Na crista do Galo


“Ai não pagaste ali, pagas aqui!” Foi o que aconteceu. Bem-vindos ao Laos e aqui não refilem muito, se quiserem entrar.

Entregámos os passaportes, pagámos os vistos e dirigimo-nos à sala dos carimbos. Sem eles não podemos entrar no país e para tê-los, temos de pagar.

- 2 dólares cada um. – Disse-nos um dos guardas trombudos.

- Não é a primeira vez que entramos no país. Sabemos que não temos de pagar nada. – Se resultou num lado, tem de resultar no outro.

- 2 dólares cada um. – Insistiu sem retribuir o sorriso.

De nada valeu reclamar e estrebuchar. Tivemos de pagar… Não podiam carimbar na altura que pagamos os vistos? Se o visto está pago, é sinal que podemos entrar no país, certo? Esses 2 dólares são para quem? Detesto polícias!

- Tenha um bom jantar com o nosso dinheiro. – Assim me despedi e recebi um sorriso.

Mau começo. Não deixámos que este acontecimento afectasse o nosso dia. Não servia de nada reclamar. Alimentámos os bolsos daquele guardas e pronto. Que sejam felizes!

A nossa primeira bela paragem foi em Don Det, numa das 4 mil ilhas. Maravilha das maravilhas! Passámos três noites e se pudéssemos, teríamos ficado muito mais, mas o tempo não nos permite tais luxos… O Laos terá de ser feito a correr, ou melhor, a pedalar como doidos para podermos sair a tempo.

Escolhemos um quartinho bem humilde com vista para o Mekong. Repouso absoluto! Tínhamos uma pequena varanda, onde tomávamos o pequeno-almoço e preparávamos o jantar, onde líamos e escrevíamos no portátil, onde lavámos as meninas e onde o Rafael remendava os muitos furos que teve… O pobre… É a sina!


Pedalámos pela ilha e estávamos rendidos. A exploração terminou quando o Rafael caiu numa pequena descida com forte inclinação. O forte dele é arriscar e atirar-se de cabeça a desafios cheios de adrenalina. Muitas vezes correm mal, e esta não foi excepção! Eu consegui ver o filme todo, mesmo antes deste acontecer. A roda de trás levantou fazendo uma bela égua aos coices. Catrapus-pus-pus! Belo tombo!

- Estás bem? – Perguntei para saber se podia ou não soltar fortes gargalhadas.

- Sim, acho que sim. – Respondeu sem se mexer.

Pronto, não partiu nada e este foi o sinal para começar com a galhofa! Hora das fotografias, e de um pequeno filme. A galhofa terminou quando quis desligar a máquina e esta não desligou… A objectiva não fechou mais… Aconteceu o mesmo problema que tinha acontecido à G10 do Rafael… Fiquei sem máquina! Não queria acreditar. Fim do passeio. Voltámos para o quarto com umas trombas de elefante, tentando não pensar no assunto. Aconteceu, aconteceu, pronto, nada a fazer…

Eu estava numa de pouco sair, pouco visitar. Queria aproveitar aquele ambiente tranquilo da ilha e fazer pequenas coisas: ler, desenhar, beber uma Beer Lao e escrever para o blogue.

O Rafael voltou a sair com a bicicleta e pedalou até outra ilha, onde visitou umas cascatas. Fiquei arrependida de não ter ido com ele, quando vi as fotos. Precisávamos de mais tempo na ilha. Mas o tempo... o tempo...

- Vi um terreno incrível com uma casa desabitada. Tenho de saber o preço. Ainda nos mudamos para o Laos! – Estava entusiasmado.

Pegámos nas bicicletas e lá fomos nós, sonhar um pouco. O terreno é mesmo fantástico e tem um óptimo acesso ao rio. Fomos dar um mergulho e decorámos o espaço com os olhos. Um dia quem sabe…

Fim da boa vida. Voltámos a colocar as meninas no barco e metemo-nos à estrada. Foram 8 dias a pedalar sem descanso! 100 quilómetros, 48, 80, 78, 75, 71, 93, 110 quilómetros… isto dá uma média de 82 quilómetros por dia. Não é muito, mas para mim é! Parámos em sítios incríveis que dava vontade de ficar mais que uma noite mas o tempo… o tempo… Ficámos em sítios que dizíamos “Era capaz de morar aqui por uns tempos”! Estávamos a gostar do Laos mas o tempo… o tempo… As casas continuavam com pernas, mas bem mais bonitas que no Camboja. As pequenas aldeias atraem-me/atraem-nos!

Parámos em Champasak e visitámos as ruínas de um antigo templo hindu que foi transformado em templo budista. Estas ruínas são bem mais antigas que Angkor Wat mas se as deixarmos para depois, não impressiona tanto. A vista que se tem do topo, é incrível, mas as ruínas em si… São mais umas ruínas, mas são elas que chamam o turismo. Ora nós preferimos o passeio de bicicleta que nos levou até lá. Foram 8 quilómetros a cumprimentar as pessoas, a admirar as pequenas casas, mas a desiludir-nos com a forte aparecimento de casas em cimento e sem pernas… O país está a desenvolver e quer à força, ganhar semelhanças com o ocidente. Nós é que queremos que se mantenha sempre autêntico!



De nova à estrada e fizemos um pequeno desvio. Não foi cortar caminho, nisso já não caiu mais! Foi mesmo um desvio para ver cascatas. Ao que parece, é um trajecto obrigatório e bem conhecido. Parámos nas primeiras cascatas e fomos ver a água a cair. Quando vimos as escadas que tínhamos de descer, desistimos da ideia. Já tínhamos pedalado muitos quilómetros e estávamos com as pernas feitas em pedra e as escadas, nestas situações, são as nossas piores inimigas! Tirámos uma fotografia ao longe e fomos de novo para a estrada, procurar um sítio para montar a tenda.

