Dias melhores

Não foi fácil negociar com os hotéis em Chitrakut, por isso decidimos ficar numa Darameshala, sítio os peregrinos hindus ficam.

O nosso quarto era bem humilde mas não precisávamos de mais. Pedimos dois cobertores mas preferimos dormir no interior dos nossos sacos-cama. Durante esta viagem, eles nunca foram lavados, mas acreditem que estão bem mais limpo e bem mais cheirosos que os cobertores oferecidos, depois de nos terem tentado alugá-los!

O primeiro contacto com a cidade, não foi de grandes amores. Chegámos cansados, não tivemos sorte com os hotéis, as pessoas bloqueavam-nos as passagens… Só queríamos chegar a algum lugar e respirar entre quatro paredes, sem ver ninguém!


Quando finalmente ganhámos coragem, saímos! Voltámos a não morrer de amores e pensámos em sair mais cedo. Não havia muitos turistas para nos podermos apoiar uns aos outros. O nosso quarto não era de grande conforto e não sentimos as pessoas calorosas. Ganhámos um amigo que nos mostrou a sua barraca de souvenirs. Ganhámos um inimigo quando o Rafael num acto de loucura partiu a sua calculadora com um golpe de karate. “Este é o meu homem” Senti um certo orgulho!

Ok, agora devem estar a pensar “Partiu a calculadora? O que aconteceu? Não é o Rafael uma pessoa tão calma?” É pois, mas há alturas que apetece acertar com um chumbo na pinta vermelha que têm na testa! (Não levem a sério os meus exageros, só me quero divertir no meio deste cansaço) Passo a explicar rapidamente o sucedido.

Fomos tomar o pequeno-almoço no mesmo restaurante do jantar da noite anterior. Gostamos de voltar aos sítios onde somos bem recebidos. Não pedi comida para mim. Esperei que chegasse a do Rafael para ver se estava picante. Claro que estava picante mas claro que estava com fome. Chamei o dono do restaurante:

- Se pedir metade da refeição, faz-me por metade do preço? Só quero o pão e o iogurte. Não quero o doce nem os vegetais. – Perguntei achando que seria um bom pacto para ambos.

- Sim, não há problema. – Continua simpático, o bom homem.

Na hora de pagar, ele entregou-nos o troco como se tivesse comido a refeição por inteiro!

- Não, nós perguntámos se era possível ter metade por metade do preço. O senhor disse que sim. – 
Explicou o Rafael.

- Não!

- Queremos o nosso trocou certo, porque foi o combinado. E se ela não comeu o doce nem os vegetais, lógico que tem de ser mas barato. – Continuava muito calmo.

- Não! – Insistia no não com cara de desprezo.

Eu comecei a perder a paciência e a chama-lo de mentiroso, de falso, de má pessoa. O Rafael pedia-me para ter calma e tentava explicar as coisas.

- Mas qual calma. Achas que ele não percebeu? Claro que percebeu! Ele não vai dar o dinheiro e não admito a forma como ele nos está a tratar!

O Rafael repetia-se em diferentes palavras e o senhor repetia-se na mesma palavra. A gota de água veio quando nos enxotou com uma expressão bem marcada de desprezo. É nesse momento que o Rafael, num só golpe, parte a máquina de calcular. Problema resolvido. Saímos bem devagar do restaurante, e ninguém veio atrás de nós!

São momentos como este que nos estragam o resto do dia. Perdemos a paciência, a vontade de passear e falar com as pessoas.

- Vamos embora amanhã? – Perguntei.

- E passamos a noite de natal onde?

- Qualquer sítio, não me importa.

Estávamos decididos a partir quando numa conversa com um indiano, mudámos de ideia.

- Hoje é lua cheia e vão chegar centenas de pessoas para festejar. Podem ficar mais um dia pois vai ser muito especial! – Disse-nos ele.

Ficámos… Mas porquê? O que foi que nos atraiu? Saber que viriam centenas de pessoas? Nós que fugimos delas acabámos por achar piada a ideia… mas porquê?

Demos uma oportunidade a Chitrakut e não nos arrependemos. Percorremos novas ruas onde descobrimos sorrisos. Tínhamos espaço para passear e uma ligeira paz apoderou-se de nós. Passámos a sentir um certo encanto.


