas, para a rua. O autocarro parava para o condutor falar com os amigos que ia encontrando nas várias terras. Mais 5 minutos, menos 5 minutos, não fazem mal a ninguém.

Nova paragem… 10 minutos para o xixi que acabam por ser 15 ou 20. Mais 5 minutos, menos 5, não fazem mal a ninguém. A música no mp3 ajudava-nos a passar o tempo. Cantávamos baixinho mas logo a nossa voz foi abafada… A rádio foi ligada, e eles aqui gostam muito de música indiana! Não consigo entender os agudos dessas mulheres! No autocarro amarelo, o maior problema não é o timbre de voz, mas sim o volume da rádio que destorce as músicas e o agudo entra como agulhas nos ouvidos.

Nova paragem, 20 minutos para jantar. Mais 5 menos, 5 minutos, não fazem e ninguém, por isso, meia hora depois, retomámos caminho. O rapaz da frente acumulava saliva como nunca tínhamos visto e conseguia criar grandes poças no chão. Isso quando a janela estava aberta, porque quando a noite começou a ficar mais fria, e a janela foi fechada, as poças passaram a ser depositadas no chão do próprio autocarro amarelo. Sorte a nossa que não apanhámos subidas…

O condutor, para não adormecer, aumentava o volume da rádio, e assim, todos nós o acompanhávamos na noite não dormida.

Nova paragem: check point. Os dois estrangeiros – nós – tiveram de sair para os passaportes mostrarem aos senhores guardas. Houve vários check points. Houve vários guardas que entraram no autocarro à procura de não sei o quê. Voltámos a sair para mostrar o passaporte e fazer o registo. Mais 5 minutos, menos 5 minutos, não fazem mal a ninguém.
Hora do chá sem hora marcada para sair e pequena revisão ao autocarro amarelo. Um dos pneus foi substituído e isso demora o seu tempo. Estava frio, mas sair do banco branco, é sempre uma alegria. Beber o chá, também é outra alegria – chá verde no leite com açúcar – delícia! Podem fazer com uma saqueta de chá verde, numa caneca de leite quente. 
Novas bisgas, nova tentativa de arranjar posição. Havia homens que saiam e outros que entravam. Os lugares eram improvisados, tudo vale. Tentávamos dormir, embalados pelas cantoras indianas. O Rafael, há muito que começara a queixar-se. Não encontrava posição, o espaço era pequeno… o que tínhamos de fazer era não perder a calma e esperar pelo Vitinho de olhos fechados.  

- Não sei se estou a ter miragens, mas este homem aqui ao lado, fez a segunda tentativa para te tocar. – Dizia o Rafael a olhar de lado para o homem que fingia dormir.

Estávamos a dormir, finalmente, mas o Rafael foi acordado pelo homem - o que fingia dormir. Este estava ligeiramente tombado para cima do Rafael, com os braços esticados, a tocar-me nas pernas. O Rafael acordou-me no mesmo momento e acordei a tempo para ver o murro que ele deu no braço esticado do fingidor… ficou atrapalhado, fingindo que não sabia o que estava a acontecer e virou-se para o outro lado, para continuar o seu soninho.

O sol começou a aparecer e a cabeça do Rafael estava no meu ombro. Não me podia mexer para não o acordar. Já não tinha sono, mas estava morta de cansaço.

Nova paragem para o pequeno-almoço às 9 horas.

- Já devemos estar quase, não? - Perguntava, tendo a certeza que sim.

- Estamos, estamos. – Respondia o Rafael com um sorriso irónico.

Estava sem sono, assim como o rapaz das bisgas, que continuava com o seu árduo trabalho. Estávamos no trânsito de uma terra, por isso, teríamos de estar quase. Estávamos, estávamos! Voltámos a passar pelo sono e as horas foram passando, passando e passando.
Passado 22 horas e 600 quilómetros, o autocarro amarelo com os bancos brancos, fez a sua última paragem, desligou a música e o motor, e saímos todos com o rabo quadrado. 

Preguiça no Paquistão


Cá estamos há 4 dias em Gilgit… Daqui vamos apanhar um autocarro para Islamabad, pois ao que parece, a estrada não é segura… há miúdos que atiram pedras, e até rolam pedregulhos para à estrada, tipo bowling! Ao que parece há roubos e é perigoso acampar de noite. Conhecemos uma pessoa que fez essa estrada, de bicicleta, e ao que parece, está num terrível estado, e confirmou as pedras e pedregulhos e ao que parece, há poucos sorrisos por lá! Ora nós não temos medos de uma boa partida de basebol, não temos medo da má estrada que voltou a partir-me o porta-bagagens, mas o facto de não haver sorrisos…isso não! Queremos caras bonitas e garanto-vos meninas, que aqui há meninos bem vistosos!