Parámos em Paksong, onde supostamente existem mais cascatas. Já chegámos tarde e a más horas… Estava escuro e não nos foi dada a autorização para entrar, pois há um horário a cumprir. Teríamos que esperar pelo dia seguinte, pagar entrada, pagar o estacionamento das bicicletas e ver o que a natureza tem de bonito. Não temos tempo para esperar… ai o tempo… o tempo… 

Estava escuro e eu detesto pedalar no escuro. Tentei pedir a uma senhora para montar a tenda mas não estava a perceber o sinal que ela me fazia com a cabeça. Mantinha o sorriso e, na minha cabeça, ela estava a dizer sim, mas o Rafael que não queria muito ficar ali, insistia em dizer que aquele sinal queria dizer não. Descobri dias depois que ele estava redondamente enganado!

Estava a pedalar sem vontade e chateada com o Rafael. “Um desvio para ver cascatas, eu que não ligo a isso. Já vi as cascatas de Niagára, já chega! Ai não me ajudaste a pedir para montar a tenda, fui eu que fiz a mímica todas e fomos embora, mesmo tendo a senhora e o marido, dito que sim. Quero ver agora onde vamos dormir. Ver cascatas… puff” o meu pensamento andava a mil e a insultar o meu parceiro.

Continuámos no sobe e desce da estrada e o Rafael disse-me para parar quando viu um possível terreno para acampar. Desta vez, foi ele fazer a mímica. Resultou, montámos a tenda, preparámos o jantar e voltámos a falar. Não podemos ficar muito tempo chateados, nem conseguimos…

Nova paragem para ver outra cascata! Desta vez, conseguimos vê-la. Foi em Tad Lo. Mais um sítio espectacular e melhor que a cascata – que sim, é bonita – é a aldeia em si. Tinha vestido a típica saia do país, o que deixava as senhoras bem contentes. As crianças cumprimentavam com sorrisos, os cães procuravam os nossos mimos, os porcos e as vacas passeavam-se livremente, e as mulheres iam de cesto na mão, tomar o seu banho no rio. As crianças levavam o regador que servia de chuveiro. Gosto de os observar.

O nosso quarto tinha uma pequena varanda. Sabe bem ter uma varanda que não nos obriga a ficar fechados no quarto. Aproveitámos para aperfeiçoar as nossas obras de arte, com garrafas de plástico e aumentar o nosso jardim zoológico. Não podemos mostrar muito, pois perdemos as fotos desta noite… do dia seguinte, e do outro…  

Lemos que em Tad Lo o turismo é em demasia… Não achámos. Achamos mesmo que é um sítio obrigatório a visitar.

Voltámos a olhar para o mapa. E voltámos a ver um corte…

- Eu não corto caminho! Já disse! Prefiro fazer mais quilómetros. – Relembrei.

A estrada estava no mapa e poderíamos cortar 40 quilómetros. Fomos às informações e perguntamos pelo estado da estrada. Foi-nos dito que é possível fazê-la. Não é alcatrão mas está em bom estado e é quase sempre plana. Ok, vamos cortar caminho que não é bem cortar caminho, é apenas escolher outra estrada.

Bela escolha! Pedalámos bem depressa e sem inalar poeira, pelo menos eu, pois comprei uma máscara como os locais usam. O Rafael usava os meus óculos azuis da piscina, para proteger os olhos. Tenho pena de não ter fotos… Estava numa linda figura e o dia foi bom! Pelo menos, diferente! Tirámos fotografias às crianças, fomos convidados para um chá e estávamos mesmo bem-dispostos!

Quando avistámos um rio, foi a festarola! Descemos até ele e fomos para um mergulho. Começámos por molhar os pezinhos. Caminhámos um pouco e sentámo-nos na água.

- Cheira mal ou é impressão minha? – Perguntei.

- Cheira a fossa, não cheira? – Perguntou o Rafael, concordando assim comigo.

Sim, cheirava mesmo muito mal! Cheirava a esgoto! Foi o sinal para nos levantarmos e fugirmos! Mas que cheiro que tínhamos entranhado na pele… Pedalámos depressa, pois devíamos ter uma nuvem de mau cheiro em nosso redor… Chegámos à estrada principal e mal vimos uma mangueira parámos. Não pensámos duas vezes. Estava na hora do banho, ali mesmo, mesmo em frente a todos que passavam! E assim, demos por concluído o dia. Fomos à procura de uma Guest House mas não gostámos dos preços.

- Queres experimentar pedir para acampar num templo budista? – Perguntei, sabendo à partida que não nos seria negado o pedido.

Assim foi. O Rafael pediu e recebeu um sim. Montámos a tenda e cozinhámos. Os monges mais novos – as crianças – olhavam-nos, contentes por estarmos ali. Não tivemos muito contacto com os monges. Eles sorriam, eram simpáticos mas deixavam-nos no nosso cantinho e quando as crianças se aproximavam muito, depressa saiam, ao mando de um mais velho. Foi pena, pois seria interessante podermos ter comunicado mais.

Partimos para um duro dia… duro para mim. As minhas pernas não obedeciam e sentia-me muito cansada. Cansada fisicamente e psicologicamente. Parecia um caracol a arrastar-me lentamente com a casa às costas. Sonhava com comida: queijo, lasanha, puré de batata, seitan no forno, até frango de churrasco tive desejos de trincar, batatas fritas com queijo derretido... Pensava no regresso: “O que é que vou vestir quando chegar? Nem sei onde tenho as coisas… O que sei, é que vamos comer, uma Francesinha vegetariana, no Chico, depois vamos ao Progresso comprar Éclaires, Bolas de Berlim… um café com nata no Gemini, e vou comprar pizzas da maca É para comer em casa do pai do Rafael! Hummm… Já não vejo o Rafael… Mas a bicicleta não evolui ou quê? Parece que estou a pedalar por cima de uma crista de galo! Estou farta deste sobe e desce… aaaaaahhhh!”

