Dicas - Vistos


Os vistos são a maior dor de cabeça das viagens. Quando entramos numa aventura de um ou dois meses, todos eles podem ser feitos “em casa”, ao mesmo tempo que preparamos outras coisas ou que trabalhamos/estudamos. No entanto, quando estamos na estrada, por vezes torna-se bem complicado e temos de ser bem organizados e ter uma paciência de elefante. Se em grande parte dos países do mundo o visto não é necessário (para quem vive na União Europeia), e para outros países, este é feito na fronteira do país: Turquia, Iraque, Tailândia, só para dar três exemplos, já outros países exigem uma série de papeladas, dinheiro e tempo que é preciso gastar. Isto tudo não quer dizer que, mesmo depois de todo este trabalho, seja certo que os vistos nos sejam dados! 

Nesta viagem, a nossa maior dor de cabeça foi na Ásia Central e admitimos que não nos podemos queixar nada, pois conhecemos casos nos quais não queríamos estar na pele!
Geralmente o acesso aos vistos só respeita uma regra: a falta de regras! Tudo depois depende de várias coisas:


. A nacionalidade – Felizmente para os portugueses, tirar vistos não é uma tarefa muito complicada. Podemos ser pequeninos e pobrezinhos, mas o facto de não sermos motivo de problemas, guerras ou desconfianças, faz de nós uns privilegiados. Ah, e claro, o "Reinaldo" ajuda muito!

. A situação política da actualidade – Estivemos no Egipto antes da revolução. Saímos da Síria no dia em que ela começou e tudo foi tranquilo. No entanto, conhecemos pessoas que tiveram de sair do país ou voar, saltando-o. Aquando do 11 de Setembro, por exemplo, muitos países muçulmanos “fecharam” o acesso a estrangeiros em turismo.

. O sítio onde o fizeres – Há países em que tirar o visto não é nada complicado. Tirar o visto do Irão em Portugal, pensamos não ser complicado, mas tirá-lo em viagem, já exige outra táctica! Em viagem, nunca tivemos nenhum problema nas embaixadas ou consulados onde nos dirigimos, no entanto sabemos de casos que esperaram, esperaram e…nada!

. A tua disponibilidade para pagar – Alguns países, como a China, cobram-te mais 20 dólares se quiseres que o teu visto seja feito no dia. Caso contrário, esperas 4 a 5 dias. Se a cidade onde estiveres, geralmente uma capital, for interessante, ok, esperas! Agora se for cara e nada do outro mundo, queres é despachar a coisa! Então pagas mais e o serviço é feito com outro sorriso!

. Quem estiver atrás do balcão – Muitas vezes este é o maior problema. Nunca aconteceu connosco, mas conhecemos casos em que a pessoas atrás do balcão, nesse dia, não estava virada para trabalhar e quem sofre, são os viajantes que querem tirar os vistos ou precisam de informações. Se há países em que a simpatia é imensa, outros existem em que, em vez de falarem, grunhem! Welcome!

Como nos prepararmos para tirar um visto, então? Não há, como dissemos, uma regra geral e a regra que serviu para nós, pode não servir para outra pessoa. O melhor é:

. Primeiro que tudo, tenta aceder à página do país para o qual queres viajar. É quase certo que terão toda a informação acerca dos procedimentos a tomar. Começa a recolher tudo o que precisas e guarda-o numa pasta para levares contigo. Imprime os formulários que tiveres de preencher em duplicado ou triplicado, pois vais enganar-te a preencher de certeza! A única coisa que se justifica levar a mais, na tua odisseia!

. Procurar nos guias do costume as respostas às nossas perguntas. Geralmente guias como o Lonely Planet, o Rough Guide ou o Foot Print (para nós, ainda os melhores para viagens de bicicleta ou mochila às costas) dão uma boa informação acerca do assunto.
 
. Estar sempre atento aos fóruns de viagens e, sempre que queiramos saber qualquer coisa, colocar questões. Há sempre alguém que responderá às nossas dúvidas com experiência pessoal. O mais actualizado possível!

. Perguntar a outros viajantes com os quais nos vamos cruzando ou nos hostels onde vamos ficando qual a situação naquele momento, se há novidades, se têm alguma dica que te possam passar!

. Contacta agências para saber como tirares os vistos. Na Ásia Central, por exemplo, achamos que a mais eficaz é a Stantours. Sempre que entrámos em contacto, para o nosso visto do Uzbequistão, eles responderam na hora e foram mais rápidos com o serviço que lhes pedimos do que estávamos à espera. Para o Irão, não vais ao site www.iranvisa.com, sabemos de muita gente que perdeu dinheiro e não teve qualquer resposta, nem visto.