Continuamos em Gilgit porque não nos foi permitido sair mais cedo… não pelo facto de andarmos preguiçosos… andamos mas isso é outra história, mas pelo facto da estrada para Islamabad estar cortada. De novo uma pequena avalanche, provocada pelas chuvas. Já temos o bilhete do autocarro nas mãos com nova data.


Até Gilgit, o caminho foi de novo com má estrada, de novo com sobe e desce, o que é terrível quando temos a ideia que será sempre a descer!


- Não sei como o teu porta-bagagens ainda não partiu com esta estrade terrível. – Disse o Rafael bastante admirado ao ver o meu material a portar-se lindamente.

- Isto não parte assim. Da outra vez partiu porque estava a descer em boa estrada e não tive tempo de travar, quando vi o buraco. O impacto foi muito grande, não é como agora.


5 minutos depois, menos, garanto que foi menos, senti a bicicleta a gingar. Capoeira a esta hora é que não. Parei para ter uma pequena conversa com a minha menina e vi que tinha um dói-dói… Não queria acreditar!

- Que foi? – Perguntou o menino que nunca tem nada partido e nem uma pequena dor no estômago.

- Partiu, outra vez… Nem que tenha de levar os sacos pelos dentes, mas esta viagem vai continuar! - E sentei-me.

O Rafael foi pedir ajuda e indicaram-nos um mecânico, ali pertinho. Chegámos e não havia luz. Tivemos de esperar. Eles foram impecáveis! Quais chineses, quais quê! Perceberam à primeira o que queríamos, mesmo depois de terem fumado algo que faz rir muito. Tentaram tudo, mas nada… Não conseguiram realizar a operação mas não nos queriam mandar embora. Queriam à força arranjar solução. Aceitámos todas as possibilidades que tentavam dar mas não sei se foi por causa da “coisa” que fumaram que todas as ideias eram bastantes estranhas…

- Somos portugueses ou não somos? Não sabemos remediar isto?

Lá conseguimos com a ajuda deles, mas ao nosso comando, arranjar forma de remediar a coisa! Saímos de lá com a bicicleta a rolar! Já estava de noite, por isso não nos foi possível fazer os quilómetros que tínhamos programa para esse dia. Os senhores da terra, ajudaram-nos a encontrar um sítio para montar a tenda, mesmo ao lado da polícia!

- Boa noite. – Dissemos com o estômago desconsolado, depois de termos jantado leite com bolachas esmagadas…



- Bom dia! Vai mais leite com bolachas?

Passados alguns quilómetros parámos para comermos uma grande omeleta com vegetais com dois pães e dois sumos de manga por 1 euro! Delícia!

Alguns quilómetros depois estávamos em Gilgit! Continuamos aqui mas é pouco tempo. Continuamos a comer por 1 euro (para os dois) e quando somos doidos, conseguimos comer por 2 ou 3 euros, mais isso já é uma loucura! Menu: 10 chamuças, um pires de batatas fritas, um pires de Pakora e dois chás - 1 euro; Menu de doidos: um pires de grão-de-bico, um pires de espinafres, um pires de arroz, dois pães, um copo de sumo – 2 euros. O menu dos 3 euros, é quando compramos uma bebida de litro e meio e terminamos com um batido de banana para mim e um sumo de manga para o Rafael.

Andamos preguiçosos, é verdade… jogamos ao minsweeper  até não podermos mais e tenho o orgulho de dizer que consegui terminar o jogo! 90 minas! O Rafael continua a tentar… transpira… suspira…

Tenho aproveitado para desenhar. Há muito que não fazia e está a saber-me bem! Ando a treinar para quando chegar a Portugal, expor novos desenhos e vendê-los! O que me dizem?


Jogar, comer, desenhar, internet e pequenos passeios, é esta a nossa vida por aqui! 

Proposta de Viagem

“Um dia gostaria de fazer uma coisa como vocês estão a fazer, mas neste momento, não tenho tempo/dinheiro/preparação física/qualquer outra desculpa que queiram aqui colocar” – ouvimos esta frase tantas vezes. Tantas.




