Dias assim

Agra não é uma cidade bonita mas tem o Taj Mahal. Tem também pequenas ruas onde vemos poucos turistas a circular. O nosso hotel estava na rua principal, onde todos os turistas se cruzam e onde encontrei restaurantes à minha medida - comida não picante (juro que gostava de picante… agora já não suporto).

Antes de vermos o tão famoso Taj, fomos visitar Fatehpur Sikri. Não fomos de taxi nem de auto-rickchaw, fomos num autocarro local que pegava de empurrão. Em Fatehpur Sikri, o mais interessante é a história que ficou gravada. Uma cidade que foi vivida apenas durante 14 anos… A população foi obrigada a abandonar tudo por causa da falta de água…
Podemos passearmo-nos durante horas! Os palácios estão na zona paga mas ambos pensamos que não vale a pena abrir os cordões à bolsa, pois os palácios são mais uns palácios e o que vemos de fora, já satisfaz os nossos olhos.

O bom de termos deixado uns trocos na bilheteira, foi conhecer a Vânia e o Delfim! Não foi difícil perceber que eram portugueses. Cheirei-os ao longe. Ela de Guimarães e ele de Barcelos - o norte estava bem representado. Combinámos um jantar e fizemos questão em não nos separarmos tão cedo. No pequeno-almoço do dia seguinte, estávamos os quatro na mesma mesa! Sabe tão bem falar português com outras pessoas, sem ser connosco, longe de Portugal. Não sabe bem, é ver que o meu português está cada vez pior, com gafes aos trambolhões.


Conhecemos outro casal tuga! Soubemos que os nossos caminhos se iriam cruzar graças ao tão famoso Facebook. Eles seguem desde o início o nosso blog e nós vamos passar a estar mais atentos ao deles! Eles são os Mundo Pata a Fundo – a Cláudia e o Pedro. Jantámos, pequeno-almoçamos e cada um continuou a viagem por caminhos diferentes. Podem segui-los, sem deixarem de nos seguir, em www.mundopatafundo.blogspot.com


Ficámos dias a mais em Agra… Não estava nos nossos planos esses 5 dias mas tivemos um pequeno problema…

O Rafael andava fulo! Era a vez dele de reclamar com tudo e com todos! Eu estava mais calma e contente por ser ele o trombudo. Andava preocupada a pensar que me tinha transformado num monstro carrancudo… Só me ria com as reacções dele e guardava os meus insultos para outra ocasião.

O dia reservado para o Taj Mahal, foi por água abaixo… Perdemos muito tempo à procura de uma bilheteira que ficava a mais de 3 quilómetros! A outra bilheteira ficava do outro lado do Taj… Podíamos ter ido para lá mas não… Fomos perder tempo e desistimos. Quando olhámos para as horas e vimos a fila para entrar, achámos melhor deixar para o dia seguinte.
Dia seguinte – Sexta-feira... Dia de descanso do Taj. Há que dar descanso aos guardas que passam o dia com o apito na boca a ensurdecer um pouco mais os ouvidos das pessoas.
Dia seguinte – Sábado… Mar de gente, mar de indianos que mesmo não podendo levar nada de comida para o interior, conseguem deixar garrafas de água nos jardins… É-lhes tão difícil manter algo limpo! Fomo-nos misturar com esse mar de gente.





Vale a pena ver o Taj Mahal? Oh, sim! O túmulo, a história, os jardins… Vale a pena chorar os muitos tostões para poder ver todas aquelas pedrinhas cravadas nas paredes, para ver o que o amor fez construir e pensas “Onde será que o Rafael irá construir o meu túmulo?” e ao mesmo tempo que penso, ele também pensa “Fica mais barato queimar a Tanya em Varanasi”.

Centenas e centenas de pessoas, milhares e milhares de disparos para o grande túmulo. Para ver os túmulos, tivemos de nos juntar à fila que dava duas voltas ao monumento do amor.

Finalmente no interior do túmulo e o meu queixo caiu… Fiquei paralisada com tamanha beleza. Ver todas aquelas pequenas flores, toda aquela grandeza delicada, deixou o meu coração apertadinho. Estava num pequeno paraíso que depressa se tornou num verdadeiro inferno quando um dos guardas apita bem perto dos meus ouvidos e me faz sinal para continuar a marcha.

- O quê?! Sabes quanto é que paguei para estar aqui? Deixa-me em paz! Saio quando bem me apetecer!

Os indianos entravam e saiam com a onda, ao mando dos apitos e dos guardas que os varriam porta fora. Fui ter com um guarda e com os dedos na boca, assobiei bem alto nos seus ouvidos, mas só lhe provoquei o riso e uma aprovação, como se o que estivesse a fazer fosse exactamente o que deveria. Achei melhor tentar ignorar toda aquela poluição sonora e voltar a mergulhar num mundo cheio de amor.

Fim de Agra e partimos para Dholpur onde ficámos numa Gurduara – os templos para os Sikhs. Uns adolescentes mostraram-nos o caminho e fizeram questão de continuarem connosco. O nosso quarto não tinha porta – perfeito para os nossos amigos que não conhecem a palavra privacidade. Levaram-nos para almoçar num dos poucos restaurantes da terra. Troquei o almoço por batatas fritas pois o restaurante é para locais e não para turistas, o que significa, comida que faz transpirar e pingar do nariz.

De novo nas estradas indianas e nunca imaginaríamos que na próxima cidade iríamos estar com o vencedor de um concurso de televisão: X-Factor. O Super-Star é de Gwalior e com ele, ficámos invisíveis pois todas as atenções eram para o próprio mas tivemos o nosso quê de popularidade. Demos duas entrevistas para dois jornais locais e filmaram-nos durante 5 minutos, para falarmos um pouco da nossa viagem e para dizermos que estávamos em casa da grande vedeta. Como o nosso anfitrião Super-Star é cantor, eles pediram para que cantássemos uma canção portuguesa… Quem me conhece, sabe que não canto, não encanto e que não vale a pena insistirem para me ouvirem a cantar, assim como quem conhece o Rafael, sabe que a sua voz não tem qualquer tipo de beleza. Eles insistiram e comecei a sentir a Tanya com cara de poucos amigos. Acho que eles compreenderam e depressa deixaram de insistir.


O Super-Star levou-nos a passear vendo todos os monumentos do exterior, dizendo que o interior não era interessante, que não valia a pena pagar para ver ruínas iguais a todas as outras. Aceitámos o conselho e fotografamos os patinhos que contornavam o forte. Gostámos do que vimos, das cores e figuras não usuais em fortes de tão longa data.


De novo nas estradas indianas, desta vez bem mais calmas. Saímos da grande estrada e encontrámos algum sossego. Algum! As bicicletas dos outros continuavam a querer competir, as pessoas continuavam a rodearem-nos com medo que nos sentíssemos sozinhos. Chegávamos ao fim do dia, cansados, mortos, derreados…

Chegámos a Datia e queríamos encontrar um hotel para nos podermos fechar do mundo e descansar. Não conseguimos satisfazer os nossos desejos e fomos obrigados a procurar uma Gurduara. Esta foi das mais cansativas pois não conseguimos ter 5 minutos sozinhos… Tirámos fotografias, conhecemos o irmão e depois as primas e depois mais fotografias e trocas de e-mail e para enviar as fotos e depois deitam-se bem perto do Rafael com as mãos em cima dele, na esperança que ele lhes desse a mão, sim, porque já eram os melhores amigos! Esse é um espectáculo que gosto de ver e divirto-me.

Antes da despedida, tivemos de tirar novas fotografias, desta vez, junto ao túmulo que guardam. Não podemos dizer não a algo tão importante para eles. Enquanto protegia as nossas meninas, o Rafael foi chamado para rezar com eles. Agora sim, estávamos prontos para partir e conhecer Orchha, que nos surpreendeu!

Encontrámos um pequeno hotel, com um pequeno quartinho, com uma pequena casa e banho, e para fugirmos da comida indiana (às vezes é preciso) decidimos cozinhar no nosso pequeno quartinho! Precisamos destes momentos alones e esses momentos alones aqui na Índia, são sagrados como as vacas, os ratos, as serpentes, os macacos…

Conseguimos encontrar silêncio nesta pequena cidade. O rio com os seus grandes pedregulhos, obrigou-nos a dar uso às nossas máquinas. Caminhar sem o som das buzinas é algo raro neste país, mas quando encontramos esses momentos, todo o nosso corpo e alma agradece!


O que falta em Orchha são bons professores de inglês, pois o vocabulário das criancinhas é muito vago…

- Hello, pen school, money, chocolate, biscuit, caramel…

Nada mais… Triste, muito triste. E é triste quando vemos raparigas de 15 anos, com o mesmo vocabulário…


Orchha é um destino obrigatório mas fujam das lindas criancinhas! Fujam sem pena! Elas podem destruir toda a paz que recarregaram em vós! Não só pela falta de bom inglês mas pela agressividade e falta de respeito pelos cães…


O caminho ficava cada vez melhor. Muito mais sossegado, a curiosidade das pessoas era mais compreensiva (o que não significa que não seja cansativo) e as buzinas, fora das aldeias, são quase inexistentes. Em Alipura, fomos pela primeira vez convidados por uma família indiana! Ficámos muito contentes pois já estávamos a pensar que teríamos de acampar, coisa que não queríamos mesmo experimentar aqui, pelas histórias que ouvimos.

Fomos convidados por uma família que insistiu para que ficássemos mais um dia, mas os nossos dias estão bem contados e não podemos dar ouvidos à preguiça e à vontade de ficar um pouco mais nos sítios. O homem estava feliz por estarmos lá em casa e nós estávamos contentes por termos conhecido um casal que se preocupava com a educação dos filhos e estão a fazer um bom trabalho pois têm dois filhos que nos cativaram!

Antes de entrarmos em casa, a minha cabeça não parava com maus pensamentos… Como nunca fomos convidados, como ouvimos algumas más histórias, estava um pouco com medo… “Será que ele é de confiança? Será que o chá vem com veneno? Ainda por cima ele é médico e deve ter facilidade em arranjar essas coisas…”

Correu tudo muito bem e voltámos para a tranquila estrada até Khajuraho. Têm corrido bem estes dias de aventura pelas Índias, onde ficamos muitas vezes parvos com o que vemos, mas que são pitadas de especiarias para enriquecer os nossos dias.


1 comentário:

Pipa disse...

Gosto muito daqueles pozinhos cheios de cor, mas ainda não percebi muito bem para que são utilizados.

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