. Tenta perceber todos os truques e dicas que puderes. Como exemplo, podemos dizer-te que o visto do Irão, foi o mais simples e sabemos que muitos não o conseguem. Como fizemos? Para as fotografias, a Tanya cobriu o cabelo. Não é obrigatório, mas é meio caminho andado! Eles adoram! Depois, estávamos na Turquia e sabíamos que em Ankara o procedimento demorava uns 20 dias, pelo menos. Lemos algures, que em Trabzon, no norte da Turquia, havia um Consulado que o fazia em 2 ou 3 dias! Era mais caro 25 euros, mas pensar em passar 20 dias em Ankara, onde não existe nada para fazer e a gastar dinheiro, preferimos viajar até Trabzon, visitar as redondezas e tirar o visto em…3 horas, porque apanhámos a hora do almoço! Já para o Tajiquistão, por exemplo, tiras um visto para o país – 30 dias/50 dólares – mas se quiseres fazer a Pamir Highway, precisas duma permissão especial que claro, custa dinheiro! Podes tirar tudo junto, mas não percebemos porquê, em Ankara não nos deram a permissão. Quando em Tashkent, no Uzbequistão, fomos à embaixada e pagámos mais 25 dólares por ela, o preço nas embaixadas. Mais tarde, conhecemos o Sam e a Frank, o casal inglês com que pedalámos dias-a-fio e que tiraram a permissão em Dushanbe, a capital do Tajiquistão, no gabinete do GBAO (o nome da zona da Pamir Highway) e custou-lhes…3 dólares! Sabemos porém que existem na internet empresas a cobrar 160 dólares pelo mesmo. Como dissemos, é apanhar todas dicas e saber todos os truques!

Qualquer pergunta em concreto, coloquem-na e tentaremos ajudar!

E quem não salta...

Amigos, algo aconteceu de estranho no blog e não temos a certeza se o post do passatempo que estamos a fazer saiu ou não. Assim sendo...

A coisa consiste em tirarem um fotografia de um salto, à semelhança das que fazemos em alguns locais pelos quais vamos passando (vocês sabem como é!). A mais original ganha uma fotografia nossa, à vossa escolha (das que estão no blog), AMPLIADA!

Regras:
- Mínimo duas pessoas;
- Têm que estar a segurar qualquer coisa que diga 2numundo;
- Mostre o espírito da nossa viagem;
- Originalidade nos locais e no salto!

Envio das fotos para o nosso email (2numundo@gmail.com) até ao último dia do mês.

Get Up and Get Out!

Ponham-se a saltar!

dia não

Acordámos com a testa franzida. Estávamos chateados, mal dispostos! Os dois polícias acordaram com a nossa movimentação. Não falavam… Estariam com dores de cabeça? Má disposição? “Não viajamos com Gorusam… Pena em não poder ajudar” 

Este foi o “dia não”! Um grande “dia não”! Sentia-me irritada, chateada, agressiva. Não conseguia cumprimentar ninguém! Sentimo-nos enganados quando parámos para beber um chá. Teve a lata de pedir o dobro do preço! Neste “dia não” tinha de acontecer tudo! Mas tudo e tudo negativo! O trânsito mantinha-se insuportável mas neste “dia não”, não me controlei nos insultos. 

- Tenho vontade de gritar! Que nervos! Está tudo a correr tão mal! E logo hoje!!! – Estava triste e sem vontade de ser simpática com os homens que passam com as motorizadas bem devagarinho para me olharem as pernas, com uma ligeira baba no canto do lábio. 

Estamos num novo Paquistão que não tem nada de parecido com a zona norte do país que tanto gostámos. Com aquela zona que não queria fazer parte do Paquistão. 

Tive de parar para me acalmar. O Rafael não estava nos seus melhores dias. Respondia às perguntas dos homens, muito friamente, não estava com muitos sorrisos nem muitas conversas. Forçava o meu sorriso quando as mulheres me sorriam. A elas, eu queria cumprimentar e disfarçar a minha má disposição. Agora aos rapazes… ignorava-os! Para quê respeita-los se não me estavam a respeitar?

- Já que não podes falar com as mulheres deles, nem com às irmãs ou mães, já que não lhes podes tirar fotografias, eles também não têm nada que falar comigo!