O problema, não é a falta de dinheiro, tempo ou preparação. O problema é maior: falta de iniciativa. Decidimos então falar da nossa pequena viagem de Ovar à praia do Carvoeiro, no Algarve, que fizemos entre 5 e 16 de Julho de 2010 (podem ler a "voltinha" aqui - LINK). Eu tinha um espectáculo marcado para a praia do Carvoeiro para iniciar dia 17 e como estávamos sem fazer nada nos 15 dias anteriores, decidimos pegar nas bicicletas e pedalar rumo ao sul, lentamente, sem pressas, em vez de continuar a “pastar” em casa. Já o tínhamos feito de carro, à boleia, mas nunca de bicicleta! Nova experiência! O importante, como já dissemos, não é o destino, mas começar!

No dia anterior – sempre no dia anterior – colocámos tudo nas bicicletas e com meia dúzia de quilómetros, reparámos que nos tínhamos esquecido de colchões para dormir! Falta de experiência? Não, já tínhamos andado 9 meses pela Europa. Chamemos-lhe falta de organização!
Partimos de Ovar, depois de um pequeno-almoço no Ó Chico e lá fomos nós, felizes e contentes, Portugal abaixo, com alguns amigos a dizerem-nos: “Outra vez?” - ao que respondíamos: “Só vamos ali, ao Algarve!”!

A nossa rota foi:
- Ovar – Praia da Barra
- Praia da Barra – Figueira da Foz
- Figueira da Foz – Leiria
- Leiria – Peniche
- Peniche – Sintra
- Sintra – Algés
- Algés – Santo André
- Santo André – Vila Nova de Milfontes
- Vila Nova de Milfontes – Odeceixe
- Odeceixe – Praia do Alvor
-Praia do Alvor – Carvoeiro

Escolhemos a costa, pois queríamos juntar a viagem a uns dias de praia e visitar uns amigos e família que viviam perto do Atlântico! Ficámos impressionados com a quantidade de ciclo vias existentes em todo o país e isso fez-nos acreditar que, mais dia, menos dia, teremos uma enorme ciclo via de norte a sul! O norte, que nos parece sempre plano na costa, é-o, na realidade, mas o sul, que nos lembramos sempre de dizer a todos que é plano, não o é! A partir de Sintra, a coisa começa a ficar mais dura! Nada de complicado, mas para quem tinha chegado há pouco de uma grande viagem e se tinha encostado só ao prato, tornou-se durinho!

Pelo caminho, além das pessoas que conhecíamos, dormíamos na tenda, mas nunca em parques de campismo. Escolhíamos uma praia- como aconteceu no Alentejo – pedíamos a alguma família para montar a tenda no quintal – como aconteceu em Peniche – ou tentávamos arranjar um espaço para dormir – como aconteceu num café na Figueira da Foz. Viajar de bicicleta tem esta contrariedade: enquanto de mochila às costas, se pode sempre carrega-la, sem problema, de bicicleta, se não tivermos um sítio para a deixar, muitas vezes não nos é permitido visitar os locais, por causa de escadas ou outros obstáculos. Apesar de tudo, sítios como a Polícia, os Bombeiros, Postos de Turismo ou algumas instituições, nunca recusam olhar pela bicicleta durante umas horas ou uma noite! Pelo caminho, tentámos ainda vender umas coisas que fomos fazendo durante o nosso tempo em Ovar, sem trabalhar. Revelámos também umas fotografias das nossas viagens anteriores, que transformámos em postais, que tentámos vender, sem grande sucesso, pois ao contrário do que pensávamos também, o Português é um pouco reservado e nem a nós se chegava para ver o que tínhamos, tentando passar ao longe ou por trás, à espião, espreitando de fugida! Isso levou-nos até a escrever um papel onde nos apresentávamos e onde dizíamos: “Podem parar para conversar!”. O curioso também é que viajar de bicicleta em Portugal é coisa rara e as pessoas que se vêem, na sua maioria, são de outros países. Assim, quando entrámos no barco que nos levou de Lisboa à margem sul, o senhor do barco nem uma palavra soletrou, rindo-se e guiando-nos com gestos, ao sítio que era reservado às bicicletas.




A viagem foi feita nas calmas, parando em sítios onde nunca havíamos antes estado, conhecendo pessoas que nunca antes havíamos visto e partilhando, quando oportunidade tínhamos, as nossas experiências com outras pessoas que viajavam de bicicleta ou mochila às costas, a maior parte deles, estrangeiros! Fomos reavendo amigos que há muito não víamos e família que raramente encontramos. No fim, aproveitámos mais para estar com pessoas do que fazer praia ou gozar a noite! Descobrimos novos caminhos para o litoral alentejano, acordámos com o mar à nossa frente, subimos as verdes colinas de Sintra e acabámos a viagem no dia 16, num belo dum hotel com piscina e quarto virado para o mar! Perfeito!