O nosso Natal foi bastante nostálgico… telefonámos para a família e sonhámos com comida que poderia estar à mesa. Queríamos estar rodeados de amigos, estávamos a precisar de mimos… Jantámos cedo com uma alemã e fomos cedo para a cama. Vimos um filme, desejámos “Feliz Natal” com uma certa tristeza no olhar e adormecemos. O Natal nunca foi muito importante para ambos, até porque temos como costume viajar por esta altura mas depois de tanto tempo fora de casa, as saudades apertam!


O dia das centenas de pessoas, chegou! Mas que bagunça! Uns tomam banho, outros lavam a loiça, outros a roupa. Uns atiram lixo para o Ganges, outros bebem a água do mesmo. Há um enorme cuidado com a higiene pessoal. O corpo e cabelo ficam com uma bela camada de óleo, ficando assim protegidos contra toda a poluição que os rodeiam. Os bigodes são mimados mas também há os que preferem pele de bebé, deixando-se barbear em pleno passeio. As mulheres tratam dos seus longos cabelos, primeiro penteando-os com os dedos com movimentos energéticos e depois usando o pente que os deixa lisinhos. Tentávamos captar toda aquela informação. Queríamos absorver tudo.

Com o dia das centenas de pessoas, concluímos a nossa estadia em Chitrakut. Partimos em direcção a Varanasi e o caminho ficava bem mais interessante mas em terrível estado. Foi bom termos parado em Shankargarh para passar a noite. O nosso quarto por menos de um euro era de chorar a rir! O mais importante é que tínhamos todos os sacos em segurança. Tínhamos uma arte contemporânea em todas as paredes do edifício! Qual Pollock, qual quê! Os indianos são uns verdadeiros artistas a cuspir tinta vermelha! Passeamo-nos pela pequena rua, não querendo conhecer mais. Aquela rua era perfeita! 


Conhecemos pessoas simpáticas e a comida era óptima! Não precisávamos de mais nada! “Mas porque é que nos outros sítios as pessoas não são assim?” As buzinas continuavam bem presentes mas não éramos incomodados por mais nada! Esta pequena rua foi um bom achado, ou melhor, temos de agradecer à polícia indiana que nos levou até lá, quando pedimos ajudar para encontrar um sítio onde pudéssemos pernoitar.

De novo na estrada, na má estrada mas na sossegada estrada! Fizemos muitos quilómetros… andamos a fazer muitos quilómetros! Quando decidimos parar para procurar hotel, já estávamos com a língua ao dependuro de um dos lados… Não encontrávamos hotel… não existia hotéis em Jigna

- Vamos ter de acampar. – Disse o Rafael.

Ok, vamos lá a isso! Acampar na Índia! Não gostamos das histórias que lemos, de pessoas que se atreveram a pedalar na Índia e que tiveram o azar de acampar… Temos até amigos que o fizeram e contam que acordaram bem cedo, com um indiano a abrir a tenda para ver o que se passava no seu interior. Não queria imaginar algum a abrir a minha tenda! Não queria ter pessoas a olhar para mim enquanto monto a tenda. Depois de fazer muitos quilómetros, o que queremos é ficar sozinhos e descansar!   

O Rafael encontrou um sítio que, à primeira vista, parecia perfeito! Estávamos bem escondidos da estrada. 

Era cedo, por isso não arriscámos montar naquele momento a tenda. Preferimos esperar e deitarmo-nos. 

Apareceu o rapaz da casa em frente.

- Se precisarem de água podem pedir-nos. Estamos mesmo ali em frente.

- Obrigado mas não vamos precisar. Não há problema em passar aqui a noite? – Perguntou o Rafael.

- Claro que não! – Disse o rapaz despedindo-se de nós.

Até agora está a correr tudo bem! Começava a escurecer e acendemos uma fogueira. O rapaz voltou a aparecer com um amigo. Sozinhos são boas pessoas, mas acompanhados…

- Não quero chatear-me. Espero que não se armem em parvos. – O Rafael tentava ignorar, tal como eu.

