Varanasi

Já não nos encontramos em terras indianas. Andamos a tropeçar em sorrisos e recebemos boa disposição aos pontapés.

Mas antes de vos mostrar as nossas pessoas em biquíni e calção às flores, vou vos contar rapidamente as nossas últimas semanas no país que me deixou muito desiludida… cansada, enraivecida, irritada e mais não digo.

Varanasi foi como respirar ar fresco! Não procurámos novidades, não nos esforçámos para levantar o rabo gordo da cadeira do terraço do hotel (este preferia deixar o estômago a gritar vivas de alegria) para procurar coisas para visitar. Turistas = comida para turistas com toque indiano = nós gostamos. Fomos, recomendado por grandes amigos, a uma pizzaria onde dizem haver uma tarte de maçã que deixa o estômago a chorar por mais e este tenta ganhar tamanho para poder receber mais coisas boas. Verdade verdadinha! As pizzas podiam ter um pouco mais de sal, mas a lasanha e a tarte… Hummmm… Fomos ao céu três vezes!

O que não tinha aspecto de céu era o nosso quarto. Parecia que estávamos numa cela… Tentámos personalizar o quarto para no sentirmos bem. Estendemos uma corda para pendurarmos a roupa que finalmente foi lavada. A corda servia para estender roupa seca também … Era isso ou ficar no chão, ou espalhada na cama, ou por cima dos sacos… Nem uma mesinha tínhamos… Na janela que dava para o corredor, guardávamos a comida. O pequeno-almoço era tomado na cama.

Comprámos manteiga, Nutella (que doidos), geleia, pão e tostas. Comprámos uma torradeira para fazermos tostas de queijo e para espalhar inveja pelo corredor! O quarto transformava-se em sala de cinema onde a última sessão terminava muitas vezes às 3 da manhã. Sim, porque no dia seguinte não havia trabalho, nem temos-de-nos-levantar-cedo-para-irmos-ver-coisas.

Relaxámos e tentámos manter a calma, ignorando as pessoas à nossa volta.

Respondemos não a quase tudo. Mal via alguém a aproximar-se, dizia ao Rafael.

- Diz não.

- Barco? Barato, 100 rupias… 50… para vocês 30 (…) Massagens as mãos e à cabeça? (…) Querem tirar uma foto? (depois pedem dinheiro por esta) (…) Isto e aquilo? Querem? (…) Tenho mais cores e tamanhos lá dentro. (…) Haxixe?

- Não, obrigado. Não. Não. – O Rafael não variava muito nas respostas.

Em Varanasi, não achámos as pessoas tão chatas como nos outros sítios. Gostámos de lá estar e até cumprimentámos as pessoas com outra disposição. O Rafael muito mais simpático que eu, é certo. Tenho uma grande dificuldade em fazer as pazes com o povo indiano… Correu tudo muito bem. Ou melhor: Correu quase tudo muito bem. Claro que houve uma discussão. Claro que fiz frente a um rapaz sem medo das suas acções e claro que ficámos chateados com aquela situação desnecessária. Tudo começou no crematório, assim:

Era uma vez os 2numundo na Índia, em Uttar Pradesh, em Varanasi, no crematório. (imaginem o Google mapa a fazer zoom) Era tudo novidade para ambos mas, para falar verdade, eles não sentiram o grande choque que muitos dizem sentir. Será por terem visto os indianos a enfrentar a morte com naturalidade? Sem lágrimas? Será por terem ouvido falar tantas vezes sobre o sítio e terem visto algumas imagens? A verdade é que eles olhavam para os corpos a arder, não como uma churrascada entre amigos, claro que não, mas como uma cerimónia mais que natural e com muito respeito. Estavam curiosos e diziam baixinho:

- Olha, estão a colocar cocos entre a lenha. Olha, estão a colocar montes de incenso. É o filho mais velho que ateia fogo? – Disse a Tanya (uma beleza de pessoa, um carinho de pessoa, um mimo de pessoa que, por vezes, sofre de ataques fortes de irritação).

gostosão do nosso protagonista Rafael, também ele uma beleza de pessoa, que tenta acalmar a magnifica Tanya em diversas situações, comentava o que via:

- Os cães andam à procura de carne… Que impressão. Olha ali, um pé…

Estavam os dois bem sossegados, sempre com respeito mas atirando um para o outro pequenas gracinhas, como por exemplo: “Se um indiano me chatear muito, digo que ele está a juntar lenha para se queimar”, quando um indiano os veio chatear mesmo a sério. Oh pobre 2numundo que não conseguem ter um dia de sossego neste país.

- Não podem tirar fotografias. Estão com um grande problema.