Decidimos partilhar esta viagem, para mostrar que, com pouco dinheiro, se pode fazer algo diferente. Há tantos destinos interessantes no nosso país: a costa de Norte a Sul, a rota das Aldeias Históricas, o interior algarvio, da fronteira de Espanha à costa alentejana, o Parque Nacional de Montesinho e tantos outros! Uma viagem de um dia, um fim-de-semana ou um mês! 


A desculpa do ”Um dia…” já não serve. Há que começar! Já!

Escolher o destino


Pega num mapa, olha bem para ele e vê a dimensão do mundo! No nosso projecto de apresentação, escrevemos:

“O mundo, na sua imensidão, é ele próprio uma estrada sem fim, com todo um conjunto infindável de montanhas, oceanos, culturas, pessoas, idiomas que, ao olhar para um mapa, nos faz divagar o imaginário! O mundo é tão grande que olhá-lo de cima, faz querer agarrá-lo todo! Percorrê-lo!”

Porque é assim, mesmo agora, que ainda vemos o mundo: grande de mais!

Uma viagem de bicicleta começa com o desejo de partir, lentamente, sem pressas: à volta do mundo, ou à cidade mesmo ali ao lado. Há uns dias atrás conhecemos o Paul, um inglês que vive em Bangkok e que há 12 anos, quando voltou do Canadá, onde vivia, para Inglaterra, decidiu comprar uma bicicleta e ir até à Holanda, “dar uma volta!” Chegou à Holanda e gostou! Continuou: desceu a Europa, passou para a Tunísia, de lá voou para o Egipto, seguiu-se a Índia e por aí fora até à Nova Zelândia. Voltou ao sudoeste asiático e ficou-se por lá. Desde então, viaja pela Ásia, a maior parte do ano! Outro exemplo, traz-nos a Sara, que tem apenas 16 anos e nos escreveu a dizer que todos os anos faz uma pequena viagem de bicicleta e que o ano passado foi de Coimbra a Tomar, em três dias!

O importante não é o destino, mas sim começar!

Pedala para longe: visita um amigo que vive no sul, vai àquele festival de música no interior do país, junta-te com alguém e tira duas semanas para explorares as aldeias históricas de Portugal! A primeira coisa que notarás, é que as estradas pelas quais já passaste antes de carro, são afinal muito diferentes: vão ter muito mais altos e baixos, vais ver coisas nas quais nunca antes havias reparado, as pessoas vão olhar-te de maneira diferente e até gritar-te “Força!” Depois, começa a ser contagiante! Quando regressas a casa, só pensas noutra viagem e acredita que aquele cansaço que sentiste, nem te vais lembrar dele! Vais começar a pensar mais longe: e explorar Marrocos de bicicleta? E dar uma voltinha pela costa norte de Espanha? E fazer o Caminho Francês de Santiago de Compostela? E provar um caril na Índia?

Assim, sim!

Antes porém, vais colocar-te algumas questões:

Será a época a indicada?

Uma viagem de um ano, não tem uma época indicada! A nós, por exemplo, as pessoas perguntavam-nos vezes sem conta: “Porque é que vão no Outono e não esperam pela Primavera ou Verão?”, e a resposta era lógica, porque numa viagem de ano e meio, vamos apanhar todas as estações, algum dia, em algum lado e acreditem que preferimos passar um Outono frio na Europa, que temos onde ficar, do que no meio da Pamir Highway, no Tajiquistão, onde não passa vivalma. No entanto, se conseguirmos gerir o melhor possível a rota com o clima, perfeito! Mesmo assim, apanhámos um dos Outonos mais nevados da história e voámos para um destino mais quente, o Cairo! Pedalar exige planificação. Ninguém gostará de pedalar na Rússia em Janeiro, nem na Índia em Julho, ou andar no meio da confusão de uma costa espanhola em Agosto. O melhor é estar sempre atento à época turística, pois geralmente a melhor época para viajar é sempre fora da época alta e atento à meteorologia, num qualquer sítio de internet.

Será este país o meu “estilo” de país?