Confesso: Estou cansada… Ter a data de regresso já marcada, pesa muito. O tempo que temos não nos permite respirar os sítios onde paramos. Não podemos fazer grandes desvios para ver coisas, e o Rafael não foi na minha conversa quando lhe sugerir apanharmos um transporte, para podermos ter tempo para ver mais coisas e ficar mais tempo nos sítios. Não achou piada à minha ideia e não consegui entender o porquê… Estava a desejar uma boleia! A estrada era uma enorme recta sem nada, mas mesmo nada para ver. Encontrámos vários ciclistas que nos diziam:

- Apanhámos um transporte aqui, porque o caminho era muito mau e cheio de montanhas (…) Arranjámos boleia nesta estrada porque o centro do Laos é uma verdadeira seca…

Não andamos a pedalar como doidos (sou eu que sinto isso, pela pressão do tempo). “Esta é a altura perfeita para terminar uma viagem.” Pensava para comigo, mas depois há o Vietname que vem já a seguir e que quero conhecer. Ok, vou fazer mais um pequeno esforço e continuar caminho.

Em Tkahek, sabíamos que iríamos ficar um dia a descansar. Ainda tínhamos 200 quilómetros pela frente… No dia seguinte, tive um bom dia! As minhas pernas voltaram a ter forças e íamos a um bom ritmo. Conseguimos fazer 93 quilómetros com uma perna às costas! Parámos para almoçar com 70 quilómetros e conhecemos dois belgas que andavam à boleia. Passámos umas horinhas com eles e decidimos fazer mais quilómetros. Tínhamos que aproveitar a nossa boa disposição. Voltámos a parar num templo, onde sabemos que podemos ter um banho e isso sabe sempre bem, mesmo que seja água fria.

Este foi o templo mais estranho… Montámos as coisas mas a tenda não, pois disseram para ficarmos a dormir dentro do templo. Preparámos o jantar, e nisto, uma grande tempestade começou. “Ainda bem que temos abrigo” pensei. Estavam lá duas senhoras que se ocupam da arrumação da cozinha, vêem se precisam de alguma coisa do exterior e coisas assim. Uma delas, aproximou-se e disse-nos:

- Hotel. Go hotel.

Como? Agora que está escuro, que está a chover pedregulhos é que nos dizem isso?

- Não! Eles disseram que podíamos ficar aqui. Estamos aqui há várias horas, não é agora que nos dizem que temos de sair. Não podemos ir a lado nenhum com está chuva. – Queixámo-nos.

Não era muito justo termos de sair naquelas condições… Nem percebemos o problema daquelas senhoras! O certo é que ficámos, e no dia seguinte partimos bem cedinho. 

Mas um dia duro… Não queria fazer cento e tal quilómetros para chegar a Tkahek, preferia ter feito em 2 dias. “Se chegarmos hoje, podemos ficar um dia a mais.” Este meu pensamento ajudou-me a pedalar, mesmo sem vontade. Fui duro, arrastei-me lentamente pela crista de galo mas chegámos… e recebi umas belas massagens às pernas!

O Mekong

Não há que enganar: seguir o Mekong - o grande Mekong - até chegar ao Laos! Deixámos o alcatrão e passámos a pedalar em terra batida, bem perto dos locais e bem perto do rio. As nossas novas camisolas deixaram de ser brancas para ganharem uma cor suja, de terra vermelha. Mas quem é que manda fazer camisolas brancas? Mas mais burro é quem as compra…

O caminho nem sempre era agradável para os nossos rabos, braços, pescoços e costas mas os hellos dos locais, saravam qualquer mal. Isso resultava nos primeiros 300 hellos… A partir daí, apenas o braço cumprimenta, primeiro o direito, depois o esquerdo, depois os hellos, começam a tornar-se insuportáveis! Passámos a fazer uma selecção e para mim, os primeiros que risco da minha lista, são as crianças que gritam como loucas, desesperadamente e repetitivamente, com vozes estridentes! Não há paciência e muitas vezes nem sabemos onde estão… Gritam quando ainda estamos longe e só param quando nos perdem de vista…

Tirando os gritos estridentes, gostamos das crianças do Camboja! A liberdade que têm, o ar selvagem. Têm qualquer coisa de índio e gostamos disso!



No dia em que saímos de Phnom Penh, parámos aos 30 quilómetros para ganharmos energia com um sumo de cana-de-açúcar. Perguntámos o preço (pergunta-se sempre, mesmo sabendo à partida, o valor) e antes de pedir, o Rafael vira-se para mim com cara de aflito e diz-me que não sabe da carteira. Bonito! Revirou os sacos todos e começámos a ficar preocupados, muito preocupados. Nisto, a rapariga dos sumos, apareceu com dois sacos cheios de bomba calórica. Tentei explicar-lhe que não podíamos aceitar, porque não tínhamos dinheiro mas ela insistiu em oferecer-nos as bebidas. Não estávamos à espera deste gesto e confesso que fiquei com um pequeno nó na garganta.

O mistério da carteira perdida continuava a azucrinar-nos a cabeça. Fui procurar melhor - não porque não confiei na busca do Rafael mas… Nunca se sabe - na bolsa da frente e… o que foi que encontrei? Uma carteira! Viva! Estava no sítio onde sempre está. Pagámos e retomámos caminho, bem mais descansados. Compreendo porque é que o Rafael nunca quis seguir carreira de detective!

Com 79 quilómetros, parámos. Tínhamos encontrado o sítio perfeito para acampar. Uma pequena barraquinha, desabitada, mostrou-se disponível para nos receber. Estacionámos as nossas ricas meninas que se encontravam sujinhas de tanto terem brincado na terra, e descemos ao rio, para podermos tirar o falso moreno que tínhamos ganho.

O céu não se mostrava com boa cor e o vento apressava-se para chegar, não sabemos vindo de onde… Nem ele o sabia, pois não se decidia no sentido a tomar.

Ao contrário do vento, nós sabíamos muito bem o que tínhamos de fazer: Sair dali o mais depressa possível e abrigarmo-nos.


Voltámos para a barraquinha e uma senhora que andava na apanha da manga, fez-nos uns gestos que nos pareceram dizer: “não fiquem aí que vem uma grande tempestade. Vão nesta direcção que vão encontrar um sítio para passarem a noite”. Não sabemos se estávamos certos na tradução, mas queria acreditar que sim. Uns 10 metros mais à frente, um senhor esticou o braço e apontou para um pequeno centro de saúde. No seu interior, estava uma mulher que nos fazia sinal para entrarmos. Parecia que estava tudo combinado!