Houve um rapaz que teve o azar de me acariciar a cara, pensando que não ia parar a bicicleta… Não pensei! Travei a fundo, saí da bicicleta e comecei a correr na direcção dele. A expressão dele mudou! Ficou atrapalhado e repetia o pedido de desculpas. Eu não pensei e se ele não começasse a correr feito louco, eu juro que não sei se me segurava! Atravessou a estrada, foi a sorte dele! 

A minha respiração estava descontrolada. Cheguei perto do Rafael, que ia à minha frente e que não tinha percebido muito bem o que tinha acontecido.

- Juro que se ele não tivesse fugido, tinha-o agredido! - Não foi bem essa palavra que usei mas aqui, fica melhor.

Parávamos para nos acalmarmos, parávamos para nos hidratar e pouco comer. O Rafael andou enjoado da comida, e não muito famoso do estômago. Já não podia ver Dall (lentilhas) nem chapati (pão) à frente, assim como picante! (E ainda não chegámos à Índia) 

Estávamos com 70 quilómetros e o dia não estava a melhorar e só piorou! O carro vermelho estava parado mas com o motor a trabalhar. Ultrapasso, olhando sempre para o espelho do condutor, para perceber se ia começar a andar ou não. O caminho estava livre, ele ficou fora do meu campo de visão, olhei em frente e… chão!

Não queria acreditar! Ele veio contra mim! Acelerou e acertou-me! Senti o embate do carro e “esborrachei-me” no chão. (Não encontro palavra para descrever o meu acto de “deslizar” no chão. O Rafael escolheu a palavra). “É desta que bato em alguém!”. Quando me levantei, o Rafael já estava aos murros ao carro e aos gritos com o homem que não saiu do carro. “Não lhe batas na cara, não lhe batas na cara.” Ia-me repetindo essa frase, até chegar perto do carro. Não lhe bati na cara mas o meu punho acertou-lhe com força no braço. Não com aquela força que desejava mas… ele nem pediu desculpas, nem quis saber se estava bem ou se a bicicleta tinha partido alguma coisa. Arrancou, mas deixou-me tempo de acertar no carro, com toda a minha raiva. Só tinha vontade de chorar mas segurei as lágrimas pois tinha-se juntado um grupinho de pessoas. 

Peguei na bicicleta e continuámos caminho até às primeiras bombas de gasolina. Estava bem, tive muita sorte! Muita sorte mesmo! Estava com as duas pernas pisadas e uma pequena ferido no joelho e cotovelo. Doía-me o ombro direito mas nada de grave. Não parti nada, nem fiz grandes feridas, e a maior sorte, foi de não ter passado nenhum carro nesse momento! 

O Rafael abraçou-me.

- Só tenho vontade de chorar… - E sem me controlar, chorei baba e ranho. Deitei cá para fora tudo o que podia, longe dos olhares das pessoas. Mais calma, volto para a minha bicicleta, para perceber os problemas que ela sofreu. Bonito! Fiquei sem mudanças traseiras. Lembrei-me da minha antiga Myka… O Rafael estava a tentar reparar a peça. Abriu-a e como não estava a conseguir ver nada, tentou tirá-la da bicicleta para perceber onde estava o problema.

- Não faças isso, ainda vais partir isso…

- Ups… Desculpa…

Fiquei sem reacção. O “dia não” estava a correr mal e estava! Agora a minha bicicleta estava empanada como eu. Só queria terminar o dia e fechar-me num hotel sem ver ninguém!

Chegámos a Lahore , depois de 105 quilómetros e mesmo tendo um couchsurfer, preferimos ficar sozinhos num hotel. Medo do mosquito do dengue que anda a assustar as pessoas de Lahore? Ele que venha, para festejar o nosso dia de aniversário de viagem! Um ano de Eurásia! Belo aniversário no “dia não”...

paquistão seguro

Passadas 22 horas, chegámos a Islamabad, ou melhor, chegámos a Rawalpindi que fica a alguns quilómetros da capital. Entrámos em contacto com o nosso couchsurfer e até o conhecermos, tivemos de percorrer 25 quilómetros numa grande confusão. Depois de uma noite mal dormida, foi difícil engolir estes quilómetros… Só desejávamos chegar rápido para podermos cair numa cama!

Conhecemos o Hanif no seu local de trabalho. Jantámos juntos, passeámos num parque onde vimos porcos selvagens, e já de noite, fomos para a casa de uns amigos, onde iríamos passar a noite.

Foram dias de muito calor! Um calor insuportável diria. Passámos os dias a suar, e com uma moleza gigantesca no corpo, o que nos obrigou a passar a maior parte do tempo a dormir em frente à ventoinha. 