Vinham com um pequeno tronco na mão que nos ofereceram para prolongar os minutos de vida da nossa fogueira. Agradecemos e percebemos pelo olhar dos miúdos que não eram uma ameaça! Foi um acto tão querido da parte deles que o nosso coraçãozinho derretia-se aos poucos. Depressa partiram.


Estava a correr tudo muito bem! Estávamos sozinhos, com a nossa fogueira e estávamos prontos para montar a tenda e começar a cozinhar pois o estômago já não se mantinha calado.

Tenda montada, jantar preparado, sacos-cama abertos, xixi feito, dentinhos lavados e “até amanhã”

5:30 da manhã e ouvíamos barulho bem perto da nossa tenda. Ficámos tensos… Uma hora depois, saímos da tenda. Os miúdos estavam a jogar críquete. Pararam mal nos levantámos e ficaram em silêncio a observar-nos. Começaram a aparecer mais pessoas, mas nada de entrarmos em pânico! Arrumámos tudo, trocando alguns sorrisos com os miúdos que continuavam admirados com todo aquele espectáculo.

Antes de partirmos:

- Podem dar-me um autógrafo?

Tentei explicar ao miúdo que não éramos famosos, nem pessoas importantes para dar autógrafos mas todo ele desejava uma assinatura. Aceitámos ficar eternizados num bastão de críquete!


Partimos satisfeitos com a nossa experiência de acampar na Índia! Estávamos mesmo muito satisfeitos e assim o dia correr às mil maravilhas! Fomos obrigados a deixar a pequena estrada para voltarmos para a principal. O silêncio desapareceu mas conseguimos chegar bem mais depressa a Varanasi!

Chegámos tão cansados que não fomos comparar hotéis. Fomos directos para a dica dos Mundo Pata a Fundo! Subimos os quatro longos andares e o nosso sorriso apareceu quando a água quentinha caiu nos nossos corpos!

Finalmente em Varanasi! Estamos proibidos de ficar apenas uma noite! Vamos descansar que bem precisamos! Precisamos ou merecemos? Hummm… Ambos!

Alma de Viajante

Mais uma cronica disponivel no site Alma de Viajante! Cliquem no link abaixo para ver!


 

Dicas - Vistos para a Asia Central

Este post muito comprido, fala em relação à obtenção de vistos na Ásia Central, uma zona que, depois de África, é talvez a que mais burocracia exija. Assim, tendo como exemplo a rota que fizemos, pois este site é dedicado ao cicloturismo, vamos tentar explicar da melhor forma possível a nossa experiência na obtenção destes vistos que tanta dor de cabeça dão a algumas pessoas!


TURQUIA – Fácil e barato! Custa 15 euros ou 20 dólares, pagos em euros ou dólares, somente. Não são aceites outras moedas e o melhor é levar já o dinheiro no bolso, pois não há local na fronteira para se trocar. Sempre entrámos de bicicleta, pela Bulgária e pela Síria e das duas vezes foi feito de forma muito rápida. Não precisam de fotografias, nem de preencher formulários. O visto é válido por 3 meses! Não temos ideia de como é em relação a extensões.


IRAQUE (CURDISTÃO) – Fácil e gratuito! Entrámos pela Turquia. Chega-se à fronteira, sentam-se nas incríveis poltronas na sala de espera, levam o vosso passaporte ao balcão devido, servem-vos chá enquanto esperam (o de kiwi é muito doce!) e passados uns minutos, têm o passaporte carimbado nas mãos, com duração para 10 dias. Podem, se desejarem, estende-lo em Erbil, mas não sei o custo (penso até que seja gratuito) e não sei por quanto tempo mais. Não precisam de fotografias, nem de preencher formulários. 