A chuva caia com força e nós estávamos bem contentes com este convite. A senhora preparou o nosso ninho, o Rafael preparou o jantar e eu brincava com o filho de senhora. Gosto de comunicar com crianças dos outros países. Não é preciso grande coisa. Basta imitar uns quantos animais, fazer umas caretas e uns sons estranhos, e não nos cansarmos de correr, levantá-las ao ar e usá-las como plasticina!

Partimos cedinho, com uma fotografia tipo passe, da filha mais velha da senhora. Agradecemos o carinho e colámos carinhosamente a fotografia no nosso caderninho de recordações. O miúdo ficou triste com a nossa partida e com a partida de todo o jardim zoológico que transporto nas cordas vocais. 

De novo à estrada poeirenta, que nos levava por entre pequenas aldeias, onde se notava uma forte comunidade muçulmana. Estes ficavam contentes ao ver a barba forte e abundante do Rafael e ficavam contentes ao verem que sabíamos como responder acertadamente ao cumprimento árabe.

- Muçulmanos? – Perguntavam-nos.

“Não somos, mas passamos uns meses valentes no meio deles.” Podíamos ter dado esta resposta, mas sabíamos, à partida, que de nada serviria… por muito boa que a mímica fosse, eles não chegariam lá. Então, sabendo que para eles é importante ter-se uma religião, respondíamos mesmo que não fosse totalmente verdade:

- Cristãos!

A Arábia Saudita anda a investir no Camboja… Estão a construir uma série de grandes mesquitas vistosas, aos pontapés, assim como grandes escolas, e a convencer as mulheres a cobrirem-se mais, se possível, ficando apenas com os olhinhos à mostra. Muitas estão a obedecer… Esta pequena minoria muçulmana é conhecida como Cham, e são influenciados pelos Islamismo da Malásia. Ainda vemos crianças com os cabelos soltos e livres, e as mulheres, andam com as roupas tradicionais do Camboja, deixando os braços à mostra. É tudo bem mais natural, mais livre, mas o dinheiro anda trabalhar bem por estes lados. Quem nos contou tudo isto, toda esta transformação que está a acontecer a esta minoria, foi o Padre Luca.

Parámos em Trea e andávamos à procura de um terreno perto do Mekong para montar a tenda. Desistimos do rio, quando vimos um portão com uma cruz e lá no fundo, uma igreja. Um rapaz apareceu e cambojano não era de certeza. Era o Luca, um padre italiano que vive há 5 anos no país. Tem a sua pequena comunidade – descendentes dos últimos escravos, daquela zona – e está muito contente com a sua missão.

- Por mim, ficava aqui a vida toda. – Dizia com um sorriso.

Não foi preciso montar a tenda! A casa que construiu para viver, tem um quarto para receber viajantes e quem quiser visitá-lo. Fica contente com a companhia e nós ficámos contentes com a hospitalidade.

No dia seguinte, assistimos à missa. Na igreja, deveria de estar umas 40 pessoas.

- Eles são mais, mas muitos foram para o campo trabalhar. – Explicou-se.

Homens de um lado, mulheres do outro… Os cambojanos assim preferem… Claro que nada percebemos do que foi falado na missa, mas gostámos de sentir o ambiente, de ver os sorrisos das pessoas, contentes por estarmos ali, no meio delas. Findada a missa, partimos com o padre, para Kracheh, embora este fosse numa motorizada.    

- Tenho de dar mais duas missas hoje. Vou substituir o padre equatoriano. Podemo-nos encontrar em Kracheh.

Depois de 85 longos quilómetros - pois pensávamos que seriam bem menos - chegávamos! Encontrámos uma pequena Guest House e no momento que estávamos a procura do telemóvel para entrar em contacto com o nosso novo amigo, o telemóvel toca. Era ele, pronto para nos ir buscar, para jantarmos juntos. E lá fomos nós, os 3 na acelera! Em Roma, sê romano, sempre ouvi isso.

Ficámos um dia a descansar em Kracheh. Não fomos ver os famosos golfinhos, a principal atracção para os turistas, preferimos ficar por terra e descansar as pernas para a próxima dura e poeirenta etapa. Estávamos já perto da fronteira com o Laos, bem perto de dizer adeus ao Camboja. Não escolhemos a estrada principal, pois esta afastava-se muito do Mekong e ouvimos dizer que era uma verdadeira seca pedalar por lá, que o melhor seria mesmo apanhar um autocarro. Olhámos para o mapa e vimos que existia uma pequena estrada sempre ao longo do rio. Claro que sabíamos que seria uma estrada poeirenta, mas já estávamos habituados a esse bónus.


Não estávamos certos do corte para virar mas bastava estar perto do rio para estarmos bem. O mapa não engana. Este caminho era bastante estranho… Estaríamos bem? Havia partes bem queimadas, deixando uma paisagem triste e assustadora. Não queríamos voltar para trás, pois sabíamos que não estávamos mal. O rio continuava ao nosso lado esquerdo mas o caminho passou a ser um trilho que desapareceu quando chegámos à frente de uma casa. “Bonito!”


- Stroeng Treng? – Perguntámos à família que se encontrava ali perdida no meio do nada.
Sorriram e apontaram para outro trilho. Estávamos estranhamente bem… Agradecemos e continuámos caminho. Descemos muito, sendo obrigados a saltar das bicicletas fora. Passámos um rio seco e restava-nos subir. Os miúdos da casa apareceram e ajudaram-nos a empurrar as meninas.

- É muito estranho… As motorizadas não podem passar por aqui… - Comentava o Rafael.

“Pois não…” Pensava, já com o nariz torcido. Voltámos a descer e a passar rios secos, voltámos a ver a floresta a arder e a pedalar por trilhos estranhos, sem certezas. As horas iam passando e a nossa água ia desaparecendo. Já não sabíamos onde estávamos. Há muito que não avistávamos casas com pernas e começava a falar com os meus botões. “Isto, no fim de contas, é cortar caminho e eu tinha dito que nunca, mas nunca mais ia cortar caminho! Mas quem me mandou!!!”