Não penses em viajar no Irão, se queres estar sozinho, pois vais receber convites a toda a hora para comeres ou dormires lá em casa. Não penses pedalar no Tajiquistão, se pensas em tomar um banho ao fim do dia, todos os dias. Não penses em pedalar no Egipto, se não suportas a sujidade e o caos nas ruas. Um destino errado pode destruir totalmente todo o prazer de viajar. Começa com uma coisa simples, com cidades ou países onde te percebam, onde a comida não te seja estranha, onde as pessoas te reservam privacidade. Depois, parte para um voo maior: pedala em Marrocos, por exemplo, onde a cultura e a religião já são muito diferentes, mas onde as pessoas são de uma hospitalidade fantástica e, se tiveres um problema, pelo menos vão entender-te minimamente! A partir daí, tudo em aberto!

Terei tempo suficiente?

Tirar um ano, dois ou tempo indeterminado para viajar, é um luxo que, parece que não, mas está ao alcance de quase todos. Fora um ou outro problema que nos impossibilite, não há desculpas para não o fazer. Conhecemos um inglês, o Alex, que é cego e está a viajar pela Ásia sozinho! Tudo tem a ver com prioridades e cada um tem as suas. É engraçado ouvir as pessoas dizerem-nos: “Que sorte que vocês têm, partir assim durante tanto tempo” e dentro das nossas cabeças logo a resposta se constrói: “Sim, mas não trocamos de carro cada quatro anos, não temos uma casa nossa, é alugada, não pedimos nenhum empréstimo a nenhum banco, não vamos jantar fora todos os fins-de-semana, não temos um trabalho fixo, não temos filhos para já e, não fossem os nossos cães velhinhos, também vinham connosco!”. O que fizemos? Pensámos em viajar, poupámos até não podermos mais e despedimo-nos. Parece simples…e é, mas temos noção das consequências! Quando não se pode ou quer fazer o mesmo, porém, deve pensar-se também no destino de viagem, conforme o tempo que se tem, ou seja: partir para fazer a costa da Austrália, um destino que nos leva no mínimo dos mínimos um ano a fazer e só ter 3 ou 4 meses, só nos vai deixar em stress e sem tempo para nada, ou mais perto, fazer o Caminho Francês de Santiago de Compostela, em todos os seus 900 quilómetros, numa semana, achamos que é de loucos. Mas fica ao critério de cada um. Já falámos aqui do alemão que conhecemos e que percorreu em 2 meses aquilo que nós fizemos em 9. No entanto, ele não está a viajar, está a fazer exercício!

Será que terei preparação física?

Quando alguém nos diz que nunca conseguiria porque não tem preparação física, nós achamos que ela está a dar a desculpa mais fácil e a que menos…a desculpa. Costumamos dizer que ninguém treina para ir Fátima a pé! Brincando ou não, é rara a pessoa que o faz, o “treino”! Nós não somos atletas. Nunca fomos! Não frequentamos qualquer ginásio. Nunca o fizemos! Não andámos a preparar-nos para esta viagem, pedalando dias a fio. Nunca o faríamos! E cá estamos nós, no Paquistão! A Tanya diz muitas vezes: “Nunca seria capaz de me levantar, num dia normal e dizer- Vou pegar na minha bicicleta e subir aquela montanha! - Nunca!” e no entanto, já passou montanhas com mais de 4500 metros! O estado físico é importante, sim, muito importante. É essencial saber comer bem (nós somos vegetarianos), descansar, não fumar, evitar beber. É importante saber que temos que nos exercitar, caminhar, dar umas voltas de bicicleta. Porém, daí até deixarmos de fazer uma viagem porque não temos capacidade física, vai uma grande diferença. Na primeira viagem, à proposta de fazermos um “treino” em Portugal, antes de partirmos para a Europa, a Tanya respondeu: “Treinamos em Espanha e daí, seguimos em frente!” - e assim foi!


“Nada é particularmente difícil se o dividires em pequenas etapas” – Henry Ford

Sozinho ou Acompanhado


Se já chegámos à conclusão que sim, que vamos partir numa viagem de bicicleta, é tempo de começar a pensar no que queremos fazer e isso, admitimos, é muitas vezes o mais complicado mas admitamos também, muitas vezes complicamos mais do que aquilo que é necessário! No momento em que a decisão é tomada, uma reação estranha toma posse do nosso corpo, uma mistura de medo, adrenalina, tensão, excitação, vontade de sair para a rua e contar a toda a gente a ideia estúpida, quase ridícula, mas completamente excitante e fora do que a nossa cabeça poderia algum dia conceber, que tivemos!

“Vou pegar na bicicleta e partir!”

No momento seguinte, começam a chegar as dúvidas. Como planeio uma viagem de bicicleta? Que países devo escolher? Que estradas devo eu tomar? Devo ir no Verão ou no Inverno? Montanha ou praia? Sozinho ou acompanhado? Vou…ou não vou, afinal?