IRÃO – O visto pode ser muito complicado de tirar, como também muito, muito fácil. Enquanto em viagem, o local mais lógico para o adquirir é na Turquia. Há 3 cidades onde o podem fazer: Ankara, a capital; Trabzon, no nordeste; e Erzurum, outra cidade uns 300kms a sul de Trabzon! O sítio mais complicado é Ankara, já que é onde toda a gente o faz. Ouvimos por outros viajantes, que às vezes demora 1 mês a tirar o visto e garanto-vos, Ankara é a cidade menos interessante da Turquia. Nós pedimos boleia até Trabzon, bem lá no norte e fomos ao Consulado do Irão. Fizemo-lo em 3 horas e porque apanhámos a hora do almoço! Muito simpáticos, prestáveis e muito fácil! Precisam de duas fotografias tipo passe, preencher um formulário que vos dão à chegada e depositar a quantia que vos dizem, num banco perto dali. Eles explicam tudo! Pagámos 75 euros por um mês de visto. Em Ankara, ouvimos que era mais barato, embora não tenhamos a certeza, mas se passarmos 1 mês na capital, gasta-se muito mais dinheiro. Para as meninas: levarem fotografias com o cabelo tapado, é uma grande ajuda! Se quiserem ficar mais tempo, a extensão fica à volta de 30 euros por um mês e perde-se um tempo a fazê-lo, mas não há pressas em viagem! Fazê-lo fora de Teerão, é ser-se inteligente! Shiraz ou Esfahan são os melhores locais. Atenção: Não utilizem o site iranianvisa.com. Soubemos de muitas pessoas que ficaram sem dinheiro e sem visto.


TURQUEMENISTÃO – Chamam-lhe a Coreia do Norte da Ásia. O visto que obtemos é somente de 5 dias – visto de trânsito – e se quiseres ficar mais dias ou chegares atrasado à fronteira com o Uzbequistão, que fechava na altura às 17h, pagas 200 euros por dia! O visto foi tirado em Teerão, no Irão e demora entre 5 a 8 dias. Atenção: nunca é certo. É possivelmente o visto mais complicado, pois quem atende “não tem amigos” e há que saber lidar com isso. Leva um sorriso! Connosco, não houve qualquer problema. Temos de preencher um formulário que dão na altura, necessitas de 2 fotos tipo passe e dinheiro, claro, que se deve pagar na atura em que se levanta o visto. Muito importante: só dão o visto se já se tiver no passaporte o visto para o próximo país, ou Tajiquistão ou Cazaquistão, que é a maneira de perceberem que não vais ficar no Turquemenistão para sempre! Caso ainda não se tenha este carimbo de qualquer um destes países no passaporte, nem vale a pena tentar! Têm que deixar a respectiva fotocópia a confirmar. Há duas maneiras de tirar o visto: o rápido, que sai em 5 dias, se tudo der certo e o lento, que penso ser em 10, mas a diferença são 10 dólares ou qualquer coisa, daí ser preferível pagar pelo “rápido”! O preço são 55 dólares, mais 12 dólares de taxa na entrada do país (ou na saída, não me lembro) embora ninguém te consiga explicar a razão da taxa depois de já teres pago o visto. É também o visto mais complicado, porque têm de dizer o dia exacto de entrada no país. A partir desse dia, mesmo que ainda não se tenha chegado, azar, começa a contar! O sítio mais fácil onde tirar, ouvimos por outros viajantes, é Teerão. Tirar noutros países, como Uzbequistão, pode significar ficarem 1 mês à espera e nada.


UZBEQUISTÃO – Fácil e rápido! A única coisa é que tens de ter uma carta convite para entrar no país, que acontece com 10% dos países europeus e Portugal, claro, está incluído na minoria! Esta carta convite, é paga, claro! Ou seja, antes tens de escrever a uma empresa – a melhor é a Stantours, em quem realmente se pode confiar – e dizer que precisas da tal carta. Eles enviam-te um e-mail a dizer o que precisam. Normalmente é isto (só para se irem preparando):


If you wish to proceed we would request  your passport info, a copy of your
passport and a letter confirming your current employment / place of study by
e-mail attachment or fax and a full payment of USD 40 or EUR 28 per person
as follows:


 
1       Full Name (incl. name at birth or previous names if applicable):
2       Date of Birth :
3       City and Country of Birth :
4       Citizenship (also previous citizenship if changed) :
5       Passport Number :
6       Date of the passport issue and expiration :
7       Issuing authority :
8       Gender :
9       Marital Status:
9a      if married: spouse's full name:
10      Occupation, Place of Employment and type of business :
11      Address and phone number of place of work :
12      Accompanying children travelling on applicant's passport :
13      Previous visits (date, purpose and inviting party if applicable):
14      Port of Entry :
15      Date(s) of Entry and Departure :
16      Cities and Sites you wish to visit :
17      City/country where you will obtain visa :
18      Home Address and Phone number:

