é no que dá cortar à direita


Ahahah é engraçado, não é? “Quanto quilómetros”… Ahahah, os pés na água ahahah e os pés a enterrarem-se na lama a fazer o som de peidinhos, lolada, parecemos monstros a caminhar na água, não parecemos? Pronto já chega! Podem parar com o riso porque não teve piada nenhuma! Nenhuma mesmo!


O caminho não estava marcado no mapa, mas não foi isso que nos fez desistir da ideia. Como diz o Rafael, “Temos de ir com confiança”. Não tivemos sorte, como viram… A nossa confiança desapareceu, assim como o sorriso e a paciência, um para com o outro. Foi um dia muito duro, tanto fisicamente como psicologicamente, mas no meio de todas essas pequenas desgraças, conseguimos ter uns raios de boa sorte! 
Ainda tínhamos massa do Tajiquistão (Estragada? Nem pensámos nessa possibilidade) Massa para o jantar! Já não morreríamos à fome!

- Já não temos fósforos? – Perguntou o Rafael.

- Não temos desde Calcutá!

Lindo! Não tínhamos fósforos, nem isqueiro… Sentia-me fraca, muito fraca… Não conseguia pensar. Estava tudo a correr mal… Fui deitar-me.

O Santo 26 (O Santo dos ciclistas que viajam com a roda número 26) estava atento e ouviu as nossas preces. Mandou o único anjo disponível, para nos salvar. Ele apareceu disfarçado de cambojano em motorizada. Perguntámos se ele tinha isqueiro e… SIM!!! O anjo tinha isqueiro! Acendemos o fogão e o Rafael pôs a água a ferver, enquanto eu vomitada a água que tinha no estômago… O cansaço deixa-me mal disposta e vomitar fez-me bem. Fiquei como nova!

Tentámos comprar o isqueiro ao anjo disfarçado mas este não cedeu ao negócio… Claro que não. Como é que poderia salvar novos ciclistas?

- Não faz mal. Amanhã compraremos um. Já temos jantar, é o que importa. – Concluía o Rafael.

A missão do anjo estava concluída e por isso partiu, deixando-nos a saborear cada pedacinho de massa! Que delícia! Porém, antes que o fogo se extinguisse e não tivéssemos como tê-lo de novo, pusemos a única vela que tínhamos acesa, ao lado…só naquela!

Não passou mais ninguém por aquele caminho! Mais ninguém!!! Tivemos muito sorte, foi o que foi.

Antes de dormir, fizemo-nos umas belas dumas massagens com o óleo que comprámos na Índia e da nossa tenda, dizem os rumores, saíam uns “aaaaaiis” muito estranhos. Estávamos todos partidos e cheios de dores mas no dia seguinte, estávamos como novos, graças a todos os apertões! Psicologicamente, voltar para trás, destruía-nos aos poucos.

E pronto, foi assim. Voltámos para Kompong Thom, pequena cidade que não tínhamos gostado. Ali, tudo é caro. Bem mais caro que em Siem Reap! “Será que as pessoas daqui pagam estes preços?” Muito estranho… Saltámos de restaurante em restaurante, de barraquinha em barraquinha e saíamos chateados com todos eles! “Não é possível” pensávamos muitas vezes “eles estão ao gozar connosco!” Conseguimos negociar com um dos empregados, e conseguimos um arroz com legumes, a um preço razoável mas insisti na quantidade, pois muitas vezes aceitam baixar o preço mas temos de procurar a comida no prato.

- Quero o prato bem cheio! – Disse num tom autoritário, com cara de poucos amigos.

A comida chegou e só o meu prato veio bem recheado. O Rafael foi obrigado a pedir outra dose pois não reclamou… Não expliquei que queria os DOIS pratos bem cheios. Como não expliquei, não percebeu…

Voltámos sempre ao mesmo restaurante, pois era o único que tínhamos conseguido negociar mas quando tentámos pedir um prato diferente, o preço estoirou… Reclamámos e dissemos para nos trazerem o mesmo de sempre, para não nos chatearmos. O senhor da mesa ao lado perguntou o que se passava e nós explicámos, dizendo que estão sempre a roubar-nos por sermos estrangeiros, que não é justo e blá blá blá.

Ficámos à espera do nosso arroz com legumes. O senhor do lado levantou-se, pagou, saiu e entrou num grande jipe com dois guarda-costas. Nós continuávamos à espera… Estava a demorar… Estranhámos… Quando a comida finalmente chegou, os nossos queixos cairam! Uma travessa enorme de arroz, outra travessa enorme com verduras.

- O senhor do lado pagou a conta. – Disse o empregado e virou costas.

Como? Pagou tudo? Não estávamos à espera que nos acontecesse isto. O senhor saiu com estilo, sem dizer que tinha pago. Queríamos agradecer, ou até dizer que não era necessário, pois o problema não está em pagar, mas não nos foi possível. Pagou e foi-se embora, deixando-nos um óptimo jantar, com direito a sobremesa! Estava uma delícia!

 

Gostamos de mercados. Vamos sempre à procura de um. É o único sítio onde podemos comprar fruta e pão a bom preço. É onde podemos ver as moscas pousadas nos peixes secos. Há vendedoras de pijama, que vendem a mercadoria a pessoas também elas de pijama. Aqui é a moda do pijama, um hábito chinês que na China, é agora proibido. Sair à rua, nestes trajes, é a coisa mais normal que pode existir! Não há a dor de cabeça de não saber o que se vai vestir - levanta-se e vai-se à rua, pronto, simples!