Vais, claro que vais!

Há dois tipos de viagem:

- Aquela que fazemos durante os nossos 15 dias ou mês de férias, em que temos datas marcadas e que tem de ser bem planeada;

- Aquela em que estamos decididos a partir durante meio ano, um ano ou por tempo indeterminado e que é muito mais relaxada e sem planos muito concretos!

São viagens totalmente diferentes. Se no primeiro caso, partimos geralmente num mês de Verão, não necessitando de equipamento para o frio, escolhendo geralmente uma rota ou um país que nos é mais familiar no idioma, na maneira de viver e no acesso que temos às coisas, no outro tipo, temos que pensar que vamos passar muito tempo na estrada, abusando do material que levamos e que vamos com toda a certeza, meter coisas nas malas que, passado um mês, vemos que nunca as vamos usar.


Vou sozinho ou acompanhado?

Apesar de poder não parecer, há muita gente que desiste de viajar só porque não tem ninguém que o acompanhe. Se eu me vejo a viajar sozinho, já a Tanya, por exemplo, diz que seria incapaz. Muitas vezes nem é o facto de não nos desenrascarmos, de não conseguirmos tomar decisões, mas sim o facto de não nos imaginarmos a pedalar durante centenas ou milhares de quilómetros sem falar com alguém, sem ter outra pessoa ao lado com quem comentar as coisas, com quem rir de uma situação ou quem nos olhe a bicicleta enquanto vamos ali ao lado, fazer um xixi!

Muitas vezes é complicado encontrar um amigo que entre nesta aventura connosco, que esteja na disposição ou que tenha a coragem de deixar tudo para trás e ir, durante tanto tempo. Há vantagens e desvantagens nas duas opções:

. Apesar de juntos nesta viagem, a maior parte do tempo pedalamos sozinhos. Isto dá-nos tempo de pensar em tudo e mais alguma coisa, de ter ideias sobre coisas a escrever, desenhar, de pensar no que vamos comer, onde vamos parar nesse dia, o que vamos fazer quando voltarmos a casa. No entanto, sabemos que o outro está ali, a uma certa distância, e isso dá-nos conforto. Em muitos países podemos mesmo pedalar lado a lado e ir discutindo o que vemos, o que sentimos e quando chegamos ao topo duma montanha, podemos até chorar juntos! Quando sozinhos, é mais complicado. Temos que estar muito mais preparados psicologicamente. O desafio é bem maior;

. Quando acompanhados, as decisões têm que ser tomadas a dois e este é um dos grandes problemas: a adaptação. Na nossa primeira viagem, na Europa, discutimos quase todas as semanas: ou por causa das paragens, ou da velocidade, ou da escolha do sítio para dormir, ou pela decisão de ficar mais um dia ou não. Com isso aprendemos! Nesta viagem, raramente discutimos! Em 5 dias no Turquemenistão, discutimos mais do que em 11 meses em viagem. A pressão era demasiada e não estávamos preparados. Tudo o resto, é perfeito! Quando sozinhos, no entanto, as decisões são só nossas. Não há ninguém maldisposto, com vontade de parar, de ficar mais um dia ou com dúvidas sobre o sítio onde acampar;

. É normal que, quando se pedala sozinho, se faça muito mais quilómetros por dia ou se passe muito mais horas em cima do selim. Não há razão para parar tantas vezes e a parar, não se justifica fazê-lo por tanto tempo…não temos ninguém com quem conversar. A maior parte dos ciclo turistas que conhecemos e que viajam sozinhos, faz mais de 100 quilómetros por dia, quase não pára para almoçar ou lanchar, preferindo comer uns chocolates enquanto pedala e levanta-se muito cedo para começar a viagem. Quando conhecemos, porém, duas ou mais pessoas a pedalar juntas, estes fazem geralmente um máximo de 80 quilómetros, param vezes sem conta para descansar, tirar fotos ou comer, param para acampar muito mais cedo e demoram-se no pequeno-almoço!

. Quando acompanhados, temos sempre quem nos olhe pela bicicleta enquanto saímos da estrada para um xixi; quem, à porta do supermercado, se sente ao lado das bicicletas enquanto o outro faz as compras; quem, em caso de acidente, nos ajude com algum problema de maior; quem, se estivermos doentes, se sente ali ao nosso lado a dar-nos chazinho e bolachinhas ou a fazer palhaçadas para nos levantar a moral! Sozinhos, arriscamo-nos muitas vezes a voltar e só ver o sítio onde deixámos a bicicleta, não temos ninguém que nos ajude a levantar do chão e o chazinho, esqueçam lá isso. 