Beneficiary:    STANtours Ltd., Level 5, 369, Queen Street, Auckland 1010,
New Zealand, Fax +49 (3212) 1039960
Bank:           Aizkraukles Banka, 23 Elizabetes St., Riga, LV-1010, Latvia,
Fax: +371 6777 5200
Account # / IBAN:       LV16AIZK0001140106063
BIC/SWIFT:      AIZKLV22
 

O ridículo é que, teoricamente, se fores desempregado, não podes visitar o país! No entanto, se não tiverem emprego, escrevam uma carta falsa, com qualquer empresa que conheçam ou para quem tenham trabalhado e assinem por baixo, arranjem um carimbo e já está. Eles nunca confirmam! Quanto à quantia, eles informam sempre qual é, mas façam sempre o cálculo dólar – euro, para não haver erros no cálculo, por parte…deles, claro! Também têm que dizer a data de entrada no país, apesar de depois poderem sempre mudá-la, se não for muito diferente, dizendo que a calcularam mal, na altura em que forem à embaixada! A carta demora entre 10 a 15 dias a chegar e imprimem-na, juntamente com o formulário que vos enviam e levam duas fotos e dinheiro – 75 dólares – à embaixada em Teerão (a que nos usámos). Em 30 minutos o passaporte é-vos passado para as mãos! Fácil. Têm visto para 1 mês. Não sabemos como funcionam as extensões.


TAJIQUISTÃO – Simples! Tirámos o visto em Ankara e é outro que também têm que dar a data certa de entrada. No entanto, este tem a validade de 1 mês e só começa a contar 30 dias a partir da entrada no país. Precisam de cópias do passaporte, 2 fotos tipo passe e uma carta escrita por vocês (nem sempre pedido) a dizerem quais são as vossas intenções no país! 
 
Uma das estradas mais míticas do mundo, a Pamir Highway (sobre a qual escrevemos um artigo para a Visão, Vida & Viagens) é um ponto obrigatório de passagem, correndo 200kms lado a lado com o Afeganistão. Para esta estrada, é preciso uma autorização especial que pode ser tirada juntamente com o visto em qualquer embaixada, pagando mais 25 dólares. O visto custa 50 dólares para 1 mês. Esta autorização pode ser também tirada através de algumas agências – embora não aconselhemos por levarem muito dinheiro – ou em Dushanbe, a capital do país, no gabinete do GBAO (a zona onde a Pamir Highway se insere) e custa apenar 3 dólares e alguma luta na comunicação! Se quiserem percorrer o Wakhan Corridor, mesmo na fronteira do Afeganistão, têm que dizê-lo aquando da aquisição da autorização especial, pois o nome do checkpoint por onde passam a caminho do Wakhan Corridor tem de constar no passaporte. Quanto a extensões, ouvimos por alguns viajantes, que era quase impossível. 


QUIRGUISTÃO – Fácil! Mais uma vez, Ankara, na Turquia. Fomos à embaixada, preenchemos um formulário que nos dão e deixámos os passaportes, com as respectivas fotocópias do mesmo, 2 fotos tipo passe e dinheiro – 55 dólares para 1 mês. Nós tivemos de esperar um fim-de-semana, que é uma grande dor de cabeça, pois não tens passaportes. Não sei se era por ser sexta, ou porque é mesmo lei, mas não é normal! No entanto, podem tentar sempre perguntar se não podem ficar com os passaportes, inventando que vão para fora de Ankara e que precisam deles para se existir qualquer problema. Inventem! O responsável que vos atende é muito prestável! Quanto a extensões, nada sabemos.


Qualquer questão, perguntem!

I Love You em Fatehpur Sikri



Uma semana passada entre...