Quando encontrámos casas, perguntámos por água e tivemos que pagar os preços injustos que nos propunham. Nada a fazer… Perguntámos pelo caminho e mandaram-nos cortar à direita para seguirmos pela estrada principal… Mas no mapa dizia que havia um pequeno caminho ao longo do rio… Não dará mesmo? Não sei, nem quero saber! O que sabíamos, era que o dia estava a terminar e boa luz é coisa que não temos…

Fomos meninos bem comportados e seguimos o caminho que nos foi indicado. Areia, caminho duro e desespero! Já bufava e o Rafael já ia longe.

- Nunca mais corto caminho, ouviste? – Gritava.

Já não tínhamos água e a estrada principal ainda estava longe mas mais uma vez o Santo 26, apareceu e transformou um monte de terra num pequeno acampamento com uma grande família. Estávamos salvos. Comprámos água e perguntámos os quilómetros para a estrada. “20 quilómetros?!” Era impossível pedalar com aquela escuridão! Nisto, uma senhora fez sinal para dormirmos ali. Aceitámos, contentes pelo primeiro convite, no sudeste asiático!  
    
Montámos a tenda com assistência e fomos tomar banho, ali mesmo, ao ar livre, com mais duas senhoras. Ainda não tinha a saia que elas usam, que serve de “vestido” para tapar o corpo na hora do banho. Não tendo, não tive outro remédio que me pôr em cuecas e soutien, provocando o riso de algumas mulheres e um sorriso nos olhos de alguns homens. O importante, era receber aquela água benta, pelo corpo, que o Santo 26 nos proporcionou!
Passámos a noite a ver dvd’s pirosos de músicas de baile dos casamentos, com as letras a passarem em rodapé e a comer arroz branco com… arroz branco.

Novo dia e nova estrada. Ficámos contentes com o alcatrão mas a estrada era uma seca das grandes. Preferimos a estrada poeirenta, quando esta nos leva direitinhos aos sítios. Chegámos a Stroeng Treng, com 94 quilómetros… Estávamos na nossa última terra no Camboja. No dia seguinte, estaríamos num novo país!

Esfregámos a roupa, comprámos comida, jantámos fora, bebemos um óptimo café frio que repetimos no dia seguinte. Estávamos rotos e por isso, sabíamos que iríamos dormir como anjinhos!

Novo dia: O dia da despedida! Foi fácil chegar à fronteira. Entregámos os passaportes e:

- 2 dólares cada um. – Dizia o guarda.

“2 dólares o caraças!” Pensava.

- Como? – Perguntei com um falso sorriso. - Desculpe, mas não é a primeira, nem a segunda vez que visitamos o vosso país. (pequena mentira não faz mal a ninguém) Sabemos que não é preciso pagar nada por isso, não vos vamos dar esses 2 dólares, ok?
- Ok. – Resposta correcta.

Pronto, sem problemas. Tarefa fácil sair do Camboja. Agora, só falta entrar no Laos… Como será? Hummmm…

é no que dá cortar à direita


Ahahah é engraçado, não é? “Quanto quilómetros”… Ahahah, os pés na água ahahah e os pés a enterrarem-se na lama a fazer o som de peidinhos, lolada, parecemos monstros a caminhar na água, não parecemos? Pronto já chega! Podem parar com o riso porque não teve piada nenhuma! Nenhuma mesmo!


O caminho não estava marcado no mapa, mas não foi isso que nos fez desistir da ideia. Como diz o Rafael, “Temos de ir com confiança”. Não tivemos sorte, como viram… A nossa confiança desapareceu, assim como o sorriso e a paciência, um para com o outro. Foi um dia muito duro, tanto fisicamente como psicologicamente, mas no meio de todas essas pequenas desgraças, conseguimos ter uns raios de boa sorte! 
Ainda tínhamos massa do Tajiquistão (Estragada? Nem pensámos nessa possibilidade) Massa para o jantar! Já não morreríamos à fome!

- Já não temos fósforos? – Perguntou o Rafael.

- Não temos desde Calcutá!

Lindo! Não tínhamos fósforos, nem isqueiro… Sentia-me fraca, muito fraca… Não conseguia pensar. Estava tudo a correr mal… Fui deitar-me.

O Santo 26 (O Santo dos ciclistas que viajam com a roda número 26) estava atento e ouviu as nossas preces. Mandou o único anjo disponível, para nos salvar. Ele apareceu disfarçado de cambojano em motorizada. Perguntámos se ele tinha isqueiro e… SIM!!! O anjo tinha isqueiro! Acendemos o fogão e o Rafael pôs a água a ferver, enquanto eu vomitada a água que tinha no estômago… O cansaço deixa-me mal disposta e vomitar fez-me bem. Fiquei como nova!

Tentámos comprar o isqueiro ao anjo disfarçado mas este não cedeu ao negócio… Claro que não. Como é que poderia salvar novos ciclistas?

- Não faz mal. Amanhã compraremos um. Já temos jantar, é o que importa. – Concluía o Rafael.

A missão do anjo estava concluída e por isso partiu, deixando-nos a saborear cada pedacinho de massa! Que delícia! Porém, antes que o fogo se extinguisse e não tivéssemos como tê-lo de novo, pusemos a única vela que tínhamos acesa, ao lado…só naquela!

Não passou mais ninguém por aquele caminho! Mais ninguém!!! Tivemos muito sorte, foi o que foi.

Antes de dormir, fizemo-nos umas belas dumas massagens com o óleo que comprámos na Índia e da nossa tenda, dizem os rumores, saíam uns “aaaaaiis” muito estranhos. Estávamos todos partidos e cheios de dores mas no dia seguinte, estávamos como novos, graças a todos os apertões! Psicologicamente, voltar para trás, destruía-nos aos poucos.