2numundo no paquistão

- Não é possível tirarem o visto aqui. Como têm a embaixada do Paquistão no vosso país, é lá que têm de o tirar. – Disse-nos o homem de óculos grandes.

- Mas estamos de bicicleta, como podemos tirar o visto? 

- Aqui não podem tirar. Têm de voltar ao vosso país. – Respondia-nos, olhando-nos com certa pena.

- Mas dá para tirar na fronteira? – Perguntámos esperando pelo “sim”.

- Talvez… Talvez sim… Talvez não.

- Mas dá?

- Talvez… 

Este pequeno diálogo, aconteceu na Turquia, na embaixada do Paquistão.

Estávamos confiantes. Conhecemos e lemos em muitos fóruns, muitas pessoas que passaram a fronteira sem problema, e no autocarro, éramos muitos estrangeiros sem o visto no passaporte e nenhum de nós parecia estar preocupado em relação a isso.
O fim da China foi marcado com o fim do alcatrão… Fim do alcatrão, bem-vindos ao Paquistão!

Curva contra curva, sempre a descer, entre montanhas imponentes. A estrada fazia com que os nossos corpos, por várias vezes, saltassem da “cama”. Estávamos mesmo por cima das nossas bicicletas e muitas vezes, ouvimo-las gritar. Fazia doer o coração! 

Finalmente em Sost! A nossa primeira terra paquistanesa! 

- Quem não tem visto? – Perguntou um paquistanês, num inglês perfeito. Ninguém tinha  - Podem passar para aquela sala e voltar para aqui. Bem-vindos ao Paquistão!

Simples e rápido! Bastou uma fotografia e dinheiro, para termos um belo visto no passaporte. Só não entendemos, porque que é que Portugal é o país da Europa que paga mais, a seguir à Inglaterra! 53 dólares! Paga e cala! Pagámos sem refilar e fomos dar os primeiros passos.

Nesse mesmo dia, apaixonamo-nos pelo país! Estávamos a flutuar e sentíamo-nos bem. 

Encontrámos um hotel pois não quisemos sair dali tão cedo! As pessoas são humildes e simpáticas. É difícil encontrar uma pessoa que não fale inglês. Já não estávamos habituados a tanta facilidade, nem estávamos habituados a preços tão baixos! O quarto duplo com casa de banho no interior, por apenas 2,90€ e jantámos no próprio hotel por 3,30€. A comida estava deliciosa e não parávamos de o afirmar! Comemos até não conseguir mais, fomos dar uma voltinha para ajudar a digestão e voltámos para o quarto de onde tínhamos uma vista de fazer cair os queixos!

No dia seguinte partimos, curiosos e com vontade de conhecer e ver tudo! Estávamos admirados com a simpatia das pessoas e com os traços delas. Graças a Alexandre, o Grande, as pessoas são-nos mais familiares e foi no Paquistão que encontramos mais homens bonitos. Certas alturas, ficámos na dúvida se são pessoas locais, ou turistas com roupas de cá… 

Chegámos a Passu depois de muita subida e descida, instalámo-nos no hotel Passu Inn, onde fomos ficando e ficando. Estávamos numa pequena aldeia que nos dava a sensação de estarmos em Portugal. Conhecíamos aquele cheiro, aquela verdura... Mesmo nestas pequenas aldeias as pessoas falam inglês e não são apenas os jovens. Eu continuava nas nuvens e não parava de dizer: 

- Estou a adorar! As pessoas são lindas! As crianças são tão lindas e educadas! As mulheres têm um ar feliz e os homens são tão respeitadores, tão humildes! 


Não estávamos à espera de um país tão acolhedor! A verdade é que estamos na zona mais letrada do país. Estamos numa zona que anos atrás, era um reino independente. Estamos curiosos para conhecer o resto do Paquistão, mas sabemos que pouco vamos conhecer pois continua a ser um país perigoso e o turista não tem acesso a todos os lugares, pela sua segurança.
 
Uma das grandes atrações de Passu é a ponte suspensa e os grandes glaciares. Nós apenas fomos à ponte e vimos o glaciar de longe. A ponte é uma experiência fantástica mas que mete respeito! Anos atrás, havia duas pontes mas uma delas foi destruída pelo mau tempo. 