- Mas qual problema? Não estamos o tirar fotografias! Sabemos respeitar os locais onde nos encontramos! – Disse o Rafael, não se querendo chatear.

A nossa super Tanya, tem um dedo que adivinha e conseguiu ver o futuro nas águas do Gange, sabia que não iriam ter sossego tão cedo.

- Eu vi que tiraram muitas fotografias. – Insistia o rapaz com o queixo a tremer mostrando o seu ar de mauzão que não os assustava nem um pouco.

Apareceu outro indiano que estava com a boca cheia e que cuspiu ali mesmo como um dragão cospe fogo e insistia em dizer que estávamos metidos num grande problema e que queria ver as fotos.

- Não mostro as fotos, até porque posso ter fotografias íntimas que não podem ser vistas por olhos alheios. Se quiserem, vamos à polícia resolver o assunto. – Nova intervenção do Rafael.

A Tanya fixava o olhar do rapaz dos queixos nervosos. Olhos nos olhos, eles enfrentam-se.

Mas o que é que os nossos aventureiros iriam resolver na polícia? Eles não podem esquecer que estão na Índia, país onde a polícia é paga para fechar os olhos e onde procuram nada fazer . A confusão aumentou, assim como o número de indianos que os rodeava. O Rafael já falava mais alto e a Tanya já falava com o dedo esticado, bem perto dos queixos do outro. O Rafael tentou fazer uma pergunta mas ficou a perceber que eles não o tinha percebido.

- Se de facto tirámos fotografias do crematório, estamos num grande problema. Ok, tudo bem. E se por acaso não tivermos? O que acontece?

- Nada.

- Nada?! Estamos aqui a perder este tempo todo, estão a acusar-nos desta maneira, a falar connosco nestes modos e não acontece nada? Não somos”recompensados”?

Não perceberam, os pobres indianos…

A história termina com um indiano, no meio da confusão, a fazer sinal aos 2numundo para se irem embora, para não fazerem caso daquelas pessoas que só querem arranjar problemas e querem umas notas para acalmar as coisas. Eles ouviram o senhor e passaram a ignorar a multidão enraivecida e partiram.

Victória victória… e acabou-se a história.


Varanasi foi a cidade escolhida para a passagem do ano! Que boa escolha! A prisão… Desculpem… O hotel onde nos encontrávamos, decidiu pagar o jantar a todos os reclusos… peço perdão… Hóspedes. O terraço estava vestido a rigor, com luzinhas a piscar e balões de diversas formas e feitios. Os indianos abriram a pista de dança com muita animação! Todos nós fomos atraídos pelo espectáculo, pelos movimentos de anca em grande velocidade e pela dança dos braços. Incrível! 
Terminei 2011 com um convite hilariante!

- Dás-me um minuto contigo na casa de banho? – Perguntou-me um indiano que não costuma beber cervejas.

Um minuto? E porque não 5 minutos? Tem mesmo de ser só um? Oh… Assim não tive outro remédio senão negar o seu pedido. Estava bem-disposta por isso não houve problemas e até sorri para o pobre rapaz que não fez mais que tentar a sua sorte.

5, 4, 3, 2, 1 BOM ANO! Éramos muitos a festejar, eram muitos os beijos e os abraços quando 3, 2, 1 Bom ANO! Estaremos a ter um déjà vu? Tal com fazem em Espanha, o primeiro festejo foi um pequeno treino que os indianos acharam por bem realizar. A música continuava com força e os indianos continuavam com cervejas nas mãos. A festa terminou mais cedo pois os indianos começaram a adoptar muita sexualidade nos movimentos e os donos do hotel acharam por bem terminar com a música! Fim de festa…

Não estávamos com cabeça prontos para partir… Voltar a pedalar na Índia era coisa que nos fazia ficar doentes só de pensar.

Estávamos a tomar o pequeno-almoço com roupa de partida quando o Rafael quebrou o silêncio:

- Não queres apanhar um comboio e terminávamos com as pedaladas por aqui?

- Adoro-te! És o meu herói! Sim, sim, sim!

Comprámos o bilhetes e sorrimos de orelha a orelha!  

1 comentário:

Vento no Cabelo disse...

Olá! Estou a gostar muito do vosso blog. Que aventura! :-) Os meus parabéns pela coragem.
Também estive em Varanasi pouco antes do fim do ano e realmente eles não podem ver um turista de máquina na mão junto aos burning ghats, mas percebe-se não é? Nós não tivemos problemas.
Vejo é que falam da Índia com um certo "ódio de estimação" :-) realmente é um país desconfortável :-) Mas pode ser que daqui a uns tempos tenham saudades daquele caos todo.
Não há mais nenhum sítio assim :-) ** Boa viagem!

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