Obrigámo-nos a sair para tratar do visto da Índia! Podia ter corrido pior, mas podia ter corrido bem melhor! Foi-nos recusado o visto de 6 meses…. 

- E se for apenas 4 meses? Precisamos mesmo de mais de 3 meses! - Pedimos, fazendo figas por detrás das costas.

- Podem tentar, com a vossa embaixada em Deli, estender o visto, mas não garantimos nada.
Nada feito ali. Ficámos com 3 meses e caso não possamos estender o visto, teremos de passar o Natal e a passagem do ano fora da Índia… e pedalar como loucos!

Voltando aos dias em Islamabad:

Passámos 4 noites em 3 sítios diferentes… as duas primeiras, em casa dos amigos, onde éramos obrigados a jogar cartas à força e onde queriam que representasse alguma coisa para eles. 

- És actriz? Faz qualquer coisa para vermos. Representa para nós! – Pedia um deles.
Foi difícil explicar que não tinha nenhum texto na cabeça e mesmo que tivesse, não era coisa que me iria apetecer. “Ah! Trabalhas num banco? Conta dinheiro para ver como fazes.” 

A terceira noite foi passada com a família, onde o Rafael esteve muito tempo sozinho, fechado num quarto, pois não podia ver a mãe, nem as irmãs dele. Isto já nos cansa um pouco. No dia seguinte, enquanto tomava banho, a senhora chamava por mim:

- Tanya! Tanya! -Gritou ela.

O Rafael abriu a porta e não queria acreditar no que estava a ver… A senhora estava escondida por detrás de uma cortina com o braço estendido, com o pequeno-almoço. 

- A Tanya está no chuveiro! – Disse pouco simpático e fechou a porta. 

O que podemos fazer? Temos de respeitar, mas há coisas que começam a cansar, ainda por cima, quando conhecemos uma pessoa bastante moderna, que viajou várias vezes pela Europa mas que diz que trabalhar num bar, num café ou restaurante, é trabalho de baixo nível. Ainda tentei explicar que trabalhei num restaurante e que gostei muito. Não me sentia humilhada por estar a servir, pelo contrário! Gostava muito do meu trabalho e andava sempre a sorrir. Ele não compreendeu…

Quarta noite, passámos no seu local de trabalho. Maravilha! Na pequena loja de câmbios e transferência de dinheiro existe, no andar de cima, um compartimento com meio metro de altura. Passámos uma bela noite sozinhos, com a nossa tão conhecida ventoinha das tardes de calor e internet por nossa conta! 

Fim das noites em Islamabad. De volta à estrada! O calor continuava insuportável! Todo o nosso corpo transpirava… Fizemos muitas paragens, bebemos muita água, muitos sumos, muitos milkshakes aos quais não conseguimos resistir! Ele é de manga, de maçã, de banana, de ananás… e muitas vezes, bebemos aos pares! Com tanto calor, o apetite é pouco ou nenhum, mas vingamo-nos nas bebidas e fruta!
Ainda não chegámos à Índia e já andamos doidos e fartos das buzinas injustificáveis, com o trânsito caótico, com as inexistentes regras de trânsito e com a falta de respeito pelos outros. O único ser com paciência na estrada, é a búfala! Atravessa lentamente a estrada, num passo elegante e importante. Morro de inveja ao vê-los nos rios, apenas com a cabeça de fora! “Aqui é que estou bem!”

Chegámos já de noite a Gujar Khan e foi difícil entrar um hotel, ou melhor, o primeiro que fomos, era muito caro, o segundo estava cheio e o terceiro não era permitido a entrada a mulheres… Não tínhamos muito por onde escolher… já estava escuro para sairmos da cidade para acampar. Hotel com empregados nada simpáticos, foi a nossa escolha.  

Saímos bem cedinho e parámos em Jhelum onde voltámos a ter a mesma dificuldade em arranjar hotel. Apenas dois hotéis nos aceitaram mas um deles já tinha morrido mas não sabia. O quarto não era mau, bem melhor que da noite anterior! Não tinha pêlos nem cabelos nos lençóis! 

Demos um pezinho de passeio e pela primeira vez, um empregado “enganou-se” na conta final. Não levámos muito a sério e pedimos para rever bem a conta, pois algo de errado se passava. Estávamos admirados com aquela situação, pois no Paquistão sempre foram correctos connosco! Depois das contas resolvidas, fomos à procura de algo que nos deixasse o estômago a sorrir. Gelados!!! Encontrámos o sítio perfeito com novidades para os nossos olhos e estômago! 