Conseguimos chegar à ponte na segunda tentativa. No primeiro dia, fomos de mochila às costas, caminhar umas boas horas… não encontrámos o caminho e demos por nós a tentar passar um caminho perigoso. O rio estava mesmo por baixo de nós e qualquer deslize, podia levar-nos até ele. Senti as gotas de transpiração a caírem pela cara abaixo. As minhas mãos estavam suadas e comecei a sentir medo… bloqueie. Olhava para o Rafael que, devagar tentava chegar ao outro lado, e toda eu transpirava ainda mais.

“Se um pé me escapa, escorrego por aqui abaixo e não tenho onde me agarrar.” Era o pensamento de ambos.

- Não avances mais. Vou voltar para trás, isto é muito perigoso. – Disse o Rafael com cara séria. 

Respirámos fundo quando sentimos que estávamos fora de perigo. 

- Não pode ser por aqui! Tem de haver outro caminho! – Dizia, olhando para todos os lados, tentando perceber onde este podia estar.

- Mas hoje não caminho mais! Estou morto! Ficamos mais um dia e voltamos amanhã.


E assim foi, ficámos mais um dia. No dia seguinte, encontrámos o caminho! Este era bem mais seguro, fácil e levou-nos direitinhos até à ponte suspensa! A ponte é enorme e os primeiros passos são feitos lentamente! O Rafael estava atrás de mim e eu só gritava:

- Sai! Isto é apenas para uma pessoa! Pára de abanar a ponte! Pára de te rir! Sai! Isto é só para uma pessoa!!! Não te rias que a ponte abana mais!

Depois de alguns passos e vários gritos, já me sentia mais confiante. Valeu a pena voltar! Aconselhamos vivamente.

Jantávamos no hotel e quem cozinhava e nos servia, era o proprietário, o senhor Ghulam. Oferecia-nos sempre mais comida, que guardávamos para o almoço do dia seguinte. Dias mais tarde, ao visitar o Fort Baltit, em Karimabad, soubemos que o senhor Ghulam, tinha sido o último prisioneiro do forte. Não matou, nem roubou. Ele queria que o reino independente pertencesse ao Paquistão e tentou convencer a população a não pagar as taxas.

Estivemos com o último prisioneiro sem o saber e a verdade é que gostámos muito dele! Muito calma, bom cozinheiro, muito humilde, que ficou admirado quando lhe dissemos que vimos 3 aranhas gigantes na sala de estar… A verdade é que vimos! 3 Aranhas peludas, que me fizeram andar de gatas no quarto, a investigar todos os cantos. 

Deixámos Passu satisfeitos! Fomos a caminho de Karimabad, porém não é possível fazer o caminho todo pela estrada. Em 2010, houve uma grande avalanche que bloqueou o rio, fazendo um dique natural e com os vários rios que vêm da montanha a chegarem ao leito do rio principal, as águas formaram um lago e 4 aldeias ficaram submersas.

São 32 quilómetros de barco e para quem conhecia essas 4 aldeias, são 32 duros e longos quilómetros. O rio serpenteia as grandes montanhas escuras e para quem nunca passou por ali, fica admirado com tamanha beleza e passam a ser 2 horas de um belo passeio de barco!

Saímos do barco e à nossa espera estava uma subida bem íngreme e cheia de poeira! Os nossos pés enterravam-se… Estávamos cansados e sujos! Parámos mal vimos um restaurante e esvaziámos os pratos mal eles chegaram à mesa. De novo na estrada, ou de novo naquele mar de pedregulhos e poeira. Não estava a ser fácil e quando faltavam menos de 5 quilómetros para chegar ao destino, a estrada parecia querer chegar ao céu! “Não podíamos terminar o dia mais calmamente? Já não chega?” 

Com a língua pendurada e os ombros descaídos, chegámos a Karimabad e ao hotel que nos ia acolher por duas noites mas que acabou por nos acolher por quatro noites. Sentimo-nos bem aqui. À nossa volta, tudo é verde e tudo é grande! As pessoas querem cumprimentar-nos e trocar umas palavrinhas em inglês. As mulheres esperam que as cumprimentemos para sorrirem com vontade e retribuir o cumprimento.
 
Visitámos o forte, passeamo-nos pelas estreitas ruas que nos deixam sem folgo de tão íngremes que são. Fomos perseguidos por crianças que queriam ser fotografadas. Fiquei muitas vezes com cara de parva ao ouvi-los falar inglês mas quando digo inglês, estou a referir-me a um inglês correcto, com frases bem construídas! 

Amanhã prometemos pegar nas bicicletas e partir. Custa sempre sair dos sítios que se gosta e aqui no Paquistão, tudo é uma surpresa!

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