E pronto, foi assim. Voltámos para Kompong Thom, pequena cidade que não tínhamos gostado. Ali, tudo é caro. Bem mais caro que em Siem Reap! “Será que as pessoas daqui pagam estes preços?” Muito estranho… Saltámos de restaurante em restaurante, de barraquinha em barraquinha e saíamos chateados com todos eles! “Não é possível” pensávamos muitas vezes “eles estão ao gozar connosco!” Conseguimos negociar com um dos empregados, e conseguimos um arroz com legumes, a um preço razoável mas insisti na quantidade, pois muitas vezes aceitam baixar o preço mas temos de procurar a comida no prato.

- Quero o prato bem cheio! – Disse num tom autoritário, com cara de poucos amigos.

A comida chegou e só o meu prato veio bem recheado. O Rafael foi obrigado a pedir outra dose pois não reclamou… Não expliquei que queria os DOIS pratos bem cheios. Como não expliquei, não percebeu…

Voltámos sempre ao mesmo restaurante, pois era o único que tínhamos conseguido negociar mas quando tentámos pedir um prato diferente, o preço estoirou… Reclamámos e dissemos para nos trazerem o mesmo de sempre, para não nos chatearmos. O senhor da mesa ao lado perguntou o que se passava e nós explicámos, dizendo que estão sempre a roubar-nos por sermos estrangeiros, que não é justo e blá blá blá.

Ficámos à espera do nosso arroz com legumes. O senhor do lado levantou-se, pagou, saiu e entrou num grande jipe com dois guarda-costas. Nós continuávamos à espera… Estava a demorar… Estranhámos… Quando a comida finalmente chegou, os nossos queixos cairam! Uma travessa enorme de arroz, outra travessa enorme com verduras.

- O senhor do lado pagou a conta. – Disse o empregado e virou costas.

Como? Pagou tudo? Não estávamos à espera que nos acontecesse isto. O senhor saiu com estilo, sem dizer que tinha pago. Queríamos agradecer, ou até dizer que não era necessário, pois o problema não está em pagar, mas não nos foi possível. Pagou e foi-se embora, deixando-nos um óptimo jantar, com direito a sobremesa! Estava uma delícia!

 

Gostamos de mercados. Vamos sempre à procura de um. É o único sítio onde podemos comprar fruta e pão a bom preço. É onde podemos ver as moscas pousadas nos peixes secos. Há vendedoras de pijama, que vendem a mercadoria a pessoas também elas de pijama. Aqui é a moda do pijama, um hábito chinês que na China, é agora proibido. Sair à rua, nestes trajes, é a coisa mais normal que pode existir! Não há a dor de cabeça de não saber o que se vai vestir - levanta-se e vai-se à rua, pronto, simples!

Depois de termos ficado um dia a descansar em Kompong Thom, partimos em direcção a Phnom Penh, finalmente! O caminho continuava agradável, com os Hellos vindos de todas as direcções, com as canas-de-açúcar em todas as esquinas, com o vento que teimava em travar as nossas meninas. Estava tudo normal, sem lama, sem desespero. O que não foi normal foi o facto de nos termos divertido a apanhar notas de 100 Riel (que não valem nada) à beira da estrada. Não sabemos o que significa, ou se é normal, pois ninguém nos soube explicar, mas durante uns bons 20 quilómetros, íamos encontrado pedacinhos de papel enrolados, assim como notas. No inicio, não estávamos a apanhar nada pois deixávamos para as crianças que estavam doidas, mas assim que nos afastámos e que não avistávamos as crianças, o divertimento passou a ser nosso! Não olhávamos para a paisagem pois o nosso olhar não descolava do chão! Não ficámos ricos, nem deu para pagar o almoço, mas deu para duas canas-de-açúcar e uma manhã bem divertida.


Demorámos 2 dias a chegar à capital. Não podemos dizer que haja muito trânsito, mas os condutores são burros! Aqui não se fazem perpendiculares, aqui é o salve-se quem puder. Desde a Índia que não tínhamos este problema. Tínhamos de fazer como eles, conduzir como eles mas reclamando com eles. Não percebem o porquê de discutirmos, o porquê de gritarmos quando se enfiam mesmo à nossa frente, quando param mesmo à nossa frente… Não percebem os erros, não conhecem as regras da estrada.

Ficámos em casa de um Warmshower. Ele só chegaria no dia seguinte, pois vinha de Siem Reap, a correr! Demorou 10 dias e os amigos estavam a preparar-lhe uma pequena festa de chegada! Estivemos presentes, e confesso que me emocionei, imaginando-nos a chegar a Portugal… Esta data já não está assim tão longe e confesso que é muito estranho pensar nela.

Não ficámos muito tempo na capital pois o tempo que nos resta, não nos permite muito descanso. Um dos principais objectivos era visitar uma escola que foi transformada em prisão. A famosa – infelizmente – prisão S-21. Não visitámos os campos de morte, pois o que vimos bastou para ficarmos “doentes” com a crueldade do ser humano. Não estamos a falar de uma data longínqua, estamos a falar de 1975! Estamos a falar dos Khmer Rouge que ficaram 3 anos no governo e que encheram o Camboja de sangue e esqueletos. Mais de 2 milhões de mortes, com as torturas mais cruéis que possamos imaginar. Os bebés eram retirados à força às mães e eram atirados com a cabeça contra as árvores para não gastarem balas, porque antes, eram atirados para o ar e fuzilados. Os homens e as mulheres eram torturados até confessarem o crime pelo qual estavam a ser acusados, sem fazerem a mínima ideia do que poderia ser… Houve pessoas que passaram a trabalhar como guardas, para os Khmer Rouge, para não serem mortos e tiveram de ver familiares a serem torturados e fuzilados.

 
Houve 14 corpos que foram encontrados na prisão e houve apenas 7 sobreviventes. Entrávamos de quarto em quarto, de cela em cela e pensávamos “Como é que foi possível?”. Vemos as fotografias das pessoas que por lá passaram, das crianças, dos homens e mulheres, das expressões de medo, de desistência, de inocência… “Como é que foi possível?”. Ver as pinturas de algumas torturas, de como eram mantidos fechados, como dormiam… “Como é que foi possível?”. Como é que é possível um ser humano conseguir torturar um semelhante para prolongar por algum tempo a sua vida, pois muitos dos guardas foram mortos também.