- O que é aquilo que as pessoas estão a beber? Que estranho! Quero um! - Não posso ver nada de diferente que quero provar!

Não sabemos o nome mas sabemos que é bom! É feito com leite, gelado, noodles frios, como havia no Irão, e umas sementes que conhecíamos também do Irão. Sabia a arroz doce ou pudim, ou não sei… era uma grande mistura de sabores que me agradou bastante!  

Estávamos satisfeitos com o nosso final de tarde e estávamos prontos para nos estendermos nas camas para um belo soninho cor-de-rosa! 

“Tok-tok-tok.” Não, não foi bem assim… recomeço:  “Pum, pum, pum!” - Melhor.

- Quem é? Que horas são? - Perguntei sem estar a gostar da brincadeira.

Era meia-noite e quarenta. O Rafael levantou e abriu a porta aos 5 polícias!

- O que é que estão a fazer no Paquistão? – Perguntaram com voz grossa.

- O que é que… a fazer? A dormir! Já passa da meia-noite e também fazemos turismo!

- Passaportes.

Depois de revista cuidadosa aos passaportes, um deles disse:

- Pedimos desculpas pelo incómodo. Vão ficar aqui dois guardas para vossa segurança.
Dito e feito. Na manhã seguinte, os dois guardas lá estavam! Passaram a noite ao relento a zelar por nós e saímos da cidade com uma carrinha a acompanhar-nos. Parecíamos a família real!

Novo dia de calor e de muita transpiração! A confusão do trânsito continuava. Os grandes camiões coloridos passavam por nós sem deixar de buzinar. Há umas buzinas com apenas uma nota musical mas há aquelas mais irritantes que mostram as suas capacidades para recriarem uma sinfonia. 


Entrar numa nova cidade, é uma aventura. 

- Cuidado. Agora podes. Vai, vai! Oh boi olha para a frente! Então pá! Estás parvo ou quê? Não paras, não? Vai, vai!...

Não é fácil e chegamos ao fim do dia mortos! Nesse dia parámos em Wazirabad e fomos à polícia, para ser diferente.

- É possível montar a tenda aqui, para passarmos uma noite segura? – Fica sempre bem dizer “noite segura”. 

Não encontrámos um agente da autoridade que soubesse falar inglês, mas pelos gestos, percebemos que iríamos para uma casa, onde poderíamos passar a noite. Maravilha! 

Ele não nos enganou, aquilo era uma casa mas estava desabitada e vazia. Preferimos dormir ao ar livre, pois no interior, parecia um zoo de insectos! O mais bonito que vi, foi um sapinho que não tirava os olhos de mim. Assustei-me varias vezes com o senhor sapo, a fixar-me o olhar… não tive coragem de o beijar…

- Não vais acreditar! – Disse o Rafael com um grande sorriso. – Temos net!

- Estás a brincar?

- Não estou nada! Vi o modem, experimentei liga-lo e dá! Sou bom ou não sou bom! - Só lhe faltou dizer “who is the dady?”

Se não fosse as constantes falhas de luz, teria sido bem aproveitada, mas a electricidade no Paquistão está sempre a falhar… “poupanças de energia” 

22h, e dois guardas chegam para tomarem conta de nós. Já estávamos a dormir mas eles queriam que o Rafael ficasse com eles para beberem a garrafa de álcool que tinham trazido em nossa honra.
 
- Não bebo, obrigado. 

- Então vamos ter de bebê-la nós. – Dito e feito! 

Noite terrível! Tínhamos o despertador para as 5:30 e estava a ser impossível adormecer! 
Eles falavam alto, apareciam mais guardas, voltavam a sair, tinham a música nas alturas... 

- Podem desligar a música? São 2 da manhã e não estou a conseguir dormir! – Não consegui ficar calada. Um deles não ficou muito contente com a minha reacção e pelo facto de ter de ficar sem música. Bufava, e baixinho repetia “não consigo dormir… não consigo dormir…”

Mais um cigarro, mais um “Rafael, vem para aqui”, mais um amigo que entra e que sai de moto, mais um copo de não sei o quê e de novo a música.

- Não estou a conseguir dormir!!! – Voltei a queixar-me com um tom de voz diferente.

“Não estou a conseguir dormir”, imitavam-me mas o mais importante, é que desligaram a música e passado algum tempo, foram dormir, arrastando a cama para o interior da casa. Duas horas mais tarde, o despertador toca…

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