Depois de termos ficado um dia a descansar em Kompong Thom, partimos em direcção a Phnom Penh, finalmente! O caminho continuava agradável, com os Hellos vindos de todas as direcções, com as canas-de-açúcar em todas as esquinas, com o vento que teimava em travar as nossas meninas. Estava tudo normal, sem lama, sem desespero. O que não foi normal foi o facto de nos termos divertido a apanhar notas de 100 Riel (que não valem nada) à beira da estrada. Não sabemos o que significa, ou se é normal, pois ninguém nos soube explicar, mas durante uns bons 20 quilómetros, íamos encontrado pedacinhos de papel enrolados, assim como notas. No inicio, não estávamos a apanhar nada pois deixávamos para as crianças que estavam doidas, mas assim que nos afastámos e que não avistávamos as crianças, o divertimento passou a ser nosso! Não olhávamos para a paisagem pois o nosso olhar não descolava do chão! Não ficámos ricos, nem deu para pagar o almoço, mas deu para duas canas-de-açúcar e uma manhã bem divertida.


Demorámos 2 dias a chegar à capital. Não podemos dizer que haja muito trânsito, mas os condutores são burros! Aqui não se fazem perpendiculares, aqui é o salve-se quem puder. Desde a Índia que não tínhamos este problema. Tínhamos de fazer como eles, conduzir como eles mas reclamando com eles. Não percebem o porquê de discutirmos, o porquê de gritarmos quando se enfiam mesmo à nossa frente, quando param mesmo à nossa frente… Não percebem os erros, não conhecem as regras da estrada.

Ficámos em casa de um Warmshower. Ele só chegaria no dia seguinte, pois vinha de Siem Reap, a correr! Demorou 10 dias e os amigos estavam a preparar-lhe uma pequena festa de chegada! Estivemos presentes, e confesso que me emocionei, imaginando-nos a chegar a Portugal… Esta data já não está assim tão longe e confesso que é muito estranho pensar nela.

Não ficámos muito tempo na capital pois o tempo que nos resta, não nos permite muito descanso. Um dos principais objectivos era visitar uma escola que foi transformada em prisão. A famosa – infelizmente – prisão S-21. Não visitámos os campos de morte, pois o que vimos bastou para ficarmos “doentes” com a crueldade do ser humano. Não estamos a falar de uma data longínqua, estamos a falar de 1975! Estamos a falar dos Khmer Rouge que ficaram 3 anos no governo e que encheram o Camboja de sangue e esqueletos. Mais de 2 milhões de mortes, com as torturas mais cruéis que possamos imaginar. Os bebés eram retirados à força às mães e eram atirados com a cabeça contra as árvores para não gastarem balas, porque antes, eram atirados para o ar e fuzilados. Os homens e as mulheres eram torturados até confessarem o crime pelo qual estavam a ser acusados, sem fazerem a mínima ideia do que poderia ser… Houve pessoas que passaram a trabalhar como guardas, para os Khmer Rouge, para não serem mortos e tiveram de ver familiares a serem torturados e fuzilados.

 
Houve 14 corpos que foram encontrados na prisão e houve apenas 7 sobreviventes. Entrávamos de quarto em quarto, de cela em cela e pensávamos “Como é que foi possível?”. Vemos as fotografias das pessoas que por lá passaram, das crianças, dos homens e mulheres, das expressões de medo, de desistência, de inocência… “Como é que foi possível?”. Ver as pinturas de algumas torturas, de como eram mantidos fechados, como dormiam… “Como é que foi possível?”. Como é que é possível um ser humano conseguir torturar um semelhante para prolongar por algum tempo a sua vida, pois muitos dos guardas foram mortos também.


Fica-se doente ao visitar a prisão, ao aprender um pouco mais de história, história recente…
Não visitámos mais nada na capital. Ficámos um dia inteiro ligados à internet, trabalhando, matando saudades da família e amigos, comendo pizzas. Mais uma vez o meu vegetarianismo foi por água abaixo… Nem me dei ao trabalho de tirar os camarões e as delícias do mar da pizza. Há muito que andava a sonhar com esta refeição e ao vê-las em cima da mesa (no jantar da chegada do herói) foi o delírio! O Rafael tirava os camarões e colocava-os em cima da minha fatia e eu deliciava-me com uma pitada de culpa mas… que bom! O meu corpo está a pedir coisas diferentes. Ele fica triste, sem vida, se não variar na alimentação, e por aqui, tem sido difícil ou impossível. No dia seguinte, fomos os dois à pizzaria e pedimos duas vegetarianas que devoramos num piscar de olhos.

Pronto, estávamos prontos para partir. Nada mais tínhamos para fazer na capital e a distância que tínhamos para fazer até Macau, recordava-nos que não nos restava muito tempo. Agora sim, estávamos na recta final, estávamos na direcção para Macau! Já sentimos o sabor do fim da viagem…

2 comentários:

Daniela Brito disse...

Pronto... nao teve piada, mas eu diverti-me à grande!!! ahahahahahaha

Anónimo disse...

Amigos, está quase...está quase o momento de vos poder dar aquele abraço por esta e a outra (à Turquia) viagem (à Turquia)que me têm dado a possibilidade de "fazer".
Irei com muito gosto ao vosso encontro, estejam em Ovar, Lisboa, Porto...onde quer que seja.
Bem haja por tudo, vocês são fantásticos!!!
Abreijos
PP

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