Fica-se doente ao visitar a prisão, ao aprender um pouco mais de história, história recente…
Não visitámos mais nada na capital. Ficámos um dia inteiro ligados à internet, trabalhando, matando saudades da família e amigos, comendo pizzas. Mais uma vez o meu vegetarianismo foi por água abaixo… Nem me dei ao trabalho de tirar os camarões e as delícias do mar da pizza. Há muito que andava a sonhar com esta refeição e ao vê-las em cima da mesa (no jantar da chegada do herói) foi o delírio! O Rafael tirava os camarões e colocava-os em cima da minha fatia e eu deliciava-me com uma pitada de culpa mas… que bom! O meu corpo está a pedir coisas diferentes. Ele fica triste, sem vida, se não variar na alimentação, e por aqui, tem sido difícil ou impossível. No dia seguinte, fomos os dois à pizzaria e pedimos duas vegetarianas que devoramos num piscar de olhos.

Pronto, estávamos prontos para partir. Nada mais tínhamos para fazer na capital e a distância que tínhamos para fazer até Macau, recordava-nos que não nos restava muito tempo. Agora sim, estávamos na recta final, estávamos na direcção para Macau! Já sentimos o sabor do fim da viagem…

Não sejam mãos largas


Depois de muito calor, de muito suarmos, de muitas canas-de-açúcar bebidas, de vermos que as quantidades de arroz frito com legumes são “bem boas” - enchem bem um prato, como nós gostamos - chegámos a Siem Reap, contentes por ser ainda cedo. Fomos à procura da Guesthouse que nos indicaram, mas não com o intuito de ficar - tínhamos encontro marcado com o nosso warmshowers.

Esperámos, esperámos e esperámos… Cheirávamos mal e não podíamos fazer nada em relação a isso. Tínhamos de esperar e pronto… Esperámos. Passadas 4 horas, chegou com mais um casal.

- Desculpem… Combinei com ambos os casais mas não se preocupem, arranjasse sempre forma de dormir! – Desculpou-se.

O outro casal era francês e também eles viajavam lentamente, ganhando calo no rabo…
Já estavam com 6 meses nos pedais e ainda lhes restavam outros 6. Tinham feito 140 quilómetros para chegar a Siem Reap… Coisa normal para eles… Ficaram admirados com os quilómetros que tínhamos, pois eles, com apenas 6 meses, não tinham os mesmos mas estavam no bom caminho.

Os músculos que ela trazia nas pernas, não eram obra desses meses a pedalar. É uma atleta em França. Corre na lama, na areia, na montanha… fazer 140 quilómetros num dia numa bicicleta, é coisa para meninos! Nem precisa de ouvir música para passar o tempo ou para ajudar a alegrar o caminho quando este está a ser monótono. 

Pois nós, gostamos de viajar bem lentamente e ficar nos sítios. Partilhámos a nossa viagem através de fotografias e fiquei com uma enorme vontade de conhecer a América do sul. Há muito que o desejo mas depois da pequena viagem por fotografias… “Vamos, vamos! A pedalar!”. A dureza do caminho apimentava a viagem e dava fotografias incríveis.

Sítio para dormir não foi complicado encontrar. O nosso anfitrião tinha uma casa com uma casa de banho, uma cozinha, e um quarto. Ficámos os 5 no quarto, e os dois casais no chão! Quando há vontade, uma casa nunca é pequena para receber pessoas!

Quem quer visitar os templos de Angkor, quem é, quem é? Estou a sentir muitos dedinhos no ar, muitos olhos a brilhar, muitos sorrisinhos! Um conselho: Vão! Vão e comprem um bilhete de 3 dias! (Paguem em dólares, porque se pagarem na moeda deles, fica mais caro… É o ÚNICO sítio com uma conversão de moeda diferente).

Vão sentir-se umas verdadeiras Tomb Raider, a explorar o espaço e a subir e descer pedregulhos. Vale a pena dizer que esta maravilha é realmente uma maravilha? Vale a pena dizer que vale a pena cada tostão que saiu da carteira? O que é que posso dizer que não saibam? O nascer do sol é qualquer coisa de mágico. Nós que nunca, repito, NUNCA nos levantamos para ver o nascer do sol, demos por nós a acordar às 5 da manhã e a pedalar 10 quilómetros para nos juntarmos às centenas de pessoas que já se encontravam no lugar. Qual sala de cinema qual quê!

 
Sim, Angkor é para ser visitado! Não vou escrever sobre o sítio. Ficamos à espera que nos digam vocês, como foi!

Em Siem Reap, descobrimos (não foi realmente uma descoberta) que é bom estarmos com uma pessoa da terra quando vamos aos restaurantes.

- Dou-lhes o preço para turistas ou não? – Perguntou a empregada ao nosso warmshowers em khmer, a rir-se e com “estragaste-me o negócio” no pensamento.

Claro que pagámos o mesmo que ele, pois ele não autorizou tal aldrabice. No dia seguinte, fomos tomar o pequeno-almoço ao mesmo sítio, pois sabíamos o verdadeiro preço. Pedimos o mesmo (não temos muita escolha) mas o preço do menu era bem diferente…

- Não queremos o menu porque está com os preços para turistas. Não somos turistas. – Dissemos, mas a mensagem, não foi bem entendida.

Ao pagar, sai da boca da empregada, um preço obeso…

- Estivemos cá ontem, sabemos o preço.

Ela riu-se e confirmou. Deu-nos o troco certo mas não ficamos por ali, pois não estávamos contentes…

- E ontem, o prato estava bem servido! Tinha ovo e fruta. Hoje, que estamos sozinhos, estava uma miséria…

Ela deu-nos razão e juntou outra nota ao troco.

Há coisas que não admitimos! Não admitimos que brinquem com a nossa tolerância. Não admitimos que nos digam que somos ricos porque somos brancos… O Rafael teve uma grande conversa com um guarda em Angkor, sobre esse assunto, porque ele atirou-nos à cara:

- Para vocês, isto não é nada, são ricos! - Quando explicámos que pagar em dólares ficava mais barato mas que não tínhamos connosco, por isso teríamos de voltar no dia seguinte.