Se em Portugal tentamos fugir da rotina, há momentos na nossa viagem que a forçamos, a procuramos e vivemos pequenas rotinas que nos fazem sentir mais perto de uma vida dita normal. O simples facto de escolhermos um restaurante para fazermos as 3 refeições diárias, de nos encontrarmos com as mesmas pessoas durante alguns dias seguidos, de espalharmos as coisas no quarto, faz-nos relaxar e esquecer um pouco a roda-viva que são os nossos dias.

Khajuraho vai ficar marcada pelo casal que conhecemos. Tínhamos chegado a uma pequena cidade, sabendo que iríamos ver os tão famosos templos eróticos! Encontrámos um quarto silencioso, sem ter contacto com a rua ruidosa. Tudo estava a correr bem até darmos os primeiros passos no exterior, para um primeiro passeio sem grandes objectivos. Queríamos apenas sentir o ambiente.

É tudo a puxar para a sua loja, não para comprar, apenas para ver. Ok, se não podermos ver hoje, vemos amanhã. Os convites não param, e não entendem o não. Fugimos de um e já está o da loja vizinha a atacar. E se não podemos ver a loja dele, mais lá à frente há a do irmão. No meio de todos aqueles convites de todos aqueles “ Tenho calças Ali Baba, queres ver, tenho várias cores” aparece uma rapariga cheia de energia, que num inglês brincalhão, me seduz:

- Queres ver a minha loja, anda ver! Tenho muitas coisas a um bom preço, vem! Um bom preço só para ti!
Dei-lhe a mão e fugimos dos vendedores colantes. Depois de nos apresentarmos, o sorriso dela aumentou a olhos vistos quando dissemos que erámos de Portugal.

- Qui bom poder falar português, sou brasileira mas vivo em Israeu, aqui com o Dagan. – Disse-nos a Júlia, apresentando o seu namorado israelita.

No pouco tempo que tivemos fora do quarto do hotel, conseguimos ter uma opinião sobre o sítio mas ainda era cedo para assumirmos essa opinião. A Júlia e o Dagan já haviam tirado as medidas à coisa e não tiveram problemas em dizê-lo em viva voz.

- Isto é muito bonitinho mas quem estraga o sítio são os próprios indianos! É sacanagem! Não dá não! Puxa vida! Assim é mau pra ca#*!#lho! – Ok, estou a exagerar um pouco no português do Brasiu mas dá-me muito prazer, pois vimos o filme Tropa de Elite 1 e 2 e puxa, não dá para parar não com o português do Brasiu…

Foi amizade à primeira vista! Jantámos juntos, encontrámo-nos no dia seguinte e não mais nos largámos! Afogámo-nos em Lassi de limão que tinha o exacto sabor do nosso Fizz, o gelado que deixou de ser comercializado. Podem pegar num papel e numa caneta para não esquecer e podem começar a apontar: “não esquecer de provar o Lassi de limão na Universal Shop e é lá que se encontram as refeições mais baratas e bem saborosas de Khajuraho

Não fomos para Khajuraho apenas para comer… O nosso objectivo era ver os tão famosos templos hindus! Que mundo! “Voltas à Índia para voltar a ver o Taj Mahal ou os templos em Khajuraho?” Se nos fizerem essa pergunta, sabemos muito bem o que responder! “Os templos de Khajuraho!!!”



Todo o espaço encanta! Os templos são de se ficar de queixo a roçar no chão e não estejam ai a pensar que é por se ver imagens sexuais: orgias, mulheres  em posições sensuais, homens e cavalos num corpo só, elefantes voyeurs que, por si só, são impressionantes, pensando na época em que foram feitas. Os templos são de um trabalho imponente! A grandeza destes, deixam-nos pequeninos e com dores no pescoço tentando absorver tudo, fixar tudo, procurar todo o que o guia áudio nos indica. Podemos ir sem esses guias, mas recomendamo-los aqui, mais do que em qualquer lugar! Sem eles, em uma hora, percorremos todo o espaço, com eles, a visita chegará com certeza às 4 horas. Queremos ver tudo o que nos é dito e procuramos como crianças, todas as figuras que, sem o guia áudio, iriam passar despercebidas.


Não percam Khajuraho mesmo com toda a poluição sonora dos vendedores.

Hora da partida e cortar caminho no nosso trajecto, passando por uma barragem que nos deu luta! Teria tudo corrido bem se do outro lado não tivéssemos vários degraus que nos obrigassem a tudo tirar das bicicletas. Obstáculo vencido e continuámos viagem num belo dia de sol por caminhos que nos apresentam pequenas aldeias com olhares espantados e curiosos mas com outra gentileza. Contudo, sem grandes sorrisos.

Pensámos que por estarmos em terras onde os turistas não passam, pudéssemos ser melhor recebidos, que pudéssemos sentir o carinho das pessoas… Estávamos tão enganadinhos com os nossos pensamentos!

Chegámos a Ajaigarh onde pouco existe e onde o único hotel nos apresenta preços exuberantes. Tive a sorte de não ter ido ver os quartos, pois a cara do Rafael… coitadinho… parece que viu um fantasma! Saiu a correr do hotel a dizer que nem por um preço razoável, ficaríamos! A nossa última hipótese foi ficar nas casas de repouso do governo. Não fiquei contente com o preço apesar de não ser muito, mas quando sei que parte daquele valor vai para o rapaz que nos seguiu e que por muito que insistíssemos para ele não nos seguir, ele só tinha ideia de ganhar o dele e por isso fez ouvidos mudos, fico possessa. Pronto, fiquei com má cara e passei a ser a Tanya má junto ao Rafael “deixa lá”. Não tivemos outro remédio senão pagar as 50 rupias a mais… as 50 rupias que tentei por tudo não dar, acabando por ceder, engolindo todos os sapos, enrolando o rabo entre as pernas e entrando no gigantesco quarto com as bicicletas.

Fomos fazer uma passagem de modelos no exterior e tivemos muitos admiradores e ajudas para comprarmos fruta e água. Voltámos para o quarto e transformamo-lo em sala de cinema. No fim do filme, vivemos um autêntico filme de terror! Tínhamos o quarto cheio de formigas XXL que era impossível não as esmagar, ao caminhar. Parecia que tinham ossos pelo barulho que faziam por baixa da sola dos sapatos.

Passei-me! Isto não ia ficar assim! Saí do quarto e tentei falar com os homens responsáveis, com aqueles que não me baixaram o preço, mas só apareceu o empregado velhinho que pegou rapidamente na vassoura e foi varrer o quarto, repetindo as palavras “não há problema”. Como não há problema??? Claro que há problema! Levantei uma pedra que estava num canto e depressa ouvi um grito de negação ao mesmo tempo que muitas outras formigas invadiam o espaço.

Voltei a sair. “Não há problema. Isso é o que vamos ver. Ai não que não há!” Encontrei os responsáveis e comecei a minha luta.

- Estamos cheios de formigas e recusamos ficar naquele quarto! É ridículo o senhor estar a varre-las! Têm de nos arranjar outro espaço! Pagar o que estamos a pagar por um quarto sem água quente, sem luz e cheio de formigas é muito e é uma vergonha! – Continuei o meu discurso e a cara dos senhores mudou, de autoritários e indiferentes para pessoas gentis, pessoas preocupadas com o bem-estar dos outros.

Mudámos de quarto e tínhamos todos a servir-nos. O Rafael sorria pelo canto dos lábios quando passava por mim e eu sentia que estávamos perto da grande vitória. Acenderam velas, queriam-nos dar mais cobertores, mas não achámos necessário. Antes de saírem, terminei o meu discurso.

- E vão dar-nos as 50 rupias que deram ao rapaz que afinal não trabalha aqui! Queremos esse nosso dinheiro de volta porque vocês sabem que não estão a ser correctos!


Vencemos! Tivemos o dinheiro de volta e ficámos num quarto sem formigas! Cozinhámos, voltámos a ver um filme e dormimos com o sabor de vitória na boca.

Estávamos a um dia da cidade que baptizaram de pequena Varanasi. O nosso Natal foi nessa cidade onde tivemos bons momentos e onde o Rafael mostrou a sua força e mostrou o “quem manda aqui, hein?” Foi no caminho para essa pequena Varanasi que completámos 12000 quilómetros!

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