Uma semana passada entre...

Se em Portugal tentamos fugir da rotina, há momentos na nossa viagem que a forçamos, a procuramos e vivemos pequenas rotinas que nos fazem sentir mais perto de uma vida dita normal. O simples facto de escolhermos um restaurante para fazermos as 3 refeições diárias, de nos encontrarmos com as mesmas pessoas durante alguns dias seguidos, de espalharmos as coisas no quarto, faz-nos relaxar e esquecer um pouco a roda-viva que são os nossos dias.

Khajuraho vai ficar marcada pelo casal que conhecemos. Tínhamos chegado a uma pequena cidade, sabendo que iríamos ver os tão famosos templos eróticos! Encontrámos um quarto silencioso, sem ter contacto com a rua ruidosa. Tudo estava a correr bem até darmos os primeiros passos no exterior, para um primeiro passeio sem grandes objectivos. Queríamos apenas sentir o ambiente.

É tudo a puxar para a sua loja, não para comprar, apenas para ver. Ok, se não podermos ver hoje, vemos amanhã. Os convites não param, e não entendem o não. Fugimos de um e já está o da loja vizinha a atacar. E se não podemos ver a loja dele, mais lá à frente há a do irmão. No meio de todos aqueles convites de todos aqueles “ Tenho calças Ali Baba, queres ver, tenho várias cores” aparece uma rapariga cheia de energia, que num inglês brincalhão, me seduz:

- Queres ver a minha loja, anda ver! Tenho muitas coisas a um bom preço, vem! Um bom preço só para ti!
Dei-lhe a mão e fugimos dos vendedores colantes. Depois de nos apresentarmos, o sorriso dela aumentou a olhos vistos quando dissemos que erámos de Portugal.

- Qui bom poder falar português, sou brasileira mas vivo em Israeu, aqui com o Dagan. – Disse-nos a Júlia, apresentando o seu namorado israelita.

No pouco tempo que tivemos fora do quarto do hotel, conseguimos ter uma opinião sobre o sítio mas ainda era cedo para assumirmos essa opinião. A Júlia e o Dagan já haviam tirado as medidas à coisa e não tiveram problemas em dizê-lo em viva voz.

- Isto é muito bonitinho mas quem estraga o sítio são os próprios indianos! É sacanagem! Não dá não! Puxa vida! Assim é mau pra ca#*!#lho! – Ok, estou a exagerar um pouco no português do Brasiu mas dá-me muito prazer, pois vimos o filme Tropa de Elite 1 e 2 e puxa, não dá para parar não com o português do Brasiu…

Foi amizade à primeira vista! Jantámos juntos, encontrámo-nos no dia seguinte e não mais nos largámos! Afogámo-nos em Lassi de limão que tinha o exacto sabor do nosso Fizz, o gelado que deixou de ser comercializado. Podem pegar num papel e numa caneta para não esquecer e podem começar a apontar: “não esquecer de provar o Lassi de limão na Universal Shop e é lá que se encontram as refeições mais baratas e bem saborosas de Khajuraho

Não fomos para Khajuraho apenas para comer… O nosso objectivo era ver os tão famosos templos hindus! Que mundo! “Voltas à Índia para voltar a ver o Taj Mahal ou os templos em Khajuraho?” Se nos fizerem essa pergunta, sabemos muito bem o que responder! “Os templos de Khajuraho!!!”



Todo o espaço encanta! Os templos são de se ficar de queixo a roçar no chão e não estejam ai a pensar que é por se ver imagens sexuais: orgias, mulheres  em posições sensuais, homens e cavalos num corpo só, elefantes voyeurs que, por si só, são impressionantes, pensando na época em que foram feitas. Os templos são de um trabalho imponente! A grandeza destes, deixam-nos pequeninos e com dores no pescoço tentando absorver tudo, fixar tudo, procurar todo o que o guia áudio nos indica. Podemos ir sem esses guias, mas recomendamo-los aqui, mais do que em qualquer lugar! Sem eles, em uma hora, percorremos todo o espaço, com eles, a visita chegará com certeza às 4 horas. Queremos ver tudo o que nos é dito e procuramos como crianças, todas as figuras que, sem o guia áudio, iriam passar despercebidas.


Não percam Khajuraho mesmo com toda a poluição sonora dos vendedores.

Hora da partida e cortar caminho no nosso trajecto, passando por uma barragem que nos deu luta! Teria tudo corrido bem se do outro lado não tivéssemos vários degraus que nos obrigassem a tudo tirar das bicicletas. Obstáculo vencido e continuámos viagem num belo dia de sol por caminhos que nos apresentam pequenas aldeias com olhares espantados e curiosos mas com outra gentileza. Contudo, sem grandes sorrisos.

Pensámos que por estarmos em terras onde os turistas não passam, pudéssemos ser melhor recebidos, que pudéssemos sentir o carinho das pessoas… Estávamos tão enganadinhos com os nossos pensamentos!

Chegámos a Ajaigarh onde pouco existe e onde o único hotel nos apresenta preços exuberantes. Tive a sorte de não ter ido ver os quartos, pois a cara do Rafael… coitadinho… parece que viu um fantasma! Saiu a correr do hotel a dizer que nem por um preço razoável, ficaríamos! A nossa última hipótese foi ficar nas casas de repouso do governo. Não fiquei contente com o preço apesar de não ser muito, mas quando sei que parte daquele valor vai para o rapaz que nos seguiu e que por muito que insistíssemos para ele não nos seguir, ele só tinha ideia de ganhar o dele e por isso fez ouvidos mudos, fico possessa. Pronto, fiquei com má cara e passei a ser a Tanya má junto ao Rafael “deixa lá”. Não tivemos outro remédio senão pagar as 50 rupias a mais… as 50 rupias que tentei por tudo não dar, acabando por ceder, engolindo todos os sapos, enrolando o rabo entre as pernas e entrando no gigantesco quarto com as bicicletas.

Fomos fazer uma passagem de modelos no exterior e tivemos muitos admiradores e ajudas para comprarmos fruta e água. Voltámos para o quarto e transformamo-lo em sala de cinema. No fim do filme, vivemos um autêntico filme de terror! Tínhamos o quarto cheio de formigas XXL que era impossível não as esmagar, ao caminhar. Parecia que tinham ossos pelo barulho que faziam por baixa da sola dos sapatos.

Passei-me! Isto não ia ficar assim! Saí do quarto e tentei falar com os homens responsáveis, com aqueles que não me baixaram o preço, mas só apareceu o empregado velhinho que pegou rapidamente na vassoura e foi varrer o quarto, repetindo as palavras “não há problema”. Como não há problema??? Claro que há problema! Levantei uma pedra que estava num canto e depressa ouvi um grito de negação ao mesmo tempo que muitas outras formigas invadiam o espaço.

Voltei a sair. “Não há problema. Isso é o que vamos ver. Ai não que não há!” Encontrei os responsáveis e comecei a minha luta.

- Estamos cheios de formigas e recusamos ficar naquele quarto! É ridículo o senhor estar a varre-las! Têm de nos arranjar outro espaço! Pagar o que estamos a pagar por um quarto sem água quente, sem luz e cheio de formigas é muito e é uma vergonha! – Continuei o meu discurso e a cara dos senhores mudou, de autoritários e indiferentes para pessoas gentis, pessoas preocupadas com o bem-estar dos outros.

Mudámos de quarto e tínhamos todos a servir-nos. O Rafael sorria pelo canto dos lábios quando passava por mim e eu sentia que estávamos perto da grande vitória. Acenderam velas, queriam-nos dar mais cobertores, mas não achámos necessário. Antes de saírem, terminei o meu discurso.

- E vão dar-nos as 50 rupias que deram ao rapaz que afinal não trabalha aqui! Queremos esse nosso dinheiro de volta porque vocês sabem que não estão a ser correctos!


Vencemos! Tivemos o dinheiro de volta e ficámos num quarto sem formigas! Cozinhámos, voltámos a ver um filme e dormimos com o sabor de vitória na boca.

Estávamos a um dia da cidade que baptizaram de pequena Varanasi. O nosso Natal foi nessa cidade onde tivemos bons momentos e onde o Rafael mostrou a sua força e mostrou o “quem manda aqui, hein?” Foi no caminho para essa pequena Varanasi que completámos 12000 quilómetros!

Sem comentários:

Posts mais populares