O Rafael transpirou ao tentar explicar mas aposto que não percebeu! Mas claro que não percebeu! Se uma pessoa viaja, é rica, se viaja de avião, ainda mais rica é! Não vale a pena explicar que viajamos de bicicleta, que dormimos em tendas e cozinhamos, porque ele não ia perceber. Continuava com o seu sorriso nervoso e a dizer OK, OK.

Chateiam-nos com esses pensamentos mas também ficámos chateados com duas atitudes de turistas, que presenciamos. Ficámos doentes e estamos arrependidos de não termos aberto a boca.

Estávamos a almoçar em Ankgor, e numa mesa perto da nossa, estava um casal com os seus 40 e muitos. Havia uma criança a tentar vender-lhes recordações. A criança insistia e o casal não queria nada. A criança insistia e insistia. Ela sabe o que tem de fazer, sabe como funciona o dito turista.

- Se te der 1 dólar, vais embora? – Perguntou o senhor à criança que gesticulou afirmativamente.

Mas como é que é possível? Podem estar a pensar, mas 1 dólar não é nada… É sim! É!!! E é por causa desses dólares que os pais continuam a empurrar os filhos para as pernas dos turistas, por ser mais fácil terem pena, mas esquece-se o turista que se continuar a “alimentar” este acto, a criança nunca irá para a escola, já que os pais têm mais lucro com ele na rua e vai começar a ver todo o turista de igual forma – em forma de dólar, o que também é errado, pois um turista suíço com 60 anos na reforma, tem muito, mas muito mais dinheiro do que um estudante espanhol. Na nossa cabeça, faz todo o sentido, não na deles.

- Olha que criança tão linda. Oh que riquinha, toma lá um dólar.

Outra cena terrorífica foi ver um grupo de turistas coreanos, que estavam a ser devorados por crianças, um homem a abrir a carteira e a oferecer notas de 1 dólar a cada criança, que desapareciam com um grande sorriso de vitória.

O mundo está doido ou quê? “Nos outros países, eles devem ter dólareira, nós temos bananeiras, mas deve ser bem mais melhor bom ter dólareiras!” Deve ser o pensamento dos miúdos daqui.

Reclamamos muito, mas temos de reclamar para perceberem que há diferentes tipos de turistas. Por causas desses turistas inconscientes é que viajar ser torna cansativo, para viajantes como nós que todos os dias apontamos o dinheiro que gastamos, fazemos a média ao fim do mês, a média por país… Não pensamos em euros, pensamos na moeda do país. Se uma garrafa de água de meio litro custa 500 Riel, porque é que eles pedem 1000? É apenas mais 10 cêntimos mas como disse, não pensamos em Euros, pensamos que é o dobro! É muito! Com 1000 Riel, compramos duas! Não queiram imaginar as vezes que lutámos por causa de água, que para nós é das coisas mais importantes e que bebemos litros e litros por dia! Ah… Faz falta um filtro de água. 

Por favor! Não sejam mãos largas nas vossas férias. Não é assim que os ajudamos a enriquecer. Se fizermos todos o mesmo, aos poucos eles vão perceber que o turista não é burro.

Saímos de Siem Reap no mesmo dia que os franceses, mas fomos em diferentes direcções. Nós continuávamos para sul, em direcção a Phnom Phen - a capital. Pedalámos com muito calor, para não variar muito e continuávamos a ter o vento de frente. Desde que entrámos no Camboja, tem sido a mesma conversa: o vento chateado connosco, e não fazemos a mínima ideia do porquê! Juro que nada fizemos! Mas ele insistia na discussão.

Nesse dia, não encontrámos nada para almoçar. Não é fácil por aqui… Na Tailândia era bem mais fácil e percebiam-nos bem melhor. Aqui, são um pouco chineses, não são bons em mímica…

Vimos à entrada de uma casa uma senhora a cozinhar uma coisa estranha… Eles perceberam que não comíamos carne nem peixe, e nós conseguimos perceber que aquelas bolinhas eram feitas de arroz, e o molho, de alho.


Agradou-nos essa pequena descoberta e agradou-nos a pergunta que o senhor mais velho nos fez. “Claro que queremos um banho!” O senhor foi com o Rafael e abriu-lhe a torneira. Foi buscar o champô mas já era de mais… O que queríamos não era cheirar bem, mas sim, refrescar-nos! Claro que fui para a fila e voltei para o meu pratinho de comida, toda encharcada! Que bem que soube!

Adeus, adeus e já estávamos a fazer má cara com a teimosia do vento. No sentido contrário, íamos conhecendo vários cicloturistas. Todos eles reformados! (É preciso chegar a reformado para termos o vento pelas costas? Posso dizer que é injusto? Posso queixar-me?) Voltamos a encontrar um alemão que conhecemos no Paquistão. “O mundo é mesmo pequeno”.

 
O caminho continuava bonito, com as casa em madeira, com as crianças e adultos a gritarem Hello, com o Rafael a somar mais furos…

 
Quando chegámos a Kampong Thum, detestámos! Não tem nada para ver e os preços são ridiculamente caros! Mais caro que em Siem Reap que é super hiper turístico. Não entendo porque é que nesta cidade sem nada, os preços são de fugir! Sim, fugimos! No dia seguinte fugimos para não ganharmos cabelos brancos nem rugas de tanto franzir as sobrancelhas.
Partimos para o nosso pior dia… “Olha para o casal francês…cortaram caminho. Podemos fazer o mesmo e passar para o outro lado do lago!” Partimos, procurando apimentar a nossa viagem, colori-la, procurando fotografias mais animadas… Partimos com pouca água, “encontramos pelo caminho” Partimos com pouca comida, “encontramos pelo caminho, há sempre barraquinhas.”. Partimos para o pior dia da viagem! Ainda me dói falar nele… Ainda me dói pensar nele… Fica para um próximo post… Pedimos desculpas mas não estamos